Friday, 27 October 2023

Amar é arriscar




DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM


L 1 Ex 22, 20-26; Sl 17 (18), 2-3. 7. 47 e 51ab
L 2 1Ts 1, 5c-10
Ev Mt 22, 34-40 

Este domingo a Palavra de Deus leva-nos a entrar na lógica do amor divino, o qual se apresenta na nossa vida sempre como dom absoluto e gratuito, que ultrapassa todos os nossos méritos, imaginários ou reais. Toda a criação é fruto deste amor e é neste amor que a vida se realiza, não obstante todas as limitações e dramas de coração que conhecemos.

Não pensemos, todavia, que este é um amor com os contornos sentimentais que vemos tantas vezes como apologia no nosso tempo. Embora os inclua, é amor que se traduz em atos concretos. 

Assim, vemos o livro do profeta Isaías a fundamentar a justiça no amor de Deus que cuida e olha pelos mais frágeis, o estrangeiro, a viúva, o orfão e todo o pobre, os quais nunca devem ser explorados na sua indigência e fragilidade, mas cuidados. A tentação é real, de perante a fragidade exposta, de haver quem pense tirar proveito para satisfação própria, tema que percorre toda a escritura. De facto, trata-se da capacidade de se pôr no lugar do outro, de o amar como se quer ser amado ou como se ama a si mesmo.

É nesta temática que Jesus nos faz entrar. O amor devido a Deus, como eco da Shemá Israel, é incontornável e inseparável do amor ao próximo. É este eixo que Jesus nos ajuda a entender. No meio de um debate interminável de mais de um milhar de preceitos positivos e negativos presentes na Lei, Ele mostra que a vida real se centra em no Amor total a Deus, suma verdade, suma bondade e suma beleza, algo que nunca se pode desligar daqueles com quem contactamos no dia-a-dia; mais, amar a Deus implica-nos diariamente para testemunhar com a vida que o centro da vida se encontra aqui, na capacidade de amar.

É a isso que São Paulo nos leva: arriscar a vida para anunciar o evangelho, atitude que ele elogia aos seus discípulos, por não lhes faltar a coragem de dar a vida pelo evangelho, por fazerem surgir no mundo dons da vida de Deus. E nós, como nos arriscamos por Ele?

Friday, 20 October 2023

Devolver a vida a Deus




DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM


L 1 Is 45, 1. 4-6; Sl 95 (96), 1 e 3. 4-5. 7-8. 9-10a.c
L 2 1Ts 1, 1-5b
Ev Mt 22, 15-21 

A liturgia deste Domingo coloca-nos diante de Deus, que é justo e espera a nossa justiça, a quem devemos prestar culto com os lábios e sobretudo com a nossa vida. 

Esta consciência atravessa a primeira leitura, que relata o chamamento de Ciro, rei da Pérsia, justo e chamado por Deus para trazer de novo o povo hebreu à terra de Israel. Assim, Deus volta a cumprir a aliança que havia feito com este Povo. 

Infelizmente o nosso coração é tantas vezes seduzido pelo mal e pelo poder, onde acaba por se instaurar a injustiça, a ganância e a inveja. É isto que este episódio do evangelho relata. Um maquinação de fariseus e herodianos, com vista a colocar Jesus perante um dilema sobre a questão da tributação romana. Dizer "sim" seria anuir com a invasão romana e desacredita-lo diante do povo; dizer "não" seria o pretexto para ser preso pelos romanos por sedição. Mas Jesus responde de maneira distinta e como sempre interpeladora para nós, ao confrontar com os interlocutores com a imagem presente no denário: "devolvei a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". 

Para além da evidente lição que podemos tirar de prudência e sabedoria para não nos deixarmos entrar em lógicas que nos aprisionam, Jesus abre-nos a porta a uma atitude fundamental: procurar devolver a nossa vida a Deus, na imagem que está impressa em nós desde a criação. 

Neste contexto pode ser útil recordar o que Santo Agostinho (De Trinitate X) dizia ao se referir às potências da alma, a saber,  memória, inteligência e vontade, como dimensões do nosso ser e reflexos da Trindade no ser humano. Assim, a memória faz-nos recordar a nossa origem da vida em Deus e como tal toda a nossa história lhe pertence, na qual a sua misericórdia está presente e que influi no hoje que somos; a inteligência diz respeito ao nosso presente, à forma como vemos o mundo e compreendemos o nosso lugar aqui e discernimos o nosso caminho; a vontade abre-nos para tornar concreta a nossa vida e o nosso mundo interior, onde podemos fazer emergir neste mundo o Reino de Deus, mediante a confiança da fé, a verdade ou fidelidade das nossas vidas, a justiça expressa nas atitudes do dia a dia e no culto prestado a Deus e por fim na adoração, expressão do nosso amor filial ao Pai.

É no amor, sempre sincero e reto, que a nossa vida é de facto, devolvida a Deus como tão bem rezava Santo Inácio de Loyola: 

Tomai, Senhor, e recebei
toda a minha liberdade,
a minha memória,
o meu entendimento
e toda a minha vontade,
tudo o que tenho e possuo;
Vós mo destes;
a Vós, Senhor, o restituo.
Tudo é vosso,
disponde de tudo,
à vossa inteira vontade.
Dai-me o vosso amor e graça,
que esta me basta.

[https://youtu.be/4aJOplyVE8w?si=Kef4f7xZVvh-V4Bx]

Friday, 13 October 2023

Um Deus que quer a mesa cheia





DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM


L 1 Is 25, 6-10a; Sl 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6
L 2 Flp 4, 12-14. 19-20
Ev Mt 22, 1-14 ou Mt 22, 1-10 


Talvez de forma estranha ao nosso tempo e cultura ocidental, que tendeu a fazer de Deus uma ideia abstrata, a Sagrada Escritura recorre por muitas vezes à imagem do banquete e da partilha da refeição para descrever a relação de Deus com a humanidade. É isso que vemos no texto de Isaías, um Deus que nos abre a porta da esperança, da comunhão com ele, para todos os povos! A grande virtualidade de Isaías é precisamente o seu universalismo, que aponta um futuro de comunhão com todos. 

O evangelho retoma esta imagem do banquete, do rei que prepara o casamento do filho, uma paráfrase de um Deus que prepara as bodas do seu Filho com a humanidade. A temática continua por isso a lógica da semana passada, da recusa da vinda de Deus, em que vemos como os servos enviados ao longo dos tempos são rejeitados e mal-tratados; ao fazê-lo, rejeitam aquele que os enviou. 

Esta situação é tão mais dramática, quando se compreende que os que recusam são as elites religiosas do tempo de Jesus e a destruição narrada é relativa à destruição de Jerusalém no ano 70, pelo império romano. 

Mas mais do que história e exegese do texto, importa colher dele a compreensão de um Deus que nunca deixa de querer encher a sua mesa e o seu banquete. E assim, são os últimos, os "bons e os maus" que, revestidos da veste nupcial dada pelo rei, preenchem a sala. Esta é a imagem de todos aqueles que recebem o chamamento e guardam a fé, como consciência de uma nova forma de vida em Jesus Cristo, renovados interiormente para participarem da alegria de Deus e serem suas testemunhas no mundo. 

Aquele último "amigo" que surge sem a veste nupcial é imagem de todos os que não guardam a sua fé, como interpretavam os Padres da Igreja ; de facto, é estranho neste contexto ver alguém sem a veste nupcial, uma vez que ela tinha sido dada gratuitamente a todos os que tinham entrado. Lembrança para nós: a vida é um tesouro que deve ser vivido e cuidado na fé, recebido como dom, de quem reconhece, como Paulo, que "tudo pode naquele que o sustenta", mas com perseverança. Já dizia Santo Agostinho: «o Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti». 


Saturday, 7 October 2023

Poder ou serviço?




DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM


L 1 Is 5, 1-7; Sl 79 (80), 9 e 12. 13-14. 15-16. 19-20
L 2 Flp 4, 6-9
Ev Mt 21, 33-43


A liturgia deste domingo leva-nos de novo de volta ao trabalho da vinha, mantendo a lógica da perenidade do chamamento de Deus como povo eleito, mas olhando agora mais de perto para a qualidade da resposta humana. Quer o texto de Isaías, quer o Evangelho, narram-nos a ação de Deus que planta uma vinha, imagem que descreve o amor divino no cuidado esmerado pelo Povo, na expectativa da alegria partilhada entre Ele e a humanidade. 

No caso do profeta Isaías, o drama é retratado mediante uma vinha que produz agraços, ou seja uvas amargas e que não amadurecem, imagem que o profeta usa para descrever o Povo, que apesar do extremo cuidado divino, não vive a justiça e a retidão. Nesta situação, o autor bíblico descreve um certo sentimento divino de desilusão e desistência. 

Já o evangelho narra que os vinhateiros a quem foi entre a vinha, ou seja administradores daquela porção de terra, se passam a sentir donos do bem que lhes foi confiado. Assim rejeitam todos os servos enviados para recolher o fruto produzido. E assim fazem com todos os servos, inclusive, com o próprio filho. Sabemos que os vinhateiros representam as elites religiosas do tempo de Jesus e os servos os profetas que anunciaram a palavra de Deus. 

Todavia, o drama presente nestes escritos está na sede de poder e ganância que absolutiza o controlo que se tem e se esquece que todos somos filhos de Deus. Assim, entramos numa lógica que opõe o poder ao serviço, quando ambos são chamados a unirem esforços em prol do bem comum e da paz. Reparamos que nesta parábola Jesus não critica a inoperatividade dos servos, mas a forma como recebem aqueles que lhe são enviados. 

É este dinamismo tão profundamente espiritual que continua a ser hoje fonte de tantos transtornos para o nosso tempo, na pobreza, na exclusão, na crise ecológica, nas várias fomes. Mas a liturgia apresenta-nos três palavras que podem iluminar a nossa vida: justiça, retidão e paz. A justiça como o bem que deve ser feito, dando a cada um o que lhe é devida; a retidão, sinal da intenção com que fazemos e operamos; e a paz, como descreve São Paulo, que não é a ausência de perturbações, mas o bem feito até ao fim. Para isto, é necessário o que Paulo escreve aos Filipenses: a consciência de que a nossa vida está em Deus e não apenas entregue a nós próprios.