Saturday, 28 August 2021

É o coração que se tem de purificar



DOMINGO XXII DO TEMPO COMUM


L 1 Deut 4, 1-2. 6-8; Sal 14 (15), 2-3a. 3cd-4ab. 4c-5
L2 Tg 1, 17-18. 21b-22. 27
Ev Mc 7, 1-8. 14-15. 21-23


Somos neste Domingo convidados a olhar com Jesus para o nosso coração. Hoje ouvimos  os fariseus a contrapor Jesus o facto de alguns dos seus discípulos comerem com as mãos impuras, isto é sem as lavarem e por isso sem cumprirem a tradição dos demais. 

Jesus remete os seus intervenientes para outra lógica: mais do que as mãos, é preciso olhar para o coração; mais do que os preceitos humanos de educação, é preciso para o que se de facto marca a orientação da nossa vida. Com efeito, na sagrada escritura, coração é local de inteligência, onde se decide o sentido da vida, que apenas Deus conhece e santuário da consciência onde Deus fala em intimidade com cada um (Vaticano II, Gaudium et spes, 16). 

O magistério da Igreja ensina que a moralidade dos nossos comportamentos depende primeiramente sempre do que objectivamente é realizado; todavia, a forma como o fazemos e a intenção com que o fazemos determinam inseparavelmente a moralidade e dizem do que queremos atingir; é sobretudo esta última que marca a verdade das relações que contruímos. 

É esta luz que Jesus vem trazer sobre a moralidade das nossas acções, e que nos chama a toda a radicalidade. Não podemos ficar como funcionários que cumprem apenas umas coisas bonitas, exteriores, mais ou menos piedosas da fé; é o que coração que tem de ser transformado por Deus, pois é nele que reside a nossa verdade; assim ouvíamos o Senhor a elencar a lista de coisas que o tornam impuro. Por isso os mandamentos de Deus não podem apenas ser lidos do lado de fora da nossa vida; esta palavra tem de entrar em nós, em todos os aspectos da nossa vida e nos iluminar. Somos chamados a viver como filhos, onde a lógica é a da comunhão, não a do cumprimento de regras.     

Assim, é do que sai de nosso coração para os outros que se compreende o que nos pode ou não deixar impuros. E sabemos que só do coração do Deus podemos ser purificados. Assim o testemunhamos em cada Eucaristia, em que comungamos o Pão de Deus, em que o Senhor nos pode purificar. E é do coração transformado que transborda a justiça, a paz, a castidade, o perdão, a generosidade, a alegria, a humildade e a sabedoria. 

Friday, 20 August 2021

Viver com a vida de Jesus




DOMINGO XXI DO TEMPO COMUM


L 1 Jos 24,1-2a.15-17.18b; Sal 33 (34),2-3.16-17.18-19.20-21.22-23
L2 Ef 5, 21-32
Ev Jo 6, 60-69

A liturgia deste Domingo faz-nos concluir a leitura do discurso do Pão da vida, orientando-se para a profissão de fé de Pedro em Jesus. Como é sabido, todo o IV Evangelho é escrito com o objetivo de levar a humanidade a acreditar em Jesus como Filho de Deus.

Este texto é enquadrado pela pregação de Josué ao Povo, em que desafia o Povo a escolher a que Deus quer servir: se o dos pagãos do deserto, se o dos amorreus, da terra que agora ocupam, se o Deus de Israel. Não sendo demasiado apressado, professar a fé no Deus de Israel significa que se é capaz de ler a história que se viveu e encontrar aí os sinais de que foi Deus quem os guiou, renunciando às imagens esteticamente belas que veriam dos ídolos dos outros povos.

A mesma dinâmica se descobre no Evangelho deste Domingo. Jesus dirige-se agora aos discípulos, àqueles que andavam com Ele e que o seguiam. São estes que agora ficam escandalizados com o anúncio de Jesus dar a comer a sua carne e a beber o seu sangue, e que o abandonam; só ficam os Doze, sendo que pela voz de Pedro, Jesus é apresentado como sentido de Vida e possuídor de Palavras de Vida Eterna.

Acreditar que Jesus se faz alimento para aqueles que nele acreditam é um dos grandes mistérios da nossa fé, sendo sinal do amor do nosso Deus, que tudo faz para que o possamos conhecer e nos guiar nos difíceis caminhos da vida. Jesus leva ao extremo este amor de Deus, que se abaixa, assumindo-se como servo da nossa humanidade, e daqui fazendo-se Pão para nós.

É desta forma de agir de Deus, que nunca deixando de proclamar a verdade, se faz servo para que a humanidade cresça; é para esta lógica de relação que os cristãos são chamados a viver, no serviço mútuo. Esta porém só pode acontecer se no coração dos crentes estiver o fogo do amor de Deus. 

Friday, 13 August 2021

A nova arca da Aliança é Maria!




DOMINGO XX DO TEMPO COMUM

ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA – SOLENIDADE

L 1 Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sal 44 (45), 10. 11. 12. 16
L2 1 Cor 15, 20-27
Ev Lc 1, 39-56


Celebramos neste Domingo a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora ao Céu. Nesta proclamação dogmática acreditamos que a Virgem Maria, no final da sua vida terrestre, participa já plenamente, em corpo e alma, da vida divina. Ela, que foi concebida sem pecado original, é a primeira criatura a participar da vida divina. Assim é imagem da Igreja, ou seja, sinal a que a nossa vida é chamada a participar. 

Maria é a na Igreja vista como a nova "Arca da Aliança". Como a Antiga Arca levava os dez mandamentos que Deus havia dado ao Seu Povo em sinal da libertação do Egipto, Maria é a nova Arca da Aliança, que nos traz Jesus Cristo. O sinal que o livro do Apocalipse descreve, aponta-nos para a Mulher, precedida pelo aparecimento da Arca da Aliança. Sabemos que esta mulher é sinal da Igreja; mas também sabemos, como ensinava Santo Ambrósio e o repete o Concílio Vaticano II, que a Mãe de Deus é a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo (cf. LG 63). Olhar para Maria é descobrir a vida que nos está prometida por Deus. Assim o vemos nesta leitura do livro do Apocalipse, que depois da chegada da mulher, vem o Filho que traz a salvação. 

É importante olharmos para a vida da Virgem Maria e aprofundar o que significa participar da Vida da Igreja. Em Maria descobrimos a experiência da Salvação, Ela que ouvia e acolhia a Palavra de Deus na sua vida. A salvação acontece pela Graça de Deus, quando nos deixamos orientar e vivificar por Deus. 

Em Maria, vemos que este acolhimento não se traduz numa passividade "pietista"; Maria é a mulher que atravessa a montanha, como sinal de Deus, e que por viver em Deus, onde chega se pode fazer a experiência da salvação; esta dimensão missionária, que pode levar auxílio material, leva e gera alegria. 

Maria é ainda a mulher que lê a história de maneira distinta do dos ganhos ou perdas humanos. Maria lê a história a partir do olhar de Deus: nesta leitura, humildade e mansidão, misericórdia de Deus e alegria são realidades indissociáveis e que se implicam mutuamente. 

Olhar a Virgem Maria é contempla-la como mulher da Graça, descentrada de si por amor de Deus; transfigurada por Deus, hoje Ela olha por nós como Mãe, que nos assiste e auxilia como é próprio de quem é sinal de Deus. 

  


Thursday, 5 August 2021

Eucaristia: Entrega-te com Jesus




DOMINGO XIX DO TEMPO COMUM


L 1 1 Reis 19, 4-8; Sal 33 (34), 2-3. 4-5. 6-7. 8-9
L2 Ef 4, 30 – 5, 2
Ev Jo 6, 41-51 

Voltamos a olhar para o texto do pão da vida no IV na sequência dos domingos passados. Iniciando na multiplicação dos pães, Jesus vai chamando a multidão para reconhecer que o alimento recebido por Jesus é sinal do Pai. 

Este texto evangélico é enquadrado pelo relato da caminhada de desalento de Elias até ao Horeb para renovar a aliança com Deus, ao constatar a infidelidade geral do Povo. Nesta caminhada Elias experimenta todo o peso da frustração e experimenta como é sustentado por Deus que o alimenta e o fortalece na caminhada. 

Jesus apresenta-se como o Novo Messias diante dos seus interlocutores, a quem chama a acreditar nele, os quais passam agora a ser identificados como judeus. Na tradição do Antigo Testamento o Novo Messias deveria renovar os milagres de Moisés e por isso trazer um permanente maná. Mas estes permanecem presos em concepções passadas, mesmoq quando Jesus se coloca como o cumpridor das promessas do Antigo Testamento, trazendo um novo Pão do Céu: é Ele mesmo que agora se dá em alimento, qual dá a vida eterna, isto é, a vida junto do Pai, de quem Ele é o único mediador. 

Cumpre-se em Jesus, pela Eucaristia, o levar ao extremo do amor de Deus, que se abaixa por nós para nos elevar ao Pai. Com Ele somos convidados a entregar cada momento do nosso dia, em cada ocupação. Pela Eucaristia, a nossa vida encontra sempre a unidade que Cristo traz à nossa vida, onde se podem incluir os nossos sucessos e alegrias, mas também cansaços e até injustiças sofridas. 

Pela Eucaristia podemos viver como São Paulo apelava aos Efésios: a recusar toda a maldade, a ser bondosos, compassivos, a perdoar e a nos entregarmos pelos outros. É este desejo de unidade na nossa vida e nossas comunidades humanas e eclesiais que os nossos corações - e que as pessoas do nosso tempo - tanto anseiam; o caminho para esta é a vida de Deus presente de forma tão sublime e condensada no pão consagrado.