Friday, 12 August 2022

Um combate por amor




DOMINGO XX DO TEMPO COMUM


L1: Jer 38, 4-6. 8-10; Sal 39 (40), 2-3. 4. 18
L2: Hebr 12, 1-4
Ev: Lc 12, 49-53 

A liturgia da Palavra deste domingo coloca diante de nós a dinâmica de que o testemunho e anúncio da Verdade implica muitas vezes um confronto. Assim foi com Jesus que por amor à verdade, denunciou injustiças; assim aconteceu com os primeiros tempos do cristianismo, pródigo em mártires; assim o vemos na vida de tantos santos e o continuamos a ver hoje a acontecer, que associado a um testemunho radical do evangelho se afiguram igualmente forças de resistência. 

A leitura do livro de Jeremias coloca o profeta às portas da morte por ordem do rei que se recusa a aceitar o seu anúncio para uma conversão e mudança de vida. O rei Sedecias ao escolher seguir os mandatos do reis mais poderosos do que os de Deus, conta com a denúncia do profeta. Infelizmente Sedecias acabaria por ver o Povo a ir para o exílio e os seus filhos mortos. 

O Evangelho apresenta-nos Jesus a descrever a sua missão não como uma conciliação de interesses antagónicos, mas com uma força que leva a distinguir o mal do bem, dinamismo que acabaria por levar a rupturas familiares. Note-se todavia que a missão de Jesus não é contra ninguém, nem este apela a eleger inimigos; antes, o seu anúncio dirige-se contra os dinamismos opressores que privam a pessoa humana do conhecimento de Deus e da sua dignidade humana. Assim, existe um combate, mas sendo sempre pela verdade, com a referência do amor de Cristo que entrega a sua vida. 

Este combate, o combate da fé como dizia São Paulo, começa dentro de cada um, na procura de uma fidelidade para viver um amor maior, que se esforça por não cair em dinamismos de indiferença, ódio, afastamento de Deus ou ressentimento. É a procura diária, por resposta a um amor experimentado, para caminhar na graça. 

Por outro lado, e para evitar um individualismo perfeccionista, é também um olhar atento à realidade que nos envolve, aos dinamismos de opressão e abusos de poder sobre os mais frágeis em nome de lucros ou interesses; nestes abusos contamos os económicos, mas também os afectivos, manipuladores e até ao mau uso dos bens da terra, com impacte ecológico. 

Esta dinâmica de divisão é aquela que está inserida na Palavra de Deus que vai até à medula do nosso ser distinguir as motivações de coração e acções para nos purificar para vivermos um amor maior. 

Saturday, 6 August 2022

Fé, esperança e caridade




DOMINGO XIX DO TEMPO COMUM


L1: Sab 18, 6-9; Sal 32 (33), 1 e 12. 18-19. 20 e 22
L2: Hebr 11, 1-2. 8-19 ou Hebr 11, 1-2. 8-12
Ev: Lc 12, 32-48 ou Lc 12, 35-40

A liturgia deste Domingo apresenta-nos a comunhão com Deus como a nossa meta de vida. Todavia esta não é, antes de mais, a meta que conquistamos, mas o reconhecimento de que é Deus quem vem ao nosso encontro. 

A fé vive da promessa de um mais além, de um dom de Deus que nos atrai para si, para vivermos em comunhão com Ele. É esta promessa que faz Abraão sair da sua terra e ir para outra distinta e longínqua. É a fé por isso que norteia e dá o rumo fundamental da vida, que em vista da promessa, leva a agir no aqui e agora da nossa vida. E se isto é tão verdade para aqueles que acreditam em algo, para nós cristãos, a nossa acção é feita com os olhos colocados em Cristo. 

No alimento da fé de cada dia, que como relação fundamental deve ser alimentada, importa estar atento aos sinais com que Deus nos toca. Estes sinais que não excluem a prova de vida, os quais são momentos de crescimento e entrega, pois só o que compromete a nossa vida é verdadeiramente acreditado por nós. 

O evangelho continua esta dinâmica. Jesus dirige-se aos discípulos como um pequenino rebanho, aos quais provavelmente nos encontramos. É este pequenino rebanho, tão essencial à humanidade, que tem de começar a dar testemunho e a ser como o fermento na massa, que por se acreditar amado por Deus é chamado a amar assimetricamente os irmãos. A fé, que faz levantar os olhos com esperança, actua pela caridade. 

Mas antes de tudo, está a fé que nos faz acreditar que cada gesto de caridade é visto por Deus e nos faz participantes do seu tesouro de bondade, o qual começamos já aqui a vivenciar.