Friday, 30 July 2021

A Eucaristia é insubstituível



DOMINGO XVIII DO TEMPO COMUM


L 1 Ex 16, 2-4. 12-15; Sal 77 (78), 3 e 4bc. 23-24, 25 e 54
L2 Ef 4, 17. 20-24
Ev Jo 6, 24-35 

As leituras deste domingo continuam a narrativa do Evangelho segundo São João do discurso do pão da vida. No centro deste Mistério está Jesus Cristo, o verdadeiro pão do céu que se faz nosso alimento. 

A primeira leitura relata uma das provações e dificuldades do Povo Hebreu após ter sido libertado do cativeiro do Egipto. Nesta caminhada o Povo sente a fome e Deus providencia o pão do Céu, que o sustenta na caminhada até à terra prometida. Como é bela a alegoria que daqui brota ao ver a Eucaristia como o Pão que nos alimenta até à terra prometida. 

O Evangelho coloca a multidão à procura de Jesus, depois de ter comido dos pães multiplicados. Mas Cristo é duro com eles, por estes o procurarem apenas pelo alimento "que açambarcaram" sem consciência da origem deste. Assim os exorta a entrar no horizonte da fé, a ver mais além que as aparências mostram e a entrar na linguagem dos sinais que falam da partilha, da oração, da vida entregue e fecunda. Mas a multidão resiste a reconhecer Cristo como o enviado do Pai, querendo ficar presa na memória do maná e sem ver o novo pão do céu. 

Estas leituras são para nós hoje um chamamento a vivermos a Eucaristia como o alimento que o Pai nos dá. No nosso mundo apressado, das contas rápidas, facilmente podemos ficar cegos a este grande sinal que Deus nos dá para o ver apenas como mais um acto religioso. A Eucaristia é o nosso alimento, embora tão aparentemente simples. O ateu Celso, romano no século II, afirmava que os cristãos estavam doidos por pensarem que Deus se poderia fazer presente numa espécie de pão. 

A fé na eucaristia é central para nós cristãos. Cada celebração é o voltar a tornar presente a morte e ressurreição de Jesus Cristo; por isso não se trata de umas leituras da Palavra mais uma consagração, como por vezes se entende. Entendamos bem: o Corpo diz respeito à Vida de Cristo que se torna presente no Pão; o Vinho é símbolo do sangue de Cristo, derramado de forma violenta. Quando comungamos deste pão, alimentamos a nossa vida, porque por este pão somos transformados pela graça em imagens mais próximas do filho de Deus. É o próprio Senhor Jesus que nos alimenta na nossa fome de amor, de verdade e de justiça, porque nos faz entrar na sua intimidade. 

A Eucaristia é insubstituível. Em cada celebração somos chamados a uma participação activa, que não significa fazer muitas coisas, mas muito mais querer entregar a sua vida com Cristo. Se nas várias formas de piedade, alimentamos a nossa vida espiritual, na Eucaristia é Deus quem tem absoluta primazia de acção, pois é actualização do mistério da Cruz. Aqui somos convidados à adoração, que mais do que admiração, e é por excelência acto de amor e aceitação confiante.

Saturday, 24 July 2021

Um só pão!




DOMINGO XVII DO TEMPO COMUM


L 1 2 Re 4, 42-44; Sal 144 (145), 10-11. 15-16. 17-18
L2 Ef 4, 1-6
Ev Jo 6, 1-15

O Evangelho deste Domingo faz-nos entrar no episódio da multiplicação dos pães, enquadrado pela indicação do profeta Elias: «Comerão e ainda há-de sobrar». O alimento na nossa vida é o modo pelo qual nos sustentamos, que nos torna mais claro que cada um por si não pode subsistir; necessitamos de receber e essa é um dos sinais mais evidentes da nossa condição. Esta é também oportunidade para descobrir que a nossa vida depende da fonte e que na raiz está Deus. Por isso, o alimento, mais do que apenas uma questão corporal, é ocasião de nos aproximarmos de Deus e é meio para podermos crescer na comunhão com os demais com quem partilhamos (ou escolhemos partilhar) a mesa. 

No Evangelho vemos Jesus na Transjordânia, terra de gentios, onde vemos acontecer o milagre da multiplicação dos pães. Jesus testa os discípulos, perguntando-lhes "onde" se poderia comprar o pão para dar de comer aquela gente toda. No meio das contas que fazem, André, apresenta um menino com "cinco pães de cevada e dois peixes", pouco para tanta gente. Mas é deste pequeno dom, que se partilha que Jesus pode alimentar a multidão imensa. Aqui está a intimidade da vida com Deus: a partilha de si e dom de si pelos outros, que Deus faz crescer. 

É pertinente que Jesus faça esta milagre na Transjordânia, reunindo à volta de si povos que comem o pão que se multiplica e se come até ficar saciado. Neste episódio Jesus reúne para se alimentar Povos diferentes, quando os judeus mais ortodoxos evitam partilhar a mesa. Assim, Jesus faz de gentios e judeus um só Povo chamado à comunhão (cf. Ef 2, 14). Assim a Eucaristia nos leva a fazer a experiência de ser alimentado por Cristo, que nos sacia, mas também nos torna irmãos dos que celebram a mesma eucaristia. Assim o expressava a Didaqué, no século I, quando colocava que: « Assim como este pão partido estava disperso pelos montes, e, depois de colhido, se tornou um só, assim se reúna a vossa Igreja dos confins da terra no teu reino. Pois tua é a glória e o poder por Jesus Cristo, pelos séculos» (Didaquê, 9)


Friday, 16 July 2021

Acorrendo a Jesus

 

 

DOMINGO XVI DO TEMPO COMUM

L 1 Jer 23, 1-6; Sal 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6
L2 Ef 2, 13-18
Ev Mc 6, 30-34

 

Este domingo foca o seu olhar na imagem do bom pastor. Este é um tema que atravessa a Sagrada Escritura, sendo constante a nota de que Deus é Pastor do Seu Povo, o qual escolhe para colocar à frente do rebanho homens com a missão de cuidar do Povo. O drama, conta Jeremias, é que tantas vezes aqueles que tinham a missão de "apascentar o rebanho", ou seja ensinar e levar o Povo a encontrar a felicidade não o fazem e deixam que o Povo se perca. 

A comparação do Povo de Deus a um rebanho é extremamente sugestiva. A ovelha é um animal que facilmente permanece unida a um rebanho; todavia quando se separa desse rebanho facilmente se perde, mesmo na melhor das condições, e facilmente fica alvo de predadores. A sua segurança está no permanecer unida ao rebanho, guiado pelo pastor. Esta situação é uma metáfora da condição humana; quando perde o sentido de Deus, da sua fonte e se deixa guiar por caminhos ilusórios, facilmente se perde e necessita de ser resgatada; por outro lado, é na permanência num grupo que procura a verdade que cada um pode criar o espaço interior para construir firmemente a sua vida. Cada um por si não pode encontrar a salvação.

A semelhança dos responsáveis a pastores não é menos significativa. O pastor é aquele que tem a missão de guiar um rebanho, mas sobretudo criar as condições para este possa florescer. Como tal, o pastor conhece as ovelhas, guia para os melhores locais de alimentação, protege e luta pelo rebanho e ao limite, conta a sagrada Escritura dá a vida pelo rebanho. Atrás dos bons e belos pastores, as ovelhas seguem sempre sem hesitar 

É nesta moldura que vemos a acção de Jesus, que entrega a sua vida pelas multidões, sempre incontáveis e que sempre pedem tanto d'Ele. E o que vale para Jesus, vale para os discípulos, ao ponto de "nem terem tempo para comer". E vemos aqui uma bela profecia da Igreja, que vendo o Mestre a afastar-se, percebe para onde vai e acorre ao local onde Ele agora está. É neste local que Jesus, se compadecendo das multidões, por serem como "ovelhas sem pastor" se demora a ensinar, a distinguir "a direita da esquerda". 

No centro da liturgia está Jesus Cristo: é a Ele que acorrem os discípulos, tudo partilhando e entregando da sua experiência missionária; é a Ele que acorrem as multidões para serem ensinadas. É a Ele que também eu e tu somos chamados a procurar, indiferentemente do Povo a que pertençamos. 


Friday, 9 July 2021

Enviados como Jesus




DOMINGO XV DO TEMPO COMUM


L 1 Amós 7, 12-15; Sal 84 (85), 9ab-10. 11-12. 13-14
L2 Ef 1, 3-14 ou Ef 1, 3-10
Ev Mc 6, 7-13 

Ao longo da Sagrada Escritura sempre se dá a entender que a Palavra de Deus não pode ser acorrentada, a qual é fonte de vida e tudo é criado por esta. É ao serviço da Palavra que são enviados os profetas ao Povo, não apenas para denunciar, mas pela Palavra serem sinais da fidelidade de Deus que ama o Povo, ainda que estes sejam tantas vezes rejeitados pelo Povo. 

Amós é um profeta enviado por Deus ao Povo de Israel numa sociedade desigual, marcada pela exploração e fraude dos mais frágeis, confiante da sua pujança material. Amós é chamado por Deus, "arrancado" da sua vida de agricultor, para ser sinal de contradição entre o Povo. O seu anúncio pertinente vem lembrar que uma sociedade que se esquece de Deus, facilmente esquece a solidariedade e fica a viver para si, para o seu bem-estar e luxos. Contudo a sua mensagem, que prevê a queda desta sociedade, está também revestida de uma profunda esperança na comunhão com Deus. 

O Evangelho retoma a dinâmica do anúncio com notas fundamentais para a vida da Igreja de hoje. Jesus envia os apóstolos dois a dois, que servem de testemunhas da salvação e da condenação em caso de rejeição. É-lhes o poder de expulsar demónios, algo que só Jesus o fazia, para além da missão de pregar e  curar. Devem ir com leveza de meios, próprios para poder caminhar sem que estes pesem no caminho, na simplicidade, mas também como sinais de que a sua missão, não depende da sua eloquência, mas do Espírito Santo que o guia. Mais despojados, a sua vida é sinal mais claro de Jesus Cristo. 

A Igreja tem a missão de continuar este envio de Jesus sem se escusar a nenhum destes caminhos: o combate e denúncia do mal, a pregação e a cura mediante os sacramentos. No coração desta vida está a caridade de Cristo que impele todos aqueles que o Senhor chama. A tentação de querer ver o sucesso da missão pelas próprias forças é uma constante e aprisiona os seus anunciadores. Hoje, como no tempo de Jesus, o grande sucesso do anúncio é a conversão dos corações ao anúncio do amor de Deus e a adesão a Jesus Cristo, morto e ressuscitado e a vitória sobre o mal. E esta só pode acontecer mediante a misericórdia de Deus testemunhada nas nossas vidas e em especial no seus ministros. 

Estes textos têm também um forte carácter vocacional. Lembram-nos que embora todos sejamos chamados a ser curados e acreditar em Jesus Cristo, desde sempre existiram homens chamados por Deus para serem sinais de anúncio e testemunho para todos que Deus quer continuar a realizar maravilhas no coração da humanidade de hoje. O cuidado das vocações, e neste caso as sacerdotais, cujas vidas são chamadas a reproduzir os gestos de cura de Jesus é central na vida da Igreja e necessita da ajuda de todos para que nunca faltem na Igreja homens que dêem, como Cristo, a sua vida pelo Povo de Deus. 

Friday, 2 July 2021

cabeça dura e coração obstinado

 


DOMINGO XIV DO TEMPO COMUM



L 1 Ez 2, 2-5; Sal 122 (123), 1-2a. 2bcd. 3-4
L2 2 Cor 12, 7-10
Ev Mc 6, 1-6

As leituras deste Domingo implicam-nos a compreender a abertura que damos a Deus. 

Deus toma sempre a iniciativa. Ele é a fonte, Ele é salvador e vem ao nosso encontro, mediante a Sua Palavra. Assim ouvimos no livro do profeta Isaías que é enviado ao Povo com a missão de anunciar e ser sinal para este da presença de Deus. O drama está na "cabeça dura e coração obstinado", ou seja uma indiferença à presença de Deus, que julga poder viver bem a vida sem acolher a palavra de Deus ou mudar de vida. É diante desta dificuldade que o profeta é enviado. 

Jesus sente no Evangelho esta mesma dificuldade. Ao se deslocar pela primeira vez à sua terra, encontra um Povo fechado por aquilo que este já acha saber. É esta a verdadeira falta de fé; não acolhem a Palavra, não podem acreditar e a sua vida fica por transformar, fechada no mesmo horizonte de sempre. Neste caso concreto, a indiferença vem do facto de se conhecer já a família antes do início da missão pública de Jesus. 

Uma nota explicativa dos "irmãos de Jesus". O texto grego emprega o "adelfos", que significa "irmãos" e não "anepsios", ou seja "primos"; todavia, nunca o texto se refere aos familiares de Jesus como "filhos de Maria", sendo que no ambiente semita, o termo familiares era de utilização mais ampla que actualmente. Como tal, nada nos permite concluir que Jesus não fosse o filho único de Maria. 

A fé permite reconhecer Jesus como o enviado de Deus, que liberta cada um do peso do pecado que fecha a vida para a abrir à força do amor de Deus e nos enviar como testemunhas da verdade. Ainda que nos envie com toda a nossa fragilidade, como se denota nos textos de São Paulo, que escreve a sua fragilidade, que tanto gostaria de mudar; mas, ontem, tal como hoje, o anúncio do Evangelho é feito com a força de Deus e não apenas com os nossos jeitos ou dons. 

Este texto é particularmente importante nos nossos dias. Mostra-nos que Deus vem sempre ao nosso encontro e nos que nos deseja receptivos à Sua Palavra. A tentação de nos fecharmos nos nossos critérios habituais - mesmo para aqueles que não são de facto cristãos - faz-nos alhear do dom da vida que Deus nos traz, e envelhece a nossa mente, coração, olhos e mãos. Quem confia no Senhor, diz o Salmo 125, 1, «são como o Monte Sião; permanecem para sempre».