Friday, 15 May 2026

"Olhos no céu, pés na terra"




DOMINGO VII DA PÁSCOA

ASCENSÃO DO SENHOR – SOLENIDADE

L 1: At 1, 1-11; Sl 46 (47), 2-3. 6-7. 8-9
L 2: Ef 1, 17-23
Ev: Mt 28, 16-20 

"Olhos no céu, pés na terra" é a expressão que nos pode ajudar a viver a liturgia deste dia da Ascensão do Senhor. Celebramos o dia da Ascensão do Senhor não apenas como um movimento físico, mas com o significado profundo que carrega: Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, entra no seio de Deus, de onde tinha saído, regressando com a nossa humanidade. Por Ele, único mediador da humanidade, é dada a cada um de nós a possibilidade de vivermos com Deus.

Por isso, é grande a esperança a que fomos chamados, como anuncia São Paulo na Carta aos Efésios: a comunhão com o mistério de amor revelado em Deus. Acima de todas as tribulações e dificuldades está a vida eterna com Deus.

Mas esta realidade não nos tira os pés da terra. Vemos isso no mandato do Senhor ao enviar os discípulos a evangelizar, com a força do Espírito Santo, como testemunhas por toda a terra. É importante o uso do termo "testemunhas", palavra que envolve a vida do próprio e que, no grego (língua em que o NT foi escrito), se aproxima da palavra "martírio". Evangelizar nunca é cumprir uma tarefa, mas envolve transmitir vida. É com a graça do Espírito Santo, mas também com a nossa vida, que a Palavra de Deus é anunciada. E isto exige, por isso, também criatividade.

A Igreja celebra este domingo o Dia Mundial das Comunicações Sociais, como meio no qual a voz do Evangelho, da construção da paz e da harmonia deve estar presente. Podemos sempre perguntar que uso fazemos destes meios, quer os mais tradicionais, quer os mais recentes, como as redes sociais e agora até a inteligência artificial. No documento que o Papa Francisco nos dirige este ano, este reconhece o valor que a IA pode dar no auxílio da humanidade, mas também o risco de anular a criatividade humana e o pensamento crítico. E recorda-nos que a questão de fundo não é tanto o que a IA pode fazer, mas o que nós podemos fazer com esta tecnologia, sabendo que existe o risco de cedermos à preguiça do pensamento e à pressa dos resultados.

Que, com pés no chão e olhos no céu, não deixemos de sonhar como a criatividade e a capacidade humana podem ser preservadas e cuidadas para o anúncio da vida verdadeira que Deus nos dá.

Friday, 8 May 2026

Um Paráclito, capaz de construir pontes entre a humanidade e Deus




DOMINGO VI DA PÁSCOA



L 1: At 8, 5-8. 14-17;
Sl 65 (66), 1-3a. 4-5. 6-7a. 16 e 20
L 2: 1Pd 3, 15-18
Ev: Jo 14, 15-21 

Celebramos este domingo acolhendo o chamamento de Jesus para vivermos em comunhão com Ele. É do encontro e do amor de Jesus Cristo, que os discípulos acolhem, que o viver como cristãos gera, muitas vezes, uma separação com o mundo.

Mas o que Jesus lhes oferece é uma nova linguagem de amor. Ele é o Enviado do Pai para estar connosco, que nos consola e fortalece. E promete outro Paráclito, outro Defensor, para nos fazer viver em comunhão. É importante perceber que o Paráclito significa defensor ou intérprete; Aquele que opera em nós e nos é dado por Deus, que faz de nós filhos de Deus. E é assim, para que a linguagem do amor esteja sempre viva nos discípulos e estes possam viver animados pelo Espírito de Deus.

Uma coisa é viver os mandamentos como um fardo; outra é encontrar o apelo interior para os viver. E assim vemos acontecer na primeira leitura, onde os discípulos se dirigem para a Samaria — terra que era excluída pelos judeus, mas onde a luz do amor de Jesus Cristo encontra face. Na raiz da vida da Igreja está o Espírito Santo, que sustenta uma espiritualidade, uma interioridade. 

O nosso tempo procura a espiritualidade, a interioridade. São as nossas comunidades paroquiais lugares de espiritualidade? Levamos luz dentro de nós? Que tempo entregamos a Deus para que Ele atue em nós? Como pessoas humanas, precisamos uns dos outros. Precisamos de receber para depois dar. E, muitas vezes, ao dar também recebemos. Que o Espírito prometido por Jesus, e que nos é dado pelo Pai, nos sustente na nossa vida para vivermos por dentro os mandamentos de Jesus Cristo.

Saturday, 2 May 2026

O Senhor a todos prepara uma casa

 


DOMINGO V DA PÁSCOA



L 1: At 6, 1-7; Sl 33 (34), 1-2. 4-5. 18-19
L 2: 1Pd 2, 4-9
Ev: Jo 14, 1-12

O Evangelho que ouvimos este domingo coloca-nos diante de Jesus Cristo, que Se apresenta com uma mensagem de esperança. O convite de Jesus é o de confiança absoluta, de Quem Se apresenta como Aquele que cuida e prepara um lugar. Continuamos, por isso, no seguimento da imagem do Bom Pastor, mas agora com uma novidade.

Cristo é a imagem de Deus Pai, tal como Ele diz a Filipe. Queremos saber como é Deus? Olhemos para Jesus Cristo. Ele cuida de nós, interpela-nos, mas chama-nos à conversão; convida ao seguimento, tem palavras de vida eterna, mas repreende os discípulos para os iniciar no caminho do amor à maneira de Deus. É por isso que a fé é tão necessária: acreditar que o caminho de Cristo é o de vida eterna; que Ele nos aponta um caminho de vida.

Na vida da Igreja, é fundamental entrar na amizade com Jesus; não um amor imaginário ou relaxado, sem verdade; o amor implica a verdade, que é uma Pessoa. E isso implica-nos a todos na forma como vivemos os momentos de tensão.

Na primeira leitura, a comunidade nascente enfrenta uma crise: diante de uma dificuldade, a questão é analisada entre todos e surge uma resposta que resolve a dificuldade e guarda o essencial: aos Apóstolos compete pregar a Palavra; outros haverá que assumirão a função de servir às mesas: os diáconos, novo ministério. Na vida de uma comunidade também se passa o mesmo. As dificuldades, ao invés de serem negadas, devem ser partilhadas, dialogadas e até rezadas, de modo a que, guardando o essencial que é Cristo, se possa sempre construir a comunhão.

Friday, 24 April 2026

Em Cristo Pastor, encontramos descanso e missão




DOMINGO IV DA PÁSCOA


L 1 At 2, 14a. 36-41; Sl 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6
L 2 1Pd 2, 20b-25
Ev Jo 10, 1-10 

Celebramos este domingo, dito do Bom Pastor, ao escutar a Palavra de Deus que nos orienta e fortalece.

Jesus Cristo apresenta-Se Ele mesmo como o bom pastor, como Aquele que vem para servir, guiando e sendo a porta para a nossa vida. Ele vem para que tenhamos vida e vida em abundância, pela proximidade e conhecimento de cada um de nós. E todos fazemos parte do rebanho de Deus, membros de um Povo e nunca isolados uns dos outros. 

O texto do Evangelho apresenta-nos que Jesus Cristo é a porta pela qual entramos e saímos; é por Ele que encontramos descanso íntimo e sentido para a missão. Já o ladrão vem pela janela, procura caminhos curtos, centra-se unicamente no próprio interesse e na vantagem que consegue ganhar.

Esta Palavra pode-nos ajudar a redescobrir tanto o sentido da missão na saída das ovelhas, onde descobrimos alimento, como a importância de uma contínua conversão de vida. Dar testemunho e participar da vida da Igreja alimenta a fé e faz-nos descobrir sentido, mas também nos ajuda a deixar que aconteça a nossa conversão de vida: o Papa João Paulo II dizia que a perda de consciência de pecado tinha a sua origem na perda de consciência do amor de Deus. Quanto mais reconhecemos o amor de Deus, mais a conversão pode acontecer na nossa vida, por compreendermos as vezes que não lhe respondemos com amor a Ele e aos irmãos. 

Que o amor de Deus nos ajude sempre a encontrarmos em Cristo a nossa porta, por quem encontramos vida e onde a conversão nos vai purificando, para que em cada dia Ele possa ser cada vez mais a nossa luz. 

Saturday, 18 April 2026

"Não nos ardia o coração?!"




DOMINGO III DA PÁSCOA


L 1 At 2, 14. 22-33; Sl 15 (16), 1-2a e 5. 7-8. 9-10. 11
L 2 1Pd 1, 17-21
Ev Lc 24, 13-35 

O Evangelho deste domingo continua a lógica pascal das manifestações de Jesus Ressuscitado aos Seus discípulos. O Evangelho deste domingo apresenta-nos novamente a tarde do dia da Ressurreição e a separação de dois discípulos da restante comunidade. Estão em separação dos restantes, mas também eles vão discutindo entre si, sinal de uma divisão que existe entre eles e até podíamos dizer dentro deles. Mas é destes dois em divisão que Jesus Se aproxima e caminha com eles, interrogando-os a partir das suas questões, das suas interpretações e ideias, para depois lhes alargar o sentido com a própria Escritura, lida com a chave do amor de Deus.

É na chave do amor de Deus que Jesus vai apontando o sentido ao sofrimento de tudo o que havia passado com Ele. E é pelo caminho que Jesus faz com eles — e que vai fazendo connosco — que nos vai chamando a transformar a nossa própria mentalidade. Esta transformação é fundamental: os discípulos sentem arder o coração e vão fazendo a experiência de Jesus Cristo que, com a Sua Palavra, ilumina a condição humana e lhe aponta um sentido.

É deste caminho de Jesus Cristo, que transforma e ilumina o coração humano (que ardia com a experiência de Deus e a explicação da Palavra), que a fração do pão acontece. Trata-se de um sinal da Eucaristia, onde os seus olhos, antes fechados, agora se abrem. Nas trevas da vida, a Ressurreição ilumina como um farol novo. Estes discípulos voltam, enfrentando agora a noite, mas levando dentro a luz que os ilumina. E este caminho faz gerar algo novo: a comunhão de volta com a comunidade.

A Eucaristia não é, por isso, apenas mais uma devoção. É um gesto religioso de acolhimento de um Deus que Se manifesta nas nossas dúvidas e inquietações para as transformar, quando aceitamos dialogar com Ele. É o sinal que constrói a comunidade e nos une, mesmo nas nossas diferenças, porque nos congrega à volta do mesmo altar. É o dom da presença de Deus no meio de nós.

Precisamos da Eucaristia, da celebração da Missa, não apenas como um marco semanal (em que por vezes é trocada por outras coisas), mas de descobrir nela o centro da vida e da transformação: a da manifestação da presença de um Deus que caminha connosco e nos convida a crescer na comunhão com os irmãos.

Friday, 27 March 2026

Na cruz do Senhor estou eu e tu

 

DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR


L 1 Is 50, 4-7; Sl 21 (22), 8-9. 17-18a. 19-20. 23-24
L 2 Flp 2, 6-11
Ev Mt 26, 14 – 27, 66 ou Mt 27, 11-54 

 

Estamos a celebrar o Domingo da Paixão do Senhor, início da Semana Santa e Semana Maior da nossa fé. A palavra "Paixão" deriva do latim passio, a qual significa tanto sofrimento como amor, numa união íntima entre estas duas realidades.

A liturgia deste domingo coloca-nos precisamente neste relato, não apenas como ouvintes ou observadores externos, mas convida-nos a ser verdadeiros participantes de um acontecimento central. Trata-se sempre dos relatos mais centrais dos evangelhos, aqueles que mais demoram a ser narrados. Numa lógica de quem olha o cristianismo apenas como uma moral, pode estranhar-se esta duração, mas quem acredita que o evangelho é escrito para levar à fé compreende o Mistério que aqui se encerra. Aqui não estamos a ouvir uma lição de como agir, mas a contemplar a vida de Jesus Cristo.

Toda a liturgia apresenta Jesus como o manso cordeiro levado ao matadouro, ligando este acontecimento à ceia judaica da libertação do Egito. Agora a libertação é outra, em que Jesus entra para nos fazer viver de uma maneira nova por dentro das dificuldades da vida. Jesus assume o lugar do último, daquele que é preterido por um malfeitor, Ele que tinha feito tanto bem. Ele assume toda a violência do mundo.

A violência que Jesus assume é a nossa, a dos nossos dias, a minha e a tua. Por isso, Jesus não podia salvar-Se a Si mesmo; isso seria contrariar quem Ele era, a Sua própria vida. Ele veio para salvar-nos e entrega-Se nas mãos dos homens, no Seu amor até ao fim, na Sua descida até ao mais baixo da condição humana. Vemo-Lo a descer de Deus para homem; de homem para servo; a morrer na maldita cruz; e, na tradição da Igreja, a descer à mansão dos mortos. É este percurso que leva a que o centurião romano — logo, não judeu — pudesse expressar com toda a certeza: "Este era verdadeiramente (alethos — palavra usada no Evangelho de Mateus apenas três vezes, sendo que duas delas se destinam a confirmar a filiação divina de Jesus) Filho de Deus". Reconhecemos na cruz a presença de Cristo que se entrega por nós, ou apenas repetimos o gesto habitual?

A cruz do Senhor, para nós cristãos, nunca pode ser vista apenas como um instrumento de morte; na fé sabemos que Jesus ressuscitou, ou seja, superou a morte. É por isso que a Tradição da Igreja olha para a cruz como o madeiro, a árvore que possui o mais belo fruto, aquele que nos sustenta. É hoje também que o nosso "sim" é chamado a ser dado nesta cruz.

A vida de Jesus Cristo em nós

 DOMINGO V DA QUARESMA

L 1: Ez 37, 12-14; Sl 129 (130), 1-2. 3-4ab. 4c-6. 7-8
L 2: Rm 8, 8-11
Ev: Jo 11, 1-45 ou Jo 11, 3-7. 17. 20-27. 33b-45


A vida de Cristo em nós

Estamos em caminhada para a Páscoa. Neste ano litúrgico, o Ano A, fazemos o caminho das leituras que acompanham os que vão ser batizados em idade adulta, os catecúmenos, onde pudemos meditar em Cristo como Água Viva e, depois, como Luz do Mundo. Neste Domingo, vemos Cristo como Ressurreição e Vida.

O episódio da morte e ressurreição de Lázaro marca para nós um sinal da vida de Jesus Cristo que vence a morte.

Significado de morte

A morte de Lázaro sinaliza, antes de mais, para cada um de nós a morte humana, a qual é vencida pela ressurreição de Cristo. Mas a primeira leitura alarga o nosso horizonte para nos fazer compreender que são vários os túmulos que se podem colocar no nosso caminho: o nosso egoísmo, a nossa indiferença, as nossas injustiças, enfim, o nosso pecado. E o pecado só pode ser perdoado por Deus, pois este conduz à morte espiritual. Mas, para isso, necessitamos de acreditar em Jesus Cristo, pela virtude do Espírito Santo.

Acreditar

Acreditar em Jesus Cristo, tal como Ele diz a Marta e a Maria, não é apenas um sentimento religioso; é aderir com a vida a um Deus que nos ama; é acolher a vida no Espírito que Cristo nos dá. É fazer a experiência de que a ressurreição começa já aqui, de que se foi perdoado por amor. É a força da fé em Deus, como vemos na vida de Maria, que transforma a realidade. São Paulo apresenta-nos a vida da fé como a vida inserida no Espírito, própria de quem acolhe o Espírito de Deus e não se centra apenas nas suas próprias forças, capacidades ou técnicas. 

A novidade do Cristianismo está na fé na ressurreição que transforma a vida. A cruz e a ressurreição manifestam-nos o amor de Deus que vence a nossa morte e todas as outras nossas mortes.

Acreditar é abrir-se à misericórdia de Deus, a qual nos faz reconhecer os nossos pecados, mas também confiar no seu amor. Nós acreditamos que Deus se compadece, como ouvimos neste Evangelho — o único que nos apresenta Jesus a chorar. E assim, o Deus invisível capaz de se compadecer, que tantas vezes nos refere o Antigo Testamento, torna-se visível em Jesus Cristo. 

Friday, 13 March 2026

Iluminados por Cristo




DOMINGO IV DA QUARESMA

L 1: 1Sm 16, 1b. 6-7. 10-13a; Sl 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6
L 2: Ef 5, 8-14
Ev: Jo 9, 1-41 ou Jo 9, 1. 6-9. 13-17. 34-38


Nos nossos limites, Deus pode agir

O texto do Evangelho assume logo desde o início que Jesus se recusa a associar a doença a um castigo de Deus, ou então como se fosse resultado do pecado dos pais. Jesus aponta outro caminho: aquela situação pode tornar-se espaço para a misericórdia de Deus. Aliás, até nos aponta que mesmo a doença pode ser ocasião para acolher o amor de Deus.

A este cego Jesus, o enviado de Deus, dá-lhe a vista mediante o barro, dando aí uma nova criação, à imagem de Deus. Sinal para nós de que ser cristão nasce de uma nova criação, de assumir que a vida de amizade com Jesus traz algo profundamente novo.


Quem é este cego para nós?

Este homem é sinal de todo o cristão que se deixa iluminar por Deus, que se reconhece frágil e pecador e que, por isso, precisa da luz de Deus. Existe aqui o contraponto dos fariseus, que acusavam de serem pecadores tanto o cego curado como o próprio Jesus, por não viver o sábado da maneira que eles mesmos pensavam. Mas eram estes que estavam fechados à luz de Deus. Por outro lado, é este homem que aceita percorrer o caminho difícil da purificação. Diante das perguntas inquisitórias, ele não dá respostas apressadas, mas apenas fala da sua experiência. Quando nos deixamos iluminar pela luz verdadeira, podemos mudar de vida. E muda-se por amor e não pela força da lei.


E nós?

Na nossa vida podemos estar nalguns destes lados. Ou do lado dos fariseus, que acusam os outros de pecado e estão fechados nos seus preconceitos... e a esses o seu pecado permanece; ou então do lado dos que se deixam converter e iluminar, os quais enfrentam muitas vezes dificuldades, mas reconhecem que Jesus Cristo é a luz do mundo. Regra geral, quanto mais se acusam os outros, menos consciência se tem dos próprios pecados. O caminho não é o da culpa, mas o de se deixar curar pelo amor de Deus.

Friday, 6 March 2026

Cristo é a água viva para a nossa sede



DOMINGO III DA QUARESMA

L 1: Ex 17, 3-7; Sl 94 (95), 1-2. 6-7. 8-9
L 2: Rm 5, 1-2. 5-8
Ev: Jo 4, 5-42 ou Jo 4, 5-15. 19b-26. 39a. 40-42


Celebramos este Domingo, o terceiro na caminhada da quaresma e eis que a liturgia da Palavra coloca diante de nós o episódio da samaritana e Jesus, um diálogo profundo sobre a água e da sede humana.

Sede

A água é essencial para a vida do corpo e a experiência da sede só revela mais profundamente essa necessidade. A primeira leitura relata-nos um povo “atormentado pela sede” que ousa questionar a libertação que lhe havia ocorrido. É Deus, que acolhendo a voz de Moisés, faz brotar a água de um rochedo, lugar improvável e sinal de uma experiência de fé. A liberdade trouxe ao povo dificuldades, e diante destas este prefere voltar à escravatura e duvida do amor; mas o Deus de Israel não abandona o seu Povo que a Ele clama e mediante a prece, este é acolhido. Experiência marcante para o Povo de Deus que encontra em Deus salvação. 

​A sede toca também a vida de Jesus, que quer passar pelo território inóspito da Samaria. Aí encontra e pede água a uma mulher, samaritana, e com uma vida pouco recomendável. Esta mulher é sinal da humanidade, que procura água para a sua vida como condição de sobrevivência. Mas é no diálogo que decorre que a mulher vai reconhecer a sua sede, aquilo que a fazia oscilar e procurar tantas outras soluções.

​A água de Cristo

​O segredo que se vai revelar na vida dela vai ser a descoberta da sede mais profunda, a falta e a carência de algo que lhe dê a segurança para a vida. Vai ser a verdade, não a que esmaga, mas a mais profunda, de que é conhecida desde sempre com amor, que a vai tornar em anunciadora e testemunha de Cristo. É a experiência e não apenas o saber que faz dela testemunha de Jesus.

​No mais profundo de nós mesmos vive Cristo que nos sustenta e quer ser escutado para nossa salvação; no acolhimento de sua vontade vivemos a salvação, no meio da sede que tantas vezes temos.

​O mal é quando tentamos disfarçar esta sede com coisas que não geram vida e nos anestesiam a nossa dor. Aí surgem tantas vezes os vícios ou outras compensações, que só podem gerar amargura e nos diminuem na nossa semelhança com Deus.

Deixar que a vida de Cristo nos transforme em testemunhas e nos leve à fé, a sermos adoradores em espírito e verdade. Esta transformação inicou-se para cada um de nós no batismo, na água viva que faz de nós membros da Igreja e que em cada dia somos chamados a deixar que nos alimente e revigore o nosso espírito. 

​Nesta quaresma demos tempo para nos colocarmos em verdade diante de Deus, de nos deixarmos confrontar como vivemos em espírito e verdade e de renovarmos o nosso batismo. Conheçamos a nossa sede e confiemos que somente Jesus Cristo é a água viva que dá sentido, pelo amor incondicional, a nossa vida. Sem esta ficaremos sempre presos de coisas passageiras. Assim nos recordava Santo Agostinho que o nosso coração anda inquieto até poder repousar em Deus.  

Friday, 27 February 2026

Escolher escutar para se transfigurar com Cristo



DOMINGO II DA QUARESMA


L 1: Gn 12, 1-4a; Sl 32 (33), 4-5. 18-19. 20 e 22
L 2: 2Tm 1, 8b-10
Ev: Mt 17, 1-9


Transfiguração do Senhor

Este Domingo faz-nos entrar no episódio da Transfiguração do Senhor. Trata-se de uma experiência de Deus dada aos discípulos, fundamental na sua vivência da fé. Mostra-lhes o Senhor glorioso, sinal de que Cristo é o centro da história, pois está ladeado por Moisés e Elias, sinal da Lei e dos Profetas. Mas mostra-lhes, sobretudo, que a meta de Cristo é a vida em comunhão com Deus e que a morte é vencida por Ele. É, por isso, um momento forte de encontro que marca os discípulos, que veem a beleza de Deus e que, nas palavras de Pedro, seria motivo para ficar ali. Mas o horizonte é maior.

Escutar a palavra

Durante a Transfiguração, que significa transformação, os discípulos são convidados a escutar a Palavra de Jesus, Filho de Deus, em quem o Pai coloca todo o seu prazer ou complacência, revelação que acontece pela voz de Deus mediante a nuvem que remete para o Antigo Testamento: a nuvem, presença de Deus, que acompanhava o Povo de Deus no deserto.

Na nossa vida sabemos que é muito difícil escutar: escutar o outro e escutar a Deus. Para isso é necessário dispor de abertura ao outro e a Deus, e deixar que a Palavra de Deus nos desinstale e incomode. São várias as vezes que Jesus, no Evangelho, pede aos discípulos para O escutarem. Para haver escuta é necessária humildade. É necessário reconhecer que não se sabe nem se é tudo. Mas, sem escuta da Palavra, não há transformação nem conversão, nem tão pouco abertura para reconhecer a fé e o amor de Deus que se revelam a nós. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia que a relação com Deus era como ter alguém — Deus — que nos bate à porta, mas que esta só se pode abrir do lado de dentro.

Escutar para poder partir

Ao contrário do que nos aponta Pedro, a experiência forte de Deus, apoiada na escuta da Palavra, leva ao acolhimento da salvação e dispõe-nos para fazer a Sua vontade como caminho de vida. Vemos isso na vida de Abraão, que escuta e parte guiado pela Palavra de Deus, pela promessa que recebe.

Escutar é ouvir a Palavra de Deus e deixá-la entrar em nós. De modo especial, procuremos ter tempo na Quaresma para acolher a Palavra — que tempo temos deixado à oração nestes dias? — mas é também ouvir a Palavra de Deus que se manifesta à nossa consciência, mediante as necessidades que presenciamos à nossa volta, nos irmãos.

Escutar é, por isso, condição para viver a fé; acolher o amor de Deus que nos faz caminhar na santidade; é deixar que esta Palavra possa também ir transfigurando a nossa vida daquilo que é pecado em disponibilidade e capacidade de amar, sem nos fecharmos em lugares sem vida.  

Friday, 13 February 2026

Uma vida nova até ao coração

DOMINGO VI DO TEMPO COMUM


L 1: Sir 15, 16-21 (15-20); Sl 118 (119), 1-2. 4-5. 17-18. 33-34
L 2: 1Cor 2, 6-10
Ev: Mt 5, 17-37 ou Mt 5, 20-22a. 27-28. 33-34a. 37


Estamos a celebrar este Domingo na continuidade do Sermão da Montanha, na subida com Jesus ao monte alto. É neste lugar que Ele se demora a ensinar os discípulos e, neste contexto, nos abre novos horizontes, para além de uma prática de virtude apenas aparente.

Nova Lei

Jesus é radical. Não vem negar o Antigo Testamento nem a Lei, mas vem abri-la e levá-la à sua plenitude, mostrando que esta também envolve o nosso coração e a nossa disposição interior; toca, até ao mais fundo, a nossa forma de amar.

É uma nova forma de sabedoria, como nos aponta S. Paulo, que vem do Espírito Santo. Uma sabedoria que não nasce apenas do saber, mas da forma como se ama, porque o Espírito revela em nós o amor de Deus.

 

“Foi o que foi dito aos antigos… e o que Eu vos digo.”

“Foi o que foi dito aos antigos… e o que Eu vos digo.”: É esta expressão que Jesus repete e que traduz numa dimensão fraterna, conjugal e social.

Na relação com o outro é importante ser correto, mas é ainda mais importante não usar de sobranceria, reconhecendo-o como igual e nunca como inferior. Também o outro, mesmo na relação conjugal, deve ser cuidado e nunca reduzido a objeto em função do prazer ou benefício que possa trazer; a fidelidade constrói-se no amor vivido no dia a dia. E, por fim, não são os artifícios de palavras que garantem a verdade, mas a sinceridade: a manipulação do outro ou o silêncio agressivo não constroem comunhão, mas separação. A nossa linguagem deve ser simples e verdadeira: sim, sim; não, não.

 

Praticar e ensinar

A nossa missão é praticar e ensinar, diz Jesus no Evangelho. Ensinar torna-se mais fácil quando se pratica o bem. A primeira leitura falava-nos da escolha do bem. Nem sempre é fácil escolher o bem; porém, é sempre errado escolher conscientemente o mal, seja qual for o motivo. Outras vezes, é difícil optar pelo bem, mas é esse caminho que edifica e constrói cada um de nós à semelhança de Deus.

Que a graça de Deus nos dê a força para evitar o mal e optar pelo bem, aderindo a Ele de coração, em comunhão com o Espírito de Deus. 

Friday, 6 February 2026

Rejeitar o mal não basta; é necessário procurar fazer o bem

 

DOMINGO V DO TEMPO COMUM

 

L 1: Is 58, 7-10; Sl 111 (112), 4-5. 6-7. 8a e 9
L 2: 1Cor 2, 1-5
Ev: Mt 5, 13-16

 

A liturgia da Palavra, no Evangelho de Mateus, continua a colocar-nos com Jesus na montanha, logo após as Bem-aventuranças. As palavras de Jesus são fortes no tempo em que foram ditas e continuam a ecoar nos nossos dias.

Sal da terra e luz do mundo

As palavras de Jesus, ditas neste contexto, ganham muita força. O sal — de onde deriva a palavra “salário” — mostra-nos bem a importância do que é dito. Aos seus discípulos, Jesus pede-lhes que sejam sal e luz: sal para conservar e dar sabor; luz para iluminar o que está fechado e nas trevas.

O caminho é claro: rejeitar o mal não basta; é necessário procurar fazer o bem, nas boas obras.

Mas que boas obras?

As boas obras que Jesus nos aponta devem conduzir à glória de Deus. Portanto, não se tratam de boas obras vividas na lógica do “eu” ou da mera força humana, de um sucesso humano para si mesmo ou para as fotografias, mas orientadas e apoiadas em Deus, na gratuidade. O bem feito pelo outro e por amor do outro.

Os Padres do deserto diziam que o maior sinal da bondade de uma obra se manifestava quando, não sendo vista nem reconhecida, não gerava ressentimento em quem a praticava. Isaías apresenta-nos como o bem, sem violência nem opressão, é causa de construção e de cura, mostrando que o cuidado que se dá também cura e faz bem. Fazer o bem faz-nos bem também a nós, quando é feito de forma livre e com gratuidade.

A lógica da misericórdia

O bem que se faz gratuitamente abre-nos ao outro e tira-nos dos nossos mundos fechados. O cuidado que damos aos que muitas vezes não conseguem ajudar-se ajuda o irmão, liberta-o da solidão, constrói a fraternidade e humaniza-nos também a nós, ao reconhecermos a igual dignidade que a todos nos une.

Saturday, 31 January 2026

Bem-aventuranças, um caminho para todos

 

DOMINGO IV DO TEMPO COMUM


L 1: Sf 2, 3; 3, 12-13; Sl 145 (146), 7. 8-9a. 9bc-10
L 2: 1Cor 1, 26-31
Ev: Mt 5, 1-12a

 

 

Bem-aventuranças

Bem-aventuranças, chamados felizes. O caminho dos abençoados não se coloca na abundância. Não se trata sobretudo dos bens que se possuem, numa relação com o ter muito ou pouco, mas sim da atitude com que vivemos e de como vivemos. Na mentalidade da língua hebraica, os bem-aventurados são os que abrem caminho, os pioneiros, os que, no meio da vida, introduzem caminhos novos (’ashrê).

 

A misericórdia

No centro do caminho das bem-aventuranças está a misericórdia, à imagem de Deus. A palavra misericórdia tem a sua raiz no grego, num verbo que tem a ver com a capacidade de ver com atenção e de se compadecer diante dos que atravessam dificuldades. As bem-aventuranças articulam diante de nós duas atitudes: a da pobreza e a da bondade. Este texto promete, no início e no fim, a posse do Reino de Deus, isto é, viver a experiência de Deus como Pai. E é na inconformidade com aquilo que se vive e na ação de cada dia que a misericórdia se vai concretizando.

 

A começar com cada um de nós

Esta misericórdia é também para nós. Mesmo no meio das nossas dificuldades, é muito importante aceitar ajuda como sinal da misericórdia de que precisamos; é também assim que a exercemos com os outros. Deus escolhe-nos, mesmo com os nossos limites. E Paulo recorda isso aos Coríntios: eles são chamados não pelas suas grandes capacidades ou riquezas, mas pelo amor gratuito de Jesus Cristo, que os santifica. Não é vergonha reconhecer que se precisa de ajuda, pois esta é a forma como Deus age connosco.

Saturday, 24 January 2026

A Palavra anunciada por Jesus

 


DOMINGO III DO TEMPO COMUM

ou Domingo da Palavra de Deus

L 1: Is 8, 23b – 9, 3 (9, 1-4); Sl 26 (27), 1. 4. 13-14
L 2: 1Cor 1, 10-13. 17
Ev: Mt 4, 12-23

Celebramos neste Domingo o Domingo da Palavra de Deus. A Palavra de Deus tem para nós um lugar central, porque é através dela que Deus Se revela à humanidade e Se deixa conhecer. É uma Palavra que precisa sempre de ser escutada, interpretada e rezada, mas que permanece um verdadeiro tesouro para a vida da Igreja e de cada cristão.

Neste contexto, a liturgia faz-nos escutar o início da missão pública de Jesus, logo após a prisão de João Batista. E é significativo que essa missão não comece em Jerusalém, no centro religioso do poder e da segurança, mas fora, nas periferias, junto dos últimos e dos mais afastados. É aí que Jesus inicia o seu caminho.

Assim vemos cumprir-se a profecia de Isaías, que anuncia um Deus que caminha em direção à Galileia dos gentios: um lugar misturado, marginal, pouco prestigiado. É ali que Deus decide fazer brilhar a sua luz. Isto diz-nos algo muito profundo: Deus não espera que as pessoas cheguem até Ele já prontas; é Ele que toma a iniciativa de ir ao encontro de quem vive nas margens da vida.

Jesus concretiza esta profecia. A libertação que Ele traz não é abstrata nem apenas espiritual. Começa com um apelo muito concreto: o arrependimento. Converter-se é deixar-se tocar por Deus, é permitir que o coração mude de direção, orientando-se para o bem, para a vida e para a verdade.

Mas esta não é uma missão de solitários. Jesus chama os primeiros discípulos, não apenas para os instruir, mas para caminharem com Ele, para entrarem em sintonia com a sua vida e com a sua missão. Chama-os a serem “pescadores de homens”, expressão que aponta para uma vitória sobre o mal e para a responsabilidade de serem sinal e esperança para aqueles que procuram um caminho novo. Todos precisamos de conversão.

A missão de Jesus põe-nos em caminho. Ele proclama o Evangelho, isto é, a Palavra que tem autoridade para libertar e para recentrar a vida no essencial. Trata-se sempre de redescobrir o verdadeiro centro da existência.

E aqui surge um risco muito atual: o de nos perdermos nas divisões, nas preferências ou nas figuras humanas. São Paulo, ao escrever à comunidade de Corinto, confrontada com divisões internas, é claro: o centro é apenas um — Cristo. A unidade não nasce de acordos humanos nem de estratégias, mas da conversão em Cristo. Só quando Cristo é o centro é que a comunidade encontra harmonia.

Também hoje esta Palavra nos interpela. Que imagem de Deus temos? Um Deus distante ou um Deus que vai às periferias? Um Deus que impõe ou um Deus que liberta? E na nossa vida pessoal e comunitária, o que ocupa verdadeiramente o centro: as nossas seguranças ou Cristo?

Que esta Palavra nos ajude a deixar-nos libertar por Jesus, a caminhar com Ele e a recentrar a nossa vida e a nossa comunidade naquele que é o verdadeiro centro: Jesus Cristo, Senhor da libertação e da vida nova.


Homilia no dia de São Vicente

 


Homilia na Solenidade do Dia de São Vicente

22 de Janeiro 2026

 

Caros irmãos e irmãs na fé,

Reunimo-nos hoje, nesta solenidade de São Vicente, nosso padroeiro, Este é um momento especial para toda a nossa paróquia, ao reconhecer no seu patrono um lugar de unidade e de comunhão entre todos.

São Vicente viveu no século IV e foi diácono da Igreja de Saragoça, e enfrentou o martírio em 304 na sequência dos decretos de perseguição dos imperadores Diocleciano e Maximiano. Vicente, tendo sido ordenado diácono, é preso e recusa velar o sítio dos livros de culto e abjurar, como ordenava o decreto imperial, e assim é levado para Valência para ser julgado. Recusou-se a trair a sua missão, protegendo os livros sagrados e a fé da Igreja, mesmo sob as mais terríveis torturas.

O seu culto difundiu-se rapidamente e tornou-se uma dos mais importantes na Europa de então passados poucos anos, depois da paz de Constantino, quando terminou a perseguição violenta aos cristãos. Já Santo Agostinho o referia por volta ano 410, segundo as palavras de um sermão seu: «Qual é hoje a região, qual a província, até onde quer que se estenda tanto o império romano como o nome de Cristo, que não rejubile por celebrar o dia consagrado a Vicente?» (Sermo" 276, PL 38, 1257).

O seu culto e o facto de ser padroeiro de tantas terras e até da nossa capital portuguesa aponta-nos precisamente essa mesma consciência e chamamento a dar testemunho de Jesus Cristo. Mas a história portuguesa, descobre-nos um pormenor importante. São Vicente era cristão não de rito latino, mas moçárabe, e após a batalha pela conquista da cidade de Lisboa aos mouros e a violência existente, a figura de São Vicente torna-se precisamente um ponto de reencontro entre os cristãos que já viviam na cidade de Lisboa e os da reconquista cristã. Esta herança aponta-nos um dado importante. São Vicente é motivo para as pessoas se aproximarem entre si, mesmo apesar das suas diferenças.

Para nós comunidade paroquial da Branca, São Vicente é dia de nos alegrarmos e voltar a redescobrir a nossa fé vive ligada à fragilidade da vida, da correria do dia-a-adia, e que trazemos este poder, como nos dizia São Paulo em vasos de barro e não em vasos de ouro. Vivemos conscientes dos limites e das dificuldades, mas com os olhos levantados no horizonte, para a meta de uma esperança que nos vem de Jesus Cristo. A fragilidade da vida, as injustiças, as incompreensões ou tantas outras dificuldades são, por vezes, muitas vezes duras de viver. Mas a fé em Deus que nos ama dá-nos força e coragem de coração para não desanimar no esforço e na criatividade de sonhar com Deus caminhos novos.

A isto se associa, na grande missão evangelizadora da Igreja, da qual todos nós participamos com o nosso testemunho – sendo que às vezes é necessário usar palavras, como referia São Francisco de Assis – permito-me tomar as palavras de São Pedro da segunda leitura. Diante das dificuldades, devemos guardar uma bopa consciência, e rescponder às razões da nossa esperança, dos nossos esforços e entrega com brandura e respeito, ou mais literalmente, com delicadeza e reverência e por não por sobrancenceria.

Isto permite-nos compreender que a fé não se vive numa força de superioridade, mas de serviço, apoiados num compromisso realizado, feito de uma perseverança que procura a confiança em Deus . Diante das provas e das dificxuldades, Deus permanece connosco, diz-nos Jesus no Evangelho, pela força do Espíritgo santo. E toda a missão e vida cristã se apoiam assim.

 

Hoje a nossa comunidade paroquial vai presenciar a tomada de compromisso de um renovado conselho económico. Uma palavra de obrigado aos que exerceram o seu mandato no conselho económico anterior, muitas vezes com grande esforço pessoal e que entre outras coisas colaboraram no restauro dos altares da nossa igreja matriz.

Este novo conselho procura ser representativo de toda a paróquia de São Vicente da Branca e assim inclui membros dos quatro lugares de culto. Queremos caminhar no sentido de exercer bem a nossa missão, de modo a que a pastoral possa ter os recursos necessários para o seu funcionamento, e assim olhando para a renovação dos nossos lugares de culto e de ação pastoral. A renovação do telhado da nossa igreja matriz e do salão paroquial, a remodelação do adro e um funcionamento mais integrado entre todos os lugares de culto são caminhos essenciais para o fortalecimento da nossa consciência paroquial. Existem tensões e reconhecemo-las. Mas se permitis a alusão musical, as cordas de um instrumento musical se estiverem com a tensão certa está afinado. Por isso, mais do que as tensões que existam, mais importante é construir o diálogo com brandura e respeito, onde a vida possa transparecer humildemente a Jesus Cristo.

Que a celebração do nosso padroeiro nos ajude a caminhar na fé, a renovar a alegria cristã e o compromisso de darmos as razões da fé de mãos dadas uns aos outros apoiados no Espírito de Deus.

Friday, 16 January 2026

A fé é uma questão de testemunho, e não apenas de ideias




DOMINGO II DO TEMPO COMUM



L 1: Is 49, 3. 5-6; Sl 39 (40), 2 e 4ab. 7-8a. 8b-9. 10-11ab
L 2: 1Cor 1, 1-3
Ev: Jo 1, 29-34 


Celebramos este domingo com o Evangelho a colocar novamente diante de nós a figura de João Batista. O Evangelho segundo São João insiste num dos seus temas fundamentais: o testemunho. Esta palavra vem do grego martyria, de onde nasce também a palavra mártir. Testemunhar é dar a vida pelo que se viu, ouviu e experimentou.

O testemunho

João Batista apresenta Jesus não a partir de uma ideia abstrata, mas daquilo que viu e da sua experiência pessoal de Deus. Ele aponta Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, como o Filho de Deus sobre quem repousa o Espírito Santo. João testemunha a partir de uma relação cultivada com Deus e reconhece em Jesus o Messias esperado.

Este Messias é caminho de salvação: faz-Se Cordeiro, Filho, Servo e Pão. Tudo isto corresponde àquilo que o profeta Isaías já tinha anunciado: Ele é luz das nações e salvação para todos os povos. Também São Paulo nos fala deste Cristo que santifica e transforma todos os que invocam o seu nome.

Chamados à santidade

Na segunda leitura, São Paulo dirige-se à comunidade de Corinto com a consciência clara de ter sido chamado a ser apóstolo, e recorda também à comunidade que foi santificada por Deus e chamada à santidade. Mais uma vez, somos remetidos para a ação de Cristo na nossa vida, ação que deve ser reconhecida e agradecida.

Somos chamados à santidade porque fomos salvos por Jesus Cristo, e esta santidade é possível na nossa vida concreta. Por vezes, podemos ser tentados a pensar que a santidade não é para nós, devido às dificuldades da vida ou à nossa fragilidade. Mas São Paulo é claro: os cristãos são aqueles que invocam o nome do Senhor Jesus. Cada cristão vive com a consciência de ser tocado por Cristo e de ter a sua vida sustentada pela misericórdia de Deus.

Vida de oração e comunidade

Por fim, a vida de oração é fundamental para a vida cristã. Vivemos tempos de grande correria, com muitas solicitações que disputam a nossa atenção. No entanto, precisamos de tempo para rezar, para deixar que Jesus Cristo seja luz na nossa vida e o Cordeiro de Deus que nos transforma.

Sem a oração, corremos o risco de não fazer a experiência do perdão de Deus e de perdermos a capacidade de olhar a nossa própria vida com verdade. E quando isso acontece, afastamo-nos da santidade, que nunca é apenas uma realidade individual, mas diz respeito à forma como vivemos em comunidade, como nos relacionamos com os outros e como estamos atentos àqueles que caminham ao nosso lado.

Que a nossa fé seja sempre testemunho vivo, experiência acolhida e partilhada, e que Jesus Cristo seja a Pedra Angular sobre a qual apoiamos toda a nossa vida.

Friday, 9 January 2026

ser filhos no FIlho de Deus


 

DOMINGO: Batismo do Senhor – FESTA

L 1: Is 42, 1-4. 6-7; Sl 28 (29), 1-2. 3ac-4. 3b e 9b-10
L 2: At 10, 34-38
Ev: Mt 3, 13-17

 

Celebramos neste domingo a festa do Batismo do Senhor, que se torna uma ocasião para descobrirmos e aprofundarmos o sentido do nosso próprio batismo. A celebração do Batismo do Senhor identifica a sua missão como Filho de Deus e Messias, a qual ilumina a nossa própria condição de filhos de Deus. De facto, da palavra Cristo vem a palavra cristão, o que se traduz na nossa forma de estar e de viver.


1. Jesus não se coloca acima, mas ao lado

O primeiro ponto que nos revela o Batismo do Senhor é a sua forma de estar e de compreender a sua missão. Jesus causa espanto a João Batista, que reconhece que ele é que deveria ser batizado por Jesus. João anuncia um batismo de conversão e de penitência; o Senhor deixa-Se batizar por justiça, não por ser pecador, mas para Se associar e estar próximo dos pecadores.

Assim, Cristo não Se exalta a Si mesmo, nem Se apresenta como juiz implacável. Aproxima-se. E isto surpreende João Batista; pelo contrário, mostra-nos que a justiça de Deus é a salvação da pessoa humana: integrar e tornar parte aqueles que estavam longe e nas periferias. O Messias vem, como anuncia Isaías, sem violência, sem excluir, como luz das nações, para abrir os olhos aos cegos e libertar os que vivem nas trevas da vida.

Esta dimensão diz respeito a todos nós, pois cada pessoa é tocada pela graça de Deus. Todos precisamos de ser tocados pelo amor de Deus, pelo batismo que recebemos e permanece vivo em nós.


2. Somos filhos no Filho, habitados pelo Espírito.

O Batismo de Jesus aponta-nos também para a vida no Espírito Santo. Ele é revelado como Filho de Deus, ou seja, reconhece Deus como Pai. Este dado é de uma novidade marcante. Diz São João Crisóstomo: Deus só tem um Filho, o Verbo de Deus; e quando nós clamamos “Pai-Nosso”, Deus vê os filhos que a Ele clamam.
Os cristãos, aqueles que recebem a graça de Deus, são chamados a viver com o Espírito de Jesus Cristo, como pessoas que procuram a paz e a constroem. Para que haja paz, é necessária a justiça, sendo que isso implica dar a cada um o necessário e aquilo a que tem direito, não apenas nos bens materiais, mas também nos bens espirituais. E entre estes bens espirituais estão também os sacramentos.

 

3. O Batismo não é passado, é presença de Deus hoje.

Para nós, como filhos de Deus, o Batismo, como os demais sacramentos, é sinal da graça de Deus que age sobre nós. Assim acontece em cada sacramento. Assim nos recorda o Concílio Vaticano II:

«Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro — “O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se ofereceu na Cruz” — quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos Sacramentos, de modo que, quando alguém batiza, é o próprio Cristo que batiza. Está presente na sua Palavra, pois é Ele que fala quando se lê na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles” (Mt 18,20).» (Sacrosanctum Concilium, 7).

Não se trata, por isso, de meros rituais que se repetem, mas da presença viva de Deus. Pelo Batismo tornamo-nos membros da Igreja e cada um dos outros sacramentos deriva do batismo, ou seja, de vivermos como filhos de Deus. E isso vai moldando a nossa capacidade de amar. Os sacramentos, e de modo especial o Batismo — que nos faz membros com igual dignidade no Corpo de Cristo — são sinais da presença de Deus nas situações mais limite da nossa existência.

Que o nosso Batismo seja sempre memória viva da fé que recebemos, pois é por ele que recebemos todos os demais sacramentos e nos tornamos cristãos, destinatários do amor de Deus. Que este não seja apenas uma memória do passado, mas uma graça viva que ilumina as nossas escolhas, sustém as nossas fragilidades e nos envia a estar próximos dos outros, especialmente dos que mais precisam.

E que, confiantes neste amor que nos precede e nos acompanha, possamos caminhar todos os dias como Igreja viva, habitada pela presença de Deus, até ao encontro pleno com Ele.


Saturday, 3 January 2026

Um Deus que orienta e atrai

 


DOMINGO EPIFANIA DO SENHOR – SOLENIDADE


L 1 Is 60, 1-6; Sal 71 (72), 2. 7-8. 10-11. 12-13
L 2 Ef 3, 2-3a. 5-6
Ev Mt 2, 1-12 

A celebração da Epifania, no tempo do Natal, coloca diante de nós um dado fundamental da Encarnação de Cristo: Ele assume a nossa humanidade, e não apenas uma etnia ou uma determinada cultura. A Boa-Nova de Cristo é para todos, e estes Magos representam precisamente as várias nações e culturas da terra.

Universalidade.
A primeira leitura de Isaías revela-nos isso de modo claro, quando coloca Jerusalém como o lugar para onde convergem todos os povos. Esta chegada das nações, em espírito de paz e de louvor, faz emergir a alegria de acolher aqueles que são diferentes. Assim, a um povo escolhido juntam-se gentes de todas as línguas, com o louvor comum nos lábios e na vida: reconhecer o Deus da vida. São Paulo desenvolve ainda mais esta perspetiva e apresenta a salvação como dom oferecido a todos, sem distinção.

Procura da verdade.

Os Magos, de quem hoje ouvimos falar, são sinal desta humanidade que sai de si mesma para adorar o Menino Jesus. São eles que se dispõem a deixar as suas casas e os seus confortos, atentos a uma estrela que nasce no Oriente e indica o caminho para Belém. Esta estrela, já anunciada em profecia por Balaão, vem do Oriente, do lugar onde sempre nasce o sol, e detém-se sobre a nova Luz da humanidade: o presépio, espaço onde todos cabem — a Sagrada Família, os pastores e os Magos.

Reparemos que os Magos, embora não possuindo os conhecimentos teóricos da história de Israel, estão atentos à estrela e seguem-na. Bem diferente é a atitude dos sacerdotes de Israel, que conhecem toda a teologia, mas permanecem cegos aos sinais que apenas os que vêm de longe conseguem ver. Este é um drama não só de ontem, mas também de hoje. Fechados em certezas absolutas, corremos o risco de deixar de olhar para o Oriente e para o céu, para nos fixarmos em rotinas mortas ou em seguranças estéreis.

Mas, no mundo bíblico, a verdade não é apenas — nem nunca — uma ideia: é relação, é fidelidade, é caminho vivido.

A adoração.

São estes homens desprendidos que oferecem o presente mais precioso que têm para dar: adoram o Menino, ou seja, fazem emergir na sua vida e na sua boca todo o amor e ardor do coração a Deus. Adorar a Deus é reconhecer o amor recebido e manifestá-lo. Os presentes aqui enumerados dialogam com a vida de Cristo: o ouro, sinal da realeza; o incenso, sinal da divindade; e a mirra, prenúncio da morte.

No nosso caso, estes presentes são a nossa própria vida, os frutos e as ações que realizamos em cada dia, cuidando do bem mais precioso que nos foi confiado. E quem vive assim percorre caminhos novos, com a liberdade de quem se deixa conduzir por Deus e regressa por caminhos diferentes.

Assim, Jesus Cristo manifesta-se como luz que chama e atrai os de espírito inquieto; esta orienta, mas não obriga. Em Jesus, Deus revela-Se como misericórdia e amor incondicional, um Deus que caminha connosco, que nos procura mesmo quando nos afastamos e que nos convida a regressar por caminhos novos.

Que os Magos nos ajudem a manter o coração em procura, os olhos atentos aos sinais e a coragem de nos deixarmos conduzir por este Deus que se manifesta não no poder, mas na fragilidade de um Menino; não no medo, mas na confiança; não na imposição, mas no amor que salva.