TODOS OS SANTOS – SOLENIDADE
L 1 Ap 7, 2-4. 9-14; Sal 23 (24), 1-2. 3-4ab. 5-6
L 2 1 Jo 3, 1-3
Ev Mt 5, 1-12a
"Creio em (na) Igreja Santa" diz o credo Niceno-Constantinopolitano. A afirmação é estranha e até recusada por muitos nos nossos dias. Todavia é uma afirmação da identidade da Igreja. Porém, a santidade da Igreja não lhe advém da força dos fiéis, mas antes assenta na santidade de Deus. É importante olhar para tentar ver como Deus é santo para depois se compreender a que santidade somos chamados e motivo por isso desta grande solenidade.
Deus é santo, o qual comunica da abundância de si e se revela, em Jesus Cristo, como Trindade numa Unidade em comunhão. Ou seja, Deus é relação transbordante de Amor e Acolhimento mútuo, que cria a vida e a deixa existir por si e a tudo o que existe. Mas é pela pessoa humana que Deus se desloca e dá inteiramente. Isto acontece no dom do Seu Filho entregue para extinguir o pecado, ou seja, para libertar daquilo que corrompe o coração e destrói a dignidade humana; mas também pelo dom do Espírito Santo, que nos quer ajudar a viver como Filhos à imagem do Filho.
A santidade não é o ensimesmamento, mas a liberdade para amar. Para nós e por nós, o nosso Deus quer-nos semelhantes a Ele e por isso não se cansa de ser misericordioso connosco. A santidade é assimétrica, pois vem de Deus e é Ele que, como absolutamente Transcendente, nos sustenta no amor para dar. A santidade é a vida humana a ser já divinizada aqui e agora e que responde ao mais profundo anseio do coração humano.
A leitura das bem-aventuranças traduz esta mesma realidade. Jesus, no alto do monte, ensina as multidões já não no estrito cumprimento da Lei, já não na lógica do que "não se pode fazer" (ainda que os mandamentos coloquem o amor como o primeiro mandamento), mas anuncia como Bem-Aventurados (makarioi=abençoados, felizes [https://biblehub.com/greek/3107.htm]) aqueles que vivem acolhedores e entregues aos outros. Mas por onde começar nas bem-aventuranças?
Mateus é o evangelista que escreve para o povo judeu. Se repararmos, em Mateus existem nove bem-aventuranças, lembrando a Chanukiá, o candelabro de nove braços que assinala a libertação do templo de Jerusalém da invasão grega, e que constitui a base para a Hanukkah. No centro destas bem-aventuranças está a da misericórdia, lembrando a vela mais alta desse candelabro, a shamash (servo em hebraico), e que usada para acender todas as outras. Nesta imagem, percebemos que é a misericórdia o centro da santidade, a força de querer fazer e ser o bem para os demais que alimenta o desejo da entrega.
Não é por isso de admirar que seja a santidade a força que realmente é capaz de renovar o mundo. Longe de uma imagem pietista, a santidade traduz uma força criadora e é a base para poder agir em cada contexto na construção aqui e agora do Reino de Deus, onde mora a paz, justiça e alegria (cf. Rom 14, 17).
Por isso a solenidade que celebramos assinala tantos sinais de santidade que todos já tocamos e vimos. Gente como nós e para nós que caminharam ao nosso lado e que nos marcaram com a sua entrega e amor. A festa de todos os santos é a festa da santidade daqueles que vivem à nossa porta (cf. Francisco, Gaudete et exsultate, 7)




