Saturday, 27 June 2020

Renunciar, abrir e ressuscitar



A lógica da vida que contemplamos nas leituras deste Domingo colocam em evidência caminhos de discernimento. O refrão do Evangelho: " quem não renunciar,...., não poderá ser meu discípulo" parece enunciar realidades castradoras ou opressoras. Está aqui em causa a liberdade de vida, de que quem coloca o centro da vida na radicalidade da entrega. Não é desprezar, é procurar a ordem para a vida poder caminhar. 

Bem centrado, no que toca aos afectos de outrem e ao amor próprio, por se descobrir no amor maior de Deus, o cristão, na sua fragilidade -boa porta para permitir a entrada de Deus - consegue abrir-se a tudo o que o rodeia, aos outros, à Criação e a Deus. Quem a nada renuncia, nada vive.

Neste caminho entra-se pela lógica do baptismo. Morrer para si, para se deixar ser levantado (e nao levantar-se por si), para se abrir a uma nova forma de vida, marcada pela cruz, sinal de morte e vida, sinal da vida de Cristo. Já sabemos que "se morremos com Cristo, também com Ele viveremos" (Rom 6, 8). Não nos deixemos e esforcemos para não deixar ninguém morrer só, sem a consciência do Amor de Cristo.

Friday, 19 June 2020

A verdade padece, mas não perece (Teresa de Ávila)



L 1 Jer 20, 10-13

L 2 Rom 5, 12-15
Ev Mt 10, 26-33


Joseph Fuchs considerava que a imagem que cada um tem de Deus gerava uma auto-imagem . Estes textos bíblicos que nos são colocados permitem-nos intuir que o Deus de Israel é um Deus que responde ao profundo anseio humano de verdade e justiça. Tantas vezes o sofrimento humano nasce da perseguição àqueles que lutam e anunciam a verdade. S. Teresa dizia que a verdade padece, mas não perece. Contudo a verdade que aqui temos não se prende apenas com um atitude moralista ou de denúncia. A verdade bíblica liga-se intimamente à fidelidade. 

O Evangelho coloca-nos que a verdade, na sua força, nada deixa oculto. De facto, aquilo que existe mais cedo ou mais tarde acaba por se revelar, e se não explicitamente, pelo menos traduzir-se-á de forma implícita, em realidades concretos de vida, que aludem para essas realidades. E isto manifesta-se quer no bem, quer no mal. 

Todavia enfrentar as dificuldades permanece tarefa diária. Haverá sempre que se dispor a querer sair de si para se colocar na lógica do dom e da entrega. Manter a paz, manter-se animado (anima como alma, em oposição ao ficar sem alma, desanimado), com vida, não se dá apenas pela força própria. Dá-se pela força da verdade que não abandona e se revela como amor que sustenta a vida na entrega. 

A verdade não é por isso a lei, que mesmo na forma de mandamentos, são apenas limites à acção humana. São úteis, mas acabam por ser apenas limites. A verdade é dom gratuito de Cristo, e por isso permanece mesmo para lá do mal. 

Saturday, 13 June 2020

Fomos eleitos




Ex 19, 2-6a
Rom 5, 6-11
Mt 9, 36 – 10, 8

A fé nasce da convicção de que fomos eleitos, de que antes do desejo humano de nos aproximarmos de Deus, existe uma acção de Deus que se torna familiar connosco. O Deus bíblico revela-se como salvador, e é desta comunicação que se forma da identidade de um Povo. A estes Ele os constitui com uma missão de ser sacerdotes, ou seja, cuidadores e elevadores da realidade que os rodeia.

A Eleição que Jesus faz dos apóstolos é a continuação deste dinamismo. Jesus convoca e elege os apóstolos para a colheita na messe, pois Deus já previamente semeou o seu amor. É esta a humanidade a que a Igreja se dirige: Deus já actuou e derramou o Seu amor, cabendo agora a missão à Igreja de elevar e ajudar a reconhecer a nossa profunda ligação com a fonte. É nome desta descoberta que os apóstolos são capacitados para as mesmas acções de Jesus: curar, sarar, expulsar os espíritos impuros e ressuscitar. 

Nesta realidade entramos pela fé, dom dado a que reconhece que Deus continua a actuar em mediações dos nossos dias. Daqui todos nós precisamos de receber. E se não dermos de graça o que recebemos, depressa o voltaremos a perder.