Saturday, 18 June 2022

Cada um é filho único no único Filho de Deus




DOMINGO XII DO TEMPO COMUM


L1: Zac 12, 10-11; 13,1; Sal 62 (63), 2. 3-4. 5-6. 8-9
L2: Gal 3, 26-29
Ev: Lc 9, 18-24 

As leituras deste Domingo apresentam-nos uma imagem do Messias, a qual deve ser sempre renovada na nossa consciência. A identidade do Messias que Jesus revela é enquadrada pelo profeta Zacarias. Este profeta, cerca de 200 ou 300 anos antes de Cristo descreve, no seu tempo, a morte de um inocente, vítima de uma injustiça que causa grande perturbação na sociedade. Esta morte é porém lida pelo profeta como ocasião de renascimento do povo, o qual pode encontrar neste drama uma força para se purificar. 

O tema do servo sofredor é tomado ao longo da Escritura sempre como uma leitura de que na entrega de um justo é possível encontrar a salvação, cuja vida se torna modelo e fonte de bem para os que o rodeiam. 

De modo especial esta tipologia acontece em Jesus Cristo. Neste relato do evangelho, Jesus, é no dizer das multidões anónimas segundo os discípulos, um precursor de algo. A resposta de Pedro à interpelação do Mestre - "E vós, quem dizeis que Eu Sou?" - é respondida de forma exacta, mas muito distante do Messias preanunciado por Zacarias ou Isaías, mas segundo a imagem do Messias conquistador como David. 

Jesus ensina os seus discípulos que a sua vida é para ser entregue por todos, não para favorecer uma elite, mas todos são chamados a uma igualdade existencial em Jesus Cristo, algo que a Igreja anunciará e fará acontecer mediante o Baptismo. 

Esta igualdade de Filhos de Deus não significa igualitarismo. Cada um é filho único no único Filho de Deus. Mas Jesus apresenta as condições para viver com Ele e n'Ele: 

1. Renunciar a si mesmo, sabendo dizer "não" ao foco em si mesmo, para viver como Cristo, para os outros; 

2. Tomar a cruz todos os dias, ou seja, reproduzir na vida a entrega de Jesus por amor; assim, não significa por isso buscar o sofrimento em si, mas assumi-lo por causa do amor de Deus e dos outros. O inciso lucano, de todos os dias, marca esta entrega como perene; 

3. seguir o Senhor, procurando transformar a sua mentalidade e abraçar a Palavra de Deus, sem se querer distanciar de Jesus. 

Este caminho a que Jesus nos convida é uma via-sacra, ou seja, um caminho sagrado, a fazer acontecer na vida de todos o sinal da cruz, marcado por um amor acolhido de Deus e levado até ao fim na nossa vida, assumindo as nossas fragilidades e limitações. 

Wednesday, 15 June 2022

Pão da vida para o mundo



SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO
SOLENIDADE

L1: Gen 14, 18-20; Sal 109, 1. 2. 3. 4
L2: 1 Cor 11, 23-26
Ev: Lc 9, 11b-17


Tudo quanto recebemos é dom de Deus, fonte de vida.  A Eucaristia é o maior dom de Deus, pois nela o pão e o vinho tornam-se sinais reais e vivos da presença de Cristo que se entrega para nossa salvação. 

As leituras que tomamos nesta solenidade apresentam-nos três relatos em que Deus concede à humanidade o pão nosso de cada dia. Assim o ouvimos no sacerdote Melquisedec, quando entrega pão e vinho e abençoa Abraão; São Paulo quando narra a instituição da Eucaristia, no relato mais antigo conhecido da Eucaristia; e no Evangelho quando Jesus abençoa os dons, os multiplica e divide pela multidão. 

A narração paulina permite-nos entrar na consciência de que o pão e vinho não são meros alimentos, mas na consciência da Igreja, tornam-se desde o início sinal de Jesus Cristo, Seu Corpo e seu Sangue, sinais da sua vida e da sua morte. Nesta consciência está o dom de amor de Jesus Cristo que se entrega por nós. A teologia permitiu aprofundar este aspecto e assim sabemos que estes pão e vinho não são meros símbolos, mas sob o pão e o vinho está a presença real e viva de Jesus, em profunda ligação com o mistério Pascal, da sua entrega por nós.

O relato Evangélico é particularmente significativo ao opor a mentalidade dos discípulos com a de Jesus. Diante de uma multidão que necessitava de alimento - talvez com ironia para com os discípulos, o evangelista relata como Jesus, Palavra de Deus, anuncia e cura -  os discípulos pedem a Jesus que mande embora a multidão, para arranjarem alimento. O apelo de Jesus aos discípulos é apelo hoje à Igreja: "dai-lhes vós de comer". E por isso a Igreja celebra a Eucaristia e a entrega às multidões. 

Mas a Igreja, no mesmo espírito da expressão anterior, é convocada, precisamente em virtude da Eucaristia a reconhecer a missão de cuidado para com as multidões. Somos chamados a cuidar das fomes da humanidade e a anunciar o Pão da Vida que Jesus é. Em virtude desta solenidade, e esse o motivo da procissão do Corpo de Deus, as cidades da Europa reconheciam-se na Idade Média como pertença de Deus, em que a Eucaristia era elemento central na vida. 

Hoje não estamos nesse tempo medieval. Mas a nossa missão, neste mundo secularizado, é continuar a anunciar ao coração da humanidade a entrega de Jesus, no seu Mistério pascal, e presente na Eucaristia. 

Saturday, 11 June 2022

O amor, traço divino na humanidade




SANTÍSSIMA TRINDADE – SOLENIDADE


L1: Prov 8, 22-31; Sal 8, 4-5. 6-7. 8-9
L2: Rom 5, 1-5
Ev: Jo 16, 12-15 

A Igreja celebra neste Domingo a festa da Santíssima Trindade. Trata-se para nós cristãos de um mistério central da nossa fé, que nos revela que o nosso Deus é uma comunhão de pessoas em amor. E se Deus é comunhão de amor entre pessoas iguais, então a sua criação apresenta as mesmas características. 

Assim o ouvimos narrar na primeiro leitura, da qual é possível fazer uma tipologia da Trindade a partir desta leitura. De facto, a sabedoria que está na base de toda a criação, surge até nós como um ordenação do criado, com um plano de amor que visa estar com a humanidade. Esta consciência perpassa todo o Antigo Testamento, do qual ouvimos até no salmo como Deus faz do homem "quase um ser divino". 

O cristianismo, após o Mistério Pascal Jesus e descida do Espírito Santo, discerniu ao longo de séculos que o nosso Deus é mesmo comunhão de amor que ultrapassa o nosso entendimento. Mas a consciência de amor habita o profundo da nossa fé, em que ousamos dizer que o Espírito Santo foi derramado no nosso coração, e que Ele mesmo nos fortalece nas tribulações que atravessamos. 

O evangelho retoma esta consciência de uma comunhão com o Pai e o Filho no Espírito Santo. É este último que no nosso coração nos faz compreender a verdade que só pela nossa inteligência não conseguimos ler nem recordar. É ele que agora anima a vida da Igreja. 

Esta festa da Santíssima Trindade, que nos mostra um Deus de Amor, permite-nos pelo menos ler duas consequências. 

A primeira e mais fundamental é que toda a criação é boa e realiza-se no amor. Assim, o pecado, o mal, a inveja e a guerra não fazem parte do plano de Deus e desfiguram a boa obra que Ele fez; isto permite afirmar sem medo que apesar de se passar tantas vezes por um vale de lágrimas, a realidade que vivemos é no seu fundo boa. 

O segundo aspecto da fé na Trindade diz respeito ao cuidado com a nossa criação. Se o nosso Deus é comunhão e amor, constituiu a humanidade como guardiã da sua criação, cuidado que se expressa com a natureza e animais, mas sobretudo com os mais frágeis. Por isso, descartar e ser indiferente à vida mais frágil é também um atentado contra uma ecologia que, como afirma Francisco, se quer integral. 

Saturday, 4 June 2022

Reunidos por um só Espírito

 


DOMINGO DE PENTECOSTES


L 1 At 2, 1-11; Sal 103 (104), 1ab e 24ac. 29bc-30. 31 e 34
L2 1 Cor 12, 3b-7. 12-13 
Ev Jo 20, 19-23

Celebramos a Solenidade de Pentecostes, totalizando os 50 dias da celebração da Páscoa. Este dia é o dia em que ocorre o cumprimento da promessa de Jesus, do envio do Paráclito, do Defensor, daquele que haveria de fazer recordar tudo aquilo que ele nos tinha dito. 

A primeira leitura do Livro dos Actos dos Apóstolos colocam o acontecimento desta festa na data da Festa das Semana ou das Colheitas, festa judaica caracterizada por uma grande alegria, que reunia em Jerusalém judeus de todos os extratos sociais. Estes celebravam nesta festa os 50 dias da chegada ao Monte Sinai, onde Deus deu ao Povo a Lei, estabelecendo assim a Antiga Aliança, como caminho de liberdade e de discernimento do que é Bem do que é Mal. 

É neste contexto que Lucas coloca a festa do Pentecostes, em que os apóstolos recebem a grande promessa de Jesus, o Espírito que os capacita para anunciar a Boa-Nova em todas as línguas, num ambiente de grande alegria e capaz de vencer as barreiras culturais. De muitas línguas forma-se apenas um só Povo, uma grande família que conhece a Deus.

O grande dom do Espírito Santo é animar e reunir-nos a todos como membros de um só corpo, já não pela observância de uma lei, mas partindo do mais profundo do coração humano. É próprio do Espírito de Deus suscitar o perdão dos pecados e trazer a paz, como anuncia Jesus aos Apóstolos. Tudo o que de facto impede a comunhão humana é fruto do pecado e isto é sobretudo o que o caracteriza. 

O amor de Deus, derramado nos corações pelo Seu Espírito, manifesta-se nos seus sete dons, que nos ajudam a orientar a nossa vida para Deus:

  • Sabedoria - Trata-se de conseguir discernir o que é bem do que é mal, qual o caminho da justiça de acordo com o plano de Deus, com a Verdade que Ele nos revela.
  • Entendimento - Mostra-nos o caminho para compreender interiormente as verdades que Deus nos revela. 
  • Ciência - É o dom que nos torna capazes de conhecer o chamamento que Deus nos faz e como lhe procuramos responder.  
  • Conselho - Este dom aperfeiçoa a prudência, de como agir de acordo com a vontade de Deus diante das situações. 
  • Fortaleza - É o dom que nos capacita para viver fielmente diante das dificuldades. 
  • Piedade - É o dom do Espírito Santo que nos orienta para lhe prestar o devido culto a Deus. 
  • Temor de Deus - Este dom reflecte o desejo de querer viver fielmente a Deus, de em tudo procurar a sua vontade, e permite que todos os outros subsistam, pois já diz o salmista "o temor do Senhor é o princípio da Sabedoria". 
Pela vinda do Espírito Santo somos chamamos a ser Igreja, a qual fala a única linguagem do amor de Deus, que reconhece nele a alegria da nossa vida. Que Este renove de facto a face da Terra!