Friday, 28 March 2025

Um Deus que se quer reconciliar connosco



DOMINGO IV DA QUARESMA


L 1 Js 5, 9a. 10-12; Sl 33 (34), 2-3. 4-5. 6-7
L 2 2Cor 5, 17-21
Ev Lc 15, 1-3. 11-32


Vamos avançando neste tempo de Quaresma e chegamos ao IV Domingo, também chamado o Domingo da Alegria. A alegria cristã nasce sempre da consciência do dom do amor de Deus, que é gratuito e fruto da iniciativa divina. Deus ama porque quer, porque é amor, e por isso é fiel. Assim o vemos no povo que alcança a Terra Prometida, como ouvíamos na primeira leitura.

O foco do Evangelho deste Domingo convida-nos a contemplar a fidelidade de Deus na sua misericórdia. É neste contexto que nos é apresentada a parábola do Pai Misericordioso. Digo "Pai Misericordioso" porque o texto se dirige, se ouvirmos com atenção, aos fariseus e escribas, que se consideravam justos, e não aos publicanos ou pecadores públicos.

Este texto é de grande riqueza e permite-nos entrar no coração de uma humanidade que tantas vezes resiste ao amor de Deus, seja afastando-se deliberadamente, seja considerando-se sem necessidade desse amor.

Em primeiro lugar, encontramos a figura do filho mais novo, que não quer mais viver na casa do Pai e, por isso, pede a sua herança, algo que apenas se faz no momento da morte. Ele parte e leva uma vida desregrada e superficial, entregue a diversões efémeras. Nesta experiência, descobre que o pecado leva à degradação da condição humana, tornando-se imagem do homem que deseja viver sem Deus. Ao cortar-se da fonte da vida, acaba por se alienar e perder o horizonte.

Este filho regressa ao Pai ao tomar consciência da sua miséria, mas sem compreender que continua a ser filho. Por isso, pensa apenas em ser recebido como empregado, para ao menos poder comer o pão de que tanto necessita para sobreviver.

O amor do Pai, no entanto, é sem limites: vê o filho ao longe, sai ao seu encontro, abraça-o, aceita a sua confissão, mas rejeita a sua decisão de ser apenas um servo. O Pai quer que ele continue a ser filho e, por isso, devolve-lhe toda a sua dignidade e faz uma grande festa.

Já o filho mais velho, que trabalhava duramente nos campos, não consegue aceitar tanta misericórdia. Ressentido, recusa-se a entrar e acusa o irmão de faltas que nem sabe se cometeu, apenas imagina. O Pai convida-o a reconhecer que aquele que regressou é seu irmão e manifesta a sua bondade e fidelidade para com todos.

Este é o drama central do texto: um Pai que ama, mas cujo amor não é plenamente compreendido. Somente um coração confiante no amor de Deus e sincero reconhece que o Pai cuida de todos os seus filhos.

O Evangelho convida-nos, assim, à reconciliação com Deus, não apenas para aliviar a nossa consciência, mas para nos deixarmos transformar pelo seu amor. Ele também nos desafia a reconciliarmo-nos uns com os outros. A nossa reconciliação não depende apenas da nossa vontade, mas da entrega de Jesus Cristo, que assumiu sobre si os nossos pecados. Nada pode impedir-nos de regressar ao Pai, pois tudo já foi vencido pelo amor de Deus. Caminhemos juntos ao encontro da Casa do Pai. 

Friday, 21 March 2025

Uma conversão para dar frutos

 


DOMINGO III DA QUARESMA


L 1 Ex 3, 1-8a. 13-15; Sl 102 (103), 1-2. 3-4. 6-7. 8 e 11
L 2 1Cor 10, 1-6. 10-12
Ev Lc 13, 1-9

 

Vivemos este tempo da Quaresma, a caminho da Páscoa, como um convite a uma conversão permanente, ou seja, a uma verdadeira transformação da nossa vida.

O caminho da conversão na nossa vida acontece, muitas vezes, de forma lenta, sabendo que somos chamados à fidelidade todos os dias. No entanto, para viver bem esta experiência tão essencial, é necessário fazê-lo por amor, com um objetivo maior, e não apenas por medo do desânimo ou do castigo. Quando a mudança na nossa vida não acontece por amor, acabamos por ficar aprisionados na nossa própria liberdade e capacidade de escolha.

A nossa resposta é sempre dada a Deus, que, como ouvimos na primeira leitura, vê o sofrimento humano, deseja a salvação e envia alguém. Assim, a sarça ardente, que arde sem se consumir, torna-se para Moisés um sinal da presença de Deus, um fogo que ilumina, mas que não destrói aqueles que são tocados por Ele. Notamos ainda que a forte experiência de Deus vivida por Moisés acontece precisamente com uma missão: ser instrumento da libertação divina, para que se cumpra a promessa de Deus. Assim, Deus sai de si para ir ao encontro da humanidade, algo fundamental na lógica bíblica, que manifesta o seu amor pela criação e nos mostra que também nós somos chamados a ser testemunhas da salvação de Deus para os outros.

Sabemos, no entanto, que a missão de Moisés não será fácil. Ele enfrentará muitas dificuldades, sinal de que a missão que Deus nos dá não elimina os desafios, mas antes nos acompanha ao longo do caminho para o qual somos enviados. Assim, a nossa conversão está sempre orientada para a missão.

O Evangelho deste domingo expressa essa mesma realidade. Jesus rejeita associar os castigos de Deus a injustiças humanas ou a acidentes graves, mas apela à conversão como mudança de estilo de vida. E aqui Jesus toca num ponto fundamental: a necessidade de conversão para todos, independentemente do nosso estado de vida ou até da ideia errada de que já não precisamos de nos converter. De facto, a experiência mostra-nos que os santos são precisamente aqueles que mais compreendem a sua necessidade contínua de conversão.

Jesus concretiza esta lógica da conversão através da parábola da figueira que, não dando frutos, "não precisa de ocupar a terra em vão". A imagem da parábola é forte: por um lado, mostra-nos que a conversão da nossa vida deve traduzir-se em frutos de boas obras, no bem que fazemos pelos nossos irmãos, seja no trabalho, na vida pessoal ou na dedicação com que nos entregamos aos que mais precisam. Mas também nos revela que o agricultor está disposto a cuidar e a adubar uma árvore que não dá frutos há três anos, sinal da misericórdia de Deus, que nos acompanha ao longo da nossa existência.

Que esta consciência da misericórdia divina seja sempre um apelo à esperança, convidando-nos a uma conversão de vida cada vez maior, onde a vivência do bem nos torne, cada vez mais, sinais do amor de Deus.

Friday, 14 March 2025

Chamados à missão como gente transfigurada!




DOMINGO II DA QUARESMA



L 1 Gn 15, 5-12. 17-18; Sl 26 (27), 1. 7-8. 9abc. 13-14
L 2 Flp 3, 17 – 4, 1 ou Flp 3, 20 – 4, 1
Ev Lc 9, 28b-36


Celebramos hoje o mistério da Transfiguração do Senhor no nosso caminho quaresmal, que é celebrado sempre no segundo domingo da Quaresma. No entanto, a cada ano, por meio de cada evangelista, há sempre aportes específicos que nos ajudam a compreender melhor o Mistério de Cristo.

O texto do Evangelho é enquadrado pela primeira leitura, que nos apresenta a aliança que Deus estabelece com Abrão, uma iniciativa divina. Esta aliança consiste na promessa da presença de Deus e na fecundidade da vida do seu escolhido. É com base nesta promessa que Abrão parte e deixa a sua terra, sustentado por uma esperança cuja fidelidade vem de Deus.

A aliança narrada hoje reflete esse princípio: os animais são dispostos por Abrão e cortados ao meio, seguindo a mentalidade da época. O ritual simbolizava que, caso alguma das partes quebrasse a aliança, sofreria o mesmo destino dos animais. Normalmente, ambas as partes passavam pelo meio dos animais, selando o compromisso. No entanto, neste caso, apenas Deus passa, como sinal de que a aliança depende exclusivamente d’Ele, que assegura a sua fidelidade.

É desta esperança que se alimenta a vida de Abraão, tornando-se fecunda para muitos e servindo como exemplo de fé.

O Evangelho apresenta-nos a Transfiguração de Jesus, que inaugura uma nova aliança. No meio de Elias e Moisés, surge Jesus Cristo, revestido da glória da ressurreição. Ele apresenta-se como o portador desta nova aliança, assumindo a Lei, simbolizada em Moisés, e os Profetas, representados pela figura de Elias.

Contudo, há vários aspetos importantes para os discípulos:

  1. Os discípulos sobem com Jesus para orar. O tempo da Quaresma é sempre uma ocasião para dedicar mais tempo à oração, à contemplação de Cristo. Como dizíamos a semana passado, não se trata de repetir palavras para ser atendido, mas aprender a escutar o Senhor que nos fala, como termina o episódio da Transfiguração que escutávamos hoje.
  2. Os discípulos testemunham a Transfiguração de Jesus, que serve para lhes dar esperança em meio às tribulações da cruz, mas também, e sobretudo, para lhes apresentar a meta da vida cristã: um caminho de transfiguração, no qual somos chamados a ser cada vez mais sinais de Cristo ressuscitado.
  3. O encontro com Cristo, mesmo quando nos perturba pela verdade que nos revela, não nos deve paralisar. Pelo contrário, é essencial, mas deve impulsionar-nos a imitar a vida do Mestre, que, em missão, anuncia e testemunha. No entanto, este não é um caminho de moralismo, mas sim um caminho de esperança, sustentado no amor de Deus.

Assim, caminhamos na esperança do encontro com Deus. Neste percurso, contamos com a força do Espírito e da Palavra de Deus, pois apenas Cristo nos indica o caminho para viver de forma transformada o nosso amor por Ele, o único que tem palavras de vida eterna.

Que os nossos passos sejam cada vez mais transformados, tornando-se um verdadeiro testemunho da paz que só Cristo nos pode dar.

Friday, 7 March 2025

Cuidar do dom recebido de Deus

 


DOMINGO I DA QUARESMA


L 1 Dt 26, 4-10; Sl 90 (91), 1-2. 10-11. 12-13. 14-15
L 2 Rm 10, 8-13
Ev Lc 4, 1-13

 

O tempo da Quaresma é um tempo que nos é dado para vivermos como um caminho de preparação e de redescoberta do essencial: a comunhão com Deus. Esta comunhão não é algo adquirido de uma vez para sempre; pelo contrário, deve ser cuidada e estimada. A primeira leitura enfatiza precisamente isto: o apelo a não esquecer o que Deus operou, a preservar o amor e a salvação recebida. Como é importante recordar de que forma os momentos com Deus nos marcaram!

Também neste sentido, São Paulo exortava os Romanos a cuidar da fé como um dom recebido e, por isso, a velar pelo coração, símbolo da inteligência. A fé precisa de crescer e amadurecer em nós, não só para ganhar razões, mas também para não ficar isolada da nossa vida quotidiana. Assim, podemos professar a fé através das nossas ações e das nossas palavras. De facto, aquilo que cultivamos no coração será sempre o que transbordará para o exterior.

Vemos isso na vida de Jesus, que é enviado ao deserto — imagem do lugar das dificuldades — e passa pelas tentações do Diabo, aquele que vem para dividir e separar, antes de mais, de Deus, mas também dos outros e até de nós próprios. Sabemos bem que as dificuldades tocam a nossa vida de uma forma ou de outra, e é precisamente nesses momentos que também nós somos tentados. Com efeito, é sobretudo nos períodos de provação que a tentação nos atinge mais fortemente.

Jesus, como Filho de Deus, enfrenta três tentações que também nós vivemos:

1.     A tentação da fome – Jesus é tentado a usar a sua condição de Filho de Deus para saciar a própria fome, transformando pedras em pão. No entanto, Ele, que multiplicará os pães, não o faz em benefício próprio, mas centra a sua vida na Palavra de Deus. Esta tentação recorda-nos que a Palavra de Deus é o nosso verdadeiro alimento, trazendo-nos força para o caminho.

2.     A tentação do poder – O poder usado para conquistar tudo, mas à custa de se prostrar diante do mal e da injustiça. Quantas vezes, no nosso tempo, se recorrem a todos os meios para alcançar poder, apenas para depois sucumbir ao domínio do mal, onde a dignidade humana deixa de ser respeitada. O verdadeiro poder da nossa vida deve sempre vir da força da Verdade e do culto prestado a Deus, que nos salva.

3.     A tentação do sucesso fácil e deslumbrante – A resposta de Jesus ao mal é clara: Deus nunca deve ser tentado. Não devemos colocá-Lo à prova, como tantas vezes acontece nos nossos dias, quando a Verdade parece ser distorcida para alcançar um sucesso fácil e o desejo de reconhecimento. Na realidade, estamos sempre a caminho, e cada dia é-nos dada a oportunidade de testemunhar o amor de Deus no meio de tantas contradições.

Que saibamos, nesta Quaresma, guardar e cuidar do amor de Deus, conscientes de que o caminho ao qual somos chamados é feito de paciência, confiança na ação divina e misericórdia para com todos.

Thursday, 6 March 2025

Quaresma, um tempo de renovação

 

Caríssimos irmãos e irmãs,

Iniciamos hoje o tempo santo da Quaresma, um período de conversão da vida. Converter-se não significa deixar apenas de fazer algumas coisas que nos parecem erradas, mas implica sobretudo uma verdadeira transformação interior. A conversão é um dom que Deus nos dá, pois deve partir sempre de uma decisão de amor. Por isso, não é apenas rejeitar o mal, mas também de querer amar o bem que antes não se valorizava.

Neste ano, somos convidados a olhar para a imagem do mel e da abelha, símbolo que nos acompanha na caminhada quaresmal, proposta pelo nosso Bispo. Esta imagem ajuda-nos a compreender o caminho conjunto que somos chamados a percorrer, como comunidade, numa vida mais sintonizada com o amor de Deus, representado pelo mel, que tantas vezes, na Bíblia, é comparado à Palavra de Deus.

O caminho de conversão começa dentro de nós e não a partir do exterior. O profeta Joel recorda-nos isto com as suas palavras: “Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes” (Joel 2,13). Rasgar o coração significa permitir que a contrição aconteça em nós, ou seja, reconhecer as nossas escolhas erradas, todas as vezes em que falhamos no amor a Deus e aos nossos irmãos. Por isso, a Quaresma não é apenas uma mudança de hábitos, mas um convite à mudança do coração, à confiança plena na misericórdia de Deus e à coragem de acolher a transformação. Assim como a abelha trabalha silenciosamente, sem ostentar as suas ações, mas com grande eficácia, a verdadeira conversão acontece no mais profundo do nosso ser, onde só Deus vê. Mas é preciso ter fé: todo o bem que fazemos é sempre visto por Deus.

Jesus chama-nos à reconciliação com Deus, pois Ele, na Sua misericórdia, fez-Se próximo de nós. “Deixai-vos reconciliar com Deus” (2 Cor 5,20), diz São Paulo. E ao reconciliarmo-nos com Deus, somos também chamados a tornarmo-nos próximos uns dos outros. A Quaresma é, portanto, um tempo de cuidado, de relação e de generosidade. A esmola, a oração e o jejum são os três meios que nos são dado
s para viver esta reconciliação. Eles são sinais de caridade para com o outro, não numa lógica de retribuição – de fazer para receber algo em troca – mas como dom gratuito, no cuidado da relação com Deus, com os outros e com toda a criação.

A oração é o tempo que damos a Deus e à escuta da Sua Palavra. Significa dedicar mais tempo à leitura da Bíblia, à oração do terço, à meditação sobre a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus e a procurar uma maior união com Ele. A aproximação ao Sacramento da Reconciliação é também uma oportunidade para avaliarmos os caminhos percorridos, pedirmos perdão e acolhermos a misericórdia divina nas nossas vidas.

Outro meio fundamental que nos é dado é o jejum, através do qual somos chamados a despojarmo-nos do supérfluo para nos concentrarmos no essencial. Não se trata apenas de uma privação física, mas de um exercício espiritual que nos ensina a olhar com mais carinho para os que precisam, tanto material como espiritualmente. O jejum ensina-nos a dizer “não” ao que é apenas um capricho, para podermos partilhar com quem mais necessita. Ajuda-nos a reparar nas necessidades dos outros, a reconhecer as suas feridas e a oferecer-nos como sinal de cuidado e solidariedade.

Sabemos e confiamos que Deus, que é Pai, vê o que está oculto (Mt 6,4). O bem que fazemos pode ser invisível aos olhos do mundo, tal como o trabalho da abelha, mas tem um poder transformador. O mel da nossa vida, fruto da nossa conversão, pode ser discreto, mas, unidos como comunidade, podemos transformar o mundo, assim como as abelhas transformam a natureza. O caminho é o deixarmos a nossa vida transbordar da doçura do amor de Deus, sabendo que a nossa meta definitiva é o encontro com Cristo Ressuscitado, sinal para nós de uma esperança maior: a eternidade com Deus.