Saturday, 30 April 2022

Passar de si para Deus




DOMINGO III DA PÁSCOA


L1: At 5, 27b-32. 40b-41; Sal 29 (30), 2 e 4. 5-6. 11-12a e 13b
L2: Ap 5, 11-14
Ev: Jo 21, 1-19 ou Jo 21, 1-14 

As leituras deste Domingo colocam diante de nós a a vida da Igreja após a experiência do ressuscitado. Salta à vista a transformação dos discípulos, que agora assumem protagonismo, não em virtude de si e das suas capacidades, mas por terem sido revestidos da força do Alto. Se olharmos a contra-luz veremos que as suas vidas estão impregnadas de Jesus Cristo, longe dos homens medrosos que antes podíamos observar. 

Como tal vemos neles a força da Páscoa, da Passagem, de uma vida feitas de vivências de factos e trocas com Jesus, para uma transformação, em que Cristo os sustenta e eles entregam a vida em Seu nome. Aliás, aos apóstolos é concedido o poder, não só de pregar o arrependimento, elemento presente na vida dos profetas, mas também do perdão os pecados, sendo que apenas Deus o pode fazer. 

Esta passagem para um horizonte de missão não é automático e o Evangelho de João, no capítulo 21, isso nos narra. Os apóstolos saem em noite de faina, sem Cristo no barco e voltam a ser tocados pela esterilidade; é apenas à voz do Mestre agora Ressuscitado que as redes se voltam a encher, imagem da vida da Igreja, que apenas pode falar ao coração dos homens quando é habitada por Cristo. 

Para esta missão, assistimos ao diálogo de amor de Cristo com Pedro, onde este último é reconciliado consigo e com Deus. Pedro, apesar da sua fragilidade, ama a Cristo e Cristo confia-lhe o Povo de Deus, para que ele o cuide. É apenas no amor que podemos vislumbrar o mistério de cada resposta humana a Deus, ou seja a cada vocação, cuja semana de oração, agora começamos. 

Pedro é enviado, não como alguém especial por si, mas para cuidar de todos e a sua missão apenas se entende assim, à imagem de Cristo. Também a nossa vocação, segundo o chamamento de Cristo, seja ela qual for, se orienta para amar a Deus e ao próximo. 

Saturday, 23 April 2022

Enviados como sinais do Ressuscitado



DOMINGO II DA PÁSCOA ou da Divina Misericórdia


L1: At 5, 12-16; Sal 117 (118), 2-4. 22-24. 25-27a
L2: Ap 1, 9-11a. 12-13. 17-19
Ev: Jo 20, 19-31

Os textos deste Domingo voltam o nosso olhar para a celebração da Páscoa e para a transformação da vida que dela decorre. No centro deste Mistério está a afirmação do livro do Apocalipse que nos afirmava que aquele que tinha estado morto, agora está vivo pelos séculos dos séculos e que acompanha a sua Igreja.  

No Evangelho deste Domingo que escutámos vemos como a paz é a grande marca da presença do Ressuscitado no meio do Seu Povo. Reparemos como é o Senhor que se aproxima dos discípulos que estão fechados com medo, talvez de uma possível perseguição, e que a experiência de Jesus os arranca dessa situação e os envia, à imagem de Si, para darem testemunho de Cristo. 

Os apóstolos não vão sozinhos. Por um lado, recebem a força do Espírito Santo, que os faz participar do poder de perdoar os pecados, ou seja, tudo aquilo que suscita divisão e afastamento entre Deus e os irmãos. É o Espírito Santo, que soprado sobre os discípulos lhes renova o coração e o olhar para a nova missão - e como precisamos nós que também o nosso coração seja renovado! 

Por outro lado, a sua experiência do Ressuscitado e também o seu envio é feito em comunidade; é por isso que Tomé, que estava longe da comunidade não acredita; é apenas quando este está em comunidade que lhe é possível fazer a experiência do ressuscitado; e assim, a dúvida de Tomé torna-se numa das mais belas profissões de Fé: "Meu Senhor e meu Rei", sinal de quem reconhece que a vida encontra em Cristo toda a origem e todo o sentido. Precisamos uns dos outros para podermos acreditar em Cristo e não dá para viver no estilo do "eu cá tenho a minha fé"!

Uma das formas de entender a presença do Ressuscitado no meio de nós é-nos contada no no livro dos Actos dos Apóstolos. Estes relatos da Igreja Nascente mostram-nos que a Comunidade inicial dos cristãos vivia unida nos sentimentos, sinal de uma paz que apenas o ressuscitado traz, algo que a comunidade dos Doze não conseguia viver antes da ressurreição de Cristo. Por outro lado, a própria acção dos Apóstolos, em especial de Pedro, é imagem e equivalente da acção de Jesus, sinal que o Ressuscitado actua por meio dos seus ministros.  

Por fim, sublinho apenas a Misericórdia de Cristo. Ele envia os discípulos para perdoar os pecados,ou seja, tudo aquilo que suscita divisão e afastamento entre Deus e os irmãos, como dizia há pouco. mas também nos constitui a nós como enviados por Ele para darmos testemunho da sua misericórdia aos homens de hoje. Não nos ponhamos de fora desta missão. 

Saturday, 16 April 2022

Ver a Cristo ressuscitado



DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR

L1: At 10, 34a. 37-43; Sal 117 (118), 1-2. 16ab-17. 22-23
L2: Col 3, 1-4 ou 1 Cor 5, 6b-8
Ev: Jo 20, 1-9


Celebramos o Domingo de Páscoa do Senhor, da vitória do amor de Deus sobre a morte e a injustiça. Em Jesus Cristo vemos cumprir-se a realização da profecia de Isaías do Servo de Iavé; Ele que assumiu os nossos pecados e iniquidades, agora faz-nos participar da sua vida como Filhos de Deus. É diante da ressurreição de Cristo que os nossos olhos podem ver o que nunca viram. 
O Evangelho que escutamos hoje refere-se por variadas vezes aos olhares que se cruzam com o sepulcro e que, a certo modo, retratam a nossa forma de ver a Deus, ou seja, a nossa experiência do Mistério de Deus. 
Em primeiro lugar surge Maria Madalena, que vai ao sepulcro, e vê (Blepo), ainda no escuro, a pedra removida; este é um ver de fora, sem tentar compreender o que ali se passou. 
Surgem depois os discípulos, em que Pedro segue o discípulo predilecto, que tinha estado junto à cruz. O ver de Pedro (theoreo), é um ver que reconhece sinais admiráveis e formula o que pode ter acontecido, que se questiona diante do enigma, mas que ainda não entra no Mistério que pede a sua vida. Já o discípulo predilecto vê (idein) os sinais do crucificado e começa a acreditar, ou seja, a entrar na alegria do Senhor que venceu a morte e o mal. 
Mas este relato é um relato que tem por objectivo levar-nos a entrar no mistério de Cristo. É por isso que voltamos a Maria Madalena que na tristeza em que se encontrava, Cristo vem ao seu encontro e a trata pelo nome e a torna como a primeira mulher a anunciar aos apóstolos a boa nova. Fá-lo com a alegria de ter visto com o coração (horao) a presença de Cristo que agora a acompanha dentro de si e a leva a comunicar aos outros o acontecimento sempre novo da ressurreição de Cristo. 
Assim, a experiência do ressuscitado torna-se caminho para aprofundar a nossa experiência de Deus, que já se antecipou a nós e nos faz participar agora da sua vida como Filhos de Deus. Assim a cruz que levamos e com que marcamos a nossa vida é caminho de Cristo que se entregou por mim - e por ti - e que nos conduz à ressurreição. Deixemos a luz de Cristo infundir-se em e iluminar-nos totalmente para podermos celebrar sem medo as bodas do Cordeiro.