Saturday, 31 October 2020

Santos ao pé da porta (papa Francisco)




TODOS OS SANTOS – SOLENIDADE


L 1 Ap 7, 2-4. 9-14; Sal 23 (24), 1-2. 3-4ab. 5-6
L 2 1 Jo 3, 1-3
Ev Mt 5, 1-12a

 "Creio em (na) Igreja Santa" diz o credo Niceno-Constantinopolitano. A afirmação é estranha e até recusada por muitos nos nossos dias. Todavia é uma afirmação da identidade da Igreja. Porém, a santidade da Igreja não lhe advém da força dos fiéis, mas antes assenta na santidade de Deus. É importante olhar para tentar ver como Deus é santo para depois se compreender a que santidade somos chamados e motivo por isso desta grande solenidade. 

Deus é santo, o qual comunica da abundância de si e se revela, em Jesus Cristo, como Trindade numa Unidade em comunhão. Ou seja, Deus é relação transbordante de Amor e Acolhimento mútuo, que cria a vida e a deixa existir por si e a tudo o que existe. Mas é pela pessoa humana que Deus se desloca e dá inteiramente. Isto acontece no dom do Seu Filho entregue para extinguir o pecado, ou seja, para libertar daquilo que corrompe o coração e destrói a dignidade humana; mas também pelo dom do Espírito Santo, que nos quer ajudar a viver como Filhos à imagem do Filho.

A santidade não é o ensimesmamento, mas a liberdade para amar. Para nós e por nós, o nosso Deus quer-nos semelhantes a Ele e por isso não se cansa de ser misericordioso connosco. A santidade é assimétrica, pois vem de Deus e é Ele que, como absolutamente Transcendente, nos sustenta no amor para dar. A santidade é a vida humana a ser já divinizada aqui e agora e que responde ao mais profundo anseio do coração humano. 

A leitura das bem-aventuranças traduz esta mesma realidade. Jesus, no alto do monte, ensina as multidões já não no estrito cumprimento da Lei, já não na lógica do que "não se pode fazer" (ainda que os mandamentos coloquem o amor como o primeiro mandamento), mas anuncia como Bem-Aventurados (makarioi=abençoados, felizes [https://biblehub.com/greek/3107.htm]) aqueles que vivem acolhedores e entregues aos outros. Mas por onde começar nas bem-aventuranças?

Mateus é o evangelista que escreve para o povo judeu. Se repararmos, em Mateus existem nove bem-aventuranças, lembrando a Chanukiá, o candelabro de nove braços que assinala a libertação do templo de Jerusalém da invasão grega, e que constitui a base para a Hanukkah. No centro destas bem-aventuranças está a da misericórdia, lembrando a vela mais alta desse candelabro, a shamash (servo em hebraico), e que usada para acender todas as outras. Nesta imagem, percebemos que é a misericórdia o centro da santidade, a força de querer fazer e ser o bem para os demais que alimenta o desejo da entrega. 

Não é por isso de admirar que seja a santidade a força que realmente é capaz de renovar o mundo. Longe de uma imagem pietista, a santidade traduz uma força criadora e é a base para poder agir em cada contexto na construção aqui e agora do Reino de Deus, onde mora a paz, justiça e alegria (cf. Rom 14, 17). 

Por isso a solenidade que celebramos assinala tantos sinais de santidade que todos já tocamos e vimos. Gente como nós e para nós que caminharam ao nosso lado e que nos marcaram com a sua entrega e amor. A festa de todos os santos é a festa da santidade daqueles que vivem à nossa porta (cf. Francisco, Gaudete et exsultate, 7)


Friday, 23 October 2020

Sem Cristo, a fraternidade universal não é possível.




DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM


L 1 Ex 22, 20-26; Sal 17 (18), 2-3. 7. 47 e 51ab
L 2 1 Tes 1, 5c-10
Ev Mt 22, 34-40 

As leituras deste Domingo colocam diante de nós um apelo fundamental, em que se percebe que não se pode separar o mundo de Deus do mundo dos homens, muito embora ambos também não se confundam ou misturem. Para nós, cristãos, esta é a essência do mistério da Encarnação, em que o Verbo de Deus se faz homem. São duas naturezas distintas unidas numa só pessoa pelo amor. Isto leva a que o amor de Deus criador e libertador ou redentor da humanidade se encontra com a humanidade criada para amar, mas frágil e que facilmente decai. 

É neste contexto que nos encaro a resposta de Jesus à pergunta que lhe foi feita sobre qual o maior dos mandamentos. E a resposta de Jesus é clara e nasce do Antigo Testamento: Amar a Deus sobre tudo e todos. A tentação dos nossos dias seria que Jesus dissesse imediatamente "temos é de ser boas pessoas e respeitarmo-nos e cada um seguir a sua vida". Mas não, Jesus vem para colocar a humanidade em comunhão com o Pai, pois dele provém a vida e só na medida em que se  vive para Deus é que a família humana pode de facto ser constituída como tal. Caso contrário, voltará a suceder o episódio da torre de Babel, em que a humanidade no esforço de querer chegar ao céu por si, acaba apenas confusa, em que cada um fala a sua língua sem que ninguém se entenda (cf. Gen 11, 1-9). Reconhecer o primeiro lugar a Deus não anula a pessoa, mas pelo contrário, dá-lhe o horizonte de um amor infinito que rompe as fronteiras estreitas da inteligência e do coração humano. O desejo de cada um em se querer fazer Deus está bem enraizado no coração humano, mas só Deus pode realizar a divinização, ou seja, só Ele pode saciar pelo amor puro e totalmente gratuito esse desejo, como nos recorda Santo Ireneu. 

Por isso, se o Mistério de Deus é amor e nos chama a nós a responder com amor, não se pode separar o amor a Deus do amor ao próximo. Separar estas duas dimensões seria como ter uma roda e depois não querer que ela rodasse...

Podemos afirmar sem receio que sem que o coração humano experimente profundamente o Amor de Deus, a fraternidade universal não verá a luz dos dias. Assim o coloca a primeira leitura. Nesta, Deus revela-se como o fundamento da justiça social, pelo qual toda a razão - económica, política, ou de relevância social - se submete à dignidade humana. Querer defender a justiça social sem esta consciência provocou e provoca grandes tragédias humanas na nossa história. 

Estas leituras ajudam-nos a purificar a imagem que cada um tem de Deus, o qual não é apenas o Senhor Soberano do Universo, sentado num trono de glória (cf. salmo 46(47)), mas como Aquele que manifesta o seu amor e se compadece pela humanidade, chamando-nos viver na mesma lógica, pelo dom do Seu Filho feito homem. Sem Cristo, a fraternidade universal não é possível. 

Saturday, 17 October 2020

entregar a Deus o que é Deus

 


DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM


L 1 Is 45, 1. 4-6; Sal 95 (96), 1 e 3. 4-5. 7-8. 9-10a.c
L 2 1 Tes 1, 1-5b
Ev Mt 22, 15-21

As leituras deste Domingo colocam diante de nós a conhecida cilada feita a Jesus. Cheia de falácia e falsidade, procuram apanhar uma palavra de Jesus que o possa retirar da sua cena. Assim, coloca-se diante dele a questão se deve pagar o imposto: se diz "sim", é um traidor; se diz "não", é um agitador político e conspirava contra os romanos. 

Todavia a missão de Jesus é outra, assim como a sua possível contribuição política é também distinta. Jesus confronta os seus interlocutores a reconhecer a origem da moeda que levam e obriga-os a distinguir do plano de Deus: Se em Deus toda a injustiça é rejeitada, a justiça de Deus não se encaixa na lógica de interesses políticos ou sociais. Por isso, a Deus deve-se devolver, antes de mais, não as moedas, mas a vida, dom que provém do Seu amor. 

Não estamos portanto apenas diante de uma separação entre Estado e Religião, mas num outro paradigma: a responsabilidade da fé passa mais depressa pela lógica do cuidado, da entrega da vida, da capacidade de construir pontes para poder chegar a quem está mais afastado, nas periferias e exclusões da sociedade. É aí que o anúncio é chamado a acontecer, sempre por graça de Deus e com o testemunho pessoal. 

Aqui Jesus procura centrar novamente a resposta humana com Deus, na qual Ele é o mediador. o drama porém é grande: os seus interlocutores não aceitam a verdade que Ele lhes coloca e por isso permanecem encerrados nos seus esquemas, que podemos afirmar, sem espaço para entrar Deus, sem espaço para poderem ser redimidos ou libertados dos seus esquemas. 

Dar a Deus o que é de Deus: é saber reconhecer verdadeiramente o infinito que nos habita por dentro, para aí encontrar o amado, que no mais fundo das nossas obscuridades, permanece sempre como Verdade Maior. 

Saturday, 10 October 2020

Condição para ser chamado: estar disponível




DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM


L 1 Is 25, 6-10a; Sal 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6
L 2 Filip 4, 12-14. 19-20
Ev Mt 22, 1-14 ou Mt 22, 1-10

O texto deste domingo coloca diante de nós a cena de um banquete. A Sagrada Escritura é atravessada pelo tema do banquete e do acolhimento: Melquisedec acolheu Abraão com pão e vinho, Abraão recebeu os três visitantes com esmerado cuidado, a preparação da Páscoa no Egipto faz-se numa ceia, Jesus celebra a sua Páscoa na Ceia Final como meio memorial da sua Paixão, Morte e Ressurreição, e o Apocalipse coloca o destino da humanidade na comunhão com Deus mediante as Bodas do Cordeiro.  Neste grande cenário, Isaías profetiza a plenitude do encontro com Deus como um esplêndido banquete que o próprio Deus organiza. Assim o profeta focaliza a esperança da fé num encontro feliz e reconciliado com a humanidade. 

Esta esperança é fundamental para poder viver a fé; por um lado, mostra que o Amor de Deus supera as nossas limitações; por outro, faz-nos ser proactivos e diligentes na procura da caridade de modo a poder tornar presente já aqui a realidade prometida da paz. Como o nosso hoje precisa da esperança cristã no meio das dificuldades que atravessamos!

O Evangelho deste domingo deixa-nos estarrecidos. Para os judeus, a expectativa da vinda do Messias era realidade fundamental, pelo que colocar a escusa do convite recebido pelo Rei parece estranho. Um judeu piedoso deveria esperar o Messias. 

Mas este é o texto que nos lê hoje também. Por um lado, pode a nossa vida ao receber o convite do grande Rei mostrar-se demasiado ocupada, perfeitamente instalada e por isso indisponível para acolher o grande chamamento a participar da festa de Deus. Provavelmente por não saber sequer a alegria desta festa e ficar por valores menores e entretida em coisinhas que não saciam a humana sede e desejo fundamental de infinito. 

Mas a promessa do Reino alarga-se a toda a humanidade: a todos os que estão na encruzilhada dos caminhos, a todos os que se perguntam pelo verdadeiro sentido da vida, preparados para partir. E são estes que acolhem o convite na disponibilidade para poderem participar "de um processo que dura a vida inteira" de comunhão com a acção que Deus realiza na humanidade.

No final do Evangelho algo nos deixa perplexos. O Rei chama de "amigo", alguém que está sem o manto nupcial e na ausência da sua resposta coloca-o fora. O processo é estranho para nós. Todavia, na entrada dos banquetes no oriente era o promotor da festa quem convidada e oferecia os presentes a quem chegava, até se fosse o caso, do manto nupcial. Por isso, se alguém não o tem vestido, é porque o recusou (cf. António Couto, Quando Ele nos abre as escrituras, p. 266). Estamos aqui diante de uma continuação da do que vinha de trás: Este rei pede a nossa disponibilidade, humildade e totalidade de vida para acolher todas as suas maravilhas. Só assim as relações são autênticas. Por isso, a condição para ser chamado é estar disponível. E nesta disponibilidade Deus não tardará a manifestar-se.


Saturday, 3 October 2020

Só o amor purificado torna a nossa vida fecunda.




DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM


L 1 Is 5, 1-7; Sal 79 (80), 9 e 12. 13-14. 15-16. 19-20
L 2 Filip 4, 6-9
Ev Mt 21, 33-43 

As leituras deste domingo continuam a manter-nos na vinha, lugar de preparação para a festa, "pelo fruto da videira e do trabalho do homem". Mas as leituras fazem-nos voltar o olhar e re-conhecer o trabalho de Deus, na sua aliança com um Povo específico. Sinal de um amor maior, desproprocionado, mas desejoso da correspondência. Bento XVI salientava em 2006 que o amor de Deus incluía tanto uma dimensão de entrega - agape - como de desejo de reconhecimento - eros. De facto, «eros de Deus pelo homem é ao mesmo tempo totalmente agape» (Bento XVI, Deus caritas est, 10).

É com este cenário de Deus que dá tudo que nos deparamos com a essência do que é o pecado: não querer corresponder com a vida ao amor com que fomos criados, querendo apropriar-se daquilo a que é chamado a viver como dom. E sendo as ramificações disto tão complexas, o amor de Deus continua a ser o caminho para viver na lógica do dom. 

É daqui que se entende a lógica dos frutos: não se trata de fazer muitas coisas, mas querer viver com amor, com entrega, com desejo por um bem maior do que apenas o próprio; melhor, é viver para o bem do outro, caminho sempre necessário para quem quer ser verdadeiramente feliz. 

Recorrendo à imagética agrícola, uma árvore para dar fruto tem de ser podada, cuidada, resguardada. Assim age em nós o Senhor, cuidando-nos pela força do seu amor nos seus sacramentos: somos enxertados em Cristo pelo Baptismo, elevados à dignidade de verdadeiros filhos de Deus na unção crismal, alimentados pelo Pão da Vida, lavados pelo perdão purificador de toda a fragilidade. Mas precisamos de guardar como um tesouro mais precioso o dom do chamamento primeiro de Deus, como experiência mais profunda de um amor recebido; para isto, desejemos a fidelidade, a qual passa pela vontade de querer viver a vocação que Deus faz a cada um para toda a vida. 

Quando vivemos a vida assim, colocando tudo na comunhão com Deus, então «tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude» vai encontrando espaço na nossa vida. E tem espaço por estar centrada em Deus. Só o amor purificado torna a nossa vida fecunda.