Wednesday, 31 December 2025

Uma paz desarmada e desarmante

 



 

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – SOLENIDADE

L 1 Num 6, 22-27; Sal 66 (67), 2-3. 5-6 e 8
L 2 Gal 4, 4-7
Ev Lc 2, 16-21

Um ano novo se inicia, nesta data em que se celebra o oitavo dia da Solenidade do Natal e que dedicamos à festa de Santa Maria, Mãe de Deus, dogma proclamado no Concílio de Éfeso, para afirmar precisamente a divindade de Jesus Cristo. Também neste dia, São Paulo VI dedicou, em 1967, o primeiro dia do ano como Dia Mundial da Paz. É também com este desejo de paz no coração que iniciamos este novo ano.

É difícil para nós pensar nesta época do ano e não nos lembrarmos do valor da paz, como singular dom de Deus.

A bênção aarónica que ouvimos neste dia, do Livro dos Números, é, segundo os estudiosos, o mais antigo manuscrito do século VII a.C. encontrado até hoje em placas de metal, o que retrata bem a sua importância. Este texto invoca o Senhor como Deus que ama o seu povo, para que o proteja, o abençoe, olhe para ele, o acompanhe e lhe conceda a paz. O sentido profundamente religioso deste texto está carregado da consciência de fé de que o Deus de Israel é um Deus próximo.

Nesta bênção tão antiga estão também os nossos desejos mais profundos: o desejo de ver a vida crescer e multiplicar-se no amor para com aqueles que nos rodeiam; o desejo de podermos sentir a presença e o olhar de Deus que cuida de nós, num tempo em que somos tocados por tantas dificuldades; e o desejo de nos ser dada a paz, não apenas como ausência de conflitos, mas sobretudo como aquela que nasce da justiça e do perdão. Creio que todos ansiamos por isto: amor, justiça e paz.

E, se olharmos com atenção, vemos como tudo isto já existe dentro do presépio, onde há lugar para todos. Este torna-se espaço para onde acorrem os pastores, os últimos da sociedade; são eles que, na sua simplicidade, contam o que ouviram e depois regressam louvando e glorificando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto. E vemos Maria, a Mãe de Deus, que no seu coração vai meditando e compondo tudo o que lhe sucede (symballousa = dialogando dentro de si), e onde ela se vai tornando também Rainha da Paz.

Ela escuta, ouve e guarda no seu coração tudo o que vai acontecendo; ou seja, vai compondo e não cai na tentação das respostas rápidas e fechadas. Tantas vezes queremos entender Deus de maneira apressada e fugidia! Maria surge como sinal de esperança, a ensinar-nos a discernir a ação de Deus. De facto, um coração purificado por Deus procura guardar a ação de Deus que passa na nossa vida, por perceber que Deus só pode abençoar.

Na mensagem que o Papa Leão nos deixou para este Dia de Ano Novo, ele retoma as primeiras palavras que dirigiu à multidão no dia em que foi eleito Sumo Pontífice: vem desejar-nos uma paz desarmada e desarmante, que, na sua tradição agostiniana, sabe que começa dentro do coração, como referia Santo Agostinho:
«Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa» (Agostinho de Hipona, Sermo 357, 3).

A paz começa dentro de nós, e o Papa recorda-nos que ela deve ser cultivada e não tratada apenas como um ideal distante, o que acaba por conduzir a uma realidade que a desvaloriza e permite que a agressividade, as divisões e a violência se espalhem, como vemos suceder no nosso mundo, onde assistimos ao rápido crescimento dos armamentos. A paz, desarmada e desarmante, à maneira de Jesus, começa dentro de nós.

Que, nas nossas comunidades paroquiais, a paz nos faça sempre reconhecer o dom do outro e desejar acolhê-la com ambas as mãos. Que a bênção de Deus nos alargue as fronteiras do coração e, como nos dizia São Leão Magno:
«É a paz que gera os filhos de Deus, alimenta o amor e cria a unidade. Ela é o repouso dos santos e a mansão da eternidade. E o fruto próprio desta paz é unir a Deus os que separa do mundo.»

 

Friday, 26 December 2025

Familia, lugar de pertença espiritual

 


    Image by Andreas Böhm from Pixabay 

 

 

DOMINGO dentro da Oitava do Natal

Sagrada Família de Jesus, Maria e José – FESTA

L 1 Sir 3, 3-7. 14-17a (gr. 2-6. 12-14); Sl 127 (128), 1-2. 3. 4-5
L 2 Cl 3, 12-21
Ev Mt 2, 13-15. 19-23
 

Celebrar o mistério do Natal é celebrar o facto de que o nosso Deus assume toda a nossa humanidade, em todos os seus aspetos, para a elevar e redimir. Assim o vemos na vida da Sagrada Família. E todos precisamos de uma família para crescer, de um lugar onde encontrar segurança e educação, a qual influencia profundamente a nossa forma de estar e de nos relacionarmos.

1. O primeiro ponto que podemos identificar na vida da Sagrada Família é a disponibilidade à voz de Deus. Toda a família vive do sim a Deus e é com esta certeza que orienta a sua vida. Víamos isso no sim de Maria e de José, e voltamos a vê-lo novamente no sim de José diante da perseguição. Embora biblicamente existam outros sentidos para a ida ao Egito — de onde tinha vindo o povo de Deus — e o regresso nos aponte para a libertação trazida pelo novo Messias, José apresenta-se como homem do silêncio e do serviço: atento, capaz de enfrentar as dificuldades com um espírito ousado, mas confiante. É também para nós um momento de nos perguntarmos que lugar damos ao chamamento e ao amor de Deus na nossa vida.

2. A vida fundada no amor de Deus — amor que liberta e perdoa (e não aprisiona nem maltrata) — traduz-se no reconhecimento de que é o amor que une as famílias e lhes dá força para se manterem unidas. Toda a liturgia do dia de hoje nos apresenta a família na lógica de um espaço de pertença, mais ou menos alargado, para nos falar do honrar pai e mãe, do cuidar, dos sentimentos de misericórdia, bondade e humildade, da capacidade de dar suporte e de perdoar. É a tradução da caridade derramada nos nossos corações, onde construir e viver em família não é apenas uma necessidade biológica de proteção, mas o reconhecimento do nosso desejo profundo de amor, de comunhão e de crescimento.

3. Atualmente, este desejo não diminuiu no nosso tempo, embora tenham diminuído o número de casamentos e aumentado a festa quando estes são realizados. Mas isso não abafa o desejo permanente de ser acolhido, conhecido e amado, mesmo no meio de tantas dificuldades como vemos nos nossos dias. Precisamos de ajudar os jovens a crescer na arte do amor, como nos aponta São Paulo: a descobrirem o amor de Deus e a perceberem que o amor não instrumentaliza nem usa o outro como meio. Pelo contrário, no amor conjugal há um dar e um receber: todos precisamos de receber, mas o dar precisa de crescer na liberdade. É no amor vivido dentro de uma casa que os filhos o aprendem e depois o desenvolvem, também eles, como pessoas livres.

São Paulo VI dizia, em Nazaré, no ano de 1964, da Sagrada Família como um lugar de instrução para todos nós: lugar de silêncio, para ouvir a Palavra de Deus e escutarmo-nos uns aos outros; lugar de vida familiar, onde o amor é a célula da sociedade; e lugar de trabalho, que sustenta aqueles que habitam uma casa e lhes dá dignidade, num tempo em que a habitação enfrenta reais dificuldades. Que o nosso tempo continue a dignificar a família e que, como Igreja, sejamos colaboradores para que as nossas famílias encontrem espaço físico e espiritual para serem sinais vivos do amor de Deus na sociedade.

 

Saturday, 20 December 2025

Dois sim's que mudaram a história



DOMINGO IV DO ADVENTO



L 1 Is 7, 10-14; Sl 23 (24), 1-2. 3-4ab. 5-6
L 2 Rm 1, 1-7
Ev Mt 1, 18-24

À medida que nos aproximamos do Natal, a liturgia vai afinando o nosso olhar e o nosso coração para aquilo que é essencial. Neste IV Domingo do Advento, Maria surge como figura central. É pelo seu sim que Deus entra na história de forma nova. Não através da força, nem do espetáculo, mas através da confiança e da entrega.

O sim de Maria não é apenas uma palavra bonita ou piedosa. É um sim que envolve a sua vida inteira. Ao dizer sim a Deus, Maria abre espaço para que Deus esteja no meio de nós. Ela torna-se sinal vivo de que Deus não fica distante, mas vem habitar a nossa humanidade. Pelo sim de Maria, Deus dá-Se a nós e faz-Se próximo em Jesus Cristo.

Mas este Evangelho não fala apenas do sim de Maria. Fala também do sim de José, um sim mais silencioso, talvez menos visível, mas profundamente exigente. José tinha os seus sonhos, os seus projetos, a sua vida bem encaminhada. E, de repente, vê-se confrontado com algo que não compreende: a gravidez de Maria.

Se José fosse apenas um homem da lei, da norma fria e cega, poderia ter excluído Maria, afastado-se, protegido apenas a sua honra. Mas o Evangelho diz-nos que José era um homem justo. E esta justiça não é uma justiça dura, mas uma justiça que já aponta para o coração do Novo Testamento. Para José, mais importantes do que a letra da lei são a pessoa concreta e a fidelidade a Deus.

O sim de José é um sim que se faz confiança. Ele obedece a Deus, entrega-se ao Seu desígnio e aceita proteger o Menino e a sua Mãe. José ensina-nos que a verdadeira justiça de Deus passa pela misericórdia, pelo cuidado e pela responsabilidade assumida.

Diante destas duas figuras, Maria e José, surge inevitavelmente a pergunta: qual é o nosso sim à justiça de Deus?
No nosso trabalho, na nossa família, nas relações do dia a dia, conseguimos ir além de um sim apenas humano, calculado, defensivo? Conseguimos descobrir no amor de Deus um amor maior, que nos chama à entrega e à confiança?

O sim a Deus nunca é apenas da boca para fora. Não é uma palavra dita num momento bonito ou numa celebração especial. O sim a Deus é o sim de uma vida que se deixa transformar, que aprende a confiar, que se entrega mesmo quando não entende tudo.

Às portas do Natal, somos convidados a acolher este Deus que vem. E talvez o melhor modo de O acolher seja este: aprender com Maria e com José a dizer um sim simples, verdadeiro e quotidiano, que permita a Deus nascer também na nossa vida. Um sim grande e largo, à maneira de Deus, que como nos recorda São Paulo se estende aos gentios, ou seja, aos que estão fora.

Saturday, 13 December 2025

Que imagem de Deus temos nós?

 


DOMINGO III DO ADVENTO



L 1 Is 35, 1-6a. 10; Sl 145 (146), 7. 8-9a. 9bc-10
L 2 Tg 5, 7-10
Ev Mt 11, 2-11


O terceiro Domingo do Advento convida-nos à alegria. A liturgia fala-nos do «regresso», da esperança que se renova quando Deus vem ao encontro do seu povo. “Fortalecei as mãos fatigadas, robustecei os joelhos vacilantes”, ouvimos na primeira leitura. É uma mensagem de esperança no meio das dificuldades de um povo que vivia longe da sua terra e tudo parecia pesado. Assim, Deus vem salvar; melhor dizendo, vem revelar uma justiça que salva, que cura, que reconstrói o que está ferido.

1. Uma espera que não é fuga

Isaías lembra-nos que esperar não é arrastarmo-nos pelo mal, mas atravessarmos o sofrimento com esperança. O Advento não é tempo de ilusões, mas de vigilância: tempo de acreditar que, mesmo nas lutas e sombras, Deus vem. A alegria não nasce da ausência de problemas, mas da certeza de que Ele está próximo. A alegria vive da esperança derramada nos corações, onde não se deixa a força do mal ganhar a força definitiva.

2. João Batista diante de Jesus

No Evangelho, João Batista envia discípulos a perguntar: “És Tu Aquele que há de vir?” João, o grande profeta da conversão, sente-se provocado, até surpreendido, por Jesus. A imagem que João tinha de Deus talvez fosse mais marcada pelo juízo, pela força, até por uma certa urgência de purificação.

Mas Jesus responde mostrando as suas obras:
– os cegos veem,
– os coxos andam,
– os pobres recebem a Boa-Nova.

João Batista profetiza que o mal destrói, mas Jesus traz um acrescento: o Reino de Deus não chega com violência, mas com misericórdia. Não se impõe, mas cura. Não destrói, mas restaura.
Até João Batista — o maior entre os nascidos de mulher — precisa de ser evangelizado. Precisa de deixar que Jesus lhe purifique a imagem de Deus.

3. O rosto de Deus é misericórdia

Jesus revela que a justiça de Deus não é vingança. É fidelidade ao amor. É o desejo profundo de salvar. É uma justiça que reergue, que recupera, que dá nova vida. Por isso, a resposta de Jesus às dúvidas de João não é um discurso, mas gestos concretos de misericórdia.

E aqui está o ponto essencial para nós hoje: justiça e misericórdia não se opõem em Deus. São dois modos do mesmo amor.

Este Evangelho deixa-nos uma pergunta importante: que imagem temos nós de Deus?

– Será um Deus “bonacheirão”, que tudo desculpa sem levar a sério a verdade da vida?
– Ou um Deus “mandão”, que vigia, controla e castiga?

Estas imagens, muitas vezes herdadas, são insuficientes e precisam de conversão. Todos nós precisamos de crescer na verdadeira imagem de Deus, aquela que Jesus nos revela: um Deus de misericórdia e amor incondicional, que não desiste de ninguém, que julga salvando e salva curando. Trazemos em nós muitas imagens de Deus, mas algumas têm pouco a ver com o rosto de Deus que é Jesus Cristo, que reza e se confia a Deus, que perdoa e resgata e que dá a vida pela humanidade. 

Que este Domingo da alegria nos ajude a deixar que Cristo purifique também em nós a imagem de Deus, para que possamos acolher o seu amor com confiança e transmiti-lo com autenticidade.

Friday, 28 November 2025

Despertos para o bem neste caminho do advento

DOMINGO I DO ADVENTO


L 1 Is 2, 1-5; Sl 121 (122), 1-2. 4-5. 6-7. 8-9
L 2 Rm 13, 11-14
Ev Mt 24, 37-44


Estamos a iniciar um novo tempo litúrgico que nos conduz à celebração do Natal, ao encontro de Deus que Se faz homem em Jesus Cristo. Este tempo, mais frio, é também um tempo de preparação.

1. Tempo de Advento

O Advento é este tempo favorável em que a Igreja nos convida a preparar o coração para a vinda do Senhor. É um tempo marcado pela expectativa, pela esperança que se reabre. Preparar-se para acolher Cristo é mais do que um gesto exterior: é criar dentro de nós a disponibilidade para Aquele que nos ama e deseja habitar connosco.

O Advento desperta em nós a atitude de quem diz: “Vem, Senhor”, e deixa que Ele encontre lugar. Mas que disponibilidade temos nós para os outros, quando tantas vezes andamos numa corrida constante — certamente com muitas coisas necessárias — e acabamos por não ver quem passa ao nosso lado? Estamos disponíveis para ser vistos e ver o irmão, ou deixamo-nos ficar num olhar fugidio e apressado, sem verdadeira atenção?

2. Acolher com o coração reconciliado

Deus vem sempre como Aquele que faz justiça — não para condenar, mas para restabelecer a harmonia entre os seus filhos. As palavras de Isaías continuam a apontar o caminho: “Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices.”

É um convite forte a olharmos para o que nos fere e para o que faz com que nós próprios ferimos os outros.
Quais são as palavras, atitudes ou silêncios que ainda precisam de ser curados?
Onde deixamos que a paz se esconda?
Que agressividades na nossa vida precisam de ser transformadas para entrarmos numa paz verdadeira — aquela que nasce da justiça, do perdão, e não da simples anestesia?

Só um coração reconciliado pode realmente acolher a vinda do Senhor. Só um coração em paz pode receber outro.

3. Não ficar na indiferença

Uma das grandes tentações do nosso tempo é a indiferença: deixar que tudo passe, como se nada fosse connosco. Mas o Advento é-nos dado como dom — dom de amor e, ao mesmo tempo, ocasião de verdade. A vinda final de Cristo não pretende assustar-nos, mas sim despertar-nos.

Vigiar não é viver inquieto ou ansioso; é viver acordado, atento, disponível, como quem espera Alguém que ama. O Senhor vem e deseja encontrar-nos de coração desperto. Isto é muito diferente daquela ansiedade que nos absorve e nos fecha sobre os perigos: vigiar é estar atento ao bem que está ao nosso alcance realizar.

Thursday, 20 November 2025

Uma realeza de serviço

 


 

DOMINGO XXXIV DO TEMPO COMUM

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO

L1: 2 Sam 5, 1-3; Sal 121 (122), 1-2. 3-4a. 4b-5
L2: Col 1, 12-20
Ev: Lc 23, 35-43 

 

Introdução

Este Domingo final do ano litúrgico volta o olhar para a Solenidade de Cristo-Rei, comemoração promulgada pelo Papa Pio XI, em 1925, para convidar a um renovado testemunho cristão num mundo em turbulência e desnorte, que acabaria por levar a uma segunda Guerra Mundial. Não se trata, por isso, de um elogio da monarquia, mas de colocar a condição de ser cristão como aquele que, pela sua forma de vida, procura imitar Jesus Cristo. A soberania de Jesus é muito distinta da soberania dos totalitarismos então vigentes: gera uma nova forma de vida e de sociedade, onde a vingança, o ódio e os ressentimentos são curados pela força do amor — amor a Deus, aos outros e até ao modo como lidamos com os bens materiais.

 

O lugar do Rei na Sagrada Escritura

O entendimento da figura do rei na Bíblia é fundamental para compreendermos a realeza de Jesus. Ele diz-se Rei, mas com um reino que não é deste mundo. A figura do rei no povo de Israel é tardia. Vemos David, o rei escolhido por Deus para governar, isto é, para cuidar do povo. Por isso, o rei em Israel nunca é quase divinizado, como acontecia noutros povos. Também ele deve cumprir a Lei e viver segundo a aliança.

Para que este poder seja justo e sábio, o rei precisa de cuidar da sua relação com Deus. Assim, o verdadeiro poder que vem de Deus traduz-se em servir, em fazer o bem pelos outros e com os outros.

 

A realeza de Jesus Cristo

A festa que hoje celebramos, sendo criada no século XX, apresenta-nos Jesus Cristo como Rei. E compreendemos que a realeza, na lógica bíblica, significa viver o poder como capacidade de servir e edificar o mundo para um bem maior.

Cristo serve-nos a todos. Ele não se salva a si mesmo, mas dá a sua vida na cruz por nós. Toda a sua vida converge para a entrega total, onde o Senhor se revela como o Rei que não procura salvar-se, mas salvar-nos a nós. No meio das injustiças e lutas humanas, Cristo assume tudo e vence tudo com o amor.

Afastando-se da tentação do “salva-te a ti mesmo” — tentação tão humana e tão compreensível —, Cristo resgata-nos. É esta realidade que o “bom ladrão” reconhece: deixa-se tocar pela bondade e pelo perdão de Deus que jorram da cruz. E é esta bondade que tem a força de mudar os corações.

Precisamos de nos deixar transformar no coração e na mente, nos hábitos e nas decisões do dia a dia, pela entrega de Cristo. Sem isso, ficamos presos apenas à lógica de nos querermos salvar a nós próprios. Que Cristo Rei alimente a nossa vida com a sua vida e nos dê a capacidade de amar como Ele nos amou.

 

Conclusão

Peçamos ao Senhor que abra o nosso coração ao Seu reinado de amor: um reinado que cura, que reconcilia, que pacifica. Que, ao olhar para Cristo na cruz, encontremos a coragem de viver cada dia com um coração mais disponível, mais livre e mais capaz de servir. Que Ele nos ensine a transformar aquilo que tocamos com a mesma misericórdia com que nos toca a nós. E assim, deixando que Cristo seja Rei na nossa vida, possamos ajudar a construir um mundo mais fraterno, mais justo e mais iluminado pelo Seu amor.

 

Saturday, 15 November 2025

«Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas»

 


DOMINGO XXXIII DO TEMPO COMUM



L 1 Ml 3, 19-20a; Sl 97 (98), 5-6. 7-8. 9
L 2 2Ts 3, 7-12
Ev Lc 21, 5-19


O Evangelho deste domingo, quase no final do ano litúrgico, vai-nos despertando o coração e a mente para a meta da nossa vida: para onde caminhamos, para o encontro definitivo com Deus e para a última vinda de Jesus Cristo. Nos primeiros tempos da vida da Igreja pensava-se que a vinda de Jesus estava iminente e seria uma questão de poucos anos…

Esperança

Viver conscientes da nossa meta e do encontro definitivo com Deus pode ser vivido de duas maneiras: com medo do fim ou com a esperança do encontro. E não raras vezes, estas duas realidades coexistem dentro de nós. Mas é a esperança no bem e na vitória definitiva do amor que nos mobiliza a viver numa lógica de sonho e de colaboração na obra de Deus.

É isso que a primeira leitura nos permite vislumbrar: diante de uma comunidade desanimada de Jerusalém e sem grande fervor, onde o bem e o mal pareciam equivalentes, Deus anuncia que a sua vinda acontecerá; o mal será aniquilado e desaparecerá, enquanto o bem permanecerá para sempre e a justiça será instaurada. Por isso, o apelo à fidelidade é grande e transforma quem o vive — e transforma também o mundo. O dia da vinda do Senhor é ocasião para nos alegrarmos e não para nos assustarmos.

Não ficarmos pelas aparências

O Evangelho apresenta-nos Jesus, poucos dias antes da sua morte, em diálogo com aqueles que se maravilhavam com o aspeto do Templo e com as belas pedras que o compunham. Mas Jesus lembra que tudo passa — e o texto alude à destruição do Templo pelo império romano no ano 70.

No meio dos anúncios de desgraças e guerras, Jesus diz: «Tende cuidado, não vos deixeis enganar». O apelo de Jesus é claro: permanecer fiéis à verdade e recordar que Ele está connosco. É na fidelidade de todos os dias que se constrói e se vive a comunhão com Deus, mesmo no meio das contrariedades.

Sem medos, viver cada dia com dedicação e trabalho

A esperança, vivida assim, dá foco e não nos tira da realidade. São Paulo escreve aos cristãos de Tessalónica, com o cuidado de quem acompanha as comunidades por onde passou, e diz-lhes que a ociosidade não é caminho. Muitos da comunidade, convencidos de que tudo iria acabar em breve, deixaram de fazer algo de útil.

São Paulo exalta o valor do trabalho como oportunidade de contribuir para o bem dos outros e para o serviço. Quem pode trabalhar, deve trabalhar… e como dizia Paulo: quem não quiser trabalhar, que não coma! Ser cristão coloca-nos atentos e ao serviço, empenhando o nosso tempo e os nossos dons pelo bem comum.


O caminho da fé em Jesus Cristo dá-nos a esperança de que o bem é sempre mais forte do que o mal — mesmo no meio das dificuldades. E isso, longe de nos distrair, ajuda-nos a viver comprometidos com o dia-a-dia. Sem esperança, nada conseguimos fazer.




Thursday, 6 November 2025

Dedicação da Basílica de São João de Latrão

 


DOMINGO XXXII DO TEMPO COMUM
Dedicação da Basílica de Latrão – FESTA
L 1 Ez 47, 1-2. 8-9. 12; Sl 45, 2-3. 5-6. 8-9
L 2 1Cor 3, 9c-11. 16-17
Ev Jo 2, 13-22

 

A Igreja celebra neste domingo a festa da dedicação da Basílica de São João de Latrão, ou seja, a Igreja mãe de todas as Igrejas, tendo esta celebração se iniciado no século IV e depois se estendido a todas as igrejas do rito romano. Tal como cada diocese celebra a dedicação da sua catedral, celebramos a Igreja mãe de Roma.

Esta celebração ajuda-nos a celebrar a unidade da fé que une todos os crentes que recebem a salvação de Jesus Cristo.

 

Água viva de Cristo

A primeira leitura deste domingo apresenta-nos o episódio de Ezequiel e da água que sai do templo. Esta água que sai do templo é portadora de vida, pois vem de Deus. E, tratando-se de água vinda do templo, onde chega permite o crescimento das árvores e dos peixes. E são também fonte de bênção para os outros, nos seus frutos e nas suas folhas, que servem de alimento e remédio.

A imagem bíblica é riquíssima. Precisamos de receber de Deus, de deixar que a água do batismo nos purifique sempre e nos renove interiormente, que nos sare das divisões e dos muros que nos separam uns dos outros. Quem acolhe esta água e se deixa converter é também fonte de bênção para os outros e vive como templo de Deus, onde a paz é possível.

 

A Casa de Deus, a verdadeira fonte

O evangelho apresenta-nos o episódio de Jesus a expulsar os vendilhões do templo. A situação, que tantas vezes já havia sido vista por Jesus anteriormente, não pode ser entendida como apenas um acesso de fúria descontrolada, como se podia supor à primeira vista. Trata-se, em primeiro lugar, do que se chama a purificação do templo, de evidenciar que o templo não é casa de comércio, mas lugar de encontro da humanidade com Deus e casa de oração.

Este episódio revela-nos o desejo de Deus de se encontrar e acolher a humanidade, onde cada um, apesar da sua condição moral ou religiosa, tem lugar no coração de Deus.

As nossas igrejas têm, por isso, a missão de serem lugar de acolhimento e de abertura, onde não se negoceia a entrada das pessoas conforme a sua perfeição, mas onde somos chamados a ser sinais de Jesus Cristo. Ele é o verdadeiro templo de Deus, a imagem visível de Deus para nós, que O contemplamos na Palavra e nos Sacramentos. Recebemos graça e amor de Deus e damos do que recebemos da graça e do amor de Deus. E, no que toca às relações, só podemos dar do que trazemos dentro.

 

Somos comunidade, pertencemos uns aos outros

Celebrar a dedicação da Basílica de São João de Latrão também nos mostra algo muito importante. Fazemos parte de uma comunidade muito alargada que partilha a mesma fé no Senhor Ressuscitado, ou seja, acreditamos que encontramos em Jesus Cristo a vida que vence a morte. E isto dá-nos sentido de pertença, mesmo com aqueles que não conhecemos, noutros pontos deste mundo.

Mas isso também nos aponta algo fundamental: nas nossas comunidades paroquiais pertencemos uns aos outros, e a Igreja é família de famílias. Como é importante reconhecermos a nossa união entre todos os que celebramos a mesma fé, independentemente do lugar físico onde a celebramos. Não são as paredes que nos unem, são os laços que nos unem uns aos outros e até ao Papa Leão. Que neste dia possamos sempre redescobrir a necessidade de construir a comunhão que existe entre todos aqueles que acreditam em Jesus Cristo.


Somos um só Corpo em Jesus Cristo


DOMINGO XXXI DO TEMPO COMUM
Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

Terceira Missa
L 1 Is 25, 6a-7-9; Sl 22, 1-3a. 3b-4. 5. 6
L 2 1Ts 4, 13-18
Ev Jo 6, 51-58


Celebramos hoje o dia de Todos os Fiéis Defuntos, depois de ontem termos celebrado a solenidade de Todos os Santos. Se ontem olhávamos para os santos como os que vivem plenamente em Deus, hoje voltamos o nosso olhar para os nossos irmãos defuntos — familiares, amigos, vizinhos, todos aqueles que amámos e continuam a habitar no coração de Deus.
É um dia de saudade, mas sobretudo de esperança. A fé cristã convida-nos a olhar a vida e a morte com os olhos da ressurreição, com a certeza de que o amor de Deus é mais forte do que a morte.


1. A esperança da vida cristã

Vivemos tempos em que muitos pensam que tudo termina na morte, como se a vida fosse apenas um ciclo natural que se apaga. Mas nós acreditamos que a morte não tem a última palavra. A esperança cristã é esta: fomos chamados à vida de Deus, e é Ele quem nos salva.
Deus salva-nos e não deixa que a morte turve a última palavra do amor.
São Paulo recorda-nos que “se com Ele morremos, com Ele também viveremos”. Por isso, o cristão vive de esperança — não de uma esperança vaga, mas da certeza de que a vida tem um horizonte maior. A fé mostra-nos que a vida não é interrompida, mas transformada.


2. A vida de Cristo dada por nós

A Eucaristia que celebramos é o centro desta esperança. O pão e o vinho tornam-se corpo e sangue de Cristo — vida dada, amor oferecido até ao fim.
Cada vez que participamos na Eucaristia, entramos nesse mistério de comunhão onde o céu e a terra se tocam.
É ali que o encontro com Deus se faz encontro com todos os irmãos, vivos e defuntos.
Cada vez que comungamos, tornamo-nos membros do Seu Corpo, e nessa comunhão a vida eterna começa já agora. É este o alimento que nos dá força para caminhar e para confiar que os que amamos vivem n’Ele.


3. Rezamos uns pelos outros

Hoje, ao rezarmos pelos fiéis defuntos, recordamos que a Igreja é comunhão. Não é apenas esta comunidade visível: é a grande família de Deus.
Fazem parte dela:

  • a Igreja peregrina, todos nós que ainda caminhamos, lutamos e procuramos viver o Evangelho;
    a Igreja purgante, os que estão em purificação, a caminho da plenitude de Deus, e por quem rezamos;
    e a Igreja triunfante, os que já vivem na presença de Deus, onde a caridade é absoluta, e que intercedem por nós.

Esta comunhão é o coração da fé cristã: ninguém caminha sozinho, ninguém se salva sozinho. A oração pelos defuntos é expressão da nossa fé num amor que não se apaga.


Conclusão

Celebrar os Fiéis Defuntos não é celebrar a morte, mas a vida que não tem fim.
Rezamos pelos nossos irmãos falecidos, mas também pedimos a graça de viver cada dia como quem se prepara para o encontro com Deus — com serenidade, verdade e confiança.
Que o Senhor nos conceda uma fé viva, que não se rende ao medo nem ao desânimo, mas que se apoia na esperança do Ressuscitado.
Ele é a vida que não morre e a luz que nunca se apaga.

Thursday, 23 October 2025

Só se pode rezar mesmo com a verdade






DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM

 

L 1 Sir 35, 15b-17. 20-22a (gr. 12-14.16-18); Sl 33 (34), 2-3. 17-18. 19 e 23
L 2 2Tm 4, 6-8. 16-18
Ev Lc 18, 9-14

 

A liturgia da Palavra deste Domingo coloca-nos diante da experiência da oração como caminho essencial da vida humana. Mas a Palavra de Deus ajuda-nos a compreender que, no coração da oração cristã, está verdadeiramente o amor de Deus — e somente este tem primazia absoluta.

 

Iguais perante Deus

Um dos primeiros pontos que a liturgia nos chama a perceber é a nossa condição de sermos iguais perante Deus. Não é o nosso estatuto que influencia Deus, nem torna a nossa oração mais forte. Não é o nosso conhecimento que nos aproxima mais Dele ou que torna a oração mais eloquente.

A primeira leitura mostra-nos o cuidado de Deus pelos mais frágeis — pelo órfão e pela viúva, aqueles que muitas vezes não conseguem defender-se ou afirmar-se. No cerne da oração está a capacidade de adorar a Deus, de o amar e de ser humilde. Isto não é fraqueza: a oração do humilde procura sempre a justiça, os caminhos da verdade, e é por isso transformadora.

 

A imagem que temos de Deus marca a nossa vida

O Evangelho continua a falar-nos da humildade e mostra como a imagem de Deus que temos influencia a nossa forma de estar e de rezar. Perguntas como “Em que Deus acredito?” ou “Como é o Deus em que acredito?” são determinantes para a nossa vida.

 Jesus apresenta duas figuras: o fariseu e o publicano. O fariseu reza de pé, para se mostrar justo, cumprindo preceitos e evitando o mal dos outros, mas é indiferente ao próximo. O publicano, traidor e desonesto aos olhos da sociedade, reza reconhecendo a sua condição de pecador. Não se gaba das suas habilidades; pede a ajuda de Deus e confessa a verdade de si mesmo. Quando só falamos de nós e para nós na oração, já não estamos a rezar. A oração não é a procura de mim mesmo apenas. É abertura com verdade ao Outro, a Deus que nos ama. E isto é o que nos distingue da meditação que vemos tantas vezes anunciada por aí.

 

Só a verdade pode ser rezada

É um grande dom sermos capazes de nos ver com os olhos do amor de Deus e de reconhecer como respondemos ao Seu amor. Confiar nesse amor purifica e perdoa.

Mas isso só é possível quando nos reconhecemos tal como somos e deixamos Deus transformar-nos. Quando não enaltecemos as nossas conquistas acima das dos outros, mas nos vemos como comunidade onde todos contribuem, a oração torna-se sincera e verdadeira.

Todos somos frágeis e todos precisamos da misericórdia de Deus. Aceitar que falhamos e dar nome às nossas falhas é difícil, mas libertador. É assim que nos abrimos ao perdão de Deus — e ao mesmo tempo nos tornamos capazes de perdoar os outros.

Quando a nossa imagem de Deus é a de um amor incondicional, que nos quer tornar justos e nos justifica, então a sociedade em que vivemos seria tão diferente.


Saturday, 18 October 2025

Oração é vida

 



DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM


L1: Ex 17, 8-13; Sal 120 (121), 1-2. 3-4. 5-6. 7-8
L2: 2 Tim 3, 14 – 4, 2
Ev: Lc 18, 1-8 

 

A liturgia da Palavra deste domingo convida-nos a refletir sobre a oração e a sua importância na nossa vida de todos os dias.

1. Rezar nas dificuldades e com os outros

A primeira leitura, do livro do Êxodo, apresenta-nos o combate entre Israel e os amalecitas, um combate pela sobrevivência. Enquanto Josué está no campo de batalha, Moisés sobe à montanha — lugar do encontro com Deus — e coloca nas mãos de Deus a vida do seu povo.
Esta imagem mostra-nos algo essencial: a oração não é um passatempo nem uma ocupação dos tempos livres. É condição de vida, é o que dá sentido e direção ao que fazemos. Rezar é confiar que a nossa vida não depende apenas das nossas forças, mas também da ação de Deus. É um ato de entrega e de fé.

2. Nunca rezamos sozinhos

O texto é muito bonito na imagem dos braços de Moisés. Quando ele se cansava, Aarão e Hur seguravam-lhe os braços para que a oração não cessasse. Assim é também connosco: precisamos de rezar uns pelos outros, sobretudo quando o peso da vida é grande e as palavras nos faltam. Todos, em algum momento, precisamos de quem nos ajude a manter os braços levantados — pessoas que nos sustentam na oração e na esperança.

3. Rezar para guardar a fé

No Evangelho, Jesus apresenta a parábola da viúva que insiste com o juiz injusto até ser atendida. Com isto, mostra-nos o valor da persistência e da confiança. A oração não serve apenas para pedir, mas para guardar a fé — isto é, acreditar que Deus está connosco, mesmo quando não vemos logo resultados.

Rezar é permanecer fiéis ao bem e à verdade, mesmo quando parece difícil. É encontrar sentido no meio das provações, sabendo que o fruto da oração é o dom do Espírito Santo — o dom que nos une a Deus e nos faz viver do seu amor.

4. Tempo e formas de oração

É comum ouvirmos dizer que “não há tempo para rezar”. Mas rezar é parte da vida, não algo fora dela. Mesmo quando o silêncio custa, quando parece que Deus não responde, ou quando não temos vontade — é precisamente nesses momentos que a oração é mais necessária.
Rezar é abrir o coração a Deus com sinceridade: dizer o que sentimos, o que queremos, o que sonhamos. É pedir o Espírito Santo para iluminar as decisões que tomamos.
E é também importante rezarmos juntos. Como o mundo seria diferente se as famílias, os amigos e os esposos rezassem juntos! Quantas guerras, divisões e dores se poderiam resolver de outra maneira!

A oração comunitária — como a Missa, a oração familiar, a partilha da Palavra ou o simples terço — são formas concretas de fortalecer a fé.

No meio das dificuldades, não fujamos destes meios que a Igreja, nossa Mãe, nos oferece para vivermos em comunhão com Deus, sabendo pedir e agradecer.

 

Friday, 10 October 2025

O amor de Deus dirige-se a toda a humanidade



DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM

Verde – Ofício do domingo (Semana IV do Saltério). Te Deum.
+ Missa própria, Glória, Credo, pf. dominical.

L 1 2Rs 5, 14-17; Sl 97 (98), 1. 2-3ab. 3cd-4
L 2 2Tm 2, 8-13
Ev Lc 17, 11-19 


Celebramos este domingo com a liturgia da Palavra que nos apresenta como cenário de fundo a cura da lepra.
Para compreendermos melhor o alcance deste texto, é bom recordar o que significava esta doença no tempo bíblico.
A lepra, favorecida por más condições de higiene, implicava o afastamento social de quem a sofria. O livro do Levítico (13, 45-46) descreve como o leproso devia andar com roupa andrajosa, rasgada, e gritar “Impuro! Impuro!”, para que ninguém se aproximasse dele — a não ser outros leprosos.

De certo modo, podemos lembrar o que vivemos durante o isolamento social da pandemia: o medo do contágio, a solidão, o afastamento humano. Assim era a vida dos leprosos — uma doença que desfigurava o corpo e também isolava o coração.
E, ainda hoje, há quem viva marcado pela lepra em várias partes do mundo — uma ferida física, mas também símbolo de tantas exclusões humanas.

A Palavra de Deus, porém, abre-nos três caminhos de reflexão para a nossa vida de fé.


1. O renascimento espiritual

Na primeira leitura, encontramos o sírio Naamã, curado ao obedecer à palavra do profeta Eliseu e ao banhar-se nas águas do Jordão.
A sua cura é sinal de um renascimento interior, fruto da confiança e da obediência.
Também nós fomos mergulhados nas águas do Batismo — talvez ainda em crianças —, mas esse sacramento continua a ser a nossa fonte de vida nova.
O Batismo não pertence ao passado: é o sinal de que vivemos unidos a Cristo e à Sua cruz.
Como Naamã, somos convidados a reconhecer que só a Deus queremos servir, com todo o coração e com toda a vida.


2. Pedir e agradecer

O Evangelho mostra-nos dez leprosos que pedem a Jesus que os cure. Jesus não os cura de imediato; envia-os a caminho.
E é no caminho que a cura acontece. Assim também é a nossa vida: a cura das nossas feridas, das nossas relações, dos nossos projetos, é sempre um processo de confiança e de caminhada.
A graça de Cristo age, mas pede a nossa colaboração e a nossa abertura.
E depois vem a gratidão — porque só um dos dez volta para agradecer.
Quantas vezes também nós recebemos dons e bênçãos, mas esquecemos de agradecer!
A fé cresce na medida em que somos capazes de reconhecer o amor de Deus nas pequenas e grandes coisas.


3. O amor que derruba separações

Por fim, este Evangelho convida-nos a olhar para todos com compaixão.
Diante de Deus, todos precisamos de ser curados. Por isso, não devemos cavar novas divisões entre “bons” e “maus”, nem deixar crescer a indiferença.
A fé verdadeira gera pontes, não muros.

Como recordou o Papa Leão XIV, no documento Dilexi te publicado esta semana:

“O amor cristão supera todas as barreiras, aproxima os que estão distantes, une os estranhos, torna familiares os inimigos, atravessa abismos humanamente insuperáveis, entra nos meandros mais recônditos da sociedade. Por sua natureza, o amor cristão é profético, realiza milagres, não tem limites: é para o impossível. O amor é sobretudo uma forma de conceber a vida, um modo de a viver. Assim, uma Igreja que não coloca limites ao amor, que não conhece inimigos a combater, mas apenas homens e mulheres a amar, é a Igreja de que o mundo hoje precisa.” (n.º 120)



Deixemo-nos interpelar por esta Palavra e pelo apelo do Santo Padre.
Que também nós, curados e reconciliados por Cristo, saibamos agradecer, servir e amar sem limites, tornando-nos sinais vivos da misericórdia de Deus no mundo.



Friday, 3 October 2025

“Trabalhar como se tudo dependesse de nós; esperar como se tudo dependesse de Deus."


DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM

L1: Hab 1, 2-3; 2, 2-4; Sal 94 (95), 1-2. 6-7. 8-9
L2: 2 Tim 1, 6-8. 13-14
Ev: Lc 17, 5-10 

 

As leituras deste domingo colocam-nos diante da nossa vida de fé. A fé não é apenas um sentimento religioso, mas algo precioso, capaz de transformar profundamente a nossa vida e a forma como estamos no mundo. É sempre uma resposta ao amor de Deus; e ao amor responde-se com amor.

Podemos sublinhar três dimensões que emergem da liturgia deste domingo:

1. A fé ensina-nos a confiar

Na primeira leitura, o profeta Habacuc vive um tempo de sofrimento, cheio de problemas e de pessoas que se afastam de Deus. Nesse contexto, Deus revela-se ao profeta e mostra-lhe o caminho da vida: não se deixar vencer pelo mal, nem desanimar nas dificuldades. Pelo contrário, convida-o a apoiar-se em Deus e a acreditar na força do bem e da fidelidade. Também nós, tantas vezes, somos tentados a agir por motivos menos bons; mas quem se deixa transformar pelo amor de Deus procura sempre a sabedoria e a fidelidade ao bem.

 2. A fé não é uma questão de tamanho

No Evangelho, os discípulos pedem a Jesus que lhes aumente a fé, pois sentem a dureza da missão e a possibilidade da perseguição. Mas Jesus responde de forma surpreendente: não se trata de quantidade, mas de qualidade. E usa a imagem do grão de mostarda: tão pequeno e, no entanto, cheio de vida. Assim é a fé: constrói-se nos passos pequenos, mas firmes; nos gestos discretos, silenciosos, que muitas vezes passam despercebidos, mas onde o amor germina e cresce.

 3. A fé traduz-se em testemunho

Na segunda leitura, São Paulo escreve a Timóteo para o animar a não ter medo. Diz-lhe que a fé se traduz em fortaleza, caridade e moderação. Ou seja, não pode ficar escondida, mas deve tornar-se visível em testemunho, mesmo no meio das dificuldades. A fé pede coragem para dar a cara pelo amor de Deus.

 A fé é vida interior que nos guia e precisa de ser alimentada. Não se mede por grandes feitos, mas pela confiança fiel e pelos passos simples de cada dia. Como dizia Santo Inácio: “Trabalhar como se tudo dependesse de nós; esperar como se tudo dependesse de Deus.”

Friday, 26 September 2025

Viver para os outros ou para si?

 

DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM


L1: Am 6, 1a. 4-7; Sal 145 (146), 7. 8. 9. 10
L2: 1 Tim 6, 11-16
Ev: Lc 16, 19-31 

 

O tempo da nossa vida é-nos dado como um dom. Mas esse dom joga-se nas escolhas que fazemos: viver apenas para os nossos próprios interesses, ou viver a olhar e a servir os interesses dos outros. Ter em conta o bem dos outros é a grande marca da fé e da espiritualidade. Deus cria livremente e dá-nos a vida para a partilharmos.

A Palavra de Deus deste domingo recorda-nos que o verdadeiro sentido da vida está na capacidade de relação, na atenção a quem nos rodeia. A primeira leitura, do profeta Amós, mostra-nos como os poderosos, indiferentes aos pobres, chegam até a explorá-los para benefício próprio, conduzindo toda a sociedade à corrupção. Os bens — materiais ou espirituais — só encontram sentido quando estão ao serviço do bem de todos. Como nos recorda a Doutrina Social da Igreja, somos administradores e não proprietários absolutos.

No Evangelho, Jesus conta-nos a parábola do homem rico que se banqueteava todos os dias, em contraste com o pobre Lázaro, que mal tinha o necessário. O coração fechado daquele rico — de ferro e a sete chaves no seu “eu” — tornou-o incapaz de se deixar tocar pelo sofrimento dos outros. Esse mesmo coração criou um abismo entre ele e a humanidade, abismo que depois experimenta na vida eterna. O tormento do rico não é um castigo imposto, mas a consequência direta da sua vida e das suas escolhas. Vemos isso quando continua a tratar Lázaro como seu servo, mesmo depois da morte.

Abraão, na parábola, recorda-nos que desde a primeira aliança a fé se vive no cuidado dos mais frágeis. E que é hoje — não amanhã — que somos chamados a escutar Deus através dos outros, através dos profetas, através da sua Palavra. Não deixemos que o nosso coração se torne de pedra ou de ferro, mas que permaneça de carne, como o de Jesus Cristo, que assumiu e salvou a nossa humanidade.

Quando procuramos apenas o nosso sucesso ou a nossa segurança, acabamos isolados e afastados dos outros. E ao fazê-lo, aumentamos os males do nosso tempo: a indiferença, a ingratidão, a exploração dos bens da terra e até das pessoas. Mas o caminho dos cristãos é outro. Como lembra o historiador Rodney Stark, o cristianismo conquistou o império romano não pela força, mas pela caridade: porque os cristãos cuidavam dos doentes e promoviam a dignidade de todos.

Na raiz desta consciência estava a certeza de que já eram salvos por Cristo e que a sua vida estava escondida em Deus. Também nós não podemos fazer da fé apenas um conforto espiritual. A fé é vida vivida com os outros, na atenção concreta a quem temos ao nosso lado.

Friday, 19 September 2025

Dinheiro e espiritualidade: união pelo bem de todos

 


 DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM


L1: Am 8, 4-7; Sal 112 (113), 1-2. 4-6. 7-8
L2: 1 Tim 2, 1-8
Ev: Lc 16, 1-13 ou Lc 16, 10-13

Irmãos e irmãs,

A Palavra de Deus deste domingo fala-nos de uma coisa muito prática: o uso do dinheiro e a ligação que ele tem com a nossa vida de fé.

Na primeira leitura, o profeta Amós denunciava a exploração dos mais pobres por aqueles que ocupavam posições de maior poder, muitas vezes sem que estes se conseguissem defender. Aliás, o tempo de Amós era marcado por grandes diferenças sociais, como mostram as escavações feitas na região onde o profeta viveu: encontraram-se casas grandes e luxuosas lado a lado com casas muito pobres e frágeis. Era uma sociedade cheia de desigualdades. Havia quem só pensasse em ganhar mais e mais, explorando os mais fracos. Até viviam o dia de sábado — o dia santo para Deus — como um peso, só à espera que acabasse para voltar aos negócios e ao dinheiro. No fundo, separavam a fé da vida.

O Evangelho apresenta-nos a mesma realidade: a relação da nossa vida com os bens materiais, com as posses que possamos ter.

Em primeiro lugar, o Evangelho lembra-nos que somos administradores e não proprietários, até da própria vida. Temos a missão de cuidar do tempo que nos é dado viver e dos bens que temos ao nosso encargo, colocando-os ao serviço do bem de todos.

Em segundo lugar, Jesus diz claramente: não se pode servir a dois senhores. Não podemos dizer que amamos a Deus e ao mesmo tempo viver agarrados ao dinheiro como se fosse o mais importante. O coração não pode estar dividido. Temos de escolher. E o caminho do Evangelho é este: colocar os nossos bens — que nos estão confiados — ao serviço da comunidade humana, da nossa família, e não apenas do nosso próprio conforto. Só quando estamos atentos e capazes de agir pelos outros é que agimos verdadeiramente como cristãos.

Jesus contou-nos até uma parábola: a do administrador desonesto. Este homem não é elogiado por ser mau, mas porque foi esperto e rápido em arranjar uma solução, renunciando ao lucro para criar amizade. Jesus quer que também nós sejamos criativos e rápidos… mas no bem, na justiça, no amor.

E então, a pergunta fica para nós: como usamos o dinheiro que temos? E como cuidamos dos mais pobres? Não são perguntas apenas para os ricos. Todos nós, mesmo com pouco, podemos cair na tentação de pensar só em nós. Mas todos também podemos partilhar, ajudar, tratar os outros como irmãos.

São Paulo, na segunda leitura, lembra-nos que a fé também se vive a rezar uns pelos outros, e até pelos nossos governantes, para que todos possam viver em paz. Também nós somos convidados a agir pela paz, a procurar criar condições de maior justiça para o bem de todos, especialmente daqueles que não se conseguem defender.

Que esta Palavra nos ajude a viver com simplicidade, a partilhar com quem precisa e a nunca deixar que o dinheiro mande no nosso coração. Que em tudo possamos servir a Deus com alegria, porque só Ele nos dá a verdadeira riqueza: o Seu amor.