Friday, 29 December 2023

Amor, justiça e paz, votos de ano novo!

 

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – SOLENIDADE

L 1 Num 6, 22-27; Sal 66 (67), 2-3. 5-6 e 8
L 2 Gal 4, 4-7
Ev Lc 2, 16-21

Um ano ano se inicia, nesta data em que se celebra o oitavo dia da Solenidade do Natal e que dedicamos à festa de Santa Maria, Mãe de Deus, dogma proclamado no concílio de Éfeso. Também neste dia S. Paulo VI, dedicou, em 1967, o primeiro dia do ano como dia mundial da paz. É também com o desejo de paz no coração que iniciamos este novo ano.

É difícil para nós pensar nesta época do ano e não nos lembrarmos do valor da paz, como singular dom de Deus.

A bênção araónica que ouvimos neste dia do livro dos números é, segundo os estudiosos, é o mais antigo manuscrito do século VII a. C. encontrado até hoje em placas de metal, o que retrata a sua importância. Este texto invoca o Senhor como Deus que ama o seu povo, para que o proteja, o abençoe, olhe para o seu povo, o acompanhe e lhe dê a paz. O sentido profundamente religioso deste texto está carregado da consciência da fé de que o Deus de Israel é um Deus próximo. Nesta bênção tão antiga estão também os nossos desejos mais profundos: o desejo de ver a vida crescer e se multiplicar de amor para com aqueles que nos rodeiam, o desejo de podermos sentir a presença e o olhar de Deus que cuida de nós, num tempo em que somos tocados por dificuldades e de nos ser dado a paz, não apenas como ausência de conflitos, mas sobretudo como aquela que nasce da justiça e do perdão. Acho que todos ansiamos por isto: amor, justiça e paz.

Todavia, a maior bênção de Deus é-nos dado em Filho, feito homem para nós, do qual recebemos a maior graça: Deus faz-nos seus filhos adoptivos e revela-nos a grandeza do seu amor por nós. É Ele sempre a tomar a iniciativa, a vir ao nosso encontro, neste tempo na fragilidade e simplicidade de uma criança.

O Evangelho que ouvimos mete-nos dentro do presépio, espaço para onde acorrem os pastores, os últimos da sociedade; são eles que na sua simplicidade contam o que ouviram e depois regressam louvando e glorificando por tudo o que tinham ouvido e visto. É sempre a simplicidade e a humildade que permitem fazer emergir a alegria, deixando transparecer a gratidão diante das maravilhas que tocamos. E com os pastores podemos aprender a atenção aos bens que recebemos e louvar a Deus na alegria.

Mas também olhamos para Maria neste dia e vemos nela a grande figura deste dia. Vemos nela aquela que acolhe a bênção e dá ao mundo o Filho de Deus. Ela é modelo de acolhimento e de cuidado para a humanidade. Ela escuta, ouve e guarda no seu coração tudo o que vai acontecendo, ou seja vai compondo e não cai na tentação das respostas rápidas e fechadas. Tantas vezes queremos entender Deus de maneira rápida e fugidia! Maria compreende que os acontecimentos de Deus demoram tempo para ser comtemplados e meditados. É daqui que nasce a capacidade de nos treinarmos a não nos deixarmos ficar fechados em quartos fechados sem soluções e a cair em desânimos; no meio da aparente contradição da simplicidade do presépio, Maria surge como sinal de esperança a ensinar-nos a discernir a ação de Deus. De facto, um coração purificado por Deus procura guardar a acção de Deus que passa nas nossas vidas, por perceber que Deus só pode abençoar. Maria é aquela que estando tão descentrada de si se entrega totalmente. 

O Papa Francisco na mensagem que escreveu para o dia mundial da paz vem lembrar-nos da nossa necessidade de nos cultivarmos o cuidado das relações humanas diante da emergência da Inteligência artificial. Recorda-nos o Papa que nunca podemos deixar de ter discernimento no uso dos bens da eletrónica, que nascem do engenho humano e que tanto bem permitem realizar. Todavia, estes mesmos bens correm o risco de nos alienar da comunhão e relação uns com os outros, e nos procurarmos juntos os caminhos para percorrermos. Mais do que apenas informação recebida, importa cultivar a sabedoria de vida, em que no centro está a vida de Deus e o cuidado da dignidade de cada um.

Que a bênção de Deus nos alargue as fronteiras do nosso coração para darmos lugar à paz que só Ele pode trazer. Como nos diz S. Leão Magno: «É a paz que gera os filhos de Deus, alimenta o amor e cria a unidade. Ela é o repouso dos santos e a mansão da eternidade. E o fruto próprio desta paz é unir a Deus os que separa do mundo.»

Ser família à imagem de Deus

 

DOMINGO dentro da Oitava do Natal

Sagrada Família de Jesus, Maria e José – FESTA

L 1 Sir 3, 3-7. 14-17a (gr. 2-6. 12-14); Sal 127 (128), 1-2. 3. 4-5
L 2 Col 3, 12-21
Ev Lc 2, 22-40 ou Lc 2, 22. 39-40 

Celebrar o mistério do Natal é celebrar o facto de que o nosso Deus assume toda a nossa humanidade em todos os seus aspectos para a elevar e redimir. E isto acontece também na vida da Sagrada família.

Jesus cresce numa família, que como todas as demais, marca a nossa forma de ser e de estar sobretudo pela forma como se vive e expressa o amor. Mas no centro da Sagrada Família está a acção de Deus. É neste contexto que vemos a consagração de Jesus a Deus, como estava previsto para todo o primogénito varão em Israel. Mas logo se percebe nesta celebração ritual nada haveria de habitual. Ambos Simeão e Ana se alegram com este menino, pois Ele é o sinal de que Deus não desiste da humanidade e leva a sua misericórdia até ao fim. Um olhar de fé sempre vê em Jesus um sinal de esperança para a nossa humanidade. Hoje somos nós os Simeões e as Anas, que devemos ser movidos pelo Espírito Santo, e dispostos a acolher o Deus menino que vem à nossa vida.

Tal como a Sagrada família, as nossas famílias vivem na sintonia da misericórdia divina quando o são à semelhança da Santíssima Trindade. As leituras deste domingo ajudam a identificar alguns destes pontos: 

1. O amor partilhado nos esposos que se entregam totalmente um ao outro para constituírem uma só carne, ou seja, uma forma de vida única, marcada pela comunhão e fidelidade. Bem sabemos que no nosso mundo que o matrimónio está em crise, numa sociedade em correria constante, com lares desfeitos e tentativas de equiparar outras formas de vida à família tradicional, e num tempo de grande instabilidade. Todavia a fé mostra-nos que é do amor fecundo entre homem e mulher que a sociedade cresce e participa do poder criador de Deus. Celebrar o Matrimónio não significa apenas estabelecer um pacto ou assinar um papel, mas criar uma relação abençoada por Deus que une os esposos para partilharem juntos a vida. E onde se acolhe a benção de Deus, a vida multiplica-se. 

2. O livro da Sabedoria falava em honrar pai e mãe, como condição para o perdão dos pecados, para a alegria e da necessidade de cuidar na fragilidade da vida. Honrar é expressão de reconhecer o lugar único daqueles que nos geraram, e com a vida e dedicação acolheram transmitiram os acontecimentos mais importantes de cada casa. Assim, a missão da educação é tarefa que pertence em primeiro lugar à família, que é ela que tem a missão de fazer crescer em graça cada filho, com a ajuda de Deus. Educar não é impor; educar e formar é ajudar a emergir e dar forma ao bem que Deus coloca em cada um, mediante uma relação de amor. Só no amor se pode educar, como só no amor se pode verdadeiramente obedecer. 

3. O cuidado é também sinal essencial em cada família. Esta é espaço onde o amor se concretiza em cuidado pelos demais, sobretudo nos momentos mais frágeis da vida, onde o cuidar, sendo tantas vezes difícil, é também fecundo de um amor que se leva até ao fim. 

4. A família é escola de amor e de serviço, mediante os valores da «bondade, humildade, mansidão e paciência» como nos diz S. Paulo. O amor reveste-nos destes dinamismos, que são fundamentais para que todos possam ter o seu espaço, onde cada um se pode partilhar e revelar, consciente de que a lógica de procura de primazias sobre os outros é sempre destrutiva. Sem humildade será extremamente difícil que o suporte mútuo e o perdão sejam uma realidade. Quem assim vive tem sempre espaço para os demais, aceitando muitas vezes morrer para o mais imediato por amor do outro. Nestes valores, o amor floresce e encontra sempre um caminho. 

O amor faz emergir o melhor em nós e nos outros e cria-nos a consciência que de facto pertencemos uns aos outros. É por isso que nos identificamos num grande corpo, em primeiro lugar na família, mas depois em Igreja. A Igreja é de facto "família de famílias", pois pertencemos ao grande corpo de Cristo, como nos diz São Paulo. 

Numa Igreja viva devemos conseguir identificar os mesmos sinais que veríamos numa família e vice-versa, na comunhão, no serviço mútuo, na partilha de vida. Se por um lado somos chamados a distinguir o que se quer colocar como igual ao modelo de família no Matrimónio, a nossa missão em Igreja leva-nos a acolher e a dar a conhecer a todos a vida da Sagrada família, a qual responde à missão de ser rosto de Deus, mesmo no meio das dificuldades que atravessou. A fecundidade, a partilha, a complementaridade, o cuidado, o perdão e entrega de vida são sinais essenciais da presença de Deus, do Espírito Santo, "Senhor que dá a vida". 

Não tenhamos dúvida que a misericórdia de Deus pode converter os nossos corações, purificando-nos da nossa dureza e fazendo emergir a verdadeira alegria. Se as nossas famílias têm falhas e dificuldades, têm também muito amor quando procuram responder ao amor de Deus, e assim poderem ser pequenas Igreja Domésticas.

Sunday, 24 December 2023

Um Deus feito homem como nós!

 


Homilia do dia de Natal 2023

 

Celebramos hoje o Mistério do Natal do Senhor, data central para nós, cristãos. Este dia é um dia de festa da revelação do amor de Deus, ao qual se nos acostumamos, corremos o risco de deixar de viver: Deus assume a nossa humanidade, entra na nossa existência, abaixa-se e faz-se frágil por nós, para nos convidar a viver em comunhão com Ele. Ele, o Deus do Princípio, o Deus do Poder e Força, torna-se para nós, Deus de proximidade e de confiança, envolvido em panos e cheio de fragilidade.

Na nossa humanidade, totalmente unida com a divindade em Jesus Cristo, Deus sente com o coração humano e quer ser para nós sinal de paz e de alegria, de que o verdadeiro poder da criação reside no amor. E assim vemos um Deus que se faz frágil e que se confia nas nossas mãos, apontando a sua vida como caminho de luz para nós. Deus sente com toda a inteireza do que somos, mas não se deixa cair no ressentimento que tantas vezes desfigura a nossa vida e levanta muros de relação, onde a paz e comunhão são arruinadas. Deus sente e chama-nos a termos em nós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus (cf. Fil 2, 5), como afirma São Paulo.

Hoje, é de cada um de nós que Ele se aproxima, na força da sua Palavra, capaz de nos curar e voltar a abrir um coração às vezes empedernido, ou por vezes mais frio, mas sempre capaz de amar, que cada um de nós pode encontrar força para tentar percorrer caminhos novos de paz, connosco e com os outros. O drama da humanidade é tantas vezes depositar mais a confiança nas trevas do que luz, mais em janelas fechadas do que em portas abertas, que nos impedem de voltar a redescobrir o valor da comunhão, da amizade e do perdão. E o sinal do Menino, nascido para nós e adorado pelos pastores, faz-nos intuir, como dizia o texto do evangelho de São João, que esta renovação acontece por “graça e verdade” e não pela imposição da Lei. Graça e verdade, isto é, fazer emergir em nós porventura o amor que possa estar mais escondido, deixando atuar em nós a força do Espírito Santo.

Por isso, o Natal é sempre ocasião de alegria, porque na base de tudo está a esperança de um Deus que se entregou totalmente por nós, aceitando ser um de nós. Ele que nos conhece totalmente, na nossa vida, chama-nos a viver em comunhão uns com os outros. Nele, que é a Verdade, somos todos os dias recriados no seu amor, a qual só pode operar em nós pelo nosso desejo e liberdade. Jesus mostra-nos que a misericórdia e a simplicidade de vida são caminhos que nos aproximam do essencial, da vida que todos queremos e desejamos viver.

Por isso, o Natal é uma sempre a celebração do poder de Deus que nos dá vida e nos convida a entrar numa atitude de adoração como os pastores, que são capazes de se alegrar com os anjos e cantar as maravilhas de Deus.

O presépio de Belém, neste ano que celebramos os 800 anos da recriação do nascimento de Jesus em Greccio por São Francisco de Assis, é o sinal de Deus simples e próximo que se entrega totalmente, onde o calor da ternura da Sagrada Família é mais forte do que o frio daqueles que não têm espaço acolher para o Senhor. Mesmo no meio das dificuldades, este sinal tão próprio desta altura, recorda-nos que Deus ao assumir totalmente a nossa vida, nos chama a ser inteiros em tudo o que fazemos, a nos entregar aquilo que amamos e que vem de Deus. E quanto mais inteiros formos, ainda que na simplicidade, mais a vida será vivida do essencial. E é sempre do essencial que toda a vida emerge e se constitui.

Termino partilhando convosco algumas palavras em jeito de oração:

 

Tu és o Deus que sente

mas que não se ressente

que frágil te aproximas de nós

e te confias nas nossas mãos.

 

Tu és o Deus da Palavra

em cujos silêncios ou partilhas 

há sempre revelação do teu amor

para nos erguer e abrir a nossa dor.

 

Tu és o Deus omnisciente

que nos conheces por inteiro

e que sabiamente nos formas

e sem nos manipular, és nosso oleiro.

 

Tu és o Deus omnipotente

que escancaras a porta à humanidade

e no calor sentido de vida que és

nos convidas a ser inteiros como tu

e nunca a viver apenas pela metade.

 

 

 

Saturday, 23 December 2023

Maria, modelo dos crentes.

 

                                                   Image by Dorothée QUENNESSON from Pixabay 


DOMINGO IV DO ADVENTO


L 1 2 Sam 7, 1-5. 8b-12. 14a. 16; Sal 88 (89), 2-3. 4-5. 27 e 29
L 2 Rom 16, 25-27
Ev Lc 1, 26-38 

As leituras propostas fazem-nos olhar hoje de maneira mais especial para a figura da Virgem Maria no grande acontecimento da Anunciação. Vemos aqui toda a pedagogia divina para com Maria e como o Senhor leva ao cumprimento das promessas feitas a David, da promessa feita por Deus como resposta ao seu desejo de habitar no meio de nós. Deus habita no meio de nós, não pelos grandes edifícios que fazemos, mas ao assumir a nossa humanidade. É d'Ele sempre toda a iniciativa que nos convoca a nós para lhe respondermos. 

O domingo que celebramos hoje é mais um passo certo no caminho do mistério do Natal, do mistério de Deus que nos vem revelar a nossa vocação para vivermos em verdade como seus filhos. No centro deste acontecimento, está a figura da Virgem Maria, modelo dos crentes. 

É dela que se aproxima o anjo, o mensageiro, que vem em nome de Deus para dirigir a Palavra, a ela escolhida e "cheia de graça", já santificada por Deus para iniciar uma nova aliança. Maria acolhe e  escuta o chamamento de Deus para bem de toda a humanidade. No seu sim, o Verbo de Deus faz-se carne por meio de Maria e assume a nossa humanidade. E isto acontece por graça do Espírito Santo, que é "o Senhor que dá a vida" e sempre que é acolhido produz maravilhas. Mas para isto foi preciso Maria ter-se feito dom, ter entregado a sua vida no seu acolhimento e ter confiado totalmente na bondade de Deus. Quanto mais confiamos e aproximamos de Deus, mais a nossa vida ganha sentido e proximidade para com aqueles que nos rodeiam. 

Se na antiga Eva se levantou a dúvida sobre Deus, em Maria a sua confiança abre para todos nós a porta da vida nova, da vida que supera a desconfiança e medo de Deus. Em Maria podemos aprender a responder sim a Deus, com a entrega da nossa vida, deixando-nos purificar do egoísmo e dos horizontes estreitos. Reparemos no amor com que Deus trata Maria, pela figura do anjo. Toda a relação é marcada pelo conhecimento profundo da identidade de Nossa Senhora. Foi assim com Maria, é assim connosco. Acreditamos num Deus que nos conhece e que quer se relacionar connosco, e que assim nos torna únicos. É também por isso que a nosso coração tanto anseia descansar e conhecer o Mistério de Deus; e aqui encontramos a raiz da nossa vocação humana. 

Se queremos compreender a nossa vocação, realidade que percorre toda a nossa vida, olhemos para a atitude de Maria. Deus criou-nos para o conhecer e vivermos à sua imagem. Acolher a sua Palavra e viver a "obediência da fé" como refere São Paulo, significa que nos dispomos a entrar em comunhão de vida de amor. Amor que é a origem da criação, amor que supera a nossa capacidade e que revela a nossa vida. É só pelo amor, que Maria acolhe, que Deus nos chama a todos e nos faz participantes desta relação. Amor que por ser verdadeiro não passa nem nos ultrapassa, mas que nos acompanha e nos espera. 

A vocação cristã tem sempre qualquer coisa do sim de Maria. Maria entrega-se e abandona-se a Deus por toda a humanidade; a nossa vocação, enquanto caminha na sua purificação, também é entrega pela mesma humanidade. E na entrega que faz, sintoniza a mesma frequência de Deus. Como Maria, deixemos o olhar amoroso de Deus entrar em nós e despertar-nos para vivermos o sonho e a vida a que somos chamados. 

Thursday, 7 December 2023

Maria, dom de vida de Deus para todos




IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA,


L 1 Gn 3, 9-15. 20; Sl 97, 1. 2-3ab. 3cd-4
L 2 Ef 1, 3-6.11-12
Ev Lc 1, 26-38 


A celebração da Imaculada Conceição permite colocar diante de nós duas atitudes de vida, a humanidade, da nossa maioria, que cede diante das insinuações da dúvida sobre Deus e a da nova humanidade, simbolizada na figura da Virgem Maria, que se volta para Cristo, chave da história. 

É assim que vemos no relato dos primeiros pais, que se escondem de Deus, diante da consciência da sua vulnerabilidade, motivados pelo medo e pela vergonha, e onde a agressividade emerge entre os dois e entre estes e a criação. Mas Deus, continua a chamar, e não abandona a humanidade à sua sorte; este mesmo Deus, continua a santificar, a quer elevar no amor a humanidade. 

É mesmo para a santidade que Deus chama, como descreve a carta aos Efésios, como a característica que define a nossa vida, como condição de abertura ao dom que somos. Quantos mais santos, mais autênticos, pois é para isso que a nossa existência está predestinada. Chamados a viver como filhos adotivos e para sermos um hino de glória de Deus. 

Se é em Cristo que somos santificados, a celebração da Imaculada Conceição lembra-nos que a Sua vinda é já preparada no dom de Maria, purificada de todo o pecado original, ou seja, purificada de tudo aquilo que faz em nós gerar desconfiança de Deus. Assim Maria é Mãe de Deus, mas neste dom, a sua vida é também admirável para nós. Diziam os antigos, Maria é a porta do céu, por cuja existência nos é dado a conhecer Jesus Cristo. Ela é por isso a primeira das redimidas da humanidade. 

Nela vemos a antítese do que víamos no livro do Genésis: ela não se esconde, mas aproxima-se sem disfarçar os seus sentimentos daquele que lhe anuncia a boa nova. E por isso, pergunta, confia e entrega-se. 

Do mesmo modo, Maria confia na misericórdia divina, amor sob o qual constrói e entrega a sua vida, e também parte em missão para esta missão. 

Celebrar a Imaculada Conceição é por isso celebrar a consciência de que a nossa humanidade tanto mais se realiza quanto mais se deixa santificar por Deus. 

Friday, 24 November 2023

Chamados a cuidar das necessidades humanas

 




DOMINGO XXXIV DO TEMPO COMUM

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO
SOLENIDADE

L 1 Ez 34, 11-12. 15-17; Sal 22 (23), 1-2a. 2b-3. 5-6
L 2 1 Cor 15, 20-26. 28
Ev Mt 25, 31-46 


A liturgia da Palavra deste Domingo coloca-nos à volta de Cristo Rei, que vem julgar e distinguir, algo a suceder no final dos tempos, onde todos estarão juntos. Neste final vemos cumprir-se o julgamento feito com base no amor, que se traduz em cuidado. Mas antes importa compreender como a escritura para nos fazer entender o Reinado de Cristo como cuidado de bom e belo pastor. 

Assim, Ezequiel, na primeira leitura, nos remete para Deus como bom pastor, que havia de cuidar do seu povo, mediante a condução, o repouso, a procura dos que andam perdidos, o cuidado dos feridos e o encorajamento dos fortes; tudo situações nas quais todos nos podemos rever e ver a nossa sociedade. Mas no final destaca-se a justiça, como nota distintiva daquilo que fica do caminho que cada um percorre. 

É próprio do governo entender o poder como cuidado - algo que o hebraico expressa como radah (governar, dominar, cuidar) - missão especial do rei, que recebe o poder de Deus e o deve exercer para o bem-estar de todos e não o seu em primeiro lugar. 

É este o poder de Cristo, que serve a humanidade com a sua vida, para nos fazer justos, cuidadosos e atentos aos que nos rodeiam, identificando-se Ele com os mais pequeninos. É isto aqui que vemos ser também aplicado no juízo final. As perguntas do Senhor sobre o cuidado aos outros prendem-se com as necessidades humanas básicas: fisiológicas (fome, sede), de segurança e proteção (abrigo e o vestuários), e de cuidado e caridade (visitar os doentes e os presos). Em todos os casos há assimetria entre quem dá e nada espera receber. 

Viver assim implica ter a consciência de que o dom da nossa vida tem uma segurança maior, que se apoia no amor divino, de Cristo que morreu e ressuscitou por nós. Neste sentido, a ligação entre ação e contemplação será sempre inseparável. 

Saturday, 18 November 2023

Temer a Deus sem medo mas com amor




DOMINGO XXXIII DO TEMPO COMUM


L 1 Pr 31, 10-13. 19-20. 30-31; Sl 127 (128), 1-2. 3. 4-5
L 2 1Ts 5, 1-6
Ev Mt 25, 14-30 ou Mt 25, 14-15. 19-21

À medida que nos aproximamos do final do ano litúrgico vai-se sublinhando cada vez mais a dimensão que nos aponta para a forma como vivemos o tempo que nos é dado. É neste sentido que o evangelho nos volta a colocar diante um episódio de espera, agora não do noivo, mas de um senhor. 

Notemos que o evangelho nos coloca diante de três pessoas, às quais é confiada uma quantidade imensa de metal precioso, ora cinco, ora três, ora um talento, sendo que cada talento corresponde a cerca de 60 kg. Como tal, podemos fazer a leitura das capacidades pessoais que nos são dadas, mas tenhamos presente primeiro toda a dimensão de dom que este "senhor" faz a cada servo. De facto, o primeiro e maior dom que Deus dá é a vida a cada um, com mais ou menos dias, mas sempre chamando todos a se viverem uma vida plena. 

Na raiz de tudo está a imagem que se tem de Deus, recebida na educação desde os primeiros anos e construída nos caminhos que a nossa vida percorre e nutrida no dom do Espírito Santo. É ela que sustenta os primeiros a tomarem os riscos necessários, a saberem alargar o espaço das suas tendas e aumentar os dons que os habitam para se expandirem mais. Já o último, foi o medo e não a escassez, que o inibiu a arriscar, por achar que o senhor era um homem severo, rude, ou até agressivo (grego=skleros), algo muito distante da imagem inicial do homem que entrega e confia para se multiplicar. De facto, na missão podemos partilhar oportunidades e capacidades, mas cada um vive sempre a sua vida e é responsável pelo que escolhe.  

A nossa vida é por isso um grande dom de Deus, mas também é o caminho que percorremos e decidimos. Não deixa por isso de ser interessante notar as qualidades que lemos nas primeiras duas leituras, onde identificamos na figura feminina o cuidado dos que nos rodeiam, a prudência de procurar escolher o melhor, a capacidade de iniciativa e não ficar estagnado, o estar atento ao mundo que nos rodeia e a sobriedade, como dimensão essencial para não se deixar carregar, nas costas e no coração, com aquilo que atrasa a realização do bem. Que possamos temer a Deus, não com medo, mas com o desejo de não deixar de fazer o bem que está ao nosso alcance. 

Friday, 10 November 2023

A graça de acompanharmos a Igreja


 

DOMINGO XXXII DO TEMPO COMUM


L 1 Sab 6, 12-16; Sal 62 (63), 2. 3-4. 5-6. 7-8
L 2 1 Tes 4, 13-18 ou 1 Tes 4, 13-14
Ev Mt 25, 1-13 

Celebramos este domingo, no qual, parece-me, a Palavra de Deus nos  aponta o lugar especial da sabedoria na nossa vida. Assim se iniciava a primeira leitura, do livro da Sabedoria, dando-nos conta de que a sabedoria é um dom de Deus, perene mas profundamente dinâmica e bondoso. E como todos os dons que vêm de Deus, ela faz-se encontrar quando o procuramos, ou seja, quando procuramos sintonizar na vida com a Verdade e Bondade. 

Para nós cristãos, esta sabedoria, tem um nome e é o Verbo de Deus Encarnado, Jesus Cristo. É Ele o verdadeiro esposo da humanidade, que assume as nossas vidas para as elevar até Deus. Mas nós também temos que querer ser elevados. E é precisamente isto que vemos narrar-se no evangelho, neste relato de um casamento no qual participam 10 virgens. Notemos que o texto é omisso quanto à noiva e não há tradição no Antigo Testamento de poligamia no casamento, à exceção da era patriarcal, e nunca nestes números. 

Como sempre no texto bíblico, esta situação não é casual, mas intencional. E aqui podemos ler a Igreja, a Nova  Jerusalém, como a noiva que se prepara para o casamento e em que o noivo é o Cordeiro de Deus (Ap. 21). Portanto, as virgens representam todos os crentes, toda a humanidade, que caminha ao lado da noiva, e da qual se alegram e procuram iluminar a ida e seu redor. 

O apelo à sabedoria encontra-se aqui: a termos e cuidarmos para ter a lâmpada acesa, num mundo de inesperados, a sabermos alimentar a nossa vida com o azeite da perseverança e da esperança do encontro definitivo do Reino dos Céus. Este azeite alimenta-se da oração e das obras boas e belas que povoam a nossa vida e iluminam o nosso olhar para ver mais longe. 

O desafio é tremendo, mas belo e sempre apoiado na graça de Deus, que recebemos por meio da Igreja: a não desanimarmos nunca do encontro final. É ele que orienta a nossa vida, onde o amor há-de preencher tudo em todos, como exortava Paulo para animar os Tessalonicenses. E este horizonte torna-nos profundamente presentes em cada dia para amarmos de corpo inteiro o nosso próximo. 

Friday, 3 November 2023

Anunciadores de corpo inteiro




DOMINGO XXXI DO TEMPO COMUM



L 1 Ml 1, 14b – 2, 2b. 8-10; Sl 130 (131), 1. 2. 3
L 2 1Ts 2, 7b-9. 13
Ev Mt 23, 1-12 


A liturgia da palavra do próximo domingo coloca diante de nós a denúncia do profeta Malaquias, o último livro do canon do Antigo Testamento, pelos sacerdotes do Templo Antigo terem deixado de anunciar a Palavra de Deus e fazerem sua correta interpretação, tendo levado tantos a tropeçar e por agirem por acepção de pessoas. Este texto bíblico mostra-nos a importância dos líderes na vida da Igreja, missão para a qual todos somos chamados, e que nos remete para a responsabilidade do cuidado daqueles que são mais frágeis e de apoiar os que mais precisam, como missão que assenta no Pai, que governa toda a criação. 

É precisamente a missão de ensino que Jesus explora nas elites judaicas do seu tempo. Ele denuncia os que ocupam o lugar da cadeira de Moisés, lugar de destaque na sinagoga de onde o mestre religioso interpreta a Lei para os seus contemporâneos. Mas Jesus neste trecho explora a forma como é feita a interpretação e associa de forma clara a vida do interpretador com as suas palavras. São duas as críticas: hipocrisia - dizem e não fazem - e a vaidade - fazem para serem vistos. 

Neste sentido, Jesus recusa os títulos habituais dados a estes homens: mestres, pais e doutores, e remete para a fonte, para Deus. Do mesmo modo, também insere como qualidades indispensáveis para o anunciador o serviço e a humildade. Servir o Povo pela partilha da Palavra, colocando-se primeiro como seu ouvinte e sem se fechar em esquemas habituais e humildade, virtude indispensável para quem quer continuar sempre a aprender e a ser discípulo. 

As palavras de Jesus são de uma força extrema e orientam a nossa vida para olhar para Ele, pois só Ele é a chave de interpretação da escritura, como servo humilde e todo entregue por nós. 

Esta mesma nota verificamos em S. Paulo. O apóstolo de Tarso associa a missão do anunciador ao cuidado de acalentar, ou seja embalar com carinho, cuidado e canto, o povo que tem á frente. Por isso, qualquer anunciador da Palavra de Deus tem de se envolver inteiramente no que faz; baixar a fasquia será aproximar-se de ser "vendedor de banha da cobra". 

Wednesday, 1 November 2023

Santos ao pé da porta

 




TODOS OS SANTOS – SOLENIDADE


L 1 Ap 7, 2-4. 9-14; Sal 23 (24), 1-2. 3-4ab. 5-6
L 2 1 Jo 3, 1-3
Ev Mt 5, 1-12a

 "Creio em (na) Igreja Santa" diz o credo Niceno-Constantinopolitano. A afirmação é estranha e até recusada por muitos nos nossos dias. Todavia é uma afirmação da identidade da Igreja. Porém, a santidade da Igreja não lhe advém da força dos fiéis, mas antes assenta na santidade de Deus. É importante olhar para tentar ver como Deus é santo para depois se compreender a que santidade somos chamados e motivo por isso desta grande solenidade. 

Deus é santo, o qual comunica da abundância de si e se revela, em Jesus Cristo, como Trindade numa Unidade em comunhão. Ou seja, Deus é relação transbordante de Amor e Acolhimento mútuo, que cria a vida e a deixa existir por si e a tudo o que existe. Mas é pela pessoa humana que Deus se desloca e dá inteiramente. Isto acontece no dom do Seu Filho entregue para extinguir o pecado, ou seja, para libertar daquilo que corrompe o coração e destrói a dignidade humana; mas também pelo dom do Espírito Santo, que nos quer ajudar a viver como Filhos à imagem do Filho.

A santidade não é o ensimesmamento, mas a liberdade para amar. Para nós e por nós, o nosso Deus quer-nos semelhantes a Ele e por isso não se cansa de ser misericordioso connosco. A santidade é assimétrica, pois vem de Deus e é Ele que, como absolutamente Transcendente, nos sustenta no amor para dar. A santidade é a vida humana a ser já divinizada aqui e agora e que responde ao mais profundo anseio do coração humano. 

A leitura das bem-aventuranças traduz esta mesma realidade. Jesus, no alto do monte, ensina as multidões já não no estrito cumprimento da Lei, já não na lógica do que "não se pode fazer" (ainda que os mandamentos coloquem o amor como o primeiro mandamento), mas anuncia como Bem-Aventurados (makarioi=abençoados, felizes [https://biblehub.com/greek/3107.htm]) aqueles que vivem acolhedores e entregues aos outros. Mas por onde começar nas bem-aventuranças?

Mateus é o evangelista que escreve para o povo judeu. Se repararmos, em Mateus existem nove bem-aventuranças, lembrando a Chanukiá, o candelabro de nove braços que assinala a libertação do templo de Jerusalém da invasão grega, e que constitui a base para a Hanukkah. No centro destas bem-aventuranças está a da misericórdia, lembrando a vela mais alta desse candelabro, a shamash (servo em hebraico), e que usada para acender todas as outras. Nesta imagem, percebemos que é a misericórdia o centro da santidade, a força de querer fazer e ser o bem para os demais que alimenta o desejo da entrega. 

Não é por isso de admirar que seja a santidade a força que realmente é capaz de renovar o mundo. Longe de uma imagem pietista, a santidade traduz uma força criadora e é a base para poder agir em cada contexto na construção aqui e agora do Reino de Deus, onde mora a paz, justiça e alegria (cf. Rom 14, 17). 

Por isso a solenidade que celebramos assinala tantos sinais de santidade que todos já tocamos e vimos. Gente como nós e para nós que caminharam ao nosso lado e que nos marcaram com a sua entrega e amor. A festa de todos os santos é a festa da santidade daqueles que vivem à nossa porta (cf. Francisco, Gaudete et exsultate, 7)

Friday, 27 October 2023

Amar é arriscar




DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM


L 1 Ex 22, 20-26; Sl 17 (18), 2-3. 7. 47 e 51ab
L 2 1Ts 1, 5c-10
Ev Mt 22, 34-40 

Este domingo a Palavra de Deus leva-nos a entrar na lógica do amor divino, o qual se apresenta na nossa vida sempre como dom absoluto e gratuito, que ultrapassa todos os nossos méritos, imaginários ou reais. Toda a criação é fruto deste amor e é neste amor que a vida se realiza, não obstante todas as limitações e dramas de coração que conhecemos.

Não pensemos, todavia, que este é um amor com os contornos sentimentais que vemos tantas vezes como apologia no nosso tempo. Embora os inclua, é amor que se traduz em atos concretos. 

Assim, vemos o livro do profeta Isaías a fundamentar a justiça no amor de Deus que cuida e olha pelos mais frágeis, o estrangeiro, a viúva, o orfão e todo o pobre, os quais nunca devem ser explorados na sua indigência e fragilidade, mas cuidados. A tentação é real, de perante a fragidade exposta, de haver quem pense tirar proveito para satisfação própria, tema que percorre toda a escritura. De facto, trata-se da capacidade de se pôr no lugar do outro, de o amar como se quer ser amado ou como se ama a si mesmo.

É nesta temática que Jesus nos faz entrar. O amor devido a Deus, como eco da Shemá Israel, é incontornável e inseparável do amor ao próximo. É este eixo que Jesus nos ajuda a entender. No meio de um debate interminável de mais de um milhar de preceitos positivos e negativos presentes na Lei, Ele mostra que a vida real se centra em no Amor total a Deus, suma verdade, suma bondade e suma beleza, algo que nunca se pode desligar daqueles com quem contactamos no dia-a-dia; mais, amar a Deus implica-nos diariamente para testemunhar com a vida que o centro da vida se encontra aqui, na capacidade de amar.

É a isso que São Paulo nos leva: arriscar a vida para anunciar o evangelho, atitude que ele elogia aos seus discípulos, por não lhes faltar a coragem de dar a vida pelo evangelho, por fazerem surgir no mundo dons da vida de Deus. E nós, como nos arriscamos por Ele?

Friday, 20 October 2023

Devolver a vida a Deus




DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM


L 1 Is 45, 1. 4-6; Sl 95 (96), 1 e 3. 4-5. 7-8. 9-10a.c
L 2 1Ts 1, 1-5b
Ev Mt 22, 15-21 

A liturgia deste Domingo coloca-nos diante de Deus, que é justo e espera a nossa justiça, a quem devemos prestar culto com os lábios e sobretudo com a nossa vida. 

Esta consciência atravessa a primeira leitura, que relata o chamamento de Ciro, rei da Pérsia, justo e chamado por Deus para trazer de novo o povo hebreu à terra de Israel. Assim, Deus volta a cumprir a aliança que havia feito com este Povo. 

Infelizmente o nosso coração é tantas vezes seduzido pelo mal e pelo poder, onde acaba por se instaurar a injustiça, a ganância e a inveja. É isto que este episódio do evangelho relata. Um maquinação de fariseus e herodianos, com vista a colocar Jesus perante um dilema sobre a questão da tributação romana. Dizer "sim" seria anuir com a invasão romana e desacredita-lo diante do povo; dizer "não" seria o pretexto para ser preso pelos romanos por sedição. Mas Jesus responde de maneira distinta e como sempre interpeladora para nós, ao confrontar com os interlocutores com a imagem presente no denário: "devolvei a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". 

Para além da evidente lição que podemos tirar de prudência e sabedoria para não nos deixarmos entrar em lógicas que nos aprisionam, Jesus abre-nos a porta a uma atitude fundamental: procurar devolver a nossa vida a Deus, na imagem que está impressa em nós desde a criação. 

Neste contexto pode ser útil recordar o que Santo Agostinho (De Trinitate X) dizia ao se referir às potências da alma, a saber,  memória, inteligência e vontade, como dimensões do nosso ser e reflexos da Trindade no ser humano. Assim, a memória faz-nos recordar a nossa origem da vida em Deus e como tal toda a nossa história lhe pertence, na qual a sua misericórdia está presente e que influi no hoje que somos; a inteligência diz respeito ao nosso presente, à forma como vemos o mundo e compreendemos o nosso lugar aqui e discernimos o nosso caminho; a vontade abre-nos para tornar concreta a nossa vida e o nosso mundo interior, onde podemos fazer emergir neste mundo o Reino de Deus, mediante a confiança da fé, a verdade ou fidelidade das nossas vidas, a justiça expressa nas atitudes do dia a dia e no culto prestado a Deus e por fim na adoração, expressão do nosso amor filial ao Pai.

É no amor, sempre sincero e reto, que a nossa vida é de facto, devolvida a Deus como tão bem rezava Santo Inácio de Loyola: 

Tomai, Senhor, e recebei
toda a minha liberdade,
a minha memória,
o meu entendimento
e toda a minha vontade,
tudo o que tenho e possuo;
Vós mo destes;
a Vós, Senhor, o restituo.
Tudo é vosso,
disponde de tudo,
à vossa inteira vontade.
Dai-me o vosso amor e graça,
que esta me basta.

[https://youtu.be/4aJOplyVE8w?si=Kef4f7xZVvh-V4Bx]

Friday, 13 October 2023

Um Deus que quer a mesa cheia





DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM


L 1 Is 25, 6-10a; Sl 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6
L 2 Flp 4, 12-14. 19-20
Ev Mt 22, 1-14 ou Mt 22, 1-10 


Talvez de forma estranha ao nosso tempo e cultura ocidental, que tendeu a fazer de Deus uma ideia abstrata, a Sagrada Escritura recorre por muitas vezes à imagem do banquete e da partilha da refeição para descrever a relação de Deus com a humanidade. É isso que vemos no texto de Isaías, um Deus que nos abre a porta da esperança, da comunhão com ele, para todos os povos! A grande virtualidade de Isaías é precisamente o seu universalismo, que aponta um futuro de comunhão com todos. 

O evangelho retoma esta imagem do banquete, do rei que prepara o casamento do filho, uma paráfrase de um Deus que prepara as bodas do seu Filho com a humanidade. A temática continua por isso a lógica da semana passada, da recusa da vinda de Deus, em que vemos como os servos enviados ao longo dos tempos são rejeitados e mal-tratados; ao fazê-lo, rejeitam aquele que os enviou. 

Esta situação é tão mais dramática, quando se compreende que os que recusam são as elites religiosas do tempo de Jesus e a destruição narrada é relativa à destruição de Jerusalém no ano 70, pelo império romano. 

Mas mais do que história e exegese do texto, importa colher dele a compreensão de um Deus que nunca deixa de querer encher a sua mesa e o seu banquete. E assim, são os últimos, os "bons e os maus" que, revestidos da veste nupcial dada pelo rei, preenchem a sala. Esta é a imagem de todos aqueles que recebem o chamamento e guardam a fé, como consciência de uma nova forma de vida em Jesus Cristo, renovados interiormente para participarem da alegria de Deus e serem suas testemunhas no mundo. 

Aquele último "amigo" que surge sem a veste nupcial é imagem de todos os que não guardam a sua fé, como interpretavam os Padres da Igreja ; de facto, é estranho neste contexto ver alguém sem a veste nupcial, uma vez que ela tinha sido dada gratuitamente a todos os que tinham entrado. Lembrança para nós: a vida é um tesouro que deve ser vivido e cuidado na fé, recebido como dom, de quem reconhece, como Paulo, que "tudo pode naquele que o sustenta", mas com perseverança. Já dizia Santo Agostinho: «o Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti». 


Saturday, 7 October 2023

Poder ou serviço?




DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM


L 1 Is 5, 1-7; Sl 79 (80), 9 e 12. 13-14. 15-16. 19-20
L 2 Flp 4, 6-9
Ev Mt 21, 33-43


A liturgia deste domingo leva-nos de novo de volta ao trabalho da vinha, mantendo a lógica da perenidade do chamamento de Deus como povo eleito, mas olhando agora mais de perto para a qualidade da resposta humana. Quer o texto de Isaías, quer o Evangelho, narram-nos a ação de Deus que planta uma vinha, imagem que descreve o amor divino no cuidado esmerado pelo Povo, na expectativa da alegria partilhada entre Ele e a humanidade. 

No caso do profeta Isaías, o drama é retratado mediante uma vinha que produz agraços, ou seja uvas amargas e que não amadurecem, imagem que o profeta usa para descrever o Povo, que apesar do extremo cuidado divino, não vive a justiça e a retidão. Nesta situação, o autor bíblico descreve um certo sentimento divino de desilusão e desistência. 

Já o evangelho narra que os vinhateiros a quem foi entre a vinha, ou seja administradores daquela porção de terra, se passam a sentir donos do bem que lhes foi confiado. Assim rejeitam todos os servos enviados para recolher o fruto produzido. E assim fazem com todos os servos, inclusive, com o próprio filho. Sabemos que os vinhateiros representam as elites religiosas do tempo de Jesus e os servos os profetas que anunciaram a palavra de Deus. 

Todavia, o drama presente nestes escritos está na sede de poder e ganância que absolutiza o controlo que se tem e se esquece que todos somos filhos de Deus. Assim, entramos numa lógica que opõe o poder ao serviço, quando ambos são chamados a unirem esforços em prol do bem comum e da paz. Reparamos que nesta parábola Jesus não critica a inoperatividade dos servos, mas a forma como recebem aqueles que lhe são enviados. 

É este dinamismo tão profundamente espiritual que continua a ser hoje fonte de tantos transtornos para o nosso tempo, na pobreza, na exclusão, na crise ecológica, nas várias fomes. Mas a liturgia apresenta-nos três palavras que podem iluminar a nossa vida: justiça, retidão e paz. A justiça como o bem que deve ser feito, dando a cada um o que lhe é devida; a retidão, sinal da intenção com que fazemos e operamos; e a paz, como descreve São Paulo, que não é a ausência de perturbações, mas o bem feito até ao fim. Para isto, é necessário o que Paulo escreve aos Filipenses: a consciência de que a nossa vida está em Deus e não apenas entregue a nós próprios. 

Saturday, 23 September 2023

Nunca é tarde para dizer sim.




DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM


L 1 Is 55, 6-9; Sl 144 (145), 2-3. 8-9. 17-18
L 2 Flp 1, 20c-24. 27a
Ev Mt 20, 1-16a 

A liturgia da Palavra deste Domingo apresenta-nos a imagem de um Deus que à semelhança de um vinhateiro chama para a vinha. Somos Igreja, somos comunidade de chamados por Deus. 

É neste chamamento que como cristãos identificamos o amor de Deus. Mas reparemos como a fé nunca pode ser uma coisa desligada da vida. A fé envolve toda a vida humana. Assim, o expressa de forma muito eloquente a primeira leitura, que nos interpela para os nossos "pensamentos" e "caminhos", à semelhança de Deus. Dois mundos imensos, que nos tocam e que o Senhor nos pede para remetermos para o Alto. No centro deste texto está, não tanto o nosso esforço, mas a misericórdia de Deus, sendo a conversão a aceitação feliz deste amor. Mas a pergunta podemos guarda-la no coração: Que misericórdia existe nos nossos pensamentos e caminhos?

Esta consciência toca Paulo, que relê os seus caminhos, (foram mais de 16.000 km nas viagens missionárias), o qual vive dividido entre o desejo de deixar tudo e estar com Deus e o trabalho missionário para levar cada um a viver em Deus toda a sua vida. 

É mesmo toda a vida que está em causa. E é isto que nos ensina o denário da parábola. Este homem, dono da vinha, procura trabalhadores para uma missão comum e ajusta o valor com todos de um dia de trabalho. E por cinco vezes o faz. E neste caminho pode surgir, como em tantas outras vezes ao algo da Escritura, a tentação de se comparar com as virtudes dos outros . Mas a vida e seu sabor superam esta lógica pequenina e moralista. O que está em causa é o dom de cada dia, onde nunca é tarde para começar a dizer que sim à vida. Mesmo na última hora. Mesmo no meio das tentações de comparação do que andam há mais tempo e dos que acham que já não têm tempo para iniciar. O grande dom é sempre a relação com a vida, com o o próprio Cristo e os irmãos; para isto, Deus nunca se cansa de chamar. 

Esta é uma liturgia de esperança. No meio das invejas e desânimos que nos habitam, o dom da vida ensina-nos com Cristo que cada início é sempre possível. É possível, em cada manhã renascer, como canta o Hino: 
 
É belo o rosto claro da manhã
Aberto sobre a terra que se expande
Num hino de louvor e adoração.

À luz do sol nascente que as renova,
Levantam sua voz as criaturas,
Anunciando o esplendor do novo dia.

Assim minha vontade, assim meus olhos
Se elevam para Ti: faz-me, Senhor,
Compreender o dia que amanhece.

E acorda-me, meu Deus, cada manhã,
Até que saiba amanhecer seguro
Do teu amor, no dia sem ocaso!


Friday, 15 September 2023

Pela esperança, perdoar!

 


DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM


L 1 Sir 27, 33 – 28, 9; Sal 102 (103), 1-2. 3-4. 9-10. 11-12
L 2 Rom 14, 7-8
Ev Mt 18, 21-35

A revelação de Deus que acontece na bíblia aceita as contingências da história e é influenciada pelo contexto cultural de vários povos. Todavia a progressividade existe, como quem, pouco a pouco vai retirando o pó de um quadro para ver a pintura que lá estava tapada. Assim o vemos de como o de um Deus que apela ao anátema total e destruição da cultura estranha, depois se apela à lei de Talião - "olho por olho, dente por dente" - e que traduz uma primeira medida de contenção da vingança, que consistia em não causar maior dano do que aquele que é recebido. 

A contínua revelação de Deus vai já no Antigo Testamento mais longe. Vemos isso nas leituras deste domingo, e que continua a treinar o nosso coração na arte do perdão, como já ouvíamos na semana passada. O livro de Ben-Sirá reflecte que todo aquele que quer ser perdoado tem de se exercitar na arte de perdoar. Todos nos sentimos a certa altura ofendidos, haja ou não intenção da outra parte. Mas a fé, entendida como aceitação do amor de Deus, gera o conhecimento de que o mal nunca será definitivo. O rancor - etimologicamente designa aquilo que está a apodrecer - é a negação disto e fecha todas as portas do coração. Mal vai a alma onde ninguém passa (cf. Das Homilias atribuídas a São Macário (Hom. 28:PG34,710-711) ), onde o peso da ofensa fica a fermentar e o amor pela vida como dom é incapaz de absolver o mal recebido: tudo fica amargo, tudo fica azedo e pesado. Dizia o padre Gaspar: «Uma pessoa velha amarga é, certamente, uma das supremas invenções do diabo» (Arlindo Magalhães, Padre Gaspar. A via do trabalho e da pobreza, Gráfica de Coimbra 1998, p. 255). 

Esta mesma lógica está presente no Evangelho, mas com acentos diferentes.

O texto do evangelho expõe a nossa tendência a ser calculista, contabilizando as ofensas e o limite do perdão. Nunca o texto descura o cuidado de a pessoa se proteger daqueles que lhe querem fazer mal – a lógica está na ofensa e na dádiva do perdão.

E o perdão, como fruto do amor, não rejeita a pessoa e é para aqui que Jesus nos aponta, lembrando a nossa dívida de amor para com Deus. A parábola coloca a imensidade da dívida do primeiro (10.000 talentos será algo como 150 a 300 toneladas de ouro!) e a grandiosidade do perdão recebido com a mesquinhez da incapacidade de perdoar algo muito menor (200 denários serão aproximadamente entre 60 a 300 euros). 

O texto expõe-nos diante da nossa fragilidade e por quanto fomos resgatados, isto é, o sangue de Cristo. Não se trata de não procurar a  justiça, mas sobretudo de perceber que a dignidade humana é sempre maior do que qualquer dívida. E de que a generosidade é sempre muito maior do que qualquer mesquinhez e cegueira.

Creio que a fé nos permite não ficar presos nas ofensas sofridas, mas nos deixa livres das ofensas que existam no passado para nos apontar a esperança de bens muitos maiores.  Assim, Cristo ensina-nos a perdoar pela esperança de bem do outro e também nossa, e nunca como forma onde a nossa dignidade seja esmagada. Ou seja, pela esperança, perdoar.

Saturday, 2 September 2023

Somos um grande dom




DOMINGO XXII DO TEMPO COMUM


L 1 Jr 20, 7-9; Sl 62 (63), 2. 3-4. 5-6. 8-9
L 2 Rm 12, 1-2
Ev Mt 16, 21-27

A liturgia deste domingo apresenta diante de nós o grande mistério de vida da nossa vida, em que aos nos darmos, ficamos mais ricos, ainda que sejamos tocados pelo sofrimento. 

Isto nos relata a experiência do profeta Jeremias, homem apaixonado por Deus e pelo seu chamamento que o seduziu desde tenra idade e que agora se via a braços com as perseguições por anunciar a Palavra de Deus. A tentação de Jeremias é tantas vezes a nossa: não se incomodar mais com o mal, calar-se e inibir-se o tesouro da Palavra que trazemos dentro. Mas o fogo da palavra de Deus, inextinguível, não deixa sossegar o profeta, que apesar das contrariedades persiste na missão e acompanha o Povo para o exílio. Sinal de um amor muito grande.

Por isso a Palavra de Deus coloca no centro da nossa vida a entrega do que somos, assumindo a forma, como maneira de ser total - sentir, pensar e agir - para compreender tudo de bom que existe e que podemos fazer emergir no nosso mundo. É por isso uma renovação da nossa vida, permanente, para podermos viver em pleno, até assumindo o sofrimento. 

É este sofrimento que escandaliza Pedro, por este se fixar apenas no acontecimento e não na meta. Jesus é muito claro - o final é a ressurreição. Pedro que havia clamado segundos antes Jesus como Messias, agora estremece perante as coisas de Deus, diante da possibilidade do sofrimento, em cuja doação se sustenta a nossa renovação e redenção. 

Mas ainda que com horizontes diferentes, Jesus chama-nos a assumirmos a sua atitude de vida. Talvez aqui importe distinguir renunciar a si mesmo (grego=aparneomai), atitude a que Jesus nos convida, de perder-se a si mesmo (grego=apollumi); o primeiro diz respeito a dar o que se tem confiado em Deus, sem o querer guardar para si; o perder, é mais fácil de entender, diz respeito ao morrer com grande ruína. Por isso, só nos podemos perder, por causa de Jesus, apoiados nele, mas tendo sempre em vista uma meta claramente maior.

A cruz tomada em cada dia não é a do lamento resignado de dificuldades, mas sim a ação e a radical aceitação da nossa condição, levantando-nos para caminhar e encher de amor a nossa circunstância. É aqui que se jogam as nossas acções e obras, que à semelhança e por graça, nos tornam cooperadores e colaboradores da coisas do Reino. Não o aceitar, é correr o risco de ser ocasião de escândalo, ou seja, como a própria etimologia da palavra indica, objeto que se introduz para ser bloqueador de uma roda.