Friday, 30 May 2025

Olhos no céu e pés na terra

 


ASCENSÃO DO SENHOR – SOLENIDADE


L1: At 1, 1-11; Sal 46 (47), 2-3. 6-7. 8-9
L2: Ef 1, 17-23 ou Hebr 9, 24-28; 10, 19-23
Ev: Lc 24, 46-53 


Celebramos o Domingo da Ascensão do Senhor, acontecimento teológico que marca a entrada da nossa humanidade em Deus. O Verbo de Deus fez-Se homem, habitou entre nós, entregou-Se por nós na cruz, ressuscitou e elevou-Se, levando a nossa humanidade até ao seio da Trindade, de onde, com o Pai, envia o Seu Espírito. É, por isso, uma data singular na celebração do Mistério da Salvação.

Esta liturgia convida-nos a contemplar toda a acção de Deus. O texto dos Atos dos Apóstolos diz-nos que, neste tempo que antecede a Ascensão, o Senhor continuava a instruir os discípulos sobre o Reino de Deus. Este Reino manifesta-se no meio de nós, na nossa vida. A Ascensão faz-nos olhar para o Céu, sim, mas também envia os discípulos como testemunhas por toda a terra. Esta é a novidade radical do cristianismo: todos são chamados ao encontro com Jesus Cristo, que perdoa e quer que todos participem da vida divina.

Este texto coloca-nos, assim, diante de um dinamismo que, embora possa parecer estranho aos dias de hoje, é vivência constante da Igreja. O anúncio do Evangelho — com palavras e com a vida — deve ser transparência do rosto misericordioso de Deus e apelo à adesão a Jesus Cristo, para "todos, todos, todos". Ele traduz um aspecto essencial da libertação que Jesus nos oferece: a libertação das correntes que impedem o amor. Trata-se, pois, de fazer crescer no nosso mundo as forças já presentes do Reino de Deus e de promover a difusão da fé em Jesus Cristo — razão pela qual celebramos hoje o Dia Mundial dos Meios de Comunicação Social.

Por outro lado, este tempo leva-nos a olhar para o Evangelho, para a bênção que Jesus dirige aos discípulos ao enviá-los a anunciar a conversão a todos os povos, até ao Seu regresso. A Igreja vive, assim, na expectativa do retorno de Jesus Cristo — como juiz e salvador, como o desejado dos nossos corações — e proclama esta esperança em cada Eucaristia.

Por fim, os discípulos aguardam a vinda do Espírito Santo, a força pessoal de Deus, Aquele que nos reveste da Sua presença para anunciarmos o Evangelho. Não o fazemos sozinhos, mas acompanhados por Deus. Outro aspeto importante é a ligação desta celebração à tradicional Festa da Espiga, que simboliza a abundância de pão, de sustento, de tudo o que é necessário para a vida florescer.

Fiquemos, pois, de olhos no Céu — para onde a vida de Deus nos orienta — e com os pés na terra, testemunhando o amor de Deus entre aqueles a quem somos enviados.


Friday, 23 May 2025

Fazermos da nossa comunidade morada de Deus

 




DOMINGO VI DA PÁSCOA


L1: At 15, 1-2. 22-29; Sal 66 (67), 2-3. 5. 6 e 8
L2: Ap 21, 10-14. 22-23 ou Ap 22, 12-14. 16-17. 20
Ev: Jo 14, 23-29 ou Jo 17, 20-26 



Celebramos este VI Domingo da Páscoa como uma passagem para a vida nova que Jesus Cristo nos oferece. Mais uma vez, voltamo-nos para o Evangelho, que nos ilumina. Antes de mais, somos chamados a guardar a Palavra — protegê-la como algo precioso e vivê-la no nosso quotidiano. Trata-se de algo fundamental, não como um exercício de perfeccionismo, mas como um caminho para viver em sintonia com Deus. É assim que Jesus Se apresenta: como Aquele em quem podemos fazer morada. Este ponto é essencial: viver de modo a sermos morada de Deus.

Certamente que o somos com muitas imperfeições e limitações, mas o desejo de O querer viver é transformador — algo que só acontece em quem confia n’Ele. Como é fácil ceder à tentação de agir segundo outras lógicas que não as de Cristo, onde a medida do amor se dilui. Viver de Deus é, por isso, renunciar ao mal, afirmando que se crê — ou seja, que se entrega a vida pela fé cristã.

Mas este acolhimento do Verbo de Deus torna-nos também morada para os outros. Tornamo-nos atentos e portadores de uma paz muito diferente daquela que é alheada, preocupada apenas com a própria sobrevivência e bem-estar. A paz de Deus nasce do serviço e do acolhimento, mesmo quando há discórdias, mas que luta por uma comunhão maior. Não é o conflito que nos define, mas sim a comunhão.

Vemo-lo claramente na primeira leitura. Perante a discórdia na comunidade — entre os cristãos de origem judaica e os gentios — os apóstolos procuram um caminho de concórdia. Procuram o fundamento, não fogem ao problema, não impõem soluções apressadas ou autoritárias, mas escutam os outros. Estão atentos ao Espírito Santo, que Se apresenta como o intérprete que une e vence barreiras.

Sermos morada de Deus traduz-se, portanto, em não nos deixarmos encolher ou encostar, mas em afirmar que a paz gerada por Deus é maior do que quaisquer soluções imediatistas. Dá trabalho, mas é transformador, porque se acredita que a vida se fundamenta em algo muito maior.

Este apelo implica também uma ação no mundo — uma atenção especial aos mais pobres, aos que mais sofrem. Não nos podemos resignar a caminhos de separação, onde uns são os “bons” e outros os “maus”, mas devemos reconhecer que pertencemos todos uns aos outros. Isto aplica-se também à nossa sociedade.

O Papa Leão XIV, recentemente eleito, inspira-se em Leão XIII — o grande promotor da Doutrina Social da Igreja — e recorda-nos que somos todos corresponsáveis uns pelos outros. Devemos trabalhar pelo bem comum, fazer da nossa comunidade um espaço onde Deus habite, onde o Cordeiro seja a luz que ilumina o nosso caminho.

Saturday, 17 May 2025

"Beleza tão nova e tão antiga!" Santo Agostinho



 DOMINGO V DA PÁSCOA


L 1 At 14, 21b-27; Sl 144 (145), 8-9. 10-11. 12-13ab
L 2 Ap 21, 1-5a
Ev Jo 13, 31-33a. 34-35

 

As leituras deste domingo colocam-nos diante da novidade da fé em Jesus Cristo. O Senhor dá-nos um mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.” Vejamos: amai-vos como Eu, e não apenas como a ti mesmo, como se dizia na formulação antiga. Trata-se, por isso, de algo verdadeiramente novo.

A medida é clara: Cristo vive para dar a vida pelos irmãos, para se colocar ao serviço, para levar ao extremo a sua entrega de amor, para ser o rosto da justiça e da misericórdia de Deus.

O foco no mandamento do Senhor está no “como”, e não numa simples imitação exterior da sua vida. Este “como” aponta para o espírito com que agimos, com que estamos no mundo e nas relações que vivemos, e na entrega que fazemos da nossa vida.

Assim, o “como” convida-nos a discernir, a compreender com que intenção agimos. Se olharmos bem, percebemos que precisamos sempre de purificar as nossas intenções, que nem sempre estão de acordo com o Evangelho.

Mas este “como” também nos abre à missão. Podemos ver este amor novo em ação no Livro dos Atos dos Apóstolos, na forma como Paulo e Barnabé vivem a sua entrega, com um estilo de vida marcado pela novidade do Evangelho.

  1. A saída de si mesmos: partem sem saber exatamente como as coisas irão correr. Há risco, mas também a confiança na novidade da fé anunciada e no cuidado de levar a pessoa de Cristo.
  2. As dificuldades fazem parte da missão – não são mero azar. Estas dificuldades podem ser as da nossa vida pessoal, do ambiente em que nos encontramos, das incompreensões ou até da maldade. Mas para todas permanece a fé, o apoio que encontramos em Cristo, e a certeza de que nos espera sempre uma pátria maior.
  3. Na missão, as pessoas não são descartáveis nem meros clientes. O que se anuncia é a Boa Nova, procurando-se quem possa assumir o cuidado da comunidade. Esta é a missão dos anciãos, dos presbyteroi, que asseguram a continuidade do cuidado da fé. Uns anunciam, outros acompanham, e todos têm lugar na Igreja. Também hoje precisamos desta diversidade de dons e missões – todos cabem na Igreja.
  4. A vida de oração: os apóstolos e a Igreja não vivem apenas da sua criatividade. Precisam de espaço e tempo para escutar e rezar, para dar lugar Àquele que é o verdadeiro anunciador – o Espírito Santo, que anima a Igreja e move os corações.
  5. O amor fraterno e o sentido de pertença: a Igreja é o lugar onde pertencemos – nem sempre num sentido físico, mas sobretudo pelo sinal da cruz de Cristo que nos salvou. Aqui vemos como a missão une os irmãos em Cristo, que partilham a vida e dão graças por poderem participar na obra de Deus.

Este tempo de graça é-nos dado viver hoje, quando vemos tantos irmãos a atravessarem dificuldades – sejam elas temporais, como a saúde ou as questões económicas, ou espirituais, como a solidão ou a falta de sentido. Para todas elas é chamada a fé, a nossa presença, o nosso compromisso de amar como Cristo nos amou.

 

Friday, 9 May 2025

Vocação em Cristo é para todos!

 




DOMINGO IV DA PÁSCOA


L1: At 13, 14. 43-52; Sal 99 (100), 2. 3. 5
L2: Ap 7, 9. 14b-17
Ev: Jo 10, 27-30 


Celebramos o IV Domingo da Páscoa fazendo memória de Cristo, o Bom Pastor, e em união com toda a Igreja na oração pelas vocações. Mas a vocação não é, antes de mais, uma realidade de apenas alguns poucos. É um chamamento que Deus faz a toda a humanidade, que reconhece em Jesus Cristo o seu Pastor.

No primeiro momento, vemos a dinâmica da missão da Igreja: Paulo e Barnabé colocam-se a caminho e, aí, procuram os judeus na sinagoga. Mas, na semana seguinte, vemos a transformação: de um espaço fechado, a comunidade abre-se a toda a cidade, independentemente do estilo de vida de cada um. Os apóstolos anunciam, e as multidões são atraídas pela força da Palavra. A primeira marca é precisamente a da universalidade da fé. Na quinta-feira, ouvimos o novo Papa Leão apelar precisamente a isto: paz para toda a terra, paz desarmada e desarmante.

Mas este sentido de família alargada é também novamente notado no livro do Apocalipse, que nos apresenta uma grande multidão que segue o Cordeiro, precisamente imagem de Cristo que se entrega: é uma multidão com palmas e túnicas brancas, sinal das dificuldades e do martírio, e as túnicas brancas sinal de Jesus Cristo. Branqueiam as túnicas no sangue do Cordeiro, ou seja, são purificadas por Jesus Cristo, na sua entrega pela reconciliação da humanidade.

Mas o foco desta liturgia está precisamente em Jesus Cristo. Ele apresenta-se como o bom e belo Pastor, que é enviado para guiar o povo. Para isso, precisamos de ouvir – ou aprender a ouvir – a voz de Cristo, quer na Escritura, quer também no serviço aos mais pobres.

Nesta Semana das Vocações, dizia o Papa Francisco, que «O recolhimento permite compreender que todos podemos ser peregrinos de esperança, se fizermos da nossa vida um dom, especialmente ao serviço daqueles que habitam as periferias materiais e existenciais do mundo.» De facto, a oração nunca nos tira do mundo. Como ele continua: «Quem se põe a escutar Deus que chama não pode ignorar o grito de tantos irmãos e irmãs que se sentem excluídos, feridos e abandonados. Cada vocação abre para a missão de ser presença de Cristo onde mais se sente necessidade de luz e consolação. Em particular, os fiéis leigos são chamados a ser “sal, luz e fermento” do Reino de Deus, através do empenho social e profissional.»

Caros irmãos, hoje, como sempre, a fé que nasce da escuta abre-nos aos outros. Viver a vocação é precisamente isto: viver animado pelo amor de Deus, mas atentos àqueles que nos rodeiam. E a nossa acção pode ser a da caridade visível, mas também a de ajudar as novas gerações a encontrarem o sentido da sua vida, que é precisamente a sua vocação, para que, nos altos e baixos da vida, a sua pedra de apoio seja sempre Jesus Cristo, o nosso Bom Pastor que nos guia.


Friday, 2 May 2025

Passar de si para Deus

 



DOMINGO III DA PÁSCOA


L1: At 5, 27b-32. 40b-41; Sal 29 (30), 2 e 4. 5-6. 11-12a e 13b
L2: Ap 5, 11-14
Ev: Jo 21, 1-19 ou Jo 21, 1-14 

As leituras deste Domingo mostram-nos como vive a Igreja depois da experiência do Ressuscitado. Os discípulos aparecem profundamente transformados — não parecem os mesmos: antes tímidos e inseguros, agora assumem um papel de destaque. Não por mérito próprio, mas porque foram revestidos da força do Alto, por dom do Espírito Santo. A sua vida anuncia Jesus com simplicidade e verdade, porque está marcada por Ele. Se os olharmos a contraluz, vemos que já não vivem por si mesmos, mas por Cristo.

Nesta transformação vemos a força da Páscoa: passaram de uma vida feita de encontros e conversas com Jesus a uma vida nova, na qual é o próprio Cristo que os sustenta e envia. E eles entregam-se com generosidade, em Seu nome. Aos Apóstolos é confiado o anúncio do arrependimento, como nos profetas, mas também algo mais profundo: o perdão dos pecados, que só Deus pode conceder. Cristo confia-lhes essa missão, a qual é entregue à Igreja. E todos nós o podemos receber como sinal da misericórdia. O perdão dos pecados não é algo simplista: é permitir que, onde existe destruição, mal ou até morte na nossa vida, sejamos resgatados por Deus.

Vivemos este perdão porque Jesus é agora o novo Cordeiro. Não é apenas Aquele que se entregou uma vez, mas Aquele que continua presente no meio de nós, sustentando a Igreja e alimentando-nos com a Sua vida. Por isso, a Igreja é santa e pecadora: pecadora, porque nós estamos nela; santa, porque Deus habita connosco e vai na nossa barca.

O Evangelho mostra-nos como esta missão dos Apóstolos não começa de forma automática. Eles vão pescar durante a noite, sem Jesus no barco, e nada conseguem. Só quando escutam a voz do Mestre — agora ressuscitado — as redes se enchem. Isto é imagem da Igreja: só quando é habitada por Cristo pode tocar verdadeiramente o coração dos homens.

Depois, encontramos o belo diálogo de amor entre Cristo e Pedro. Pedro, que O negara, é agora reconciliado. Faz a experiência da vocação como perdão e envio. Ama Cristo, embora o seu amor seja frágil — mas o amor de Deus por ele é sempre maior. Também nós, como Pedro, fazemos essa experiência: somos amados apesar das nossas quedas. Jesus Cristo ceia connosco na Eucaristia e envia-nos sempre apoiados nesse perdão.

Neste tempo em que vivemos a sede vacante, pedimos ao Senhor que nos conceda um Papa segundo o Seu coração — alguém que nos ajude a reconhecer que pertencemos ao rebanho de Cristo. Não somos todos iguais, mas cada um tem o seu lugar e pode exercer um papel importante ao serviço de todos.

A vocação, por isso, não se limita à vida religiosa ou sacerdotal. É uma realidade de todos. Cada pessoa, na sua vida concreta, é chamada a amar a Deus e ao próximo, a partir do lugar onde está. Pedro é enviado, não porque seja especial por si mesmo, mas para cuidar de todos, à imagem de Cristo. Também a nossa vocação, seja ela qual for, é um chamamento a esse cuidado e amor.