Friday, 28 April 2023

Como Cristo viveu, assim também tu és chamado a viver




DOMINGO IV DA PÁSCOA


L 1 At 2, 14a. 36-41; Sl 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6
L 2 1Pd 2, 20b-25
Ev Jo 10, 1-10 

Este Domingo do tempo pascal é celebrado na Igreja como dia de oração pelas vocações. É também conhecido como o Domingo do Bom e Belo Pastor. 

Na raiz de cada um existe uma vocação, um apelo infinito do Deus de amor para levar cada um a vida de realização. Cada vida vivida é motivo da celebração de glória de Deus, mesmo aquelas que aparentemente são mais insignificantes. 

A vocação é sempre uma resposta a uma chamamento de Deus. A liturgia apresenta-nos Pedro a chamar à conversão, ao apresentar a morte de Cristo como ocasião da manifestação do amor de Deus por nós. Notemos que a conversão é só possível após a dor de coração [katanýssō], que dispõe para uma mudança de vida e adesão a Cristo. De facto, o acolhimento do Evangelho necessita de uma abertura de coração, algo que a Tradição da Igreja designa por contrição, ou seja o arrependimento por ter ferido o amor. É nesta abertura que acontece a entrega do Espírito Santo, grande promessa de Deus à humanidade para vivermos como filhos. 

A vida que tem Cristo como pastor experimenta, ainda que em total fragilidade física e moral, a oportunidade de viver em comunhão com Cristo, acreditando pela fé que o sofrimento que nos toca está intimamente unido ao de Cristo, quando procura levar o bem e ser agente de transformação no mundo. Este é um sofrimento, muitas vezes levado ao limite, mas vivido em função de um bem maior, com os olhos no céu, mas com os pés bem assentes na terra. 

Este caminho é o da vida em abundância, de um dom que excede as nossas expectativas. Cristo apresenta-se como a porta, imagem central neste evangelho, e repetida por duas vezes. Ele é o caminho que coloca ordem na vida, de modo a que a nossa vida seja verdadeiramente um dom para todos. 

É aqui que se enraíza a vocação para um estado de vida: o desejo de querer viver pelo amor, dando vida e a vida, assim como se fixando num horizonte que quer sempre ir mais longe, num ritmo que tem por meta o Reino dos Céus. É sempre de desconfiar de propostas de vida que levam a vida a estagnar numa esterilidade; Cristo chama-nos sempre para vivermos como ele viveu, em comunhão com o Pai e em serviço aos irmãos. 


Sunday, 23 April 2023

Não nos ardia o coração?!




DOMINGO III DA PÁSCOA


L 1 At 2, 14. 22-33; Sl 15 (16), 1-2a e 5. 7-8. 9-10. 11
L 2 1Pd 1, 17-21
Ev Lc 24, 13-35 

A Igreja vive animada pelo amor de Deus, manifesto em Jesus Cristo, na sua morte e ressurreição. Assim o acontecimento da cruz não foi entendido na Tradição Cristã com um assassinato de Cristo, mas foi sendo lido de modo consistente com a entrega do Senhor por nós. 

É esta consciência que perpassa na primeira leitura. São Pedro faz este anúncio no episódio dos Atos dos Apóstolos, ao anunciar a todos - "homens da Judeia e todos que habitais em Jerusalém" - como a história da promessa da salvação de Deus se concretizou em Jesus. Como é importante saber ler a história com os olhos de Deus, a nossa história com os olhos de Deus, Ele que vai sempre à frente da nossa vida. 

Esta capacidade leva o mesmo Pedro, na segunda leitura, a exortar os cristãos a passar de uma maneira "vã"  (do grego mataios) de viver, sem sentido, em virtude do sangue do novo cordeiro pascal, que nos reconcilia com Deus e com os outros, e faz surgir uma nova forma de vida. 

Esta passagem é feita por Deus, nesta bela imagem dos discípulos de Emaús. Logo no início vemos estes dois discípulos, desistentes, a afastarem-se da comunidade dos restantes, a caminhar até voltados um contra o outro - "falavam e discutiam". É aqui que surge Jesus, a interpelar estes dois, colocando no meio, a presidir como um estranho, mas fazendo perguntas que os levam a dizer de si e sobretudo a ser capaz com palavras simples de desarmar a violência subjacente que traziam nos corações. 

É apenas o coração desarmado (ainda que ferido) que pode acolher a Palavra de Deus, que rele com a perspectiva histórica de concretização da fidelidade de Deus, que faz arder (gr. kaiomene=iluminar, arder) o coração. São estes mesmos que assim lhe pedem que fique com eles, que são capazes de o reconhecer no partir do pão, como o sinal do seu amor. Daqui apenas se pode seguir o regresso à comunidade de Jerusalém, para anunciar com toda a alegria, Cristo ressuscitado. 

É este anúncio que alimenta cada vocação cristã, cuja semana se inicia esta semana, que nos faz regressar a uma comunidade cristã, local de encontro dos que acreditam em Jesus para serem no meio do mundo, sinais do seu fogo de amor. 


Saturday, 15 April 2023

Testemunhas do Ressuscitado

 


DOMINGO II DA PÁSCOA ou da Divina Misericórdia


L 1 At 2, 42-47; Sl 117 (118), 2-4. 13-15. 22-24
L 2 1Pd 1, 3-9
Ev Jo 20, 19-31

Celebrar a Páscoa é abrir-se a uma nova forma de vida, a um renascimento, como coloca São Pedro na 2ª leitura e como atesta o livros dos Actos dos Apóstolos, identificando que nesta vida são essenciais o ensino dos Apóstolos, a Eucaristia, a comunhão e cuidado e a oração. De facto, a Páscoa aproxima-nos de Deus e dos irmãos, ao se ter consciência de que a Igreja é um só corpo! Mas tudo isto nasce do dom do Ressuscitado. 

No Evangelho deste Domingo que escutámos vemos como a paz é a grande marca da presença do Ressuscitado no meio do Seu Povo. Reparemos como é o Senhor que se aproxima dos discípulos que estão fechados com medo, talvez de uma possível perseguição, e que a experiência de Jesus os arranca dessa situação e os envia, à imagem de Si, para darem testemunho de Cristo. 

Os apóstolos não vão sozinhos. Por um lado, recebem a força do Espírito Santo, que os faz participar do poder de perdoar os pecados, ou seja, tudo aquilo que suscita divisão e afastamento entre Deus e os irmãos. É o Espírito Santo, que soprado sobre os discípulos lhes renova o coração e o olhar para a nova missão - e como precisamos nós que também o nosso coração seja renovado! 

Por outro lado, a sua experiência do Ressuscitado e também o seu envio é feito em comunidade; é por isso que Tomé, que estava longe da comunidade não acredita; é apenas quando este está em comunidade que lhe é possível fazer a experiência do ressuscitado; e assim, a dúvida de Tomé torna-se numa das mais belas profissões de Fé: "Meu Senhor e meu Rei", sinal de quem reconhece que a vida encontra em Cristo toda a origem e todo o sentido. Precisamos uns dos outros para podermos acreditar em Cristo e não dá para viver no estilo do "eu cá tenho a minha fé"!

Uma das formas de entender a presença do Ressuscitado no meio de nós é-nos contada no no livro dos Actos dos Apóstolos. Estes relatos da Igreja Nascente mostram-nos que a Comunidade inicial dos cristãos vivia unida nos sentimentos, sinal de uma paz que apenas o ressuscitado traz, algo que a comunidade dos Doze não conseguia viver antes da ressurreição de Cristo. Por outro lado, a própria acção dos Apóstolos, em especial de Pedro, é imagem e equivalente da acção de Jesus, sinal que o Ressuscitado actua por meio dos seus ministros.  

Por fim, sublinho apenas a Misericórdia de Cristo. Ele envia os discípulos para perdoar os pecados,ou seja, tudo aquilo que suscita divisão e afastamento entre Deus e os irmãos, como dizia há pouco. mas também nos constitui a nós como enviados por Ele para darmos testemunho da sua misericórdia aos homens de hoje. Não nos ponhamos de fora desta missão. 

Saturday, 8 April 2023

Ver a Cristo Crucificado

 



DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR

L1: At 10, 34a. 37-43; Sal 117 (118), 1-2. 16ab-17. 22-23
L2: Col 3, 1-4 ou 1 Cor 5, 6b-8
Ev: Jo 20, 1-9


Celebramos o Domingo de Páscoa do Senhor, da vitória do amor de Deus sobre a morte e a injustiça. Em Jesus Cristo vemos cumprir-se a realização da profecia de Isaías do Servo de Iavé; Ele que assumiu os nossos pecados e iniquidades, agora faz-nos participar da sua vida como Filhos de Deus. É diante da ressurreição de Cristo que os nossos olhos podem ver o que nunca viram. 
O Evangelho que escutamos hoje refere-se por variadas vezes aos olhares que se cruzam com o sepulcro e que, a certo modo, retratam a nossa forma de ver a Deus, ou seja, a nossa experiência do Mistério de Deus. 
Em primeiro lugar surge Maria Madalena, que vai ao sepulcro, e vê (Blepo), ainda no escuro, a pedra removida; este é um ver de fora, sem tentar compreender o que ali se passou. 
Surgem depois os discípulos, em que Pedro segue o discípulo predilecto, que tinha estado junto à cruz. O ver de Pedro (theoreo), é um ver que reconhece sinais admiráveis e formula o que pode ter acontecido, que se questiona diante do enigma, mas que ainda não entra no Mistério que pede a sua vida. Já o discípulo predilecto vê (idein) os sinais do crucificado e começa a acreditar, ou seja, a entrar na alegria do Senhor que venceu a morte e o mal. 
Mas este relato é um relato que tem por objectivo levar-nos a entrar no mistério de Cristo. É por isso que voltamos a Maria Madalena que na tristeza em que se encontrava, Cristo vem ao seu encontro e a trata pelo nome e a torna como a primeira mulher a anunciar aos apóstolos a boa nova. Fá-lo com a alegria de ter visto com o coração (horao) a presença de Cristo que agora a acompanha dentro de si e a leva a comunicar aos outros o acontecimento sempre novo da ressurreição de Cristo. 

É este anúncio que nasce da boca dos apóstolos e da Tradição da Igreja. Cristo morreu e ressuscitou por nós, para que acreditássemos nele e pudéssemos fazer a experiência de uma renovada forma de vida. É aqui que se enraíza a alegria cristã, como dinamismo que se do ponto de vista apenas psicológico nos faz comunicar a nossa identidade, com muito mais razão, com o espírito de Cristo somos nutridos para podermos envolver-nos com amor na entrega da vida pelo outros. 


Saturday, 1 April 2023

Morre para nos salvar




DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR


L 1 Is 50, 4-7; Sl 21 (22), 8-9. 17-18a. 19-20. 23-24
L 2 Flp 2, 6-11
Ev Mt 26, 14 – 27, 66 ou Mt 27, 11-54 

Paixão. Palavra que deriva do latim passio, significando tanto sofrimento como amor, numa união íntima entre estas duas palavras. A liturgia deste domingo coloca-nos precisamente nesta relato, não apenas como ouvintes, mas como verdadeiros participantes de um acontecimento central. Tratam-se sempre dos relatos mais centrais dos evangelhos, aqueles que mais demoram a ser narrados. Numa lógica de quem olha o cristianismo como uma moral pode estranhar esta duração, mas quem acredita que o evangelho é escrito para levar à fé, compreende o Mistério que aqui se encerra. 

Toda a liturgia apresenta Jesus como o manso cordeiro levado ao matadouro, ligando este acontecimento com a ceia judaica da libertação do Egipto. Agora a libertação é outra, em que Jesus entra para nos fazer viver de uma maneira por dentro das dificuldades da vida. Jesus assume o lugar do último, daquele que é preterido por um malfeitor, Ele que tinha feito tanto bem. 

A violência que Jesus assume é a nossa, a dos nossos dias, a minha e a tua. Por isso, Jesus não podia salvar-se a si mesmo; isso seria contrariar a sua própria identidade. É a sua entrega, no seu amor até ao fim, a sua descida até ao mais baixo da condição humana (de Deus para homem; de homem para servo; a morrer na maldita cruz; e na tradição da Igreja, a descer à mansão dos mortos), que leva a que o centurião romano - logo, não judeu - pudesse expressar com toda certeza "Este era verdadeiramente (alethos - palavra usada no Evangelho de Mateus por apenas três vezes, sendo que duas delas se destinam a confirmar a filiação divina de Jesus) filho de Deus".   

A cruz do Senhor, para nós cristãos, nunca pode ser vista apenas como um instrumento de morte; na fé sabemos que Jesus ressuscitou, ou seja superou a morte. É por isso que a Tradição da Igreja olha a cruz como o madeiro, a árvore que possui o mais belo fruto, aquele que nos sustenta. É hoje também que o nosso sim é chamado a ser dado nesta cruz.