Thursday, 26 June 2025

Pedro e Paulo - Colunas para sonharmos uma Igreja renovada por Deus





SANTOS PEDRO E PAULO, apóstolos – SOLENIDADE


L 1 At 12, 1-11; Sl 33, 2-3. 4-5. 6-7. 8-9
L 2 2Tm 4, 6-8. 17-18
Ev Mt 16, 13-19 


A Igreja celebra, neste Domingo, a Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo. A liturgia deste dia coloca diante de nós relatos de fé da vida destes dois homens, que simbolizam a riqueza da vida da Igreja: Pedro esteve mais próximo da comunidade primitiva, enquanto Paulo se dedicou à evangelização dos gentios. Para a Igreja de Roma, no que simboliza de unidade para toda a Igreja, estes dois são referências da fé – são eles que confirmam a fé dos cristãos que já lá viviam.

O texto do Evangelho de hoje coloca-nos diante da profissão de fé de Pedro, à pergunta de Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». A resposta de Pedro é imediata, mas Jesus indica-lhe que ele é feliz não por ter dado a resposta certa, mas porque o Pai lha revelou. É a ação da graça de Deus, que move os corações, que torna Pedro feliz – não apenas a resposta correta. Se lermos bem o texto, percebemos que Pedro acerta na resposta, mas ainda não compreende o seu verdadeiro alcance... Isso só acontecerá com o tempo, na companhia de Jesus e após a sua queda e o perdão recebido. Pedro é testemunha não apenas de um conhecimento, mas de uma vivência que faz de Cristo.

Estamos aqui diante do que, no Credo, professamos: «Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica». A Igreja vive desta transmissão apostólica: foram os apóstolos que viveram com Cristo Ressuscitado e o transmitiram aos seus sucessores, pela força do Espírito Santo, que anima a Igreja. E é por isso que acreditamos na Igreja.

Isto significa que a Igreja, mediante o ensino dos apóstolos, a celebração dos sacramentos e a prática da caridade, nos aponta o caminho da salvação e da comunhão com Deus. A importância disto é enorme. Embora Deus atue no coração dos crentes, precisamos da Igreja, que nos aponta para o rosto de Cristo – Ele é a luz dos povos e o único Salvador. Sem esta mediação, a fé corre o risco de se tornar algo moldado apenas à medida da nossa opinião.

Mas também acreditamos na Igreja, que sendo dom de Deus – e por isso santa – é lugar de comunidade. Amar implica sempre o outro; ninguém ama sozinho. E por isso, a fé vive da partilha, do amor fraterno, do perdão dado e recebido. Todavia, existe o risco de vermos a Igreja como algo apenas para os que já estão dentro, excluindo os que não estão. Precisamos de reconhecer, com humildade, que não conhecemos as fronteiras da Igreja, pois Deus faz morada em todas as consciências e em todos os que procuram viver retamente.

Olhamos assim para a vida do apóstolo Paulo, que nos aponta um horizonte de missão: «Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé». Viver a fé com este sentido de missão cumprida é um grande dom de Deus – uma vida totalmente entregue, apoiada numa experiência profunda de Deus. O Papa Francisco disse que precisamos de uma “Igreja em saída”. Deus dá-nos a sua graça, mas cabe-nos acolhê-la e, com o nosso amor e entrega, fazer germinar o amor de Deus nos nossos corações. Sonhemos juntos caminhos novos para as nossas comunidades, em fidelidade aos ensinamentos da Igreja, que nos transmite o rosto de Cristo – e não sejamos obstáculo para os outros.

Friday, 20 June 2025

O amor levado até à cruz

 




DOMINGO XII DO TEMPO COMUM


L1: Zac 12, 10-11; 13,1; Sal 62 (63), 2. 3-4. 5-6. 8-9
L2: Gal 3, 26-29
Ev: Lc 9, 18-24 


As leituras deste Domingo apresentam-nos uma imagem do Messias, a qual deve ser sempre renovada na nossa consciência. A identidade do Messias que Jesus revela é enquadrada pelo profeta Zacarias. Este profeta, cerca de 200 ou 300 anos antes de Cristo, descreve, no seu tempo, a morte de um inocente, vítima de uma injustiça que causa grande perturbação na sociedade. Esta morte é, porém, lida pelo profeta como ocasião de renascimento do povo, o qual pode encontrar neste drama uma força para se purificar.

O tema do servo sofredor é tomado, ao longo da Escritura, sempre como uma leitura de que, na entrega de um justo, é possível encontrar a salvação, cuja vida se torna modelo e fonte de bem para os que o rodeiam.

De modo especial, esta tipologia concretiza-se em Jesus Cristo. Neste relato do Evangelho, Jesus é, no dizer das multidões anónimas segundo os discípulos, um precursor de algo. A resposta de Pedro à interpelação do Mestre – "E vós, quem dizeis que Eu sou?" – é exacta, mas muito distante da imagem do Messias preanunciado por Zacarias ou Isaías, sendo antes próxima da imagem do Messias conquistador, como David.

Jesus ensina os seus discípulos que a sua vida é para ser entregue por todos, não para favorecer uma elite. Todos são chamados a uma igualdade existencial em Jesus Cristo, algo que a Igreja anunciará e fará acontecer mediante o Baptismo.

Esta igualdade de Filhos de Deus não significa igualitarismo. Cada um é filho único no único Filho de Deus. Mas Jesus apresenta as condições para viver com Ele e n'Ele:

  1. Renunciar a si mesmo, sabendo dizer "não" ao foco em si próprio, para viver como Cristo, para os outros;

  2. Tomar a cruz todos os dias, ou seja, reproduzir na vida a entrega de Jesus por amor. Assim, não significa procurar o sofrimento em si, mas assumi-lo por causa do amor de Deus e dos outros. O inciso lucano "todos os dias" marca esta entrega como perene;

  3. Seguir o Senhor, procurando transformar a própria mentalidade e abraçar a Palavra de Deus, sem se querer distanciar de Jesus.

Este caminho a que Jesus nos convida é uma via-sacra, ou seja, um caminho sagrado, para fazer acontecer na vida de todos o sinal da cruz, marcado por um amor acolhido de Deus e levado até ao fim na nossa vida, assumindo as nossas fragilidades e limitações.

Wednesday, 18 June 2025

Eucaristia: pão e vinho, sinais que nos levam a adorar a Deus



SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO
SOLENIDADE

L1: Gen 14, 18-20; Sal 109, 1. 2. 3. 4
L2: 1 Cor 11, 23-26
Ev: Lc 9, 11b-17 


«Terra, exulta de alegria, louva o teu pastor e guia, com teus hinos, tua voz» — diz a sequência da solenidade que a Igreja hoje celebra.

É neste clima de louvor e de alegria que a Igreja hoje se reúne para celebrar o dom da Eucaristia nas nossas vidas, como sinal da entrega de Jesus, no seu Corpo e Sangue. Esta festa foi instituída pelo Papa Urbano IV, em 1264, com o intuito de celebrar a presença real e pascal de Jesus Cristo, na sequência do milagre eucarístico de Bolsena, ocorrido alguns dias antes, no qual, de uma hóstia consagrada, brotaram algumas gotas de sangue.

As leituras que a liturgia nos propõe apresentam-nos o dom do pão e do vinho que Melquisedec, rei de Salem [etimologicamente, rei da paz], oferece a Abraão após as suas batalhas — pão e vinho como sinais da bênção de Deus. Em resposta a este dom, Abraão entrega o dízimo do que recebeu como sinal de reconhecimento.

O Evangelho narra o episódio em que Jesus alimenta as multidões mediante a fração do pão, sinal da Eucaristia. Não o apresenta como Paulo o faz na Carta aos Coríntios, onde transmite as palavras de Jesus na Última Ceia e a sua ligação ao mistério pascal. O Evangelho segundo Lucas apresenta-nos este episódio em Betsaida, depois da missão dos discípulos e antes da profissão de fé de Pedro, reconhecendo Jesus como Filho de Deus. Jesus ensina as multidões, cura os doentes, faz da sua vida uma entrega por nós.

Todavia, ao entardecer do dia, a fome que se faz sentir desperta uma preocupação nos discípulos: as multidões deveriam ser dispersas para que pudessem comprar alimento. Não deixa de ser pertinente a resposta de Jesus: «Dai-lhes vós mesmos de comer!», apesar de os discípulos terem tão pouco até para si próprios.

Mas a ação de Jesus — receber o pão, dar graças, parti-lo e distribuí-lo — torna evidente uma lógica eucarística de partilha mútua, em que a igualdade, e talvez até a divisão do pouco que havia, se realiza entre todos. Em Cristo, ergue-se uma nova forma de partilha e de vida.

A celebração da Eucaristia leva-nos, por isso, a olhar para Cristo como o alimento das nossas vidas, algo que deve despertar em nós uma atitude de adoração. Dizia Santo Agostinho: «Ninguém coma esta carne sem a adorar; pecaríamos se não a adorássemos» (Enarr. in Ps. 98, 9, CCL XXXIX, 1385). A adoração recorda-nos o dom que recebemos, pelo qual somos inseridos em Deus; enquanto que, ao comermos o pão de cada dia, esses elementos passam a fazer parte de nós, na Eucaristia sucede o contrário: somos nós que somos inseridos em Deus.

No nosso tempo, por vezes, perdemos este sentido de louvor e de adoração. Mas o louvor que fazemos erguer com a nossa voz e com a nossa vida está ligado ao amor e à gratidão — como o dízimo que vimos em Abraão, que se entrega de volta. Adorar, tomando as palavras da sequência que escutávamos, é:

  • reconhecer o Pastor que nos guia, e que se dá a nós em alimento;

  • acolher o Pão vivo que dá vida, no qual, pela Eucaristia, somos inseridos em Cristo, como membros do seu Corpo Místico;

  • viver no cumprimento das promessas que Deus fez — de sermos filhos de Deus, com a promessa da vida eterna e da comunhão com todos.

Que a celebração da Eucaristia nos faça recordar que Jesus se fez alimento para nos fortalecer no caminho da vida, tornando-se graça para nós e conduzindo-nos à vida em comunidade. Não lhe faltemos com o nosso amor e entrega.

Friday, 13 June 2025

Como Deus Uno e Trino, também nós somos em comunidade




SANTÍSSIMA TRINDADE – SOLENIDADE


L 1 Pr 8, 22-31; Sl 8, 4-5. 6-7. 8-9
L 2 Rm 5, 1-5
Ev Jo 16, 12-15 


A Igreja celebra neste domingo o dia da Santissima Trindade, tendo na semana passada celebrado o dia de Pentecostes. Celebrar o Mistério da Santíssima Trindade leva-nos antes de mais a reconhecer que o nosso Deus é comunidade de amor, onde as nossas palavras falham para o explicar: Um só Deus, mas três pessoas distintas. Sabemos dizer a fórmula, mas não o dominamos. Já Santo Agostinho o dizia: "Se o entendes, não é Deus!".  A fé na Santíssima Trindade nasce da revelação de Jesus, Filho de Deus, que nos fala do Pai e nos promete o Espírito Santo. É o Espírito que recebe o amor do Pai e do Filho e o dá aos nossos corações.

Mas contemplar Deus Uno e Trino, também nos faz compreender que a criação - nós mesmos, como tudo o que nos rodeia - leva em si as marcas deste mistério de comunhão e de amor. 

Antes de mais somos chamados a reconhecer o nosso mundo como bom, porque criado por Deus. Assim, para lá de todo o sofrimento, cada ser que existe, cada realidade criada é um tesouro que louva a Deus simplesmente pelo facto de existir. Por isso devemos ter os sentidos atentos para reconhecer a ordem da criação, mesmo nas suas aparentes dificuldades. Este mundo não tem fim em si mesmo, mas estamos em caminho para o encontro com Deus. 

Mas a criação também nos faz reconhecer que temos a missão de cuidar da criação, de a fazer crescer e multiplicar; mas este cuidado não nos torna donos nem dominadores, mas cuidadores da criação, de a fazer crescer e multiplicar, assim como um jardineiro cuida do jardim. Isto traduz-se no nosso empenho ecológico, mas também em fazermos no nosso trabalho forma de trabalhar no desenvolvimento do mundo. 

Por fim, ver os sinais da presença de Deus também nos deve ajudar a ver o outro como sinal de Deus, o que nos implica a estarmos atentos uns aos outros, a cuidar dos mais frágeis, a superar as lógicas de indiferença. Acreditamos num Deus que nos olha e acompanha; também nós somos chamados a viver nesta semelhança. Que a nossa fé no Deus Trindade nos reforça na consciência de comunidade que nos une. 

Friday, 6 June 2025

Reunidos por um só espirito

 


DOMINGO DE PENTECOSTES


L 1 At 2, 1-11;
Sl 103 (104), 1ab e 24ac. 29bc-30. 31 e 34
L 2 1Cor 12, 3b-7. 12-13 
Ev Jo 20, 19-23 


Celebramos a conclusão do tempo pascal com a Solenidade do Pentecostes. O dom do Espírito Santo é o cumprimento último da promessa de Deus feita em Jesus Cristo, ao tornar possível que cada um possa viver a sua semelhança com a Imagem de Deus. Santo Ireneu ensinava-nos assim, ao recordar que a nossa condição de imagem e semelhança de Deus era sinal das duas mãos com que Deus nos criou: o Verbo de Deus e o Espírito Santo. A imagem é-nos dada na Criação pelo Verbo de Deus como marca indelével para sempre; já a semelhança só é possível de viver no dom do Espírito Santo, que nos purifica e aperfeiçoa para sermos reflexo do amor de Deus. Trata-se de viver como semelhantes de Deus, de fazer acontecer a marca que todos trazemos na nossa vida.

As leituras de hoje apresentam-nos o Espírito Santo como uma novidade surpreendente, capaz de transformar o medo e o isolamento dos discípulos em coragem e força para a missão. Note-se bem: esta transformação é dom de Deus, que actua no coração dos discípulos, na sua forma de se entenderem no mundo. No livro dos Atos dos Apóstolos, o Espírito é o dom que os leva a falar novas línguas, mas em que existe compreensão e entendimento entre todos. Quantas vezes, apesar de falarmos a mesma língua, não nos entendemos mutuamente, tal como aconteceu na torre de Babel, quando, no esforço de querer ser como Deus, deixámos de nos compreender?

Assim, o Espírito faz acontecer uma comunhão e unidade entre todos. Por isso, Ele é fogo de comunhão e não de divisão, é agente de perdão entre nós e de vida transformada, e não de ressentimentos acumulados. É por Ele que cada um pode louvar a Deus com a sua própria voz e na sua singularidade.

O Evangelho reforça a consciência da presença do Espírito Santo como dom necessário para a missão, a qual está intimamente ligada ao perdão de Deus. Este perdão é um dom perene, que recria a humanidade com um sopro inesgotável. Como tal, os discípulos são enviados para serem agentes do perdão, para recriar a humanidade em comunhão com o Espírito Santo.

É ainda o Espírito Santo que, sendo o grande renovador da Igreja, faz emergir a consciência de que pertencemos a um mesmo corpo, no qual se integram as mais variadas pessoas e condições, mas unidas pelo desejo de se reconhecerem salvas por Jesus Cristo. É Ele que concede os mais variados dons para a edificação mútua, para que cada um possa dar o seu contributo neste mundo, contribuindo assim para o bem de todos. No nosso mundo, na nossa comunidade, precisamos tanto que os dons de cada um possam ser partilhados e reconhecidos, bem como usados para edificar e não para destruir, para fazer crescer todos e não atrofiar os demais.

Que o dom do Espírito Santo nos renove, a cada um, no seu coração, nas nossas famílias e nas nossas comunidades cristãs.