DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM
L 1 Sir 35, 15b-17. 20-22a (gr. 12-14.16-18); Sl 33 (34), 2-3. 17-18. 19 e
23
L 2 2Tm 4, 6-8. 16-18
Ev Lc 18, 9-14
A liturgia da Palavra deste Domingo coloca-nos diante
da experiência da oração como caminho essencial da vida humana. Mas a Palavra
de Deus ajuda-nos a compreender que, no coração da oração cristã, está
verdadeiramente o amor de Deus — e somente este tem primazia absoluta.
Iguais
perante Deus
Um dos
primeiros pontos que a liturgia nos chama a perceber é a nossa condição de
sermos iguais perante Deus. Não é o nosso estatuto que influencia Deus, nem
torna a nossa oração mais forte. Não é o nosso conhecimento que nos aproxima
mais Dele ou que torna a oração mais eloquente.
A primeira leitura mostra-nos o cuidado de Deus pelos
mais frágeis — pelo órfão e pela viúva, aqueles que muitas vezes não conseguem
defender-se ou afirmar-se. No cerne da oração está a capacidade de adorar a
Deus, de o amar e de ser humilde. Isto não é fraqueza: a oração do humilde
procura sempre a justiça, os caminhos da verdade, e é por isso transformadora.
A imagem
que temos de Deus marca a nossa vida
O Evangelho
continua a falar-nos da humildade e mostra como a imagem de Deus que temos
influencia a nossa forma de estar e de rezar. Perguntas como “Em que Deus
acredito?” ou “Como é o Deus em que acredito?” são determinantes para a nossa
vida.
Jesus apresenta
duas figuras: o fariseu e o publicano. O fariseu reza de pé, para se mostrar
justo, cumprindo preceitos e evitando o mal dos outros, mas é indiferente ao
próximo. O publicano, traidor e desonesto aos olhos da sociedade, reza
reconhecendo a sua condição de pecador. Não se gaba das suas habilidades; pede
a ajuda de Deus e confessa a verdade de si mesmo. Quando só falamos de nós e
para nós na oração, já não estamos a rezar. A oração não é a procura de mim
mesmo apenas. É abertura com verdade ao Outro, a Deus que nos ama. E isto é o
que nos distingue da meditação que vemos tantas vezes anunciada por aí.
Só a
verdade pode ser rezada
É um grande
dom sermos capazes de nos ver com os olhos do amor de Deus e de reconhecer como
respondemos ao Seu amor. Confiar nesse amor purifica e perdoa.
Mas isso só
é possível quando nos reconhecemos tal como somos e deixamos Deus
transformar-nos. Quando não enaltecemos as nossas conquistas acima das dos
outros, mas nos vemos como comunidade onde todos contribuem, a oração torna-se
sincera e verdadeira.
Todos somos
frágeis e todos precisamos da misericórdia de Deus. Aceitar que falhamos e dar
nome às nossas falhas é difícil, mas libertador. É assim que nos abrimos ao
perdão de Deus — e ao mesmo tempo nos tornamos capazes de perdoar os outros.
Quando a nossa imagem de Deus é a de um amor
incondicional, que nos quer tornar justos e nos justifica, então a sociedade em
que vivemos seria tão diferente.


