Thursday, 25 January 2024

Centrados na Palavra de Deus






DOMINGO IV DO TEMPO COMUM


L 1 Dt 18, 15-20; Sl 94 (95), 1-2. 6-7. 8-9
L 2 1Cor 7, 32-35
Ev Mc 1, 21-28 

A liturgia deste Domingo coloca-nos diante da promessa de Deus em enviar um profeta, o qual seria sinal de Deus - a voz de Deus atemorizava os hebreus - com a missão de ouvir o Senhor e comunicar a sua Palavra. Reparemos que este dinamismo relata que o profeta não fala por si, mas comunica o que ouve, deixa entranhar em si a Palavra Divina e anuncia-a. Não se trata portanto apenas de falar de algo mais ou menos divino ou denunciar algo, como se fosse exterior a isso, mas deixar tocar-se pela Palavra que nos lê e nos dá capacidade de ler a realidade. 

Jesus é imagem deste profeta. O evangelho coloca Jesus em Cafarnaum, cidade importante da cultura da altura, onde anuncia a palavra com autoridade e não como os escrivas, que papagueavam a lei e fórmulas antigas. A palavra autoridade, em grego exousia, descreve o ato de falar a partir de dentro. Nele a Palavra era a sua identidade, e por isso, profundamente capaz de tocar o coração daqueles que o ouviam. 

Nele soltam-se os espíritos impuros, que nos afastam de Deus e de uns dos outros, que bloqueiam a capacidade de relação, de tudo o que causa ruído dentro de nós. E vemos como se combatem entre si, a Palavra e o barulho, a vida e a morte. Em Jesus, pela sua autoridade, a vida permanece e abre-se. 

Os nossos tempos vivem de modo especial o dilema do ruído, da divisão e da dispersão, como São Paulo expressa ao coríntios. É certo que Paulo o escreve no contexto para defender o celibato como sinal de consagração da vida a Deus, ainda que reconheça que a união de casal seja boa e necessária, sobretudo quando a solidão é causa de sofrimento. Mas mais importante neste texto, é reconhecer a disponibilidade para acolher a Palavra de Deus, assunto cuja atualidade permanece vigente. O nosso tempo presta-se a cair numa dispersão com as imensas solicitações a que estamos sujeitos. Mais do que nunca, precisamos de uma ecologia humana que nos ajude a viver a vida, abertos a Deus e aos outros, reconhecendo a nossa criação. Facilmente caímos numa divisão. O caminho é comum e segundo a proposta de Santo Agostinho deve centrar-nos em descansar em Deus, compreendendo como a nossa vida se encaminha para o encontro final. É nesta centralidade que tudo o resto é de facto vivido, e embora sendo frágil, nos coloca totalmente inteiros no hoje que vivemos. 

Saturday, 13 January 2024

Somos dons de Deus.

 



DOMINGO II DO TEMPO COMUM

L 1 1 Sam 3, 3b-10. 19; Sal 39 (40), 2 e 4ab. 7-8a. 8b-9. 10-11
L 2 1 Cor 6, 13c-15a. 17-20
Ev Jo 1, 35-42 

 

A vida de cada um existe não em virtude de um desejo próprio, mas de um dom recebido. Assim, somos dons de Deus uns para os outros, em todo o nosso ser.

É assim que vemos o chamamento que Deus faz a Samuel, jovem nascido por singular graça de Deus e consagrado ao Senhor. No meio de uma experiência de chamamento, Ele ignora que Deus o chama e é o velho sacerdote Eli, que abre ao jovem o caminho da resposta. É Eli quem ensina ao jovem como este deve responder, ou melhor, colocar-se à escuta do Deus que fala no silêncio. É um grande dom saber escutar, é capacidade de se não colocar no centro, tendo disponibilidade para acolher o que nos é dito. Como é importante a nossa iniciação cristã saber gerar acolhimento para a escuta e não apenas gerar imitação de respostas.

É assim que abrimos para a relação, onde São Paulo nos recorda, como ouvimos na segunda leitura, que o corpo não é para a imoralidade, ou seja para nos objetivarmos, mas nos dispormos para viver em amor, onde nos fazemos dom uns para os outros. É nesta forma que emerge o amor, onde a relação se torna possível e nos vivemos, de facto, como templos do Espírito Santo.

É sempre de dom que falamos, onde Jesus Cristo se apresenta como o grande dom que Deus nos dá, como o Cordeiro imaculado para nosso alimento. E se notarmos, vemos como diante do anúncio de João Batista, aqueles dois homens, um dos quais André, vivem um verdadeiro discipulado: escutam o anúncio, seguem Jesus, ficam com Ele e partilham e aprendem da sua intimidade, anunciam e levam outros a Jesus. É o que é próprio de quem reconhece um grande dom que se quer partilhar com aqueles que de facto mais se ama. E é Jesus que faz cada um reconhecer o dom que cada um é, no nome novo que dá a Pedro, sinal da pedra que designa a nova forma de comunidade.

É por disso da escuta de Deus, na comunhão uns com os outros, que cada um vai vivendo o dom que se é, partilhado e assim assumido.

 

Dá-nos Senhor a capacidade da escuta
Onde a Tua voz possa ecoar em nós
E nos fortaleça para viver a corpo inteiro
O dom da Tua Palavra vivificante

Que o Espírito Santo nos desperte dos sonos
Para ajudar a criar no coração de todos
O lugar onde te possas encontrar com cada um
E, assim, no fogo do Seu amor, iluminar a vida.


Friday, 5 January 2024

Olhos abertos e despertos


EPIFANIA DO SENHOR 


L 1 Is 60, 1-6; Sl 71 (72), 2. 7-8. 10-11. 12-13
L 2 Ef 3, 2-3a. 5-6
Ev Mt 2, 1-12 

Celebramos o Mistério da Encarnação de Deus neste tempo de Natal, de um Deus que assume a nossa humanidade, toda inteira e sem limites, para se fazer um no meio de nós. E por isso, a fé cristã vive de um desejo de universalidade, em que todos podem encontrar em Jesus Cristo a certeza que de Ele está connosco até ao fim dos tempos. Este é um vislumbre que vemos já no livro de Isaías, que antecipa que todos caminham para o encontro com Deus, a entrar na luz que se faz nascer em cada dia.  

Paulo aprofunda este mistério e convicto da sua evangelização, afirma que gentios e judeus formam um só povo, numa condição de igualdade de dignidade e de promessa, dom que nos vem por Cristo Jesus. E como, para nós, continua a ser tão difícil ainda hoje acreditar na igualdade de todos os povos! Somo-lo em Cristo Jesus, pois nele toda a humanidade é reunida. 

Estes homens que ouvimos no Evangelho, vindos do Oriente, que geralmente numeramos como três, de acordo com o número de continentes conhecidos da altura, são exatamente exemplo disto: o chamamento da humanidade para adorar a Deus, ou seja, a viver na expressão do amor Àquele que é a fonte da nossa criação. 

Mas vemos esta humanidade que caminha orientada por uma estrela, como expressão de um desejo maior que nos habita e que segue o sinal que Deus nos dá e que está atenta à Sua manifestação na nossa história; mas também norteada pelo sonho, que nos leva depois de uma experiência forte, a compreender que a vida não pode continuar igual e que somos chamados a percorrer caminhos novos, atentos à novidade de Deus. Reparemos como os grandes intérpretes da escritura, conhecem muito bem a sua hermenêutica, mas são cegos perante o hoje de Deus, da sua ação na história. Deixemo-nos tocar por Deus e renovar a nossa vida totalmente.  


Dá-nos Senhor olhos abertos e despertos 
Para as estrelas que colocas no nosso caminho
e para os sonhos que em nós infundes
e a coragem de partirmos sempre sem medo por Ti. 

Oxalá te possamos encontrar e adorar 
nos presépios simples de cada vida e irmão
onde Tu te fazes presente totalmente 
a renovar no dom do teu amor a tua criação.