Saturday, 31 January 2026

Bem-aventuranças, um caminho para todos

 

DOMINGO IV DO TEMPO COMUM


L 1: Sf 2, 3; 3, 12-13; Sl 145 (146), 7. 8-9a. 9bc-10
L 2: 1Cor 1, 26-31
Ev: Mt 5, 1-12a

 

 

Bem-aventuranças

Bem-aventuranças, chamados felizes. O caminho dos abençoados não se coloca na abundância. Não se trata sobretudo dos bens que se possuem, numa relação com o ter muito ou pouco, mas sim da atitude com que vivemos e de como vivemos. Na mentalidade da língua hebraica, os bem-aventurados são os que abrem caminho, os pioneiros, os que, no meio da vida, introduzem caminhos novos (’ashrê).

 

A misericórdia

No centro do caminho das bem-aventuranças está a misericórdia, à imagem de Deus. A palavra misericórdia tem a sua raiz no grego, num verbo que tem a ver com a capacidade de ver com atenção e de se compadecer diante dos que atravessam dificuldades. As bem-aventuranças articulam diante de nós duas atitudes: a da pobreza e a da bondade. Este texto promete, no início e no fim, a posse do Reino de Deus, isto é, viver a experiência de Deus como Pai. E é na inconformidade com aquilo que se vive e na ação de cada dia que a misericórdia se vai concretizando.

 

A começar com cada um de nós

Esta misericórdia é também para nós. Mesmo no meio das nossas dificuldades, é muito importante aceitar ajuda como sinal da misericórdia de que precisamos; é também assim que a exercemos com os outros. Deus escolhe-nos, mesmo com os nossos limites. E Paulo recorda isso aos Coríntios: eles são chamados não pelas suas grandes capacidades ou riquezas, mas pelo amor gratuito de Jesus Cristo, que os santifica. Não é vergonha reconhecer que se precisa de ajuda, pois esta é a forma como Deus age connosco.

Saturday, 24 January 2026

A Palavra anunciada por Jesus

 


DOMINGO III DO TEMPO COMUM

ou Domingo da Palavra de Deus

L 1: Is 8, 23b – 9, 3 (9, 1-4); Sl 26 (27), 1. 4. 13-14
L 2: 1Cor 1, 10-13. 17
Ev: Mt 4, 12-23

Celebramos neste Domingo o Domingo da Palavra de Deus. A Palavra de Deus tem para nós um lugar central, porque é através dela que Deus Se revela à humanidade e Se deixa conhecer. É uma Palavra que precisa sempre de ser escutada, interpretada e rezada, mas que permanece um verdadeiro tesouro para a vida da Igreja e de cada cristão.

Neste contexto, a liturgia faz-nos escutar o início da missão pública de Jesus, logo após a prisão de João Batista. E é significativo que essa missão não comece em Jerusalém, no centro religioso do poder e da segurança, mas fora, nas periferias, junto dos últimos e dos mais afastados. É aí que Jesus inicia o seu caminho.

Assim vemos cumprir-se a profecia de Isaías, que anuncia um Deus que caminha em direção à Galileia dos gentios: um lugar misturado, marginal, pouco prestigiado. É ali que Deus decide fazer brilhar a sua luz. Isto diz-nos algo muito profundo: Deus não espera que as pessoas cheguem até Ele já prontas; é Ele que toma a iniciativa de ir ao encontro de quem vive nas margens da vida.

Jesus concretiza esta profecia. A libertação que Ele traz não é abstrata nem apenas espiritual. Começa com um apelo muito concreto: o arrependimento. Converter-se é deixar-se tocar por Deus, é permitir que o coração mude de direção, orientando-se para o bem, para a vida e para a verdade.

Mas esta não é uma missão de solitários. Jesus chama os primeiros discípulos, não apenas para os instruir, mas para caminharem com Ele, para entrarem em sintonia com a sua vida e com a sua missão. Chama-os a serem “pescadores de homens”, expressão que aponta para uma vitória sobre o mal e para a responsabilidade de serem sinal e esperança para aqueles que procuram um caminho novo. Todos precisamos de conversão.

A missão de Jesus põe-nos em caminho. Ele proclama o Evangelho, isto é, a Palavra que tem autoridade para libertar e para recentrar a vida no essencial. Trata-se sempre de redescobrir o verdadeiro centro da existência.

E aqui surge um risco muito atual: o de nos perdermos nas divisões, nas preferências ou nas figuras humanas. São Paulo, ao escrever à comunidade de Corinto, confrontada com divisões internas, é claro: o centro é apenas um — Cristo. A unidade não nasce de acordos humanos nem de estratégias, mas da conversão em Cristo. Só quando Cristo é o centro é que a comunidade encontra harmonia.

Também hoje esta Palavra nos interpela. Que imagem de Deus temos? Um Deus distante ou um Deus que vai às periferias? Um Deus que impõe ou um Deus que liberta? E na nossa vida pessoal e comunitária, o que ocupa verdadeiramente o centro: as nossas seguranças ou Cristo?

Que esta Palavra nos ajude a deixar-nos libertar por Jesus, a caminhar com Ele e a recentrar a nossa vida e a nossa comunidade naquele que é o verdadeiro centro: Jesus Cristo, Senhor da libertação e da vida nova.


Homilia no dia de São Vicente

 


Homilia na Solenidade do Dia de São Vicente

22 de Janeiro 2026

 

Caros irmãos e irmãs na fé,

Reunimo-nos hoje, nesta solenidade de São Vicente, nosso padroeiro, Este é um momento especial para toda a nossa paróquia, ao reconhecer no seu patrono um lugar de unidade e de comunhão entre todos.

São Vicente viveu no século IV e foi diácono da Igreja de Saragoça, e enfrentou o martírio em 304 na sequência dos decretos de perseguição dos imperadores Diocleciano e Maximiano. Vicente, tendo sido ordenado diácono, é preso e recusa velar o sítio dos livros de culto e abjurar, como ordenava o decreto imperial, e assim é levado para Valência para ser julgado. Recusou-se a trair a sua missão, protegendo os livros sagrados e a fé da Igreja, mesmo sob as mais terríveis torturas.

O seu culto difundiu-se rapidamente e tornou-se uma dos mais importantes na Europa de então passados poucos anos, depois da paz de Constantino, quando terminou a perseguição violenta aos cristãos. Já Santo Agostinho o referia por volta ano 410, segundo as palavras de um sermão seu: «Qual é hoje a região, qual a província, até onde quer que se estenda tanto o império romano como o nome de Cristo, que não rejubile por celebrar o dia consagrado a Vicente?» (Sermo" 276, PL 38, 1257).

O seu culto e o facto de ser padroeiro de tantas terras e até da nossa capital portuguesa aponta-nos precisamente essa mesma consciência e chamamento a dar testemunho de Jesus Cristo. Mas a história portuguesa, descobre-nos um pormenor importante. São Vicente era cristão não de rito latino, mas moçárabe, e após a batalha pela conquista da cidade de Lisboa aos mouros e a violência existente, a figura de São Vicente torna-se precisamente um ponto de reencontro entre os cristãos que já viviam na cidade de Lisboa e os da reconquista cristã. Esta herança aponta-nos um dado importante. São Vicente é motivo para as pessoas se aproximarem entre si, mesmo apesar das suas diferenças.

Para nós comunidade paroquial da Branca, São Vicente é dia de nos alegrarmos e voltar a redescobrir a nossa fé vive ligada à fragilidade da vida, da correria do dia-a-adia, e que trazemos este poder, como nos dizia São Paulo em vasos de barro e não em vasos de ouro. Vivemos conscientes dos limites e das dificuldades, mas com os olhos levantados no horizonte, para a meta de uma esperança que nos vem de Jesus Cristo. A fragilidade da vida, as injustiças, as incompreensões ou tantas outras dificuldades são, por vezes, muitas vezes duras de viver. Mas a fé em Deus que nos ama dá-nos força e coragem de coração para não desanimar no esforço e na criatividade de sonhar com Deus caminhos novos.

A isto se associa, na grande missão evangelizadora da Igreja, da qual todos nós participamos com o nosso testemunho – sendo que às vezes é necessário usar palavras, como referia São Francisco de Assis – permito-me tomar as palavras de São Pedro da segunda leitura. Diante das dificuldades, devemos guardar uma bopa consciência, e rescponder às razões da nossa esperança, dos nossos esforços e entrega com brandura e respeito, ou mais literalmente, com delicadeza e reverência e por não por sobrancenceria.

Isto permite-nos compreender que a fé não se vive numa força de superioridade, mas de serviço, apoiados num compromisso realizado, feito de uma perseverança que procura a confiança em Deus . Diante das provas e das dificxuldades, Deus permanece connosco, diz-nos Jesus no Evangelho, pela força do Espíritgo santo. E toda a missão e vida cristã se apoiam assim.

 

Hoje a nossa comunidade paroquial vai presenciar a tomada de compromisso de um renovado conselho económico. Uma palavra de obrigado aos que exerceram o seu mandato no conselho económico anterior, muitas vezes com grande esforço pessoal e que entre outras coisas colaboraram no restauro dos altares da nossa igreja matriz.

Este novo conselho procura ser representativo de toda a paróquia de São Vicente da Branca e assim inclui membros dos quatro lugares de culto. Queremos caminhar no sentido de exercer bem a nossa missão, de modo a que a pastoral possa ter os recursos necessários para o seu funcionamento, e assim olhando para a renovação dos nossos lugares de culto e de ação pastoral. A renovação do telhado da nossa igreja matriz e do salão paroquial, a remodelação do adro e um funcionamento mais integrado entre todos os lugares de culto são caminhos essenciais para o fortalecimento da nossa consciência paroquial. Existem tensões e reconhecemo-las. Mas se permitis a alusão musical, as cordas de um instrumento musical se estiverem com a tensão certa está afinado. Por isso, mais do que as tensões que existam, mais importante é construir o diálogo com brandura e respeito, onde a vida possa transparecer humildemente a Jesus Cristo.

Que a celebração do nosso padroeiro nos ajude a caminhar na fé, a renovar a alegria cristã e o compromisso de darmos as razões da fé de mãos dadas uns aos outros apoiados no Espírito de Deus.

Friday, 16 January 2026

A fé é uma questão de testemunho, e não apenas de ideias




DOMINGO II DO TEMPO COMUM



L 1: Is 49, 3. 5-6; Sl 39 (40), 2 e 4ab. 7-8a. 8b-9. 10-11ab
L 2: 1Cor 1, 1-3
Ev: Jo 1, 29-34 


Celebramos este domingo com o Evangelho a colocar novamente diante de nós a figura de João Batista. O Evangelho segundo São João insiste num dos seus temas fundamentais: o testemunho. Esta palavra vem do grego martyria, de onde nasce também a palavra mártir. Testemunhar é dar a vida pelo que se viu, ouviu e experimentou.

O testemunho

João Batista apresenta Jesus não a partir de uma ideia abstrata, mas daquilo que viu e da sua experiência pessoal de Deus. Ele aponta Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, como o Filho de Deus sobre quem repousa o Espírito Santo. João testemunha a partir de uma relação cultivada com Deus e reconhece em Jesus o Messias esperado.

Este Messias é caminho de salvação: faz-Se Cordeiro, Filho, Servo e Pão. Tudo isto corresponde àquilo que o profeta Isaías já tinha anunciado: Ele é luz das nações e salvação para todos os povos. Também São Paulo nos fala deste Cristo que santifica e transforma todos os que invocam o seu nome.

Chamados à santidade

Na segunda leitura, São Paulo dirige-se à comunidade de Corinto com a consciência clara de ter sido chamado a ser apóstolo, e recorda também à comunidade que foi santificada por Deus e chamada à santidade. Mais uma vez, somos remetidos para a ação de Cristo na nossa vida, ação que deve ser reconhecida e agradecida.

Somos chamados à santidade porque fomos salvos por Jesus Cristo, e esta santidade é possível na nossa vida concreta. Por vezes, podemos ser tentados a pensar que a santidade não é para nós, devido às dificuldades da vida ou à nossa fragilidade. Mas São Paulo é claro: os cristãos são aqueles que invocam o nome do Senhor Jesus. Cada cristão vive com a consciência de ser tocado por Cristo e de ter a sua vida sustentada pela misericórdia de Deus.

Vida de oração e comunidade

Por fim, a vida de oração é fundamental para a vida cristã. Vivemos tempos de grande correria, com muitas solicitações que disputam a nossa atenção. No entanto, precisamos de tempo para rezar, para deixar que Jesus Cristo seja luz na nossa vida e o Cordeiro de Deus que nos transforma.

Sem a oração, corremos o risco de não fazer a experiência do perdão de Deus e de perdermos a capacidade de olhar a nossa própria vida com verdade. E quando isso acontece, afastamo-nos da santidade, que nunca é apenas uma realidade individual, mas diz respeito à forma como vivemos em comunidade, como nos relacionamos com os outros e como estamos atentos àqueles que caminham ao nosso lado.

Que a nossa fé seja sempre testemunho vivo, experiência acolhida e partilhada, e que Jesus Cristo seja a Pedra Angular sobre a qual apoiamos toda a nossa vida.

Friday, 9 January 2026

ser filhos no FIlho de Deus


 

DOMINGO: Batismo do Senhor – FESTA

L 1: Is 42, 1-4. 6-7; Sl 28 (29), 1-2. 3ac-4. 3b e 9b-10
L 2: At 10, 34-38
Ev: Mt 3, 13-17

 

Celebramos neste domingo a festa do Batismo do Senhor, que se torna uma ocasião para descobrirmos e aprofundarmos o sentido do nosso próprio batismo. A celebração do Batismo do Senhor identifica a sua missão como Filho de Deus e Messias, a qual ilumina a nossa própria condição de filhos de Deus. De facto, da palavra Cristo vem a palavra cristão, o que se traduz na nossa forma de estar e de viver.


1. Jesus não se coloca acima, mas ao lado

O primeiro ponto que nos revela o Batismo do Senhor é a sua forma de estar e de compreender a sua missão. Jesus causa espanto a João Batista, que reconhece que ele é que deveria ser batizado por Jesus. João anuncia um batismo de conversão e de penitência; o Senhor deixa-Se batizar por justiça, não por ser pecador, mas para Se associar e estar próximo dos pecadores.

Assim, Cristo não Se exalta a Si mesmo, nem Se apresenta como juiz implacável. Aproxima-se. E isto surpreende João Batista; pelo contrário, mostra-nos que a justiça de Deus é a salvação da pessoa humana: integrar e tornar parte aqueles que estavam longe e nas periferias. O Messias vem, como anuncia Isaías, sem violência, sem excluir, como luz das nações, para abrir os olhos aos cegos e libertar os que vivem nas trevas da vida.

Esta dimensão diz respeito a todos nós, pois cada pessoa é tocada pela graça de Deus. Todos precisamos de ser tocados pelo amor de Deus, pelo batismo que recebemos e permanece vivo em nós.


2. Somos filhos no Filho, habitados pelo Espírito.

O Batismo de Jesus aponta-nos também para a vida no Espírito Santo. Ele é revelado como Filho de Deus, ou seja, reconhece Deus como Pai. Este dado é de uma novidade marcante. Diz São João Crisóstomo: Deus só tem um Filho, o Verbo de Deus; e quando nós clamamos “Pai-Nosso”, Deus vê os filhos que a Ele clamam.
Os cristãos, aqueles que recebem a graça de Deus, são chamados a viver com o Espírito de Jesus Cristo, como pessoas que procuram a paz e a constroem. Para que haja paz, é necessária a justiça, sendo que isso implica dar a cada um o necessário e aquilo a que tem direito, não apenas nos bens materiais, mas também nos bens espirituais. E entre estes bens espirituais estão também os sacramentos.

 

3. O Batismo não é passado, é presença de Deus hoje.

Para nós, como filhos de Deus, o Batismo, como os demais sacramentos, é sinal da graça de Deus que age sobre nós. Assim acontece em cada sacramento. Assim nos recorda o Concílio Vaticano II:

«Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro — “O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se ofereceu na Cruz” — quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos Sacramentos, de modo que, quando alguém batiza, é o próprio Cristo que batiza. Está presente na sua Palavra, pois é Ele que fala quando se lê na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles” (Mt 18,20).» (Sacrosanctum Concilium, 7).

Não se trata, por isso, de meros rituais que se repetem, mas da presença viva de Deus. Pelo Batismo tornamo-nos membros da Igreja e cada um dos outros sacramentos deriva do batismo, ou seja, de vivermos como filhos de Deus. E isso vai moldando a nossa capacidade de amar. Os sacramentos, e de modo especial o Batismo — que nos faz membros com igual dignidade no Corpo de Cristo — são sinais da presença de Deus nas situações mais limite da nossa existência.

Que o nosso Batismo seja sempre memória viva da fé que recebemos, pois é por ele que recebemos todos os demais sacramentos e nos tornamos cristãos, destinatários do amor de Deus. Que este não seja apenas uma memória do passado, mas uma graça viva que ilumina as nossas escolhas, sustém as nossas fragilidades e nos envia a estar próximos dos outros, especialmente dos que mais precisam.

E que, confiantes neste amor que nos precede e nos acompanha, possamos caminhar todos os dias como Igreja viva, habitada pela presença de Deus, até ao encontro pleno com Ele.


Saturday, 3 January 2026

Um Deus que orienta e atrai

 


DOMINGO EPIFANIA DO SENHOR – SOLENIDADE


L 1 Is 60, 1-6; Sal 71 (72), 2. 7-8. 10-11. 12-13
L 2 Ef 3, 2-3a. 5-6
Ev Mt 2, 1-12 

A celebração da Epifania, no tempo do Natal, coloca diante de nós um dado fundamental da Encarnação de Cristo: Ele assume a nossa humanidade, e não apenas uma etnia ou uma determinada cultura. A Boa-Nova de Cristo é para todos, e estes Magos representam precisamente as várias nações e culturas da terra.

Universalidade.
A primeira leitura de Isaías revela-nos isso de modo claro, quando coloca Jerusalém como o lugar para onde convergem todos os povos. Esta chegada das nações, em espírito de paz e de louvor, faz emergir a alegria de acolher aqueles que são diferentes. Assim, a um povo escolhido juntam-se gentes de todas as línguas, com o louvor comum nos lábios e na vida: reconhecer o Deus da vida. São Paulo desenvolve ainda mais esta perspetiva e apresenta a salvação como dom oferecido a todos, sem distinção.

Procura da verdade.

Os Magos, de quem hoje ouvimos falar, são sinal desta humanidade que sai de si mesma para adorar o Menino Jesus. São eles que se dispõem a deixar as suas casas e os seus confortos, atentos a uma estrela que nasce no Oriente e indica o caminho para Belém. Esta estrela, já anunciada em profecia por Balaão, vem do Oriente, do lugar onde sempre nasce o sol, e detém-se sobre a nova Luz da humanidade: o presépio, espaço onde todos cabem — a Sagrada Família, os pastores e os Magos.

Reparemos que os Magos, embora não possuindo os conhecimentos teóricos da história de Israel, estão atentos à estrela e seguem-na. Bem diferente é a atitude dos sacerdotes de Israel, que conhecem toda a teologia, mas permanecem cegos aos sinais que apenas os que vêm de longe conseguem ver. Este é um drama não só de ontem, mas também de hoje. Fechados em certezas absolutas, corremos o risco de deixar de olhar para o Oriente e para o céu, para nos fixarmos em rotinas mortas ou em seguranças estéreis.

Mas, no mundo bíblico, a verdade não é apenas — nem nunca — uma ideia: é relação, é fidelidade, é caminho vivido.

A adoração.

São estes homens desprendidos que oferecem o presente mais precioso que têm para dar: adoram o Menino, ou seja, fazem emergir na sua vida e na sua boca todo o amor e ardor do coração a Deus. Adorar a Deus é reconhecer o amor recebido e manifestá-lo. Os presentes aqui enumerados dialogam com a vida de Cristo: o ouro, sinal da realeza; o incenso, sinal da divindade; e a mirra, prenúncio da morte.

No nosso caso, estes presentes são a nossa própria vida, os frutos e as ações que realizamos em cada dia, cuidando do bem mais precioso que nos foi confiado. E quem vive assim percorre caminhos novos, com a liberdade de quem se deixa conduzir por Deus e regressa por caminhos diferentes.

Assim, Jesus Cristo manifesta-se como luz que chama e atrai os de espírito inquieto; esta orienta, mas não obriga. Em Jesus, Deus revela-Se como misericórdia e amor incondicional, um Deus que caminha connosco, que nos procura mesmo quando nos afastamos e que nos convida a regressar por caminhos novos.

Que os Magos nos ajudem a manter o coração em procura, os olhos atentos aos sinais e a coragem de nos deixarmos conduzir por este Deus que se manifesta não no poder, mas na fragilidade de um Menino; não no medo, mas na confiança; não na imposição, mas no amor que salva.