Friday, 27 February 2026

Escolher escutar para se transfigurar com Cristo



DOMINGO II DA QUARESMA


L 1: Gn 12, 1-4a; Sl 32 (33), 4-5. 18-19. 20 e 22
L 2: 2Tm 1, 8b-10
Ev: Mt 17, 1-9


Transfiguração do Senhor

Este Domingo faz-nos entrar no episódio da Transfiguração do Senhor. Trata-se de uma experiência de Deus dada aos discípulos, fundamental na sua vivência da fé. Mostra-lhes o Senhor glorioso, sinal de que Cristo é o centro da história, pois está ladeado por Moisés e Elias, sinal da Lei e dos Profetas. Mas mostra-lhes, sobretudo, que a meta de Cristo é a vida em comunhão com Deus e que a morte é vencida por Ele. É, por isso, um momento forte de encontro que marca os discípulos, que veem a beleza de Deus e que, nas palavras de Pedro, seria motivo para ficar ali. Mas o horizonte é maior.

Escutar a palavra

Durante a Transfiguração, que significa transformação, os discípulos são convidados a escutar a Palavra de Jesus, Filho de Deus, em quem o Pai coloca todo o seu prazer ou complacência, revelação que acontece pela voz de Deus mediante a nuvem que remete para o Antigo Testamento: a nuvem, presença de Deus, que acompanhava o Povo de Deus no deserto.

Na nossa vida sabemos que é muito difícil escutar: escutar o outro e escutar a Deus. Para isso é necessário dispor de abertura ao outro e a Deus, e deixar que a Palavra de Deus nos desinstale e incomode. São várias as vezes que Jesus, no Evangelho, pede aos discípulos para O escutarem. Para haver escuta é necessária humildade. É necessário reconhecer que não se sabe nem se é tudo. Mas, sem escuta da Palavra, não há transformação nem conversão, nem tão pouco abertura para reconhecer a fé e o amor de Deus que se revelam a nós. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia que a relação com Deus era como ter alguém — Deus — que nos bate à porta, mas que esta só se pode abrir do lado de dentro.

Escutar para poder partir

Ao contrário do que nos aponta Pedro, a experiência forte de Deus, apoiada na escuta da Palavra, leva ao acolhimento da salvação e dispõe-nos para fazer a Sua vontade como caminho de vida. Vemos isso na vida de Abraão, que escuta e parte guiado pela Palavra de Deus, pela promessa que recebe.

Escutar é ouvir a Palavra de Deus e deixá-la entrar em nós. De modo especial, procuremos ter tempo na Quaresma para acolher a Palavra — que tempo temos deixado à oração nestes dias? — mas é também ouvir a Palavra de Deus que se manifesta à nossa consciência, mediante as necessidades que presenciamos à nossa volta, nos irmãos.

Escutar é, por isso, condição para viver a fé; acolher o amor de Deus que nos faz caminhar na santidade; é deixar que esta Palavra possa também ir transfigurando a nossa vida daquilo que é pecado em disponibilidade e capacidade de amar, sem nos fecharmos em lugares sem vida.  

Friday, 13 February 2026

Uma vida nova até ao coração

DOMINGO VI DO TEMPO COMUM


L 1: Sir 15, 16-21 (15-20); Sl 118 (119), 1-2. 4-5. 17-18. 33-34
L 2: 1Cor 2, 6-10
Ev: Mt 5, 17-37 ou Mt 5, 20-22a. 27-28. 33-34a. 37


Estamos a celebrar este Domingo na continuidade do Sermão da Montanha, na subida com Jesus ao monte alto. É neste lugar que Ele se demora a ensinar os discípulos e, neste contexto, nos abre novos horizontes, para além de uma prática de virtude apenas aparente.

Nova Lei

Jesus é radical. Não vem negar o Antigo Testamento nem a Lei, mas vem abri-la e levá-la à sua plenitude, mostrando que esta também envolve o nosso coração e a nossa disposição interior; toca, até ao mais fundo, a nossa forma de amar.

É uma nova forma de sabedoria, como nos aponta S. Paulo, que vem do Espírito Santo. Uma sabedoria que não nasce apenas do saber, mas da forma como se ama, porque o Espírito revela em nós o amor de Deus.

 

“Foi o que foi dito aos antigos… e o que Eu vos digo.”

“Foi o que foi dito aos antigos… e o que Eu vos digo.”: É esta expressão que Jesus repete e que traduz numa dimensão fraterna, conjugal e social.

Na relação com o outro é importante ser correto, mas é ainda mais importante não usar de sobranceria, reconhecendo-o como igual e nunca como inferior. Também o outro, mesmo na relação conjugal, deve ser cuidado e nunca reduzido a objeto em função do prazer ou benefício que possa trazer; a fidelidade constrói-se no amor vivido no dia a dia. E, por fim, não são os artifícios de palavras que garantem a verdade, mas a sinceridade: a manipulação do outro ou o silêncio agressivo não constroem comunhão, mas separação. A nossa linguagem deve ser simples e verdadeira: sim, sim; não, não.

 

Praticar e ensinar

A nossa missão é praticar e ensinar, diz Jesus no Evangelho. Ensinar torna-se mais fácil quando se pratica o bem. A primeira leitura falava-nos da escolha do bem. Nem sempre é fácil escolher o bem; porém, é sempre errado escolher conscientemente o mal, seja qual for o motivo. Outras vezes, é difícil optar pelo bem, mas é esse caminho que edifica e constrói cada um de nós à semelhança de Deus.

Que a graça de Deus nos dê a força para evitar o mal e optar pelo bem, aderindo a Ele de coração, em comunhão com o Espírito de Deus. 

Friday, 6 February 2026

Rejeitar o mal não basta; é necessário procurar fazer o bem

 

DOMINGO V DO TEMPO COMUM

 

L 1: Is 58, 7-10; Sl 111 (112), 4-5. 6-7. 8a e 9
L 2: 1Cor 2, 1-5
Ev: Mt 5, 13-16

 

A liturgia da Palavra, no Evangelho de Mateus, continua a colocar-nos com Jesus na montanha, logo após as Bem-aventuranças. As palavras de Jesus são fortes no tempo em que foram ditas e continuam a ecoar nos nossos dias.

Sal da terra e luz do mundo

As palavras de Jesus, ditas neste contexto, ganham muita força. O sal — de onde deriva a palavra “salário” — mostra-nos bem a importância do que é dito. Aos seus discípulos, Jesus pede-lhes que sejam sal e luz: sal para conservar e dar sabor; luz para iluminar o que está fechado e nas trevas.

O caminho é claro: rejeitar o mal não basta; é necessário procurar fazer o bem, nas boas obras.

Mas que boas obras?

As boas obras que Jesus nos aponta devem conduzir à glória de Deus. Portanto, não se tratam de boas obras vividas na lógica do “eu” ou da mera força humana, de um sucesso humano para si mesmo ou para as fotografias, mas orientadas e apoiadas em Deus, na gratuidade. O bem feito pelo outro e por amor do outro.

Os Padres do deserto diziam que o maior sinal da bondade de uma obra se manifestava quando, não sendo vista nem reconhecida, não gerava ressentimento em quem a praticava. Isaías apresenta-nos como o bem, sem violência nem opressão, é causa de construção e de cura, mostrando que o cuidado que se dá também cura e faz bem. Fazer o bem faz-nos bem também a nós, quando é feito de forma livre e com gratuidade.

A lógica da misericórdia

O bem que se faz gratuitamente abre-nos ao outro e tira-nos dos nossos mundos fechados. O cuidado que damos aos que muitas vezes não conseguem ajudar-se ajuda o irmão, liberta-o da solidão, constrói a fraternidade e humaniza-nos também a nós, ao reconhecermos a igual dignidade que a todos nos une.