Friday, 28 October 2022

Desce do Sicómoro!



DOMINGO XXXI DO TEMPO COMUM


L1: Sab 11, 22 – 12, 2; Sal 144 (145), 1-2. 8-9. 10-11. 13cd-14
L2: 2 Tes 1, 11 – 2, 2
Ev: Lc 19, 1-10 

"E por nós homens, e para nossa salvação..." Deus, em Cristo Jesus, revela a sua misericórdia, derramando sobre nós a força do seu perdão. Esta consciência que já vemos presente no Antigo Testamento, é descrita neste trecho do livro da Sabedoria de forma exemplar que Deus se compadece, sustenta a vida e nos quer afastados do mal. 

O Evangelho deste Domingo evidencia a realidade da misericórdia de Deus, onde Deus procura o homem, nesta narrativa da vida de Zaqueu. Toda  esta dinâmica de encontro faz-nos compreender o desejo profundo de um homem com ânsia de ver quem era Jesus, ou seja, conhecer a sua identidade e forma de estar. A sua baixa estatura, real ou simbólica, leva-o a subir a um sicómoro, árvore de folhagem densa, onde poderia observar e ver sem ser visto. 

A lógica de Jesus é distinta. Ele responde à ânsia de Zaqueu e não só se deixa observar, como o olha, procurando e convidando-o a descer do lugar escondido para se fazer íntimo da vida deste homem. Sinal de um amor que responde a um desejo de coração inexprimível. É neste reconhecimento que Zaqueu descobre a sua dignidade e sustenta a sua conversão, reparando o mal cometido e decidindo-se a se orientar por uma via nova. 

Não deixa de ser pertinente como esta atitude de Jesus causa estupefação na multidão, que apenas vê o que se passa de fora, ao que é factual, sem entrar na dinâmica do coração de Deus. 

Este apelo de Jesus continua hoje a acontecer e facilmente no meio de uma multidão de próximos, mas não íntimos de Jesus, homens e mulheres se pode tornar obstáculo para aqueles que se querem aproximar. Assim é fundamental a experiência que Jesus proporcionou a Zaqueu, a de ser olhado e procurado por Cristo, em resposta ao desejo de Deus que habita cada homem. 


Friday, 21 October 2022

A oração do humilde atravessa as nuvens




DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM


L1: Sir 35, 15b-17. 20-22a (gr. 12-14.16-18);
Sal 33 (34), 2-3. 17-18. 19 e 23
L2: 2 Tim 4, 6-8. 16-18
Ev: Lc 18, 9-14 

A liturgia da palavra deste domingo continua a levar-nos pela reflexão da fé e da oração. Já o livro da sabedoria fala-nos da experiência da oração, como algo que sobre até às nuvens. O livro distingue como a oração de louvor sobe até às nuvens e a oração do humilde atravessa as nuvens. Estas são sinal tantas vezes sinal da cobertura na qual Deus se faz presente, como realidade que O oculta e revela. 

Todavia a humildade do orante não coincide com uma oração desesperada ou desanimada, mas pelo contrário, é a oração que confia que Deus escuta e que por isso não desanima de fazer chegar a sua prece. Tal como a humildade diz da capacidade de fazer gerar vida pela abertura, verdade e sinceridade de coração, a oração deve ser feita na consciência que Deus nos conhece e escuta. Tal coloca-nos na verdade da nossa situação connosco, com os outros e com Deus. Confia que Deus escuta e não desanima perante as adversidades. 

Jesus acentua esta realidade mediante as duas figuras extremas do fariseu e do publicano. O fariseu, estrito cumpridor de todos os preceitos, fica na parte de fora da oração e do seu coração, fechado e realizado na boa imagem que tem de si pelo cumprimento de tudo o que está mandado; o publicano, pela sua própria vida, sabe bem que é frágil, de que a sua vida não está toda cumprida e que por isso sabe que precisa de Deus diante do mistério da sua vida. Este eco da oração do publicano ficou na Tradição da Igreja conhecida como oração do coração, frase repetida até à exaustão e que a história de vida mostra que mudou o coração de tantos. 

No fundo de isto está a imagem de Deus que cada um tem: ou a de um Deus juiz que premeia as conquistas morais do eu ou um Deus juiz que justifica a vida de cada um pelo perdão dado sem medida. A verdadeira imagem de Deus é Jesus Cristo, que nos mostra que mais do que conquistas morais para ser superior, o verdadeiro caminho de vida está na capacidade de receber e dar o perdão. Ficar preso em pequenas conquistas de perfeição é caminho de isolamento, onde se reduz um Deus de amor a um deus de algibeira. 

Friday, 14 October 2022

como diante do avesso de um tecido




DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM


L1: Ex 17, 8-13; Sal 120 (121), 1-2. 3-4. 5-6. 7-8
L2: 2 Tim 3, 14 – 4, 2
Ev: Lc 18, 1-8 

A liturgia da Palavra deste Domingo coloca-nos diante da oração. A primeira leitura, do livro de Êxodo, narra o combate de Israel com os Amalecitas, uma tribo rival descendente de Esaú. O combate que aqui se trava é um combate pela sobrevivência dos Israelitas. No foco do combate está Josué, pois Moisés recolhe-se à montanha, lugar de encontro com Deus e coloca a sua vida e do seu povo nas mãos de Deus. Está-se aqui como diante do avesso de um tecido, onde por trás da vida visível, se joga a estabilidade de cada um. 

Moisés coloca a sua vida nas mãos de Deus, mas a imagem fortíssima do cansaço, do peso das dificuldades, tentam-no para deixar cair os braços. Não deixa de ser impressionante como são Aarão e Hur que lhe sustentam os braços. De facto, a nossa vida de oração não está apenas dependente do eu, mas precisa de ser acontecer também em comunidade. 

O evangelho continua esta dinâmica da persistência na oração. Esta mulher frágil, viúva, clama a quem sabe que lhe pode ajudar. Na ironia da motivação, o juiz iníquo atende a mulher para se livrar dela; de facto, é essencial à oração a consciência da assimetria entre Deus e a criatura, por reconhecermos que é de Deus que toda a vida provém. 

Mas a grande base onde toda a experiência orante cristã assenta, qual rocha onde Moisés se senta, está na fidelidade de Deus, que na experiência bíblica é outro nome para dizer que Deus é a Verdade. Deus é fiel, e na oração erguida por amor dos outros e da justiça, Deus não deixará de manifestar a sua presença na condução da história. 

Como tal, mais que a mera recitação de palavras que tentam convencer Deus, a oração emerge da confiança filial daquele que confia no amor do Pai, que não deixará de dar o seu Espírito, como sinal perene da vida que nos é dada pelo baptismo. 

Friday, 7 October 2022

O louvor que se ergue da fé





DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM


L1: 2 Reis 5, 14-17; Sal 97 (98), 1. 2-3ab. 3cd-4
L2: 2 Tim 2, 8-13
Ev: Lc 17, 11-19 

"Os confins da terra puderam ver a salvação do nosso Deus" anuncia o salmo que ouvimos neste Domingo, expressão de louvor que se ergue da boca ao reconhecer as maravilhas que Deus realiza, e que reconhece que a sua acção não se deixa limitar por fronteiras. Assim, todos estamos ligados numa só humanidade. 

Na raiz deste louvor está a fé, que nos possibilita, com a visão que esta inaugura, reconhecer o amor de Deus e empreender caminhos novos. É este o caso do Sírio Naamã que se encontrando doente, parte ao encontro do profeta Eliseu e que diante do convite que este lhe faz de se banhar no Jordão, acaba por assentir após grande hesitação. É a fé, a confiança depositada, que torna possível este passo decisivo para a sua cura e que depois este quer agradecer mediante um sacrifício de louvor. Não é por acaso que os Padres da Igreja aqui leram frequentemente uma tipologia do baptismo, que faz entrar numa vida nova, mas que deve ser cuidada para poder crescer.

A fé nasce desta assimetria do amor de Deus, que sempre tem primazia temporal. Assim, o vemos na acção de Jesus que envia para o templo estes dez leprosos, os quais são excluídos da sociedade, caminho que estes aceitam fazer. Repare-se que é apenas durante o caminho que estes são curados e não logo no início, sinal claro de um percurso feito em desrespeito das normas vigentes, que os mandava estar excluídos. Assim a fé alicerça o início da resposta, de se colocarem em caminho apenas pela confiança na acção da Palavra de Deus, para aí encontrarem a salvação; a resposta surge apenas durante o caminho e não logo no início, como tantas vezes somos tentados. A fé tem a capacidade de fazer pessoas novas, que por amor, aceitam percorrer caminhos novos, tantas vezes em rutpura com os hábitos ou caminhos velhos. 

Mas a fé, que leva à caridade, tem necessidade de ser cantada e celebrada, como são as realidades que na nossa vida lhe dão sentido. Para isso é preciso um coração simples e de criança que saiba cantar sem receios a alegria de se reconhecer amado. 

Saturday, 1 October 2022

A fé, sustento da vida fiel




DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM


L1: Hab 1, 2-3; 2, 2-4; Sal 94 (95), 1-2. 6-7. 8-9
L2: 2 Tim 1, 6-8. 13-14
Ev: Lc 17, 5-10 

A liturgia da palavra deste domingo coloca diante de nós a oportunidade de reflectir sobre a fé. Desde logo compreendemos como a fé se distingue de uma crença vaga numa entidade superior. As leituras colocam como a fé é dinamismo que necessariamente envolve a vida. Não há fé apenas de fim de semana. A primeira leitura narra como o profeta Habacuc, no contexto do exílio da babilónia, diante do sofrimento e da injustiça é convidado a profetizar que a fé é sustento para nos mantermos fieis no meio das tribulações e que se nos deixamos arrastar, caímos. E por isso a fé guarda a capacidade de esperar que o bem aconteça e concorre para isso. 

Semelhante apelo é feito por Paulo a Timóteo, para que este não se deixe levar pelo desânimo, mas que permaneça fiel, não de forma passiva, mas dando testemunho de Jesus, palavra que tem a sua etimologia na palavra martírio. 

No Evangelho a tónica é aprofundada. Ao pedido dos discípulos para lhes ser aumentada a fé, diante da necessidade de dar o perdão de forma livre e constante, Jesus replica com a imagem da fé como grão de mostarda. Não está somente em causa o tamanho da semente, mas sobretudo a sua característica de muito crescer, de modo a se tornar espaço para os outros, onde os pássaros cantam. Assim a fé molda a vida para manter e guardar a atitude fundamental de permanecer ao serviço, não de forma ocasional, mas de forma permanente. É a fé que leva a guardemos no tempo a consciência do dom que recebemos, que somos e que damos.  

No nosso tempo, em que tudo parece ser tão efémero, a fé é realidade importante a testemunhar. É pela fé, que consciência do amor recebido de Deus, que surge o compromisso de testemunhar, mesmo no meio de dificuldades que só assim a vida encontra sentido.