Tuesday, 31 December 2024

Ser sinal de paz como Maria




SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – SOLENIDADE

L 1 Nm 6, 22-27; Sl 66 (67), 2-3. 5- 6 e 8
L 2 Gl 4, 4-7
Ev Lc 2, 16-21


Neste dia de Ano Novo, celebramos a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Olhar para a Virgem Maria neste dia é contemplar a disponibilidade daquela que disse "sim" ao amor de Deus, e que, por isso, nos dá acesso a Jesus Cristo. Ela é sinal da graça e meio da bênção de Deus para nós.

A nossa humanidade limitada tem uma necessidade absoluta da bênção de Deus. A bênção de Deus, como ouvimos na primeira leitura, não é apenas uma superstição que procuramos para atrair boa sorte na vida. Este texto bíblico, encontrado entre os registos mais antigos das Sagradas Escrituras, desde o século VI a.C., expressa o anseio do coração humano que deseja que a vida se multiplique. Nestes anseios, vemos a esperança pela proteção, pelo amor, pelo desejo de ser reconhecido pelo outro para não cair na solidão, e pelo dom da paz, entendida não apenas como ausência de violência, mas como uma forma de vida fundamentada no amor dado e recebido.

Jesus Cristo representa para nós a paz de Deus, como Filho de Deus, que vem trazer-nos um sinal de esperança. Por Ele, somos feitos filhos de Deus e somos chamados a deixar que o Seu amor transforme e renove os nossos corações, para vivermos na Sua paz. Esta não é uma paz amorfa, sem vida ou estática. A paz de Deus é sempre uma paz de caminho, como vemos na atitude dos pastores, que partiram, encontraram o Menino e regressaram louvando a Deus, expressando gratidão e louvor por aquilo que ouviram e viram. É importante sermos capazes de gratidão diante da ação de Deus, reconhecendo a bênção que Ele nos concede, mesmo no meio das dificuldades. Para isso, precisamos de nos dispor e não absolutizar as dificuldades. Sem gratidão, sem reconhecer a bondade que existe na vida, corremos o risco de não perceber a bênção nem o valor do próximo.

Neste dia, celebramos também o Dia Mundial da Paz, no início deste Ano Jubilar da Esperança. A esperança é fundamental na nossa vida. Sem ela, não há projeto que se inicie, nem realidade que avance. Acreditar na paz é reconhecer a força da esperança de que a vida pode transformar-se. O Papa Francisco, na mensagem que nos dirige para este dia, fala-nos da necessidade de desarmar o coração para alcançar a paz, algo que se traduz nos pequenos gestos do quotidiano e que a constrói dia após dia, como a capacidade dar um sorriso, um gesto de amizade, um olhar fraterno, uma escuta sincera, um serviço gratuito. São tantas as coisas pequenas que podemos fazer para trazer grandeza à vida.

Na sua mensagem, o Papa apresenta desafios à humanidade. Um deles é a lembrança de que a paz precisa também de justiça, sendo necessário pôr fim às lógicas de exploração. Por isso, exortava os líderes mundiais ao perdão da dívida externa e sugeria que o dinheiro gasto em armamento fosse utilizado para promover a educação nos países pobres e mitigar as alterações climáticas. Outro desafio é mais direto ao nosso dia-a-dia. Francisco apela ao respeito pela dignidade da vida humana, desde a sua conceção até à morte natural, e convida os jovens a cultivarem a esperança, para que também eles estejam disponíveis para o dom da vida. Assim, afirmou: «Com efeito, sem esperança na vida, é difícil que surja no coração dos jovens o desejo de gerar outras vidas. Particularmente neste sentido, gostaria de convidar, uma vez mais, para um gesto concreto que possa favorecer a cultura da vida. Refiro-me à eliminação da pena de morte em todas as nações. Em realidade, esta punição, além de comprometer a inviolabilidade da vida, aniquila toda a esperança humana de perdão e de renovação». Como é importante recordar a importância de parar lógicas de violência e suscitar o perdão para um mundo mais fraterno. 

Que o Senhor Jesus, por intercessão da Virgem Maria, seja sempre para nós sinal de paz. Que a Sua vida de entrega, desarmando os corações do ódio e convidando-nos ao amor fraterno, nos faça caminhar para uma maior comunhão e torne a nossa vida quotidiana num sinal simples, mas belo, da paz que Deus nos quer oferecer.

Saturday, 21 December 2024

Três sim's de vida

 

DOMINGO IV DO ADVENTO


L 1 Miq 5, 1-4a; Sal 79 (80), 2ac e 3b. 15-16. 18-19
L2 Hebr 10, 5-10
Ev Lc 1, 39-45 




 Celebramos este quarto domingo do Advento contemplando três "sim" que surgem no caminho de Deus com a humanidade, abrindo-nos três portas no nosso percurso de fé.

O primeiro "sim" que destacamos é o sim da humildade. O profeta Miqueias apresenta-nos a humildade de Deus, que escolhe não os grandes lugares, como Jerusalém, nem a força como meio para impor a ordem. Deus prefere o pequeno lugar de Belém, tornando-se, na simplicidade, sinal de paz. Este caminho ensina-nos que a humildade não se confunde com miséria, mas antes com a disponibilidade para acolher, para viver com autenticidade quem somos e para partilhar com aqueles que caminham ao nosso lado. Quando trilhamos o caminho da humildade, reconhecemos e aceitamos os lugares que habitamos e, com amor, cuidamos deles, sonhando novos horizontes e novos mundos.

O segundo "sim" que contemplamos é o sim da entrega de Jesus Cristo, que assume no seu corpo a obediência à vontade de Deus. Ele é o grande dom que o Pai nos dá, eliminando a distância entre Deus e a humanidade. A entrega de Jesus por nós reúne-nos hoje e convida-nos a viver com a mesma lógica de entrega. Somos chamados a viver como quem foi salvo por este "sim" de Jesus: uma vida agradecida e santificada. Quando nos entregamos, por amor, àquilo que sabemos ser maior do que nós, a nossa vida ganha um novo horizonte, um sentido que nos envolve e nos atrai para estar com o Senhor.

O terceiro "sim" é o sim da fé de Maria, que acolhe e acredita na mensagem do anjo. Maria acredita na Boa Nova que lhe é anunciada e, por isso, põe-se a caminho, indo ao encontro de Isabel. Maria é aquela que atravessa montes, recordando-nos os passos de todos os que, com dedicação, superam as dificuldades para se tornarem sinais da salvação e da paz de Deus. O "sim" de Maria, humilde e entregue também por nós, torna-se ocasião de alegria, tal como aconteceu para Isabel e João Batista.

Acreditar na força do amor ajuda-nos a superar as dificuldades e as montanhas que parecem intransponíveis, dando-nos coragem para não desistir. Quem acredita no poder do amor e lhe dá o seu "sim" participa da força criadora de Deus e torna-se, onde quer que esteja, um sinal belo para os outros.

Este grande dom não é apenas construído por nós; é-nos dado pela fé no Filho de Deus e faz-nos renascer com Cristo no Natal. A alegria desta fé dispõe-nos a viver como crianças, despertos para as novidades que Deus nos apresenta no dia-a-dia.

Estes três "sim" — o da humildade, o da entrega e o da fé — dão-nos coragem e força. Colocam-nos de coração agradecido diante do mistério do Natal e despertam-nos para aqueles que estão ao nosso lado, a quem podemos ser, como Maria, portadores de alegria, levando Jesus Cristo dentro de nós e o seu amor incondicional. Que as montanhas que enfrentamos ou atravessamos nos ajudem sempre a redescobrir a força do amor de Deus, renovando a simplicidade de viver com o coração elevado para Ele. Que como Maria saibamos dizer sim a todos os chamamentos que Deus nos faz ao longo de cada dia.

Friday, 27 September 2024

Para acolher a verdade de porta aberta





DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM


L 1 Nm 11, 25-29; Sl 18 (19), 8. 10. 12-13. 14
L 2 Tg 5, 1-6
Ev Mc 9, 38-43. 45. 47-48


As leituras deste Domingo mostram-nos como a verdade que Deus nos revela se expande, não conhece fronteiras e é capaz de iluminar todos os corações. Por vezes, esta verdade deixa-nos desconfortáveis e chama-nos a viver de outra maneira.

A primeira leitura descreve como Deus atende ao pedido de Moisés, quando este se vê incapaz de responder às necessidades do Povo e clama a Deus por ajuda. Deus ouve-o e reparte o Seu Espírito de profecia aos setenta anciãos do Povo que estão reunidos com ele, e a mais dois que não estavam presentes, mas que permaneceram fora. Notemos que o Espírito de Deus, o Espírito de profecia, dota aqueles que estão com o Povo da capacidade de anunciar, cuidar e orientar os mais frágeis. Trata-se de uma transformação importante: são setenta e dois, número que representa a totalidade das gentes.

A missão de sermos luz uns para os outros implica uma relação mútua, na partilha da vida e na disposição de abrir a porta a todos os que proclamam a verdade e nos desafiam. O Espírito de Deus não se restringe a paredes fechadas, mas impele-nos a ser cuidadores dos que nos rodeiam, com as nossas palavras e ações.

O Evangelho apresenta-nos como Jesus ajuda os discípulos a superarem a tentação de se centrarem em si mesmos e se verem como um grupo fechado. Eles, que anteriormente não tinham conseguido expulsar um demónio mudo, agora pretendem impedir alguém que, em nome de Jesus, expulsasse um demónio. O curioso é que os impedem porque essa pessoa "não nos segue" e não por "não seguir Jesus", que é o elemento central deste Evangelho.

Neste contexto, quem promove caminhos de verdade e união está sempre com Jesus, reconhecendo-O na Sua autoridade de verdade e vida. O contrário é precisamente o escândalo, expressão que, em grego, designa o bloqueio de uma roda, impedindo-a de funcionar. O risco do escândalo dirige-se, em primeiro lugar, para os mais frágeis, aqueles que devemos cuidar, os mais simples que necessitam de apoio. Mas cada um deve também ter o cuidado de não se bloquear com as suas ações, caminhos e desejos, procurando viver em comunhão com Deus, deixando que o Seu amor ganhe raízes em nós e nos abra à novidade permanente do Espírito.

Como comunidade cristã, o apelo é o mesmo: sair de uma consciência de grupo fechado e procurar caminhos de abertura que facilitem o encontro com Deus para a humanidade. Nem sempre é fácil sintonizar esforços e capacidades, mas o Espírito de Deus mostra-nos e torna-nos capazes de viver a vocação de sermos sal da terra e luz do mundo.

Friday, 2 August 2024

De um pão que enche para um pão de vida

Bernardino Luini, A apanha do maná, 1523




DOMINGO XVIII DO TEMPO COMUM


L 1 Ex 16, 2-4. 12-15; Sl 77 (78), 3 e 4bc. 23-24, 25 e 54
L 2 Ef 4, 17. 20-24
Ev Jo 6, 24-35 

A leitura deste domingo centra-se no pão, como sustento de Deus para o nosso caminho. Assim narra a primeira leitura, na qual o Povo de Deus deixa a terra do Egito e inicia o caminho para a terra prometida. É neste percurso que o Povo experimenta os limites da liberdade e deseja regressar ao conforto e à segurança da escravatura. O desejo do Povo é pelas "panelas de carne" e por "comer até se saciar".

Deus, que guia o Povo, escuta-o e atende-o, mas dá-lhe apenas o pão de cada dia, como sustento para a caminhada. Sabemos hoje que o maná resulta da excreção gelatinosa de uma árvore, que ao secar adquire um aspeto esbranquiçado. Mas mais importante é a consciência do Povo de ser alimentado pela providência de Deus que o escuta.

O evangelho retoma esta consciência de ser alimentado por Deus, no episódio da multiplicação dos pães. E vão à procura de Jesus, como o próprio diz, por causa dos pães que comeram e ficaram saciados.

É neste contexto que Jesus convida o Povo, a multidão neste caso, a passar para uma nova forma de vida: a não se centrar apenas em comer, mas a cuidar de algo distinto. A consciência de que cada vida é sustentada por Deus. A passar do pão maná, que sacia, para o pão da vida, que sustenta. No núcleo desta passagem está a fé, o acreditar no Filho de Deus que dá a vida eterna.

Como tal, cada Eucaristia é um convite, tal como a transformação do pão e do vinho, a transformarmo-nos em novas criaturas, a reconhecer que o essencial é a comunhão e a gratidão vivida como dinamismos plenificadores da existência humana, que nos fazem encarar a vida de um novo modo.

Por isso, cada Eucaristia celebrada de forma ativa, que não significa fazer muitas coisas, associa a nossa vida ao Mistério Pascal de Cristo. Se nas várias formas de piedade alimentamos a nossa vida espiritual, na Eucaristia é Deus quem tem a absoluta primazia de ação, pois é a atualização do mistério da Cruz. Aqui somos convidados à adoração, que mais do que admiração, é por excelência um ato de amor e aceitação confiante. Deixemo-nos conduzir por Cristo para uma nova margem de vida.

Friday, 12 July 2024

Enviados como testemunhas

 

 

http://www.cruzblanca.org/hermanoleon/sem/b/to/15/15.htm


DOMINGO XV DO TEMPO COMUM

L 1 Am 7, 12-15; Sl 84 (85), 9ab-10. 11-12. 13-14
L 2 Ef 1, 3-14 ou Ef 1, 3-10
Ev Mc 6, 7-13

 

A liturgia da Palavra deste domingo faz-nos voltar o nosso olhar para o lugar do anúncio na vida da Igreja. Como facilmente se compreende, anunciar a Palavra de Deus não se reduz apenas ao papaguear de algumas palavras. Muito pelo contrário, o anunciador é sempre enviado por Deus e, por isso, não vai em nome próprio, dirigindo-se à realidade específica daqueles que encontra, muitas vezes para chamar para uma nova forma de vida, mais em comunhão com Deus e construtora da dignidade humana. Por isso, o profeta é tantas vezes uma voz incómoda, mas também de alento e de alegria para os que estão abatidos.

Vemos isto acontecer na vida do profeta Amós. Ele, criador de gado e, por isso, alguém com grande capacidade económica, é chamado e enviado por Deus para anunciar ao povo uma conversão de vida, num tempo de grande assimetria social e indiferença religiosa. É o chamamento de Deus que marca a vida deste profeta e o fortalece para dar a vida ao chamar o povo de novo a uma fidelidade. No entanto, o profeta encontra dificuldades de escuta e acolhimento naqueles a quem se dirige, experimentando a rejeição, fator que mais o envolve para um testemunho mais radical.

O Evangelho reforça esta realidade do anúncio da Palavra de Deus como missão recebida que envolve a vida e, por isso, não se reduz a um fragmento na vida. É sempre numa lógica testemunhal que a vida de fé acontece. Assim, vemos os apóstolos, os enviados, a irem dois a dois, pois só assim o seu testemunho pode ser credível; a irem com poucos meios de segurança, apenas com um bastão, como ocasião para se dedicarem unicamente ao anúncio da Palavra; a confiarem que Deus caminha com eles, na força do Espírito, pois a missão é dele recebida. Os apóstolos não vão assim em nome próprio, levam a marca do próprio Cristo.

Sim, de Cristo. Eles recebem o poder, a autoridade do Senhor Jesus, que vem para anunciar, chamar à conversão, vencer o mal pelo bem e curar. Como o Senhor, também os apóstolos são chamados a apresentar a radicalidade da sua mensagem com clareza. Todavia, notemos bem que a conversão nunca é imposta: exige a liberdade pessoal de adesão para se deixar transformar no amor de Deus. Só assim podemos sonhar em viver em liberdade cristã como filhos adotivos, como apontava São Paulo.

Hoje, como em todos os tempos da Igreja, a missão da Igreja é imparável. Existem sempre realidades, pessoais e comunitárias, necessitadas do anúncio da Palavra de Deus. Hoje, talvez não tenhamos de sacudir o pó das sandálias, sinal de reconhecimento da Palavra que não é aceite, mas talvez devamos encontrar novos meios testemunhais, que expressem a transformação que o Amor de Deus opera nos cristãos. Por fim, hoje, nos novos areópagos da nossa sociedade, devemos tomar consciência, como Igreja, que somos chamados a anunciar, como mandato de Cristo e não apenas sociológico, o amor de Deus pela humanidade, não só aos mais pequenos, mas a todos.


Saturday, 6 July 2024

Dispor-se para escutar e mudar

  


DOMINGO XIV DO TEMPO COMUM



L 1 Ez 2, 2-5; Sal 122 (123), 1-2a. 2bcd. 3-4
L2 2 Cor 12, 7-10
Ev Mc 6, 1-6

A liturgia da Palavra deste Domingo apresenta-nos como Deus nunca desiste do Seu Povo. Ele próprio envia o profeta, o anunciador da Palavra, apesar da resistência do Povo em escutar e, sobretudo, em querer mudar de vida. Desta forma, Ele permanece fiel, valorizando a grande dignidade humana subjacente, não desistindo de nós, mesmo quando persistimos no erro e na indiferença.

Trata-se, por isso, de uma forma de ser de Deus que envia não algo, mas alguém em tudo semelhante, mas a quem foi dada uma autoridade formada pelo alimento da Palavra interiorizada, alguém que, de algum modo, foi tocado por Deus. Notemos, todavia, que o anunciador é frágil, como vemos em São Paulo. Assim, existe uma igualdade entre o anunciador e aqueles a quem ele se dirige, sendo ele mesmo testemunha, mas não infalível, nem um herói. Aquele que anuncia a Palavra permanece sempre frágil, também necessitado de purificação e, sobretudo, de confiança no poder de Deus, pois a missão é de Deus.

Por fim, existe algo que é necessário em todo o processo de evangelização: a Fé. Já nos últimos domingos temos vindo a ouvir Jesus falar da falta de fé dos discípulos. Agora são os da sua pátria, aqueles que o viram crescer, que, no seu preconceito, compreendem a força das palavras, mas não aceitam nem acreditam no mensageiro. Achando que tudo já sabem, nada conseguem saber e, sobretudo, não conseguem mudar de vida.

Mas a missão é imparável. O desejo de Deus de chegar a todos faz Jesus deixar os da sua terra e sair para fora, para ir ao encontro daqueles que nunca ouviram falar do Pai e da vida nova. Assim, a missão apresenta-se como:

  • Dom de Deus;
  • Testemunho da experiência de Deus e confiança na Sua Graça;
  • É necessário ser sustentada no amor de Deus, e o acolhimento da Palavra necessita da fé para a vida mudar;
  • Imparável: o anunciador vive da saída de si e dos seus esquemas.

Assim, a missão pressupõe um coração humilde e simples, para se tornar verdadeiramente viva.


Friday, 28 June 2024

Ficamos para ver os milagres de Jesus?




DOMINGO XIII DO TEMPO COMUM


L 1 Sb 1, 13-15: 2, 23-24; Sl 29 (30), 2 e 4. 5-6. 11-12a e 13b
L 2 2Cor 8, 7. 9. 13-15
Ev Mc 5, 21-43 ou Mc 5, 21-24. 35b-43 

A liturgia da palavra do próximo domingo apresenta-nos Jesus como aquele que renova todas as coisas (cf. Ap. 21, 5). A consciência bíblica da bondade da Criação é um dos elementos mais importantes de toda a Sagrada Escritura, sendo que o mal entra nesta sempre como uma perturbação da ordem existente, por "inveja", ou seja, por não aceitar o bem alheio.

Jesus nunca dá explicações sobre a origem do mal. Assume a nossa humanidade e fragilidade e caminha no meio da multidão, que espera escutar a sua palavra. É desta multidão, onde também nós nos incluímos, que surge o pedido dramático do chefe da sinagoga, cuja filha está em risco de vida. É novamente, tal como ouvíamos na semana passada, um pedido de clamor no meio de uma situação limite, de vida ou de morte. 

A história desta mulher que sofria de um fluxo de sangue, conhecida por hemorrísa, surge como o núcleo explicador de todo o evangelho que escutamos. Ela, que deveria, em virtude da impureza ritual de perder sangue, estar privada de todo o contacto físico, tem a ousadia de quebrar a lei mosaica para tocar em Jesus. Do ponto de vista da lei do Antigo Testamento, Jesus também ficaria em impureza ritual. Mas, a esta limitação, vemos a fé daquela mulher que toca em Jesus e o poder transformador do Mestre que toca a sua fragilidade e motivo de exclusão. Bela parábola da misericórdia divina! 

Notemos também que a reação final desta mulher é o medo e o tremor por ter sido curada, com o convite de Jesus a não temer e a confiar. O centro do Evangelho é precisamente o convite à fé: "Não temas; basta que tenhas fé", diz Jesus ao chefe da sinagoga, diante da notícia da morte da filha e para deixar de estar com Jesus.

O evangelho contrapõe ainda a atitude da hemorrísa com a das pessoas que estavam na casa do chefe da sinagoga, que se riram de Jesus e que, por isso, ficaram privadas de ver o milagre acontecer. Só a fé permite ver acontecer os milagres de Deus no meio das dificuldades que tocamos. Novamente, Jesus manda levantar a menina, voltando esta a integrar a comunidade.

Notemos que, para além do óbvio amor paternal, podemos ler aqui a imagem de uma comunidade que se envolve com os seus membros, que reza por eles, e que nos convida a passar de membros anónimos da multidão para fazer a experiência de Povo de Deus.

Paulo é especialmente veemente nesta consciência comunitária, no apelo que faz à vida partilhada, mediante o exemplo de Cristo que vem para nos enriquecer com a sua pobreza; já cada um é chamado a partilhar os seus dons, sejam eles quais forem, com os demais para benefício dos outros. A fé dispõe-nos a acreditar em Deus, a ousar a fraternidade no meio das dificuldades e a construir comunidades novas e renovadas.

Friday, 21 June 2024

Onde está a tua fé?

 

 

DOMINGO XII DO TEMPO COMUM


L 1 Jb 38, 1. 8-11; Sl 106 (107), 23-24. 25-26. 28-29. 30-31
L 2 2Cor 5, 14-17
Ev Mc 4, 35-41

Celebramos este domingo XII do Tempo Comum com os olhos postos de forma contemplativa na ação de Deus no meio das dificuldades da nossa vida. Assim o ouvimos tanto no Livro de Job, como no relato do Evangelho. A primeira leitura sublinha-nos a revelação de Deus no meio da tempestade a Job, no meio do seu sofrimento. Deus interpela este homem, na sua condição, a não se voltar apenas para a sua dor, a qual era imensa, mas a deixar tocar pela beleza da criação e a reconhecer-se como integrante da Ordem da Criação. Notemos que é no final deste relato que Job faz a experiência de professar a experiência pessoal de Deus. 

É no meio da tormenta que o Evangelho também nos coloca. Jesus chama os discípulos a entrar na barca e a fazer a travessia para a outra margem. Nesta travessia, desenvolve-se o episódio da crise que os discípulos enfrentam diante da tribulação e do perigo de vida. Jesus permanece sereno na popa, ou  seja no comando, mas é despertado pelos gritos dos discípulos que se sentem sozinhos na tribulação. Novamente, a resposta de Jesus revela-o como Senhor da Criação, cuja palavra é criadora e renovadora. A esta ação de Deus, surge a resposta de um temor, de um medo reverencial do poder do Senhor. 

Este texto é fundamental na vida da Igreja, mesmo na atualidade. Em primeiro lugar, a imagem da barca é tradicionalmente a imagem da Igreja, que atravessa os tempos no meio de dificuldades, mas na qual é chamada a guardar o tesouro da fé. Mas a pergunta de Jesus é a pergunta que também nos é dirigida a nós. No meio das dificuldades e contrariedades, onde está a fé que depositamos na ação de Deus? Como é óbvio, não se trata da fé em conteúdos, mas da confiança de que a nossa existência como humanidade e comunidade eclesial permanece sob o olhar de Deus. 

É esta mesma fé que nos faz reconhecer que pertencemos a esta barca e que somos membros do mesmo Corpo de Cristo, chamados a testemunhar o amor de Deus. E é sempre do reconhecimento deste amor, como nos recordava Paulo, que a Igreja se anima para viver. É desta transformação, que gera nova mentalidade, que se forma em nós uma nova criatura que aceita o limite da existência e a missão confiada e vivida com a vida, por saber que foi tocada por Cristo.


 


 

Thursday, 13 June 2024

Como o Reino de Deus, também nós cresçamos!




DOMINGO XI DO TEMPO COMUM


L 1 Ez 17, 22-24; Sl 91 (92), 2-3. 13-14. 15-16
L 2 2Cor 5, 6-10
Ev Mc 4, 26-34 

A liturgia da Palavra do domingo XI coloca-nos a entrar na lógica do Reino de Deus, como espaço de encontro com o Pai. Há algo que marca toda a vida, como dom que vem de Deus. A vida emerge e Deus, na sua bênção, faz crescer. A primeira leitura  expressa esta imagem na imagem do ramo do cedro, que separado por Deus não seca, mas cresce num local alto e se expande para acolher "todas" as aves. Notámos que a promessa do Senhor é clara: "eleva a árvore modesta". 

O caminho do crescimento passa sempre pela lógica da humildade, da capacidade de acolher, a qual é abençoada por Deus. Percebemos isso apenas do ponto de vista humano: só se desenvolve aquele que compreende que ainda não é tudo, mas espera e age. O mesmo se traduz na fé, que aguarda a bênção de Deus. É esta humildade que nos faz entrar na sabedoria das pequenas, mas contínuas decisões, que sempre sustentam sempre as grandes decisões que vamos fazendo. O Reino de Deus, como se depreende das leituras que ouvíamos no evangelho, é para ser vivido no rebuliço dos dias, onde cada um percorre um caminho único. 

Notamos que em Deus tudo cresce e se vai transformando e nada fica estático. É uma lógica de progresso e de amadurecimento, como vemos na descrição da imagem agrícola, da semente que é lançada, cresce e frutifica e se torna alimento para a humanidade. E embora hoje expliquemos o como a semente cresce, a pergunta pelo sentido permanece sempre atual, pois a vida nunca se estagna, mas precisa de se desenvolver. 

Esta é imagem de Cristo, a Palavra feita semente, lançada à terra ao assumir a nossa humanidade, crescendo no anúncio do Reino, e no Seu mistério Pascal torna-se para nós dom de vida Nova. E desta pequena semente, como a de mostarda, somos nós hoje estas aves que encontram abrigo na vida do Senhor, e se alimentam na sua Palavra. 

Mas esta consciência é também profundamente missionária: Vivemos à luz da fé e não da visão clara, e o Bem que recebemos é chamado a se propagar para os outros, tornando-se a Igreja neste grande espaço de acolhimento e crescimento. Não podemos ser Igreja no Reino de Deus sem ter o desejo de querer ser mais. É assim em toda a nossa vida: pessoal, profissional, comunitária. A palavra que recebemos não morra em nós, mas frutifique em bem para os demais, tornando-nos acolhedores da humanidade que procura o Senhor. 

Saturday, 8 June 2024

Na Casa de Jesus




DOMINGO X DO TEMPO COMUM


L 1 Gn 3, 9-15; Sl 129 (130), 1-2. 3-4ab. 4c-6. 7-8
L 2 2Cor 4, 13 – 5, 1
Ev Mc 3, 20-35 

A liturgia deste Domingo coloca diante de nós uma oposição demarcada entre dois polos, o bem e o mal. De facto, o contacto entre estes duas vertentes marcam a nossa existência. Como vemos, o livro do Génesis descreve a origem do mal num mundo criado bom, como a tentativa do homem superar Deus e aqueles que estão ao seu lado. Aspeto importante: a ação do mal afasta a humanidade de Deus ao induzir o medo, assim como gera a rivalidade e desconfiança entre aqueles chamados à comunhão. Na tradição da Igreja, o mal moral é personalizado na figura da serpente. 

Jesus vem para refazer a ligação da humanidade com Deus no dom da sua vida. As "multidões" acorrem a Ele para encontrarem o bem que necessitam para a sua vida. Bem gratuito e dado incondicionalmente. É a caridade em ação, revelando um amor de Deus que supera os esquemas mais mesquinhos, de um Deus que dá sem limites, até ao fim de si mesmo. 

O drama estão naqueles que desconfiam do bem gratuito realizado e dado, acusando-o de mal disfarçado. O mal não é capaz de fazer crescer o bem, pois somente aumenta a divisão. Só sobre a verdade, a caridade e o bem é capaz de crescer a vida vivida. E é isso que Jesus denuncia nos seus interlocutores, que não reconhecem o bem feito gratuitamente e assim deixam-se ficar fechados e sem possibilidade de entrar na vida. Só com humildade é que se entra na lógica de Deus. Caso contrário, peca-se contra o Espírito Santo. Na Tradição da Igreja identificaram-se seis pecados contra o Espírito Santo: 

1. Desesperação da salvação;
2. Presunção da salvação;
3. Contradizer conscientemente a verdade revelada para poder pecar com maior liberdade;
4. Ter inveja das graças que Deus dá a outra pessoa;
5. Obstinar-se no pecado – quem peca por malícia e deseja permanecer no pecado;
6. Impenitência final – é o caso de alguém que não se arrepende do mal praticado.


Todos estas realidades expressam a indisponibilidade para Deus poder transformar e curar a humanidade. 

Tal como os de ontem, também hoje corremos o risco de estar alheados da ação de Deus, fechados em esquemas de nos impedem de reconhecer o bem e de sair de lógicas de mal. Mas também hoje, somos chamados a nos deixarmos renovar e a confiar em Deus, e a procura a pertença à Sua família, daqueles que procuram pôr em prática a Palavra de Deus. De facto, é no rebuliço dos dias que nos é dada . oportunidade de viver, onde tantas vezes temos dificuldades em distinguir o bem do mal, que podemos optar, ainda com tantas fragilidades a estar na casa de Jesus. 


Saturday, 1 June 2024

Chamados a repousar em Deus.




DOMINGO IX DO TEMPO COMUM


L 1 Dt 5, 12-15; Sl 80 (81), 3-4. 5-6ab. 6c-8a. 10-11ab
L 2 2Cor 4, 6-11
Ev Mc 2, 23 – 3, 6


A liturgia da palavra deste domingo convida-nos a olhar para o Sábado da Criação, o dia consagrado ao Senhor. Este é o dia que nasce na tradição judaica como dia de descanso do trabalho, para se recordar e fazer memória da ação de Deus no meio do povo. É o dia em que Deus descansou e abençoou a criação. Por isso, enquanto se valoriza o lugar do trabalho, o dia do Senhor é o dia para reconhecer a fonte da nossa identidade, a qual nasce de Deus e para Ele retorna, sendo a humanidade chamada a repousar em Deus. Ou seja, este dia é dedicado ao cuidado da dignidade humana.

Historicamente, uma das maiores infidelidades do povo judeu era a falta do cumprimento do Shabbat, no seu afã de lucro, algo que os profetas denunciam e que, na narrativa hebraica, levou o povo ao exílio para descontar os sábados em falta (cf. 2 Cr 36, 19-21). É essa procura de fidelidade que leva ao excesso de legalismo dos fariseus e à dureza de coração que vemos acontecer no Evangelho, ao querer privar qualquer ação de bondade que possa parecer trabalho.

Jesus depara-se com este drama legalista e vive com os seus discípulos a procura de uma fidelidade assente numa categoria filial, revelando um Deus que é Pai e que, por isso, serve a humanidade. Muito mais do que o legalismo, está o amor à humanidade. Por isso, Jesus fica indignado com a dureza dos corações e contrapõe os exageros dos fariseus com a própria Escritura, retomando o episódio de David. Portanto, Jesus não faz exceções; ele restaura este preceito para a sua bondade inicial, o do descanso em Deus, em que a bondade e a misericórdia pela humanidade têm sempre o primeiro lugar.

Esta consciência do dia consagrado ao Senhor é, ainda hoje, uma dinâmica fundamental para recordar a nossa humanidade e o lugar de Deus na nossa vida, algo que marca todas as nossas relações. Não somos deuses, mas pessoas sempre com alguma fragilidade, como recorda São Paulo, e nosso coração anseia por descansar em Deus, como afirma Santo Agostinho. Esta consciência do lugar do repouso é também apresentada pelo Papa Francisco, na encíclica Laudato Si', como uma necessidade ecológica, para nos fazer reconhecer o essencial da vida e formar um olhar contemplativo (LS 237). De facto, trata-se de dar espaço para reconhecer a ação de Deus no nosso mundo, tantas vezes agitado. Reparemos como no nosso tempo são tantos os que procuram propostas de descanso fora da vida da Igreja. Por excelência, a celebração da Eucaristia Dominical é ocasião de descobrir este repouso, seja na sua vivência litúrgica, seja no encontro com irmãos. Não nos privemos de repousar em Deus.

 

Wednesday, 29 May 2024

A vida de Cristo que nos é dada




SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO


L 1 Ex 24, 3-8; Sl 115, 12-13. 15 e 16bc. 17-18
L 2 Heb 9, 11-15
Ev Mc 14, 12-16. 22-26

A Igreja celebra a solenidade do Sagrado Corpo e Sangue de Cristo. A eucaristia é a meta e cume da vida da Igreja, lugar para onde tende e de onde emana a comunidade cristã. Celebramos Eucaristia porque nela se celebra a entrega de Jesus Cristo por nós, acontecimento central da nossa forma de vida, da nossa fé, onde emerge a nova aliança de Cristo connosco. 

Na fé, é sempre Deus quem toma a iniciativa da aliança com a humanidade. Vemo-lo suceder no Antigo Testamento. No trecho que nos é dado escutar nesta celebração, Moisés comunica todas as palavras de Deus e convida toda a comunidade - novos e anciãos - a se unirem nos sacrifícios realizados, e a colocar metade do sangue sobre o altar - sinal de Deus - e outra metade sobre o Povo, como sinal de vida que comunga no essencial. Notemos que é o sangue, na cultura semita, é o sinal mais forte da vida. 

A Carta aos Hebreus apresenta todavia que nesta dinâmica de aliança, o sangue dos animais é substituído pelo Sangue de Jesus. Ele é o Cordeiro imolado, vítima entregue para consumar a nossa comunhão com Deus e nos fazer viver da vida eterna. Por isso, o sangue de Jesus, a sua morte e ressurreição, tem o poder de nos fazer reviver, de nos perdoar e voltar à vida. A sua morte assume as nossas mortes para com Ele ressuscitarmos. 

De facto, a Eucaristia torna presente, atualiza, todas as vezes que é celebrada, a morte e ressurreição de Jesus. Não é um mero ritual religioso. É a memória vivida hoje de que o pão e o vinho feitos Corpo e Sangue de Jesus nos continuam a sustentar hoje na nossa vida, como dom de Cristo que nos vivifica. É à volta desta entrega que a Igreja se constitui e nos apela a vivermos em comunidade, marcados e purificados pelo sinal do amor de Deus. 

Também por isso, a Eucaristia percorre [hoje] as nossas ruas, os lugares que costumamos percorrer, de modo a nos sinalizar que os nossos caminhos diários nunca podem estar alheados da vida da fé. Em todos os nossos caminhos pedimos a bênção de Deus e recordamos que o melhor testemunho que podemos dar d'Ele é a caridade no nosso trabalho, na nossa família, no meio dos nossos convívios sociais. 

Por fim, devemos sublinhar que a Eucaristia, mais do que um dever ao qual somos chamados a cumprir como preceito semanal, esta é origem de uma vida que nos renova e faz despertar em nós o amor divino que o nosso coração tanto anseia, algo que São João da Cruz descrevia como a "eterna fonte que está escondida, neste vivo pão a dar-nos vida, embora seja [de] noite". Não nos deixemos fechar ao dom do amor de Deus que nos é dado em cada celebração.  

Saturday, 25 May 2024

Chamados a viver e a anunciar um Deus de comunhão




DOMINGO VIII DO TEMPO COMUM – SANTÍSSIMA TRINDADE


L 1 Dt 4, 32-34. 39-40; Sl 32, 4-5. 6 e 9. 18-19. 20 e 22
L 2 Rm 8, 14-17
Ev Mt 28, 16-20 

Celebramos neste Domingo a solenidade da Santíssima Trindade como revelação central da fé cristã da identidade de Deus. Esta consciência diz-nos do mistério profundo da nossa realidade, na qual vivemos, como mistério de comunhão. É um dado central da nossa fé: Um só Deus, três pessoas distintas, unidas por um amor que tudo abrange e do qual somos chamados a reconhecer como fundamental na nossa vida. 

É este reconhecimento que o livro do Deuteronómio destacava ao apelar ao Povo de Deus para considerar e meditar em todos os benefícios que recebeu de Deus, algo que este livro ainda sublinha que Deus é a origem da identidade da nação. Trata-se por isso de uma questão de memória agradecida, para poder viver feliz no cumprimento da lei de Deus, pois Ele domina sobre o "céu e a terra". 

É este mesmo "céu e terra" que Jesus diz ter poder, exousia, ou seja algo que faz parte da sua identidade. No pós-ressurreição ele volta a reunir, segundo o Evangelho de Mateus, desde o local onde tudo começou e envia os discípulos como discípulos e não como mestres para irem a todas as nações. Notemos que eles são enviados não apenas a uma nação, mas a todas, para algo que indica uma missão sem limites, a batizar e a ensinar a cumprir, sempre acompanhados pelo Senhor. Esta missão é realizada com a presença de Jesus e na força do Espírito Santo. 

É o Espírito que faz reconhecer que somos filhos de Deus, a viver como o Único Filho de Deus. Somos chamados a ser herdeiros e a assumir cada dia a nossa união com Ele, com as mesmas palavras que se ouviam da boca de Jesus: "Abba!"

Esta solenidade é por isso um momento de nos fazer tornar presentes que a missão da Igreja não é nunca em primeiro sinal do esforço nosso. É dom de Deus que nos acompanha na nossa vida e que nos chama a proclamar o amor de Deus por todas as criaturas. Não deixemos nunca de nos resignarmos às dificuldades que possamos sentir. Trata-se de uma forma de vida aquela que anunciamos, ainda que atravessemos dificuldades. 

Friday, 17 May 2024

Renovados pelo Espírito Santo





DOMINGO DE PENTECOSTES


L 1 At 2, 1-11;
Sl 103 (104), 1ab e 24ac. 29bc-30. 31 e 34
L 2 1Cor 12, 3b-7. 12-13 
Ev Jo 20, 19-23 


Celebramos a conclusão do tempo pascal com a Solenidade do Pentecostes. O Dom do Espírito Santo é o cumprimento último da promessa de Deus feita em Jesus Cristo ao tornar possível que cada um possa viver a sua semelhança com a Imagem de Deus. Santo Ireneu assim nos ensinava, quando retomava que a nossa condição de imagem e semelhança de Deus era sinal das duas mãos que Deus usava para nos criar: o Verbo de Deus e o Espírito Santo. A imagem é-nos dada na Criação pelo Verbo de Deus como marca indelével para sempre; já a semelhança só é possível viver no dom do Espírito Santo, que nos purifica e aperfeiçoa para sermos reflexo do amor de Deus.

As leituras de hoje apresentam-nos o Espírito Santo como uma novidade surpreendente, capaz de transformar o medo e o isolamento dos discípulos em coragem e força para a missão. Note-se bem, esta transformação é dom de Deus, que age no coração dos discípulos. No livro dos Atos dos Apóstolos, o Espírito é o dom que os leva a falar novas línguas, tal como ouvíamos no evangelho da semana passada, as quais na sua diversidade não originam confusão de desentendimentos, mas gera uma comum compreensão. É fogo de comunhão e não de divisão; não raras vezes, as nossas comunidades são espaços necessitados de crescer nesta abertura para uma maior compreensão mútua, em que cada um pode louvar a Deus com a sua própria voz e na sua singularidade. 

O Evangelho reforça a consciência da presença do Espírito Santo como dom necessário para a missão, a qual está intimamente ligada ao perdão de Deus. Este perdão é um dom perene que recria a humanidade com um sopro inesgotável. Como tal, os discípulos são enviados para serem agentes do perdão, para recriar a humanidade em comunhão com o Espírito Santo. 

É ainda o Espírito Santo, que ao ser o grande renovador da Igreja, faz emergir a consciência de que pertencemos a um mesmo corpo, do qual pertencem as mais variadas pessoas e condições, mas habitados do desejo de se reconhecerem salvos por Jesus Cristo. É Ele que dá os mais variados dons para a mútua edificação, para cada poder dar o seu contributo neste mundo contribuindo assim para o bem de todos. 

Que o dom do Espírito Santo nos renove, a cada um, no seu coração, as nossas famílias e as nossas comunidades cristãs. 

 

Saturday, 27 April 2024

Igreja: Uma casa de portas abertas ao amor




DOMINGO V DA PÁSCOA


L 1 At 9, 26-31; Sl 21 (22), 26b-27. 28. 30. 31-32
L 2 1Jo 3, 18-24
Ev Jo 15, 1-8 


A liturgia deste Domingo apresenta-nos a imagem da videira como sinal da comunhão com Deus que somos chamados a ter. Por esta comunhão participamos da fonte da vida e somos alimentados. Esta imagem traduz a superação da infidelidade do Povo judeu, como imagem da vinha antiga que Deus havia cultivado e que nunca havida produzido senão agraços. Esta nova videira é enxertada em Jesus Cristo, como a nova e verdadeira vide, da qual somos os sarmentos. É ocasião para termos consciência de que somos membros do corpo de Cristo, e meditarmos na vida, que mesmo sem nos apercebermos, recebemos de Deus, e onde a sua palavra nos purifica e faz gerar em nós mais vida. Por isso, estar unido à videira significa não nos afastarmos dela para não deixar de receber vida. 

A meta é produzir frutos e não agraços, doçura e misericórdia e não amargura nem indiferença. É deixar a nossa ser purificada pelo fogo do amor, em que neste mistério de relação nos vamos tornando luzes e sustento para os outros. E quem vive no amor, já está em algum modo gerado em Deus, o qual se pode traduzir com criatividade sempre inesperada. 

Por isso, este amor é vivido com obras, com entrega de nós mesmos e não apenas com palavras. É vivido com coragem, pois fortalecido na Palavra e vida de Deus. É o que vemos acontecer com Barnabé que insere Paulo na comunidade de Jerusalém, quando a sua fama atemorizava os irmãos na fé pela sua perseguição. Traduz-se por isso em acolhimento, em inclusão para com aqueles que estão mais distantes e tenham receio ou dificuldades em ser aceites. É ter lugar para o diferente, com a consciência do dom que cada um na sua vida é. 

 

Saturday, 20 April 2024

A vocação como resposta ao Bom Pastor

 

DOMINGO IV DA PÁSCOA


L 1 At 4, 8-12; Sal 117 (118), 1 e 8-9. 21-23. 26 e 28cd e 29
L 2 1 Jo 3, 1-2
Ev Jo 10, 11-18

Este domingo, o IV do tempo da Páscoa, é conhecido como o do bom pastor. É também o dia de oração pelas vocações. 

A liturgia deste Domingo acentua de modo especial o dom da vida de Jesus Cristo entregue por nós, como acontecimento singular na história da humanidade. A primeira leitura expressa a vida de Jesus em cumprimento da profecia bíblica da pedra angular: aquele que é rejeitado torna-se essencial para a nova forma de vida. Jesus é a pedra angular, rejeitada, mas que no seu dom nos abre uma nova forma de vida. Também nos indica que nas dificuldades que enfrentamos, Jesus permanece como possibilidade ser a nossa pedra angular, que sustenta a nossa vida.

O amor de Deus, que nos é dado em seu filho, como designa a Primeira Carta de João, é apresentado como um dom perene que nos toca hoje e que nos consagrou como seus filhos.

É este amor, livre e doado, que vemos na figura do bom e belo pastor. É importante sublinhar o que nos diz o profeta Ezequiel, que apresenta Deus como o pastor do Povo, em contraposição àqueles que tendo a missão de cuidar do Povo, não o faziam, mas antes o exploravam. Jesus vem como o bom pastor, que ama e dá a vida pelas suas ovelhas; já aquele que é apenas mercenário foge quando se aproxima o perigo ou a tribulação.

Mas outra dinâmica é ainda importante salientar deste bom pastor: ele conhece as suas ovelhas, ou seja, tem consciência das necessidades daqueles de quem cuida. Mas no caso de Jesus, este conhecimento é descrito à semelhança do conhecimento que o Eterno Pai tem do Filho; assim, o conhecimento que Deus tem de nós tem traços da intimidade familiar.

Este amor é dom puro ao qual nos é dado participar, mas que também nos desafia. A liberdade humana orienta-se para vivermos uns com os outros, no cuidado mútuo e não apenas para agir sem restrições. E este aspeto é fundamental para todos aqueles que exercem a missão de cuidar; e aí todos somos chamados a meditar na forma como cuidamos. Que amor e conhecimento temos daqueles que cuidamos, mediante o poder que nos é dado?

É deste núcleo de amor de Deus que se compreende toda a vocação humana, que fomos rezando durante esta semana. Nas várias formas de vida, toda a vocação cristã se orienta para encontrarmos em Cristo o nosso Pastor, mediante a adesão na fé às suas palavras, aceitando a fidelidade no amor diário. Darmos testemunho da vida que Deus nos dá, é também propagar no mundo uma nova forma de vida, que nos faz olhar para aqueles que mais precisam, seja de bens materiais ou espirituais, e talvez até enfrentar as dificuldades em nome de um amor maior.

Cada pessoa é chamada a realizar a sua vocação, aprendendo a viver como filho de Deus, cuja felicidade maior está no acolhimento da fé e da entrega de vida. Este é o segredo da vocação; só vivemos uma vez - e é para sempre - e em cada dia a nossa existência ganha sentido quando vive do amor e para o amor, para aprender a cuidar e a fazer suscitar mais vida. A grande tentação é a de ficar como mercenário: agarrado ao bem-estar e às seguranças ilusórias de uma paz vazia, sem nunca entrar na lógica do Filho de Deus, alheado da verdadeira vida. Não nos deixemos ficar agarrados ao vazio.


Friday, 12 April 2024

Não basta ser anunciador, é preciso ser testemunha.

  

Cristo no caminho de Emaús

DOMINGO III DA PÁSCOA


L 1 At 3, 13-15. 17-19; Sal 4, 2. 4. 7. 9
L 2 1 Jo 2, 1-5a
Ev Lc 24, 35-48

 

Ouvimos no relato dos Atos dos Apóstolos como Pedro anuncia o mistério pascal de Cristo, sempre como o Justo entregue por nós e nunca como uma atribuição de culpa sem medida aos líderes judaicos. A Igreja apresenta Jesus como aquele que assume os nossos pecados, como tudo aquilo que nos faz viver separados da Ordem. É deste núcleo de amor e de graça que se gera o arrependimento e se pede a conversão. São João apresenta-nos esta mesma realidade, e se nos chama a evitar o pecado, mais nos lembra para confiar na misericórdia divina.

É deste núcleo de surpresa de Deus que olhamos o evangelho deste Domingo. Aqui nos é dado continuar a ouvir a chegada dos discípulos que fizeram o caminho com Jesus rumo a Emaús. Eles mesmos confirmam  como se encontraram com o Senhor e é neste seu testemunho que Jesus se faz presente, e novamente ressoa como em Jesus se concretizam as promessas feitas ao Povo de Deus e que ele havia explicado àqueles dois primeiros discípulos. 

É belo compreender que o anúncio de Jesus, quando toca a nossa vida tem a capacidade de fazer acontecer o Reino de Deus à sua volta. E é assim que os outros discípulos fechados passam da tristeza e do medo para a experiência de Cristo ressuscitado. 

Este evangelho que assinala a vitória do amor de Deus sobre o pecado, que tem a capacidade de fechar a humanidade, para abrir o coração à novidade da graça. E na fórmula dada de pregação e conversão, surge um dado novo: o de se tornarem testemunhas. Não basta ser anunciador, é preciso ser testemunha. 

É sempre impressionante que o Senhor conheça o frágil coração humano e como a sua misericórdia é desbloqueadora do medo que nele aparece: Ele toma a iniciativa e reconstrói a fé dos discípulos e envia-os em missão, como testemunhas. Testemunhas da ressurreição, porque experimentados na misericórdia de Deus. De facto, não basta saber as noções históricas ou teóricas da ressurreição. O Ressuscitado toca a nossa vida, e cada um de nós participa na sua vitória sobre a morte pelo baptismo. 

É neste contexto de vida ressuscitada que a Igreja inica a semana de oração pelas vocações. Cada cristão é uma vocação. E cada vocação é a resposta como cada um deixa a luz de Cristo ressuscitado entrar na sua vida. Por isso, não existem fórmulas feitas; é vida que nasce do encontro com Cristo, e que se traduz numa opção concreta de vida – os leigos, no meio das realidades que tocam a todos; os sacerdotes, como sinal de Cristo que vem para servir; os consagrados, sinal de vidas todas entregues a Deus, realidade para a qual todos somos chamados na vida eterna, e que estes têm missão de nos lembrar. Por isso a vocação não é apenas uma coisa de cada um; é um bem para toda a Igreja e todo o mundo. A vocação cristã é o nosso testemunho de Cristo ressuscitado, onde cada um participa com o dom da sua vida na sinfonia de carismas que constituem a Igreja, como nos recorda o Papa Francisco na mensagem que dirigiu para esta semana. 

Rezemos por todos, especialmente os jovens, mas não só, para que dêem um sim generoso a Cristo. 


Friday, 5 April 2024

Somos cristãos em comunidade

 

 


DOMINGO II DA PÁSCOA ou da Divina Misericórdia


L 1 At 4, 32-35; Sal 117 (118), 2-4. 16ab-18. 22-24
L 2 1 Jo 5, 1-6
Ev Jo 20, 19-31 

 

O Evangelho deste Domingo celebra o oitavo dia da festa da Páscoa, fazendo-nos olhar de modo especial para a presença de Jesus ressuscitado no meio dos discípulos. Jesus toma sempre a dianteira e vem ao encontro dos discípulos, os quais estão fechados com medo dos judeus e de uma possível perseguição. A possibilidade do sofrimento tocar os discípulos surge como uma realidade, tal como havia sucedido com o Mestre. É a resposta comum quando alguém se sente em perigo, o que evidencia ainda mais a novidade da Páscoa de Jesus.

O encontro de Jesus com a Igreja nascente traduz-se numa experiência de grande alegria, quando o vêem vivo, reconhecendo a sua intimidade, nas suas mãos e no seu lado. Experiência fundamental de Cristo que traz a paz. À novidade do Senhor ressuscitado, junta-se um renovado chamamento, uma nova vocação: os discípulos são agregados à missão de Jesus, sendo revestidos do Espírito Santo, tal como Jesus tinha sido no Baptismo, mediante o sopro de vida nova; são enviados com o poder de perdoar os pecados, algo que Jesus também partilha da missão do Pai. Por isso, a missão confiada aos apóstolos reveste-os de Cristo, para poderem dar testemunho de Cristo. Assim, a vida da Igreja é chamada a ser reflexo da vida de Cristo, a ser anunciadora como Cristo do amor e da salvação de Deus. 

O cristianismo é necessariamente comunitário. O Senhor ressuscitado revela-se aos discípulos e são eles que têm a missão de dar testemunho do Senhor. É no acolhimento e no anúncio desta forma de vida, recriada em Deus, no sopro de Cristo, que a Igreja cresce. Assim vemos Tomé; ele não estando presente da primeira vez, não acreditava na presença do Senhor ressuscitado; tão-pouco, Cristo se lhe revelou de forma particular; é no meio dos discípulos, fazendo a experiência em comunidade do Senhor e sendo conhecido o seu coração por Cristo, que Tomé se rende e professa a fé no Senhor. Precisamos tanto que as nossas comunidades cristãs sejam local onde cada um se possa encontrar com Cristo, na verdade que converte e liberta. 

A ressurreição muda o paradigma pessoal do medo para o amor, da indiferença para a fé. A nova comunidade dos apóstolos centra-se na partilha da vida, na caridade e na misericórdia. Ninguém, diz o texto, passava necessidade, pois todos tinham o seu lugar. Não se trata de igualitarismo, mas de cuidado pessoal, algo que é bem distinto; o amor pessoaliza sempre. É o amor recebido do dom do Espírito Santo, que lentamente vai convertendo as vidas e os corações à comunhão de vida. Vemos que a Igreja se constrói no ensino dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e na oração, sinais também que nos tocam a nós, para acolher a Palavra de Deus no nosso hoje, na capacidade de darmos e recebermos o perdão em comunidade, na vivência da Eucaristia e na oração vivida como ritmo pessoal de vida.

Neste dia que celebramos a misericórdia de Deus, reconheçamo-nos nela, como alcançados por Deus e sejamos para os nossos contemporâneos sinais da vida que ela transmite. Ela é expressão de um Deus que nos olha e se compadece da nossa fragilidade, como uma força que nos eleva.



Thursday, 28 March 2024

O Senhor ressuscitou!

  



DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR

L1: At 10, 34a. 37-43; Sal 117 (118), 1-2. 16ab-17. 22-23
L2: Col 3, 1-4 ou 1 Cor 5, 6b-8
Ev: Jo 20, 1-9


Celebramos o Domingo de Páscoa do Senhor, da vitória do amor de Deus sobre a morte e a injustiça. Diz a sequência pascal deste dia: «A morte e a vida travaram um admirável combate: depois de morto, vive e reina o Autor da vida.» O mistério pascal de Cristo constitui para nós a referência central da nossa fé, onde o testemunho do amor de Deus é levado ao extremo. Deus, que cria todas as coisas no Seu Filho, renova-nos na morte e ressurreição de Jesus.  

Abraçar a cruz de Cristo é por isso assumir e confiar que os limites da nossa existência não têm a última palavra, mas dá-nos a experiência de que o Bem é mais forte que o poder das trevas. Pedro explica na casa de Cornélio, como ouvíamos na primeira leitura, que Jesus viveu com a força do Espírito Santo, ou seja, com o seu dinamismo, que o tornou capaz de fazer acontecer o bem. E é desta grande vitória que nós somos testemunhas e que agora anunciamos. Para nós hoje esta vitória alcança-nos pelo Espírito Santo, que é derramado nos nossos corações, para testemunharmos a sua força em nós. 

A ressurreição não é por isso apenas uma reanimação. É uma nova forma de vida, que não nasce de uma vitória sobre a humanidade, mas que fica como uma fonte sempre corrente, da qual nos é dado beber de uma água nova para transformar os sentimentos do nosso coração. Nada em nós em negado, sendo que a vida com Cristo gera uma nova disposição de coração, para Deus e para aqueles que percorrem o nosso dia-a-dia. 

O Evangelho que escutamos hoje referia várias vezes os olhares que se cruzam com o sepulcro, como um convite a aprofundarmos a fé para que esta alcance o nosso coração e a nossa inteligência, e se torne uma experiência de Deus transformadora.

Em primeiro lugar surge Maria Madalena, que vai ao sepulcro, e vê (Blepo), observa, ainda no escuro, a pedra removida; este é um ver de fora, sem tentar compreender o que ali se passou. Surgem depois os discípulos, em que Pedro segue o discípulo predileto, aquele que tinha estado junto à cruz. Este ver de Pedro (theoreo), é um ver de quem teoriza, é um olhar que reconhece sinais admiráveis e formula o que pode ter acontecido, que se questiona diante do enigma – “o que aconteceu?” -, mas que ainda não gera confiança. Já o discípulo predilecto vê (idein), consegue ver os sinais do crucificado na sua identidade e, por isso diz o texto, começa a acreditar, ou seja, começa a entrar na alegria do Senhor, que venceu a morte e o mal. 

Mas este relato é um relato que tem por objetivo entrar no coração do mistério de Cristo. É por isso que o Evangelho de João voltará a Maria Madalena, que posteriormente ao encontro com Cristo, no qual foi tratada pelo seu nome: "Maria!" vai testemunhar com alegria, "Eu vi o Senhor". Todavia, esta é a visão do coração (horao), e por isso anuncia Cristo a partir da luz que a acompanha dentro de si . 

É este anúncio que nasce da boca dos apóstolos e da Tradição da Igreja. Cristo morreu e ressuscitou por nós, para que acreditássemos nele e pudéssemos fazer a experiência de uma renovada forma de vida. É aqui que se enraíza a alegria cristã, como ocasião para entrar e renovar a nossa vida.