Friday, 25 September 2020

Ser fiel implica uma luta



DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM


L 1 Ez 18, 25-28; Sal 24 (25), 4-5. 6-7. 8-9
L 2 Filip 2, 1-11 ou Filip 2, 1-5
Ev Mt 21, 28-32 

À vida que recebemos como dom, somos chamados a responder com a vida. Nunca poderá ser menos do que isso, mesmo no meio das maiores dificuldades e contrariedades. Não deixa de ser admirável como é possível encontrar gente felicíssima onde tudo falta, menos a sua entrega. 

É aqui que, penso eu, nos encontra a liturgia da palavra deste domingo. 

O caminho que o profeta Ezequiel aponta põe a nu o que de facto é a via do pecado: tudo aquilo que leva à perda da dignidade e conduz à morte. Mas em Deus - e para quem vive em comunhão com Ele - ninguém é indiferente. E isso leva-nos à missão de cuidar uns dos outros, pois somos chamados a caminhar em conjunto. É por isso que a correção fraterna, quando feita com cuidado e caridade é tão importante na nossa vida. 

Mas as leituras deste Domingo colocam o acento na conversão pessoal, ou seja, na procura sempre maior de um bem, rejeitando o que é mal. E no entanto, como isto é difícil e só possível com o amor de Deus. Tão difícil é que tantas vezes achamos que os outros - e até nós também - já não é possível acontecer uma mudança de vida. O argumento de que sempre foi assim, ou melhor, de que sempre fui assim, contribui para o desânimo e tristeza de quem acaba por viver a sua vida longe de Deus. O Papa Francisco lembra que quando não há arrependimento do pecado começa a gerar-se a corrupção da pessoa(Jorge Bergolio, A arte da acusação de si mesmo). A força da mudança vem de dentro, do Deus que nos habita e nos capacita a acreditar sempre na possibilidade do bem, de viver em comunhão com Deus. 

Esta realidade é ilustrada na bela parábola que o Evangelho narra. Ambos os irmãos são chamados pelo Pai, como filhos a trabalhar na vinha, local onde se cuida das fontes da festa e da alegria pelo vinho que se produz . E Deus envia-nos a trabalhar pela alegria, e esta precisa da nossa entrega. 

Ao chamamento feito, os irmãos têm atitudes opostas. Um diz que não, arrepende-se e via; o outro diz que sim, mas não vai. Mas o Filho de Deus, Jesus Cristo, diz que sim e cumpre a vontade do Pai. O Evangelho ensina-nos que a vida não se pode ficar em palavras vazias, mas em acções que busquem responder ao chamamento de Deus. Todavia cumprir a vontade de Deus não significa fazer uns favores ao altíssimo... Cumprir a vontade de Deus é procurar manter abertos os canais da relação com o amor de Deus. É isto que acontece em Jesus, Ele vem para cumprir a vontade do Pai. De facto, é esta a vocação de Jesus. 

Só quando procuramos responder à voz de Deus que chama, mesmo no meio das nossas contradições, é  que a vida cristã pode de facto acontecer, sempre por graça da misericórdia divina. Quando a nossa acção é feita sem este chamamento, mas por rivalidades ou outras coisas afins, como refere São Paulo, gera-se divisão e discórdia. O modelo da resposta é para nós claro: é a vida do Senhor, entregue até ao fim, que nos salvou pelo seu amor. E como foi totalmente entregue, é totalmente fecunda na geração de vida nova. E é isto que celebramos na eucaristia.

Saturday, 19 September 2020

Sempre a dar!




DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM


L 1 Is 55, 6-9; Sal 144 (145), 2-3. 8-9. 17-18
L 2 Filip 1, 20c-24. 27a
Ev Mt 20, 1-16a 

O Deus revelado na Sagrada Escritura apresenta-se como aquele que dá: dá a vida, dá a terra, dá o perdão, dá o Seu filho. Dá. E em função desta sua maneira de ser, tão diferente de nós, que os seus pensamentos estão tão distintos dos nossos.  E aliás até a frase de Jesus citada por Paulo e que não surge nos relatos evangélicos nos repete: «Há mais alegria em dar do que em receber. » (Act. 20, 35). 

É este Deus generoso de querer chegar a todos, que surge prefigurado na parábola dos vinhateiros. Aqui vemos o dono da vinha que vem agora chamar a trabalhar no seu campo a várias horas do dia. E a todos querer pagar o dia inteiro de trabalho: o denário. Mas a gestão que o dono faz dos seus bens choca com as expectativas dos que mais tempo trabalharam, que comparando-se com os últimos, achariam ter direito a melhor tratamento. Esta parábola põe a nu o nosso coração, tantas vezes sedento de poder e de inseguranças, que procura ficar acima dos outros e de subir na hierarquia das relações. Este caso mostra-nos como a ganância se mistura com a inveja, pois se a primeira deseja ter mais que o outro, a segunda revela em nós o desejo de não querer que o outro tenha mais do que eu.

Todavia, a radiografia da Palavra, que agora nos lê e nos deixa ler em nós, não pretende deixar-nos aqui. Chama-nos para mais longe, para entrarmos na lógica da generosidade e gratidão. Generosidade para saber aproveitar as ocasiões de entrega de vida  para uma entrega mais intensa de si e desinteressada em si. E gratidão por se saber chamado a participar de um bem maior. 

Este é um longo caminho mas que nos levará a dizer como São Paulo: «Para mim viver é Cristo». (Fil 1, 21). E mesmo se em último, o Senhor da vinha não deixará de sair para continuar a nos procurar e a nos chamar. 

Saturday, 12 September 2020

Pela esperança, perdoar.

 


DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM


L 1 Sir 27, 33 – 28, 9; Sal 102 (103), 1-2. 3-4. 9-10. 11-12
L 2 Rom 14, 7-8
Ev Mt 18, 21-35

A revelação de Deus que acontece na bíblia aceita as contingências da história e é influenciada pelo contexto cultural de vários povos. Todavia a progressividade existe, como quem, pouco a pouco vai retirando o pó de um quadro para ver a pintura que lá estava tapada. Assim o vemos de como o de um Deus que apela ao anátema total e destruição da cultura estranha, depois se apela à lei de Talião - "olho por olho, dente por dente" - e que traduz uma primeira medida de contenção da vingança, que consistia em não causar maior dano do que aquele que é recebido. 

A contínua revelação de Deus vai já no Antigo Testamento mais longe. Vemos isso nas leituras deste domingo. O livro de Ben-Sirá reflecte que todo aquele que quer ser perdoado tem de se exercitar na arte de perdoar. Todos somos nos sentimos a certa altura ofendidos, haja ou não intenção da outra parte. Mas a fé, entendida como aceitação do amor de Deus, gera o conhecimento de que o mal nunca será definitivo. O rancor - etimologicamente designa aquilo que está a apodrecer - é a negação disto e fecha todas as portas do coração. Mal vai a alma onde ninguém passa (cf. Das Homilias atribuídas a São Macário (Hom. 28:PG34,710-711) ), onde o peso da ofensa fica a fermentar e o amor pela vida como dom é incapaz de absolver o mal recebido: tudo fica amargo. Dizia o padre Gaspar: «Uma pessoa velha amarga é, certamente, uma das supremas invenções do diabo» (Arlindo Magalhães, Padre Gaspar. A via do trabalho e da pobreza, Gráfica de Coimbra 1998, p. 255). 

Esta mesma lógica está presente no Evangelho, mas com acentos diferentes. O texto coloca a imensidade da dívida do primeiro (10.000 talentos será algo como 150 a 300 toneladas de ouro!) e a grandiosidade do perdão recebido com a mesquinhez da incapacidade de perdoar algo muito menor (200 denários serão aproximadamente entre 60 a 300 euros). 

O texto expõe-nos diante da nossa fragilidade e por quanto fomos resgatados, isto é, o sangue de Cristo. Não se trata de não procurar a  justiça, mas sobretudo perceber que a dignidade humana é sempre maior do que qualquer dívida. E a generosidade muito maior do que qualquer mesquinhez e cegueira. Creio que a fé nos permite não ficar presos nas ofensas sofridas, mas nos deixa livres das ofensas que existam no passado para nos apontar a esperança de bens muitos maiores.  Ou seja, pela esperança, perdoar. 

Saturday, 5 September 2020

Não me és indiferente!

 


DOMINGO XXIII DO TEMPO COMUM


L 1 Ez 33, 7-9; Sal 94 (95), 1-2. 6-7. 8-9
L 2 Rom 13, 8-10
Ev Mt 18, 15-20

À vida cristã não há nada mais estranho do que o "salve-se quem puder" ou "cada um por si". De facto, professar a fé em Jesus Cristo é acreditar que Ele viveu para dar a vida, que morreu e ressuscitou para nossa salvação e que o seu amor me alcança a mim hoje também. Por isso, para Deus ninguém é indiferente, sendo o seu amor permanente.  

É em resposta ao amor de Deus recebido que cada cristão é chamado a testemunhar a mesma forma de amar, consistindo nisto o centro da vida cristã. De facto, todos os restantes comportamentos a que a fé remete e pede são resposta a um dom recebido. Neste sentido sublinhava a Comissão Teológica Internacional que "a moral cristã, sem ser secundária, é segunda".

É neste contexto que me parece que podemos ouvir as leituras deste domingo que nos apresenta a Regra Fundamental da Comunidade Cristã. A correção cristã não parte por isso de um moralismo - muito embora, isto esteja presente nas nossas comunidades - mas da consciência de que todos somos responsáveis por todos. Por isso, a vida só ganha sentido quando é partilhada e vivida como relação real. 

Todos sabemos que no jogo das relações, que para existirem têm de ser cultivadas e vividas na totalidade, acontecem expectativas, desejos, planos, frustrações e até porventura ofensas. A consciência do amor de Deus recebido, porém, traduz-se numa abertura à relação e à misericórdia que há-de se procurar e esforçar para o meu próximo seja meu irmão. 

Por isso, a fé há-de se afirmar sempre ao outro: "não me és indiferente". Assim ouvíamos a Santo Agostinho: «Reconduzirei a desgarrada, procurarei a perdida. Quer queiras quer não, assim farei. E se, em minha busca, os espinhos dos bosques me rasgarem, eu me obrigarei a ir por todos os atalhos difíceis. Baterei todos os cercados; enquanto me der forças o Senhor que me ameaça, percorrerei tudo sem descanso. Reconduzirei a desgarrada, procurarei a perdida. Se não queres que eu sofra, não te desgarres, não te percas.» (Do Sermão sobre os pastores, de Santo Agostinho, bispo (Sermo 46,14-15)). 

A conclusão deste caminho é evidente. A fé, sem excluir o dom único de cada um, é realidade que implica comunidade. Sempre. Porque só pode ser vivida em relação. E da consciência de que recebemos o amor de Deus e assim nos reunimos que surge a Igreja, na qual pedimos ao Pai o pão de cada dia para alimentar a missão que temos na vida.