Saturday, 24 February 2024

Transfigurados: escolher a tenda ou a nuvem

Image by Dimitris Vetsikas from Pixabay

DOMINGO II DA QUARESMA


L 1 Gen 22, 1-2. 9a. 10-13. 15-18; Sal 115 (116), 10 e 15. 16-17. 18-19
L 2 Rom 8, 31b-34
Ev Mc 9, 2-10 

Segundo domingo da Quaresma, num caminho que nos orienta para uma experiência de vida nova. 

A liturgia da Palavra deste dia coloca diante de nós o episódio da subida ao monte, como experiência religiosa antropológica tão típica para contemplar a paisagem. Aqui a subida é diferente. Quer a feita por Jesus no episódio da transfiguração, quer por Abraão. Em ambas emerge o dom, a liberdade e o amor. 

O dom do filho entregue por nós. Abraão faz a experiência de aceitar o dom tão aguardado de seu filho Isaac, sabendo que ele não lhe pertence, mas que vem de Deus. Este filho que na prova posta por Deus é substituído por um carneiro, é entregue em Jesus Cristo. Ele é o dom de Deus entregue por nós, para nossa justificação como diz São Paulo. Nele a nossa vida, com aquilo que nos prende é libertada que tudo o que prende e nos amarra. Ele é, na imagem do episódio da transfiguração, o homem novo, de vestes de luz que nos ilumina e se apresenta como o centro da história da salvação, assumindo toda a Lei e os profetas. 

É para esta liberdade fundamental, de reconhecimento de que tudo é dom, que se reconhece que nada pode ser aprisionado. Talvez possamos aqui contrapor as tendas, que Pedro, na sua boa intenção propõe fazer para guardar a beleza do mistério, com a figura da nuvem, tão fugaz com que Deus se manifesta. Tantas vezes queremos guardar a vida, o sonho, as práticas de sempre, quando Deus se revela como nuvem, impelida pelo vento, que vai à nossa frente e nos impele para irmos mais longe, chamando-nos a levantar acampamento e nos pôr em marcha. Assim é na nossa vida pessoal, nas relações que vivemos e na vida eclesial. Tanta renovação a que somos chamados para fazer, no vento do Espírito Santo!

Toda esta liberdade só pode ser vivida no amor purificado de Deus sob pena de se tornar estéril. É na entrega de Jesus Cristo, no seu amor levado até ao fim que somos inseridos nesta nova forma de amar. Longe de querer possuir e guardar, Deus entrega-se por nós, como evidência de que a nossa vida e a nossa realidade frutifica quando se dá, se expande e ousa ir mais longe. Quando o Senhor reveste, renovando a nossa realidade, de novas vestes que nascem da sua ressurreição. 

Saturday, 17 February 2024

Quaresma: um convite para a harmonia





DOMINGO I DA QUARESMA


L 1 Gn 9, 8-15; Sl 24 (25), 4bc-5ab. 6-7bc. 8-9
L 2 1Pd 3, 18-22
Ev Mc 1, 12-15 


Entramos em quaresma, em caminhada de quarenta dias rumo à Páscoa. Quaresma é sempre o tempo do essencial, de nos libertarmos de tudo o que pesa no nosso coração, do que está desordenado na nossa vida, para passar a ser vivido na lógica de Deus, do dom de si. É tempo de passagem, como o é o de deserto. Assim vemos Jesus a ir para o deserto durante quarenta dias, em sinal de um Deus que assume a vida do seu povo, que percorreu 40 anos no deserto até chegar à terra prometida. Mas ele não repete o comportamento do povo. 

No deserto de Jesus, muito embora ele seja tentado, prevalece a harmonia e o serviço. É esta harmonia que se inaugura na humanidade de Jesus que nos é oferecida, embora tantas vezes dificilmente aceite por nós. 

O episódio do dilúvio e a aliança feita com Noé não é apenas algo feito com a humanidade, mas como refere o texto, é feita com toda a criação, a qual é chamada a se tornar lugar de harmonia e de vida. São Pedro retoma o episódio do dilúvio, para o ler de forma alegórica, na vida cristã, na qual entramos pelo batismo. 

Desde os primeiros tempos da vida da Igreja, a quaresma era especialmente dedicada à preparação dos adultos que iam ser batizados. Ser baptizado é ser inserido no mistério de Cristo, da sua morte e ressurreição. É este dom, a que chamamos "vida nova", que nos orienta para a vida vivida em harmonia. 

Nesta harmonia, que nasce do batismo, a humanidade é chamada a louvar a Deus com a sua existência, exercendo a sua vocação original de cuidado da criação por meio da caridade com os irmãos e procurando tudo orientar para viver na comunhão com Deus. Trata-se por isso de uma ecologia integral, como refere o Papa Francisco: a relação com Deus, dom da sua graça e misericórdia, impele-nos a cuidar do próximo e da criação. Como tudo na nossa existência, tudo começa nos mais pequenos gestos, mas deve ser orientado para expressão do amor que cultivamos na nossa vida. Possa a quaresma ajudar a purificar o nosso ser para este ser cada vez mais expressão do amor divino. 

Saturday, 10 February 2024

Ousadia confiante

 Image by Christine Schmidt from Pixabay 



DOMINGO VI DO TEMPO COMUM


L 1 Lev 13, 1-2. 44-46; Sal 31 (32), 1-2. 5. 7 e 11
L 2 1 Cor 10, 31– 11, 1
Ev Mc 1, 40-45 

A liturgia da palavra deste Domingo coloca diante de nós o modo como os judeus lidavam antigamente com as questões da lepra na comunidade. Com efeito, os doentes deveriam ser afastados da comunidade e convívio social de modo a prevenir o risco de contacto, devendo assumir uma forma de vestir que os revelasse como pessoas doentes. Assim, a lepra levava à exclusão. Percebendo a pragmaticidade da decisão, compreendemos também o sofrimento acrescido que gerava nos doentes, quando a nossa humanidade é chamada a viver em comunhão. 

Este contexto permite-nos vislumbrar a ousadia da fé e confiança do leproso que se aproxima de Jesus. Sabemos bem que na Escritura a lepra é frequente usada como analogia do pecado que vai endurecendo o coração humano e o anestesia na capacidade de amar e de se deixar amar. Por isso, o gesto do leproso tem qualquer coisa que sinaliza a dignidade humana profunda que habita cada um de nós, como expressão de um desejo que supera as barreiras que são colocadas. É diante deste assombro de confiança que Jesus fica compadecido. Bem diz o Papa Francisco: «Deus não se cansa de perdoar, somos nós que nos cansamos de pedir perdão». 

É desta experiência profunda de fé e de graça e misericórdia que brota a capacidade de anúncio. Na gratidão de ter sido tocado por Deus, num dom que ultrapassa o estado moral de cada um, que nos abre para viver para o serviço do outro. Também origina que aquele homem possa voltar à comunidade humana e cumprir a sua dignidade. 

Paulo também fez esta experiência. Tocado por Jesus ressuscitado, também ele vive para a dádiva de  si. Como é importante saber reconhecer a dignidade do outro é sempre fundamental, e que a bênção de Deus toca a nossa vida para a elevar e a reconduzir ao dom da comunhão. Pode ser necessária conversão de vida, mas a vida será sempre abençoada por Deus e o amor, ainda que frágil, cuidado para se crescer na capacidade de vivificar. 


[PS. O estilo de Jesus, de se deixar fazer próximo dos que sofrem, vai marcar a Igreja nascente. Rodney Stark, no livro The Triumph of Christianity, defende que o motivo pelo qual o cristianismo se afirmou como a religião de Roma, foi pela caridade dos cristãos. No tempo em que Roma foi assolada pela peste durante o reinado de Marco Aurélio, os cristãos permaneceram na cidade a cuidar dos doentes, animados pela fé, enquanto os pagãos fugiam para fora. A verdade é que muitos cristãos acabaram por morrer contagiados, mas a mortalidade total estima-se ter sido diminuída em dois terços. (cf. Rodney Stark, The Triumph of Christianity: How the Jesus Movement Became the World’s Largest Religion (New York: HarperOne, 2011), 114-119.)]. 


Friday, 2 February 2024

"Anunciai sempre o evangelho e se for preciso usai palavras"




DOMINGO V DO TEMPO COMUM


L 1 Jb 7, 1-4. 6-7; Sl 146 (147), 1-2. 3-4. 5-6
L 2 1Cor 9, 16-19. 22-23
Ev Mc 1, 29-39 

O sentido antigo da palavra evangelho apresenta-se como uma boa nova, uma boa notícia, que provinha de alguém com autoridade e relevo. Como tal, aqueles que transmitiam esta boa nova, não o faziam como algo que provinha de si, mas procuram ser fiéis ao que recebiam. No caso de Jesus, o Evangelho apresenta-se como um mandato de pregação, que é acompanhado por sinais de cura daqueles que sofriam de doenças e de algum mal. É assim que vemos o Senhor curar a sogra de Pedro, a qual fica capacitada para viver o serviço, à semelhança da vida de Jesus. É precisamente por causa disto que Jesus não deixa o mal dizer quem Ele é: não basta saber quem é Jesus, sob pena de se ficar apenas na parte de fora do mistério da sua vida. Jesus é figura à qual aderimos com vida, com sentimentos e não apenas com um conhecimento noético, superficial. 

Ele é a porta pela qual entramos numa nova forma de vida, que vive do anúncio proclamado que quer chegar a todos, que quer passar em todos os lugares vizinhos, sobretudo naqueles em que existe sofrimento. 

O evangelho é chave importante para tocar o coração dos que se sentem desanimados, como Job, que vivem o dilema dos limites da vida e do sofrimento. É a confiança da ação de Jesus, que na sua Palavra nos acompanha e fortalece para nos inserir no mistério da Sua vida. Também aqui, não se trata apenas de saber, mas de vida experimentada. Aliás é este o drama de Job: as palavras dos amigos que tentam encontrar causas para o seu sofrimento nada resolvem; apenas a experiência de Deus volta a devolver o sentido do dom da sua vida. 

O anúncio da Palavra é por isso uma missão essencial, da essência, da Igreja. Ou há ou se entala a vida da Igreja. É um serviço vivido à imagem de Cristo e esperado por tantos, mesmo aqueles que não têm consciência disso. É a experiência de Paulo, que tocado por Cristo, passa a viver focado na missão que lhe é confiada para evangelizar. Como tal, este anúncio é um serviço de caridade para o bem da humanidade, de liberdade e serviço à imagem de Cristo. Neste sentido, existe uma expressão atribuída (embora sem certeza) a São Francisco de Assis que sintetiza este dinamismo: "Anunciai sempre o evangelho e se for preciso usai palavras".