Friday, 24 March 2023

Um Deus que se perturba por nós




DOMINGO V DA QUARESMA


L 1 Ez 37, 12-14; Sl 129 (130), 1-2. 3-4ab. 4c-6. 7-8
L 2 Rm 8, 8-11
Ev Jo 11, 1-45 ou Jo 11, 3-7. 17. 20-27. 33b-45 

A liturgia deste domingo faz-nos vislumbrar o mistério pascal de Jesus, onde pela morte e ressurreição de Lázaro, podemos entrar na lógica do mistério pascal cristão. Neste sentido, vemos como o evangelho é enquadrado pela ressurreição anunciada por Ezequiel, que acontecerá pelo dom do Espírito infundido nos nossos corações. É este mesmo Espírito que sempre dá vida, como nos recorda o Credo, e que nos sustenta nos nossos corpos mortais. 

Todo o Evangelho transparece esta dinâmica tão singular de vida dada por nós. Novamente ouvimos proclamar que o mal acontecido a Lázaro será ocasião para manifestar a glória de Deus. E logo de início compreendemos que após o anúncio da doença de Lázaro,  Jesus só responde passados dois dias, ou seja no terceiro, sinal que nos aponta para o Mistério Pascal, onde a vida cristã é partilhada com a perseguição e sofrimento. 

O que depois assistimos é ao diálogo de Jesus com Marta - Jesus nunca responde a Maria - em que esta passa de um conhecimento religioso, que SABIA da ressurreição do fim dos tempos, para ACREDITAR que Jesus era o Messias; só posteriormente, avança para ACREDITAR que Jesus tem o poder de ressuscitar. 

Outro ponto fundamental é que diante do sofrimento inefável de Maria (ou da humanidade) Jesus perturba-se profundamente (v. embrimaomai -  apenas usado aqui neste evangelho por duas vezes, com o significado literal de experimentar uma revolta profunda), sinal que nos remete para a misericórdia divina diante pela humanidade. 

Por fim, o grande grito de Jesus a Lázaro, "sai para fora", que nos remete para uma nova criação de Lázaro e onde, vislumbrando a Ressurreição de Jesus, também podemos ver a nossa. Passar de um conhecimento superficial para acreditar é essencial na vida da fé. 


Friday, 17 March 2023

Iluminados por Cristo



DOMINGO IV DA QUARESMA


L 1 1Sm 16, 1b. 6-7. 10-13a; Sl 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6
L 2 Ef 5, 8-14
Ev Jo 9, 1-41 ou Jo 9, 1. 6-9. 13-17. 34-38 

Continua o percurso quaresmal, neste ciclo do Ano A, onde nos é dado viver os grandes textos da preparação baptismal dos catecúmenos, sendo que agora nos centramos no dado da luz e da visão que Jesus traz à vida. 

A liturgia da palavra apresenta-nos em primeiro lugar o chamamento de David, filho de Jessé, figura que contraria a primeira impressão do profeta. Mais do que o aspeto exterior, Deus olha o coração e conhece a identidade profunda de cada um. Trata-se de uma vocação inesperada, em que um guardador de rebanhos  de "belos olhos" é tornado Rei de Israel. É na simplicidade desarmante que Deus se manifesta. 

É este chamamento inesperado que acontece no evangelho. Jesus encontra no "seu" caminho um cego de nascença, imagem com que o evangelho descreve a humanidade, quando reconhece que ainda precisa de ver. De facto, são aqueles que acham que já vendo tudo, que de facto já nada vêem. Por um lado Jesus afasta a mentalidade de que a doença seja castigo de Deus, mas ocasião por onde Deus se pode manifestar. Assim, a  nossa fragilidade é muitas vezes o local mais procurado por Deus em nós, para em nós se poder manifestar o seu poder. 

Mas o núcleo deste texto evangélico está na nova criação - desde o cuspir e voltar a modelar o barro da terra e assim recriar a visão de cada um para ser capaz, como vemos no final de professar a fé em Jesus Cristo! Este caminho que não é mágico precisa da colaboração humana - partir em obediência ao chamamento de Jesus, como manifestação da correspondência ao chamamento de Deus; lavar-se nas águas de Siloé, do enviado, ou seja revestir de Cristo e aí ver, sinal de uma nova forma de ser. 

Reparemos que a mudança de vida deste homem traz uma perturbação ao poder vigente. Uns reconhecem-no, outros, mais ou menos, mas são os fariseus que mais contradizem o autor da obra realizada, por "não saberem de onde ele vinha", tema comum ao evangelho joanino desde o início - "de onde vinha o vinho". O cego não dá respostas apressadas ou que ainda não ouviu; apenas conta a sua experiência, como o tinha feito a samaritana. No meio deste caminho ainda compreendemos como este homem agora curado e chamado a testemunhar Jesus não deixa de afirmar que "Deus escuta aqueles o adoram e fazem a sua vontade". 

O caminho é percorrido até que no final, depois da provação, o cego testemunha que Jesus é o Filho de Deus e nele professa a sua fé, ou seja, reconhece nele a sua total confiança. É assim que este homem, como aponta a carta aos Efésios, se torna luz em Cristo, pois tudo na nossa vida é chamado a ser vivido à face da luz da bondade, justiça e verdade. Possamos também nós corresponder ao amor que nos chama. 



Friday, 10 March 2023

Uma água viva



DOMINGO III DA QUARESMA



L 1 Ex 17, 3-7; Sl 94 (95), 1-2. 6-7. 8-9
L 2 Rm 5, 1-2. 5-8
Ev Jo 4, 5-42 

Um das experiências mais duras que toca a nossa condição contingente é a sede. Esta sede, que expressa uma carência de água, é entendida muitas vezes de forma literal, tomando as proporções dramáticas de falta de água em tantos pontos do nosso planeta. Todavia, é também, não raras vezes, usada para expressar simbolicamente uma carência afetiva, psicológica ou espiritual. 

É este contexto de fundo que a liturgia da palavra apresenta neste domingo, onde ouvíamos o episódio da altercação do Povo Hebreu com Moisés no deserto. Mas a sede é tema que retorna com toda a força no evangelho. 

Jesus toma o caminho para norte, forçando passar pela zona montanhosa da Samaria, algo não comum. Assim, o plano de Deus apresenta-se como o desejo de suscitar um encontro, o qual acontece junto à fonte, sinal de uma esponsalidade que marca a história do Povo judeu. 

Esta mulher, que não conhecemos o nome, o que indica o seu carácter tipológico, ou seja, permite a possibilidade de cada um de rever na sua figura. Todo o relato evangélico expressa um caminho de Jesus para a conduzir para fazer reconhecer nela a sede que a habita e que não pode ser saciada numa água fugaz; mais, este sede parece ser algo que extravasa apenas uma etnia, mas diz respeito a toda a humanidade. Ela mesma é interrogada, vai reconhecendo o seu desejo, a partir das suas condições, para depois compreender um dom imenso que ela apenas consegue sentir vibrar, embora não o consiga expressar, entendendo-o apenas do entendimento da sua história. É neste caminho que percebe a radicalidade da conversão desde dentro, o que a mobiliza para ser testemunha (e não apenas palradora) de uma salvação, em que entra pela fé, e que contagia os restantes. 

Este texto evangélico é de uma importância central na tradição da Igreja. Ele era usado para a caminhada baptismal dos catecúmenos, na proximidade do seu baptismo, sendo usado como introdutório ao símbolo da água usado no baptismo. É sempre importante recordar a singularidade do nosso baptismo para a vida da fé, dom pelo qual somos participantes da vida dada pelo Espírito Santo. E ao dom e ao amor responde-se com gratidão e generosidade. 

Friday, 3 March 2023

Um nuvem luminosa que nos cobre com a sua sombra



DOMINGO II DA QUARESMA


L 1 Gn 12, 1-4a; Sl 32 (33), 4-5. 18-19. 20 e 22
L 2 2Tm 1, 8b-10
Ev Mt 17, 1-9

No centro da vida cristã reside um mistério de amor, que chama a humanidade a reconhecer a bênção de Deus que faz a vida crescer e expandir-se. É este o mistério que vemos logo no início com Abraão, nosso pai na fé, que ao chamamento divino deixou a sua terra e partiu, não só fisicamente, mas também como peregrinação que começa dentro de nós. Não deixa de ser pertinente como a bênção dada a Abraão, é assente na promessa de paternidade para todas as nações. 

Esta universalidade de bênção é finalmente estendida a todas as nações em Jesus Cristo, pelo Seu Mistério Pascal, pela sua entrega, na sua morte e ressurreição. Como nos recorda São Paulo, na epístola a Timóteo, somos chamados à santidade, ou seja a viver como Deus, pelo dom do Seu amor, graça que nos foi dada definitivamente. 

Estas leituras servem de moldura à leitura do evangelho, que nos remetem para a expectativa da Ressurreição de Jesus, mas onde os discípulos são chamados a ver a prefiguração da revelação de Jesus. 

A transfiguração de Jesus, a sua metamorfosis (=mudança de forma), revela a Sua identidade como Senhor da história, assumindo em si mesmo a Lei e os Profetas. É para esta transformação que pode encandear os mais sensíveis como Pedro, que logo queria ficar ali, que todos somos chamados. Reparemos como se trata apenas de uma melhoria de vida; é muito mais: é viver como O Filho de Deus, o qual assume todo o olhar favorável do Pai. 

O apelo da "nuvem luminosa que cobre com a sombra", em referência ao êxodo do Povo Hebreu, aponta-nos a necessidade de no nosso caminho escutar a voz do Filho de Deus, que nos insere numa nova forma de vida. Cada um de nós é chamado a ser este prazer de Deus, como sua morada, e embora não compreendendo todo o fulgor da luz que emana de Deus, podemos sempre escutar a Sua Voz que nos recria e transforma para vivermos como suas testemunhas.