Saturday, 29 January 2022

Também nós somos os de fora




DOMINGO IV DO TEMPO COMUM


L1: Jer 1, 4-5. 17-19; Sal 70 (71), 1-2. 3-4a. 5-6ab. 15ab e 17
L2: 1 Cor 12, 31 – 13, 13 ou 1 Cor 13, 4-13
Ev: Lc 4, 21-30

A liturgia deste Domingo apresenta-se intimamente ligada com a do Domingo anterior. Nesta leitura, ouvimos o relato da vocação de Jeremias e as dificuldades que a sua missão lhe vai trazer, a rejeição na sinagoga de Nazaré mediante o anúncio de Jesus e o São Paulo anunciar que no centro da nossa vida e do Mistério de Deus está o amor. 

O relato da vocação de Jeremias permite estabelecer uma analogia com a vida de Jesus Cristo e também com a história de cada vocação. Desde o início, Deus chama cada um mediante um mistério de amor para ser testemunha. Todavia, a história de cada vocação não é apenas acção de Deus; é também resposta humana, que enfrenta a história como ela se apresenta, mas guardando a confiança no amor de Deus, que continua a acompanhar cada um. 

Assim nos deparamos com este relato do Evangelho, em que Jesus depois de se ter apresentado como enviado do Pai, para cumprir a missão de libertador e redentor, encontra a rejeição da sinagoga daqueles que o viram crescer, mas desconhecem de facto a sua identidade. É o risco de permanecer cego, por achar que já se vê tudo. E Jesus reproduz dois episódios, em tempos de dificuldade e crise, cuja acção de Deus chegou, não aos de dentro, mas aos de fora; é fora de esquemas fechados que Deus age pois é aí que encontra abertura e acolhimento. E reparemos como os de Nazaré, os de dentro, ao ouvir a resposta de Jesus, o queriam pôr fora. 

Mas a distinção entre os de dentro e os de fora é apenas aparente. Todos somos chamados a estar em  comunidade, mas dispostos a acolher a todos os que vêm de fora, por no fundo todos pertencemos a uma e mesma família humana, cujo vínculos se devem concretizar em solidariedade. 

É o amor, agape e não outro, que São Paulo descreve de form magnifica, que vemos como este se concretiza em entrega total, à maneira de Cristo que assim viveu. É o amor que abre, é o amor que faz durar e permanecer até ao fim cada decisão de vida. 


Sunday, 23 January 2022

A Palavra de Deus age hoje





DOMINGO III DO TEMPO COMUM


L1: Ne 8, 2-4a. 5-6. 8-10; Sal 18 B (19), 8. 9. 10. 15
L2: 1 Cor 12, 12-30 ou 1 Cor 12, 12-14. 27
Ev: Lc 1, 1-4: 4, 14-21

Neste Domingo III do temo comum dedicamos especial à acção da Palavra de Deus e vemos a apresentação de Jesus. O livro de Neemias apresenta-nos a cena da primeira proclamação da Palavra de Deus após o retorno de 70 anos do exílio na Babilónia. Vemos um Povo que se engalana para ouvir a Palavra de Deus, escutando a acção libertadora de Deus nos seus antepassados, reavivando a memória, e deixando que a presença de Deus aconteça no hoje deles - e de nós também. Nesta escuta profunda o Povo experimenta a saudade associada à alegria, também ordenada e vivida na forma da comunhão familiar e cuidado com os mais pobres. Aí está a Palavra de Deus não só a cuidar da nossa espiritualidade, mas a convocar a solidariedade com os outros. 

O Evangelho retoma o anúncio da Palavra de Deus feito em Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado. Lucas propõe-se a a contar os factos da vida de Jesus e a liturgia de hoje apresenta-nos o início do ministério de Cristo. Jesus, revestido pela força do Espírito Santo, nas suas origens e mediante aqueles que o conhecem, melhor, os que o viram crescer e trabalhar, apresenta-se como enviado de Deus e apresenta o programa da sua missão: anunciar a boa nova, ou seja, não apenas uma boa notícia, mas uma mensagem de alta autoridade, proclamar a libertação, curar e trazer a bênção e a paz. Reparemos que todo o programa da vida de Cristo é acção em favor dos outros, de serviço que levará até ao fim em nome da libertação de cada um. 

Não pensemos todavia que esta mensagem seja acontecimento de ontem. A Palavra de Deus é viva e acontece hoje, mediante a nossa escuta humilde, em que Jesus Cristo, mediante a força do Espírito Santo, volta a falar a cada um. Esta Palavra volta a cumprir-se hoje, mediante o seu anúncio, no coração de cada um. 

Na escuta da Palavra, Paulo convoca-nos para a realidade do Corpo místico de Cristo, onde cada um ocupa o seu lugar e onde todos são necessários. A Palavra chama-nos a uma forma de vida de serviço pelos outros à imagem de Cristo, de cuidado por todos. Talvez aqui recordemos as Palavras de Santa Teresinha do Menino Jesus, quando na procura do seu lugar na Igreja se encontrou com este texto de Paulo. Daqui e da parte seguinte surge-nos um critério fundamental para discernir a nossa acção e lugar: em tudo deve estar o amor. 

Friday, 14 January 2022

As bodas de Caná: passagem para a alegria




DOMINGO II DO TEMPO COMUM


L1: Is 62, 1-5; Sal 95 (96), 1-2a. 2b-3. 7-8a. 9-10ac
L2: 1 Cor 12, 4-11
Ev: Jo 2, 1-11 

A liturgia desde Domingo coloca diante de nós o terceiro episódio da Epifania, as bodas em Caná. A liturgia da palavra apresenta o capítulo 62 do profeta Isaías que narra o amor de Deus que salva Israel, segundo a imagem de uma noiva elevada a rainha e que promete encontrar em Israel a causa da sua alegria. Esta esposa é hoje a Igreja, segundo a imagética do livro do Apocalipse 12, da mulher coroada no céu que dá à luz um filho varão. Embora a fé nos revele a santidade da Igreja, a nossa adesão a Cristo é sempre frágil, necessitada da força da Igreja, cujo Corpo integramos. Só assim podemos testemunhar a alegria de viver como crentes. 

É a alegria que entra em cena no episódio das Bodas de Caná. Se superficialmente se compreende vergonha de faltar vinho num casamento, o que ameaçava a festa, o significado teológico vai muito mais longe e aponta-nos o diálogo entre a Mulher e o verdadeiro Esposo da humanidade, Cristo. É Ele que transforma as talhas de água usadas para a purificação, segundo a lei de Moisés, para o vinho em abundância da alegria e da festa do amor de Deus. Não deixa de ser interpelante o papel de Maria, como intercessora atenta, às necessidades daquela boda. Talvez possamos dizer que em Maria, Mãe da Igreja, encontramos ainda a mesma acção para com os homens e mulheres de hoje. 

Se no centro da vida da Igreja está Cristo, nós pertencemos  ao seu Corpo como membros plenos pelo Baptismo e na fidelidade confiante de Filhos de Deus que vivem da misericórdia de Deus. Este Corpo é constituído por muitos membros, que visam não apenas o próprio bem, mas a edificação e serviço dos outros; neste âmbito é importante a vocação, chamamento feito a todos para uma forma de vida específica que sempre se concretiza em amor e desejo de ir mais longe.  



Friday, 7 January 2022

Baptismo é graça e eleição, não obrigação

 


DOMINGO do Batismo do Senhor




L1 Is 40, 1-5. 9-11; Sal 103 (104), 1bc e 2b-3a.3bc-4.24-25.27-28.29-30
L2: Tit 2, 11-14; 3, 4-7
Ev: Lc 3, 15-16. 21-22

O domingo que inicia o tempo comum é o mesmo que finda o tempo de Natal. É momento de Epifania, da manifestação de Deus, agora como o Filho de Deus muito amado. 

A liturgia deste Domingo é enquadrada pelo relato de Isaías, do livro da consolação, que convida à aplanar os caminhos do Senhor, eco recente escutados no tempo de Advento; mas o texto aprofunda e mostra que Deus vem como pastor, cuidar dos que ficam para trás e guiar o Povo de volta a Jerusalém. Não deixa de se mostrar como significativo como em Deus a recompensa o precede; a fé é começar a gozar já aqui do amor de Deus, da esperança da vida eterna que se inicia agora. E de maneira especial, esta precedência acontece pelo baptismo na vida da Igreja. 

Pela graça de Deus, como nos recorda a Carta a Tito, somos constituídos desde o Baptismo como filhos adoptivos, ao sermos inseridos no Corpo de Cristo. São Paulo exorta Tito a procurar e servir a Deus, a renunciar, por isso, à impiedade de viver afastado do Seu Amor, a crescer na temperança, na justiça e na piedade, tudo em virtude da acção da misericórdia de Deus. 

No Baptismo de Cristo vemos em Lucas que Jesus é baptizado juntamento com o Povo, sinal de que lhe pertence a Ele desde então. Neste pequeno momento vemos toda a Santíssima Trindade presente, que nos revela o mistério de amor que a habita: o Pai confirma o Filho na sua identidade e missão mediante o Espírito Santo. É na presença de Jesus que o céu se abre, sinal de que Deus fala agora não apenas a um escolhido, mas a todo o Povo, multidão de filhos adoptivos. Veremos posteriormente como Santo Estêvão verá igualmente o céu aberto no momento do seu martírio. 

É evidente que o Baptismo é momento de graça de Deus, eleição humana e amor incondicional; ver a essência do cristianismo como moralismo ou um conjunto de obrigações, é não compreender a raiz da fé cristã. 

Saturday, 1 January 2022

«Ser, amar e adorar» Teilhard de Chardin

 

Photo by Tobias Bjørkli from Pexels



DOMINGO DA EPIFANIA DO SENHOR


L 1 Is 60, 1-6; Sal 71 (72), 2. 7-8. 10-11. 12-13
L 2 Ef 3, 2-3a. 5-6
Ev Mt 2, 1-12 

Neste caminho da celebração do tempo de Natal, contemplamos a revelação que Deus faz de si aos homens em Jesus Cristo. Em Jesus, Deus assume a nossa humanidade e revela o seu amor, até ao limite no mistério da cruz. Nesta etapa somos convidados a olhar para os magos que seguem a estrela que aponta o mistério da luz que o Senhor traz e que vem cumprir a profecia da salvação universal de Deus no livro dos Números 

Esta estrela é seguida por Magos, ou seja pela figuras que não pertencem ao Povo Judeu e que partem ao encontro daquele que é a razão de tudo ser. Começamos a ver aqui a cumprir-se o universalismo do profeta Isaías, que profetiza que viriam de todas as terras colocar-se debaixo da luz que brilha de Jerusalém. Assim são estas figuras, magos que simbolizam toda a humanidade e onde está cada um de nós a quem chegou a voz do Evangelho que nos dá e torna presente na nossa vida o salvador. 

No meio das suas buscas, vêm adorar o Salvador, sem fazer mais perguntas. Só lhes basta saber onde ele está. A nossa vida precisa de saber viver na adoração; a nossa adoração a Deus não é como a prestada aos ídolos nem tão pouco um clamor de palavras repetidas. A adoração significa deixar transbordar do coração a amor que nele vive em acção de graças pelo dom recebido e partilhado e que se não é expressado corre o risco de morrer. É expressão de quem reconhece de que há alguém maior do que nós, cuja presença e ensinamento orienta a nossa vida. Como tal, a adoração é espaço para o crescimento da fé. 

Teilhard de Chardin, no seu livro sobre a vida feliz, coloca que o caminho para a felicidade necessita de três passos: «ser, amar e adorar». 1. Ser, ou seja reconhecer a si mesmo, na sua própria dignidade, no amor recebido, nos desejos que se sentem, no dom que se é; 2. Amar, ou seja, entregar-se com o que se é ao outro, pelo bem do outro; 3. Adorar, reconhecendo que a nossa vida vive de Deus, que é maior do que nós, que nos guia e a quem prestamos a obediência filial para descobrir o amor. 

Quem assim vive descobre como os magos que os caminhos de regresso à vida de cada dia são diferentes daqueles de que partimos e que o nosso coração se dilata para abraçar a humanidade.