Friday, 31 December 2021

Abençoados por Deus

 

Photo by Polina Zimmerman from Pexels


SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – SOLENIDADE

L 1 Num 6, 22-27; Sal 66 (67), 2-3. 5-6 e 8
L 2 Gal 4, 4-7
Ev Lc 2, 16-21

Um ano ano se inicia, nesta data em que se celebra o oitavo dia da Solenidade do Natal e que dedicamos à festa de Santa Maria, Mãe de Deus, dogma proclamado no concílio de Éfeso. Também neste dia S. Paulo VI, dedicou, em 1967, o primeiro dia do ano como dia mundial da paz. 

A bênção araónica que ouvimos neste dia do livro dos números é, segundo os estudiosos, o mais antigo manuscrito do século VII a. C. encontrado até hoje em placas de metal, o que retrata a sua importância. Este texto invoca o Senhor como Deus que ama o seu povo, para que o proteja, o abençoe, olhe para o seu povo, o acompanhe e lhe dê a paz. O sentido profundamente religioso deste texto está carregado da consciência da fé de que o Deus de Israel é um Deus próximo. Era apenas no uso deste texto que o sacerdote do templo antigo podia invocar o nome de Deus para abençoar o Povo. 

A maior bênção de Deus é-nos dado em Filho, feito homem para nós, do qual recebemos a maior graça: Deus faz-nos seus filhos adoptivos e revela-nos a grandeza do seu amor por nós. 

Olhamos para Maria e vemos nela a grande figura deste dia. Vemos nela aquela que acolhe a bênção e dá ao mundo o Filho de Deus. Ela é modelo de acolhimento e de cuidado para a humanidade. Ela escuta, ouve e guarda no seu coração (symballousa=dialogando dentro de si)   tudo o que vai acontecendo. Não se trata de mera beatice; um coração purificado por Deus procura guardar a acção de Deus que passa nas nossas vidas, por perceber que Deus só pode abençoar. Maria é aquela que estando tão descentrada de si se entrega totalmente. 

O Papa Francisco na mensagem que escreveu para o dia mundial da paz vem lembrar-nos da nossa necessidade do diálogo entre gerações, da edução e do trabalho para a paz. O diálogo que gera pontes dentro da sociedade na partilha dos sonhos dos jovens e da sabedoria dos mais velhos, da educação para um saber mais abrangente e de cuidado e o trabalho como lógico de cuidado entre todos.  

Que a bênção de Deus nos alargue as fronteiras do nosso coração para darmos lugar à paz que só Ele pode trazer. Como nos diz S. Leão Magno: «É a paz que gera os filhos de Deus, alimenta o amor e cria a unidade. Ela é o repouso dos santos e a mansão da eternidade. E o fruto próprio desta paz é unir a Deus os que separa do mundo.»


Para partilha [https://www.youtube.com/watch?v=xW4YB6fVvJo]

Friday, 17 December 2021

Três sim's



DOMINGO IV DO ADVENTO


L 1 Miq 5, 1-4a; Sal 79 (80), 2ac e 3b. 15-16. 18-19
L2 Hebr 10, 5-10
Ev Lc 1, 39-45 

Neste quarto Domingo de Advento olhamos o mistério da celebração do Natal, já com o rosto de Maria, que confia e entrega a sua vida à vontade de Deus. Creio que as três leituras nos permitem vislumbrar três "sim's" presentes nesta liturgia. 

O primeiro sim é o da humildade da pequena localidade de Belém, cuja pequenez surge como berço para o salvador de Israel. Já assim tinha sido para o Rei David, assim o é também para Jesus, que na maior simplicidade assiste ao nascimento do salvador. A humildade, longe de ser pobreza material, é espaço para deixar a vida crescer e se alargar para acolher todos. Neste Rei vemos a promessa do cuidado por todos e da paz oferecida. 

O segundo sim é o de Cristo, segundo a visão da carta aos Hebreus. Neste relato alegórico do Mistério da Encarnação, o Verbo de Deus assume a humanidade, como resposta total no dom de si mesmo ao Pai para ser o nosso sacerdote. Cristo nasce e entrega a sua vida ao Pai para nossa salvação, pelo elevar da  nossa humanidade até Deus. No coração deste dinamismo está o sim à vontade de Deus, em quem somos convidados a dar o nosso sim. 

É neste sim de Cristo que vemos o último sim: o sim de Maria, dado desde o início da sua existência. Maria confia e entrega a sua vida; mas nesta leitura Maria torna-se símbolo do anúncio do Evangelho, cujos pés ultrapassam os montes da distância para levar a alegria e a presença de seu Filho aos demais. Ontem, hoje e sempre, Maria aparece como cooperadora na salvação da humanidade pelo anúncio do seu Filho. Nela podemos caminhar igualmente sobre as dificuldades para continuar a testemunhar o nascimento de Jesus. Com Ela podemos aprender a acreditar que Deus cumpre tudo aquilo que promete à humanidade e a cada um. 


Saturday, 11 December 2021

Para uma maior alegria...



DOMINGO III DO ADVENTO


L 1 Sof 3, 14-18a; Sal Is 12, 2-3. 4bcd. 5-6
L2 Filip 4, 4-7
Ev Lc 3, 10-18

O terceiro domingo do Advento é dedicado à alegria. Neste sentido, encontramos uma rica referência à alegria que importa conhecer as suas causas. A primeira leitura fala-nos da exortação à alegria da Filha de Sião, isto é da cidade de Jerusalém, porque o Senhor estará no meio dela. Esta alegria nasce da presença de Deus que salva e renova a vida. Reparemos que não é uma alegria que nasça da posse de fortunas ou apenas de um bem estar pessoal; é relacional e agradecida.

A carta aos Filipenses de São Paulo, também conhecida pela carta da alegria, nos convida a alegria. Mais uma vez a causa da alegria está no Senhor Jesus, em quem a alegria permanece não de forma estridente, mas permanente. Esta alegria alimenta-se da bondade partilhada, que se faz dom para o outro, na confiança e na oração filial a Deus. A sua meta é a paz de coração.

João Baptista surge como figura central no Evangelho que escutámos este Domingo. Ele prepara o caminho do Senhor apelando à conversão, não apenas a renunciar ao mal, mas a chamando cada um a abrir-se ao bem que ainda não exista na sua vida. 

Neste caminho de advento, de preparação para a vinda do Senhor, como vamos cultivando em nós a abertura para estarmos dispostos a receber a Verdade? Que temos ainda no caminho que possam impedir que a nossa vida se disponha a acolher? 

Wednesday, 8 December 2021

Maria: santidade sincera, confiante e proactiva.

 




IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA,

L 1 Gen 3, 9-15. 20; Sal 97, 1. 2-3ab. 3cd-4
L 2 Ef 1, 3-6.11-12
Ev Lc 1, 26-38

Maria é a figura da Igreja diz o Vaticano II. Nela podemos ver a nossa verdadeira imagem de humanidade que se entrega a Deus sem limites de coração. É o contraponto à figura da primeira Eva, a qual foi enganada pela serpente , juntamente com Adão, para ver no Deus criador um rival e mesquinho cioso de uma sabedoria. Entra a lógica da desconfiança que perverte o amor que unia criador e criatura, e que unia homem e mulher. 

Maria é a antítese disto. Ela é cheia de graça, escolhida por Deus desde o início para ser a mãe do nosso redentor; por isso é causa da nossa alegria. Em Maria vemos que santidade é possível para a nossa humanidade, e não só não nos tira nada, como nos abre. 

Em Maria vemos uma santidade sincera, confiante e proactiva, atitudes que nos podem ajudar hoje a caminhar na santidade. 

Santidade Sincera. Em Maria a santidade não é feita de esquemas que se repetem para assegurar uma salvação. Maria é sincera; ela perturba-se quando ouve a saudação do anjo, pergunta ao anjo o que não percebe sem todavia se deixar cair na dúvida. A sinceridade de Maria mostra a atitude de crente própria de uma criança que não tem medo de perguntar para tentar saber mais sem esquemas para tentar fugir. Veremos que será assim em toda a sua vida; tantas vezes a nossa arranja esquemas e subterfúgios diante de Deus. 

Santidade Confiante. Maria pergunta e tenta alcançar a acção de Deus; e quando compreende o que lhe é pedido confia. E confia porque sabe que a "sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem". Tão distante está dos primeiros pais que se escondem porque descobrem a sua fragilidade. Olhar para Maria é reconhecer que Ela é sinal de que o Todo-Poderoso faz maravilhas em quem nele confia. 

Santidade Proactiva. Ser santo não significa ser passívo, mas proactivo. A Lumen Gentium refere que «Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens.» Vemo-lo na sua vida, na solicitude pela sua prima Isabel, mas também no acompanhar do emergir da Igreja. Do mesmo modo, hoje Maria acompanha a Igreja no seu peregrinar e não nos abandona, respondendo fielmente ao chamamento do seu filho na cruz para ser nossa Mãe. 

Que a nossa vida se deixe acompanhar pelo testemunho e amor de Maria no serviço a Deus e ao próximo. 

Saturday, 4 December 2021

Elevar os vales das ausências



DOMINGO II DO ADVENTO


L 1 Bar 5, 1-9; Sal 125 (126), 1-2ab. 2cd-3. 4-5. 6
L2 Filip 1, 4-6. 8-11
Ev Lc 3, 1-6

Neste tempo de Advento vão passando pelo nosso olhar as figuras que preparam a vinda de Jesus, convidando-nos a esperar em esperança o salvador. É assim que vemos o profeta Baruc convocar a cidade de Jerusalém a revestir de glória, a embelezar-se para observar e receber os seus filhos que regressam pela justiça e glória de Deus; é para isso que os montes devem ser abatidos e os vales elevados, de modo a que ninguém fique privado de participar nesta marcha de regresso. Isto escrito na influência do regresso do Povo do exílio da Babilónia, de modo a exortar à esperança de que a justiça de Deus se traduz sempre em misericórdia e salvação. 

É neste contexto que ouvimos João Baptista apelar a preparar o caminho do Senhor. Este é um caminho que devemos aplanar na nossa vida, nas circunstâncias que vivemos, de modo que a nossa vida se vá enchendo mais de salvação, beleza, justiça, alegria. Todos atravessamos caminhos sinuosos que se transformados pela justiça do perdão, enchidos da alegria e esvaziados da inveja e do orgulho se traduzem em salvação a acontecer já aqui pela força de Deus. Crescer no discernimento deste caminho e abundar em caridade no coração é caminhar em ritmo certo para o Natal do Senhor.