Saturday, 30 August 2025

Humildade: Chão de caminho para a vida




DOMINGO XXII DO TEMPO COMUM


L 1 Sir 3, 19-21. 30-31 (gr. 17-18.20.28-29); Sl 67 (68), 4-5ac. 6-7ab. 10-11
L 2 Heb 12, 18-19. 22-24a
Ev Lc 14, 1. 7-14 

A liturgia da Palavra deste domingo coloca diante de nós a humildade como um caminho de vida. Assim ouvimos no livro da Sabedoria e também no Evangelho. A primeira leitura falava-nos precisamente da humildade como uma das virtudes mais importantes na vida de uma pessoa. Importa, no entanto, recordar: humildade não significa anular-se ou achar-se sem valor.

A humildade é o espaço interior que cada um tem para se reconhecer e para acolher o outro. E é aí que podemos ver as capacidades que o livro da Sabedoria liga à virtude da humildade:

  • a estima pelos outros, própria de quem não se faz o centro do mundo;

  • a capacidade de compreender a sabedoria, pois está aberto e não fechado na ilusão de que já sabe tudo;

  • a capacidade de alegria e de louvor a Deus, pois reconhece o amor que lhe é dado.

É desta humildade — com as nossas fragilidades e capacidades — que nasce e cresce a vida, deixando-nos a consciência de que ela é um dom precioso. O contrário da humildade é o orgulho e a autossuficiência, que geram divisões, ressentimentos e indiferença para com os que caminham ao nosso lado.

No Evangelho, Jesus mostra-nos como a humildade é essencial. O texto fala-nos de uma refeição, provavelmente após o culto na sinagoga, para a qual se costumava convidar várias pessoas, até mesmo as que estavam de passagem. Ao observar a corrida pelos lugares mais importantes, Jesus apresenta a lógica do Reino de Deus: aqui não são os que procuram a honra e o primeiro lugar que contam, mas os que se apresentam com simplicidade e não se consideram superiores aos outros.

De igual modo, Jesus alerta para o risco de vivermos apenas na lógica de dar para depois receber. Quem convida só para ser retribuído perde algo essencial do Reino: a gratuidade e a generosidade. No Reino de Deus, partilha-se sem esperar nada em troca — não para perder, mas para multiplicar o bem.

O Evangelho convida-nos, assim, a crescer na humildade: a reconhecer a nossa verdade, a dar espaço aos irmãos sem nos sobrepormos, a aprender a escutar e a acolher quem está nas margens. A humildade abre-nos à generosidade e torna-nos atentos a quem mais precisa.

Que a nossa vida tenha sempre esta humildade que faz crescer o amor por Deus e pelos irmãos.




Friday, 22 August 2025

Esforçar a entrada pela porta estreita




DOMINGO XXI DO TEMPO COMUM


L 1 Is 66, 18-21; Sl 116 (117), 1. 2
L 2 Heb 12, 5-7. 11-13
Ev Lc 13, 22-30


A liturgia da Palavra deste domingo coloca diante de nós uma realidade fundamental da nossa fé. Acreditamos que toda a humanidade é chamada a encontrar-se com Deus, sem aceção de pessoas. O chamamento de Deus é universal, como nos recorda o profeta Isaías, que via toda a humanidade a aproximar-se de Deus. Aliás, já no antigo templo de Jerusalém havia uma parte destinada precisamente aos gentios, reconhecendo esta realidade.

Todos são chamados ao encontro com Deus. No Evangelho, a pergunta é distinta: “São muitos os que se salvam?”. É uma pergunta que ainda se faz hoje, embora muito esquecida no nosso tempo, num mundo que procura fugir à ideia da morte. Jesus responde de maneira diferente: “Esforçai-vos, fazei por entrar pela porta estreita”. Não basta tentar um pouco; é preciso empenhar-se com justiça e retidão, viver a vida inteira na verdade e na entrega. Jesus denuncia a iniquidade, a injustiça e a maldade como caminhos que afastam da salvação. Por isso, a fé cristã não se resume a fazer coisas na Igreja, mas exige uma vida reta, que se apoia na misericórdia sem prescindir da nossa conduta.

São muitos os que se salvam? Não sabemos. Mas fica a promessa de que muitos virão de todos os lados. Por isso, o chamamento e o anúncio que fazemos não podem esquecer a radicalidade do seguimento de Cristo.

Neste caminho, contamos com a correção de Deus, que nos guia e purifica — “castigo” significa purificação — e orienta o seu Filho no caminho do bem. A carta aos Hebreus apresenta este contexto para animar os cristãos: mesmo atravessando sofrimentos e perseguições, somos convidados a perseverar no caminho do bem e da retidão.

Que a nossa vida seja também sinal desta verdade:

  • na retidão connosco mesmos, mesmo nas dificuldades;

  • na justiça com os irmãos e no perdão que tantas vezes tarda a ser dado;

  • na relação com Deus, através da oração e do amor;

  • e na disponibilidade para acolher todos aqueles que procuram a Deus e aqui O podem encontrar.


Saturday, 16 August 2025

Distinguir o bem e o mal, mas não entre bons e maus

 

DOMINGO XX DO TEMPO COMUM


L1: Jer 38, 4-6. 8-10; Sal 39 (40), 2-3. 4. 18
L2: Hebr 12, 1-4
Ev: Lc 12, 49-53 

 

A liturgia da Palavra deste domingo coloca diante de nós a realidade de que o testemunho e o anúncio da Verdade implicam muitas vezes confronto. Assim aconteceu com Jesus, que, por amor à verdade, denunciou injustiças; assim foi nos primeiros tempos do cristianismo, fecundos em mártires; assim se vê na vida de tantos santos e continua a acontecer hoje, pois, a um testemunho radical do Evangelho, levantam-se sempre forças de resistência. De facto, Jesus mostra-nos que, pelo amor à verdade e ao bem, muitas vezes surgem conflitos. Mas esta sempre foi uma constante na história bíblica.

Na primeira leitura, o livro de Jeremias descreve-nos a situação do profeta, que é colocado às portas da morte por ordem do rei porque este se recusa a aceitar o apelo à conversão e à mudança de vida. O rei Sedecias, ao preferir seguir os mandatos de outros reis mais poderosos em vez da vontade de Deus, na iminência da invasão dos babilónios, é denunciado pelo profeta. Infelizmente, este mesmo rei acabaria por ver o povo partir para o exílio e os seus filhos morrerem.

O Evangelho apresenta-nos Jesus a descrever a sua missão não como uma simples conciliação de interesses contrários, mas como uma força que distingue o bem do mal, uma dinâmica que podia levar a rupturas até no seio das famílias. Contudo, a missão de Jesus não é contra ninguém, nem Ele apela à escolha de inimigos ou à separação entre bons e maus; o seu anúncio dirige-se contra tudo aquilo que afasta a pessoa humana de Deus e lhe rouba a dignidade; aí não existem concessões. Contudo, Jesus não divide o mundo em bons e maus – a todos apela à conversão, como nos recorda o episódio da torre de Siloé (Lc 13, 4-5). Assim, existe um combate, mas sempre em favor da verdade, iluminado pelo amor de Cristo que entrega a sua vida. E não podemos deixar de dizer que tantas vezes, na Igreja, se assiste a quem, estando dentro, se julga melhor do que os de fora. Aliás, o próprio Santo Agostinho recordava, na sua maior obra A Cidade de Deus: “Alguns, parecendo que estão fora da cidade de Deus na terra, pertencem a ela no céu; mas também alguns, parecendo que pertencem a ela na terra, não fazem parte dela no céu.”

Este combate — o combate da fé, como dizia São Paulo — começa, antes de mais, dentro de cada um de nós, na procura de fidelidade a um amor maior, esforçando-se por não ceder à indiferença, ao ódio, ao afastamento de Deus ou ao ressentimento. É uma procura diária, resposta ao amor recebido, que nos faz caminhar na graça.

Ao mesmo tempo, e para evitar um individualismo perfeccionista, este combate implica também olhar com atenção a realidade que nos envolve: os dinamismos de opressão e os abusos de poder contra os mais frágeis em nome de lucros ou interesses. Estes abusos podem ser económicos, mas também afectivos, manipuladores ou até relacionados com o mau uso dos bens da terra, com consequências ecológicas.

Esta dinâmica de divisão está já inscrita na Palavra de Deus, que penetra até à medula do nosso ser para discernir as motivações do coração e purificar as nossas acções, de modo a vivermos um amor maior.

Sejamos construtores de pontes e de caminhos de aproximação, mas nunca aceitemos o mal como opção necessária para a nossa vida.

Thursday, 7 August 2025

A fé: a porta da fidelidade





DOMINGO XIX DO TEMPO COMUM


L 1 Sb 18, 6-9; Sl 32 (33), 1 e 12. 18-19. 20 e 22
L 2 Heb 11, 1-2. 8-19 ou Heb 11, 1-2. 8-12
Ev Lc 12, 32-48 ou Lc 12, 35-40 

A vida humana precisa de ter sentido — algo sentido como essencial à nossa condição. Somos homens e mulheres que, muitas vezes, nos perguntamos para onde a nossa vida se encaminha e qual o caminho a seguir.

Esta condição humana marca, em geral, toda a experiência de vida e também a experiência religiosa. Neste sentido, a Palavra de Deus deste domingo oferece-nos luz para o nosso caminhar.

De facto, a primeira e a segunda leitura apresentam-nos o caminho da fé, sustentado pela esperança, pelo amor e pela entrega — uma vida orientada por algo que ainda não se vê.

A fé nasce, antes de mais, como uma experiência profundamente humana, essencial à nossa existência enquanto criaturas. Precisamos de ter fé para viver: para acreditar que podemos sair de casa em segurança, que vale a pena tomar esta ou aquela decisão, escolher esta ou outra dieta — entre tantos outros aspetos da vida.

A fé cristã assume tudo isto como parte do nosso dia a dia, mas vai mais longe: inscreve-se numa lógica de relação com Deus. Assim nos mostra a experiência bíblica, que liga a fé à fidelidade vivida todos os dias, como tão bem nos apresenta o Evangelho.

A fé, quer humana, quer cristã, vive sempre da expectativa de alcançar algo que se espera. Mas a fé cristã nasce de um encontro e de uma promessa feita por Deus ao seu povo. Parte de uma experiência de salvação que transforma a vida: de um encontro com Deus, revelado de modo pleno na entrega de Cristo por cada um de nós.

A fé é sempre iniciativa de Deus, que vem ao nosso encontro — como aconteceu com Abraão, com Maria, com os Apóstolos, e com cada um de nós. É um encontro de amor, de perdão e de transformação.

Não se trata, evidentemente, de ficar parado ou desligado da realidade. A fé toca a nossa vida onde quer que estejamos. Por vezes, leva a mudanças profundas: a partir, a deixar para trás o que nos prende. Mas tantas outras vezes, é no modo como vivemos o nosso dia a dia que a fé se prova e se fortalece.

A fé atravessa, inevitavelmente, momentos de prova e de crise — tempos em que Deus parece ausente, e nos confrontamos com os grandes dramas da vida: dificuldades familiares, problemas de saúde, injustiças.

Nesses momentos, a fé liga-se à fidelidade. Como resposta a um amor, ela subsiste no perdão e no desejo de continuar a agir segundo a vontade de Deus. Como é difícil manter a retidão quando sentimos que tudo à nossa volta é injusto ou então não faz sentido! Mas é na ausência que se joga a fidelidade.

Mas a fé alimenta-se diariamente da oração — encontro com Deus —, do amor com que vivemos e nos damos, e da persistência, criativa e realista, de viver segundo o ritmo do coração de Cristo.

A fé conhece crises. Mas a mesma fé aponta-nos que Deus é maior do que o nosso coração (cf. 1 Jo 3,20). E isso basta para não desistir.

Friday, 1 August 2025

Acumular para nós ou ser rico aos olhos de Deus?






DOMINGO XVIII DO TEMPO COMUM


L 1 Co (Ecle) 1, 2; 2, 21-23; Sl 89 (90), 3-4. 5-6. 12-13. 14 e 17ac
L 2 Cl 3, 1-5. 9-11
Ev Lc 12, 13-21 


A Liturgia da Palavra deste domingo coloca diante de nós a fragilidade da vida e o lugar onde colocamos a nossa confiança.

A primeira leitura, retirada do livro de Qohelet, apresenta-nos a constatação da transitoriedade da vida e dos bens conquistados. Apesar de todas as preocupações e trabalhos, tudo passa e acaba por ficar para outros. A situação que angustia o autor bíblico é precisamente esta: o limite da nossa vida e da nossa ação, o que nos leva inevitavelmente a interrogar-nos sobre o sentido da existência e do trabalho humano.

A esta pergunta responde São Paulo, ao afirmar que somente em Deus, pela morte e ressurreição de Cristo, na qual nós participamos, a vida adquire um sentido definitivo, revelando uma esperança que permanece. É em Cristo, e ao assumirmos o seu estilo de vida, que a nossa existência permanece e resiste ao tempo. Por isso Ele nos exorta: “acumulai tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não os consomem” (cf. Mt 6,20).

É neste contexto que surge o episódio evangélico da pergunta dirigida a Jesus, a propósito de uma partilha entre irmãos — um tema gerador de discórdia no tempo de Jesus e que ainda hoje continua atual. Jesus não repreende a procura da justiça, mas a avareza, pois “a vida de um homem não depende da abundância dos bens que possui”. O essencial não está nos bens em si, mas na forma como nos relacionamos com eles. Devemos usá-los com responsabilidade, mas sem idolatria. Jesus valoriza a boa gestão, mas alerta: não devemos colocar a nossa confiança nos bens materiais.

É esta a mensagem da parábola que Jesus conta: a de um homem que pretende acumular tudo para si, com o intuito de garantir o seu futuro, deixar de trabalhar e viver apenas para comer e desfrutar, alheado dos outros. Um homem fechado em si mesmo e nos seus bens. E isso, diz-nos Jesus, é pecado e ilusão.

Quantas vezes ouvimos dizer: “Fulano tem a vida feita.” Mas isso é falso. Os nossos bens, mesmo os mais valiosos, são frágeis como o barro. Só ganham verdadeiro sentido quando colocados ao serviço do amor e da partilha, quando contribuem para o bem comum. Afinal, tanto morre o rico como o pobre — e a única riqueza que permanece é aquela que nos torna ricos para Deus.

Os santos são testemunhas disto mesmo. Homens e mulheres centrados em Deus, marcados por uma santidade que abre caminhos novos e por um amor que transforma a vida dos que com eles se cruzam. O seu testemunho convida-nos a procurar aquilo que une, mais do que aquilo que divide. Que, ao procurarmos as coisas do Alto, deixemos que a eternidade se torne presente no tempo.


1. Troquemos o instante pelo eterno, / Sigamos o caminho de Jesus,
A Primavera vem depois do Inverno; / A alegria virá depois da cruz!

2. Passa o tempo e com ele, as nossas vidas; / Tal como passa o bem, passa a desgraça.
Passam todas as coisas conhecidas… / Só o nome de Deus é que não passa.

3. Farei da fé, vivida cada dia, / A luz interior que me conduz
À luz de Deus, da paz e da alegria, / À luz da glória eterna, à Luz da Luz.