Saturday, 12 August 2023

No meio do despojamento, Cristo permanece

DOMINGO XIX DO TEMPO COMUM


L 1 1Rs 19, 9a. 11-13a; Sl 84 (85), 9ab-10. 11-12. 13-14
L 2 Rm 9, 1-5
Ev Mt 14, 22-33 

Vivemos este Domingo acompanhando o profeta Elias na sua peregrinação, ou melhor, na sua fuga e tentativa de reencontro com Deus a caminho do monte Horeb. Elias foge para proteger a sua vida, pois é perseguido após o episódio da morte dos adoradores de Baal. É aqui que ele faz uma profunda experiência de despojamento, de se sentir sem forças. É neste mais fundo que faz uma experiência de Deus, até então singular. Passam à sua frente grandes teofanias cheias de poder, eventos pelos quais Deus já se havia revelado no monte da Aliança (cf. Ex 19, 16-18), e nos quais agora não se encontrava. É na delicadeza de uma brisa, de um sopro criador e vital do homem que Elias reconhece a presença de Deus. 

O mesmo sucede no Evangelho que nos é dado ouvir. Após um grande "sucesso pastoral", com uma multidão alimentada, os discípulos fazem a experiência do medo, ao verem aquele que tem poder sobre as águas (Salmo 28 (29)). É o resultado de uma barca onde falta o timoneiro, onde falta Cristo. Mas a voz de Cristo chama Pedro a sair para lhe dar o poder de fazer o que ele mesmo fazia. 

Não podemos deixar de referir aqui que as águas são o símbolo da morte. Sobre estas, como sinal de vitória sobre o mal, somente Cristo pode caminhar, assim como os discípulos que pela fé, aqui apresentada quer confiança absoluta em Deus sem espaço para dúvida, quer como força para clamar por Cristo no meio da dúvida. Pedro faz diante de Cristo a mesma experiência de Elias: a do despojamento, assim como a da novidade de uma experiência pessoal com Deus. 

No meio do despojamento da vida, Cristo permanece como brisa que alenta e revigora, voz que chama a sair de espaços fechados e mão que nos sustenta no meio da tribulações. Ele é o caminho para a comunhão com o Pai. Não deixes nunca de chamar, como Pedro, pelo Senhor. 



 

Saturday, 5 August 2023

Transfiguração: um oportunidade de esperança




DOMINGO XVIII DO TEMPO COMUM

Transfiguração do Senhor – FESTA

L 1 Dn 7, 9-10. 13-14; Sl 96 (97), 1-2. 5-6. 9 e 12
L 2 2Pd 1, 16-19
Ev Mt 17, 1-9 

A Igreja celebra este domingo, dia 6 de Agosto, a festa da transfiguração do Senhor, conhecida a Oriente como a Páscoa do Verão. 

A transfiguração, segundo nos apresenta o evangelho segundo S. Mateus, é um evento dado a um grupo restrito de apóstolos, que acompanham Jesus a um alto monte. Atransfiguração tem por fim revelar Jesus Cristo como Filho de Deus, centro da história da salvação ladeado por Elias e Moisés, e consolador da humanidade, que convoca os discípulos a não terem medo. 

Assim Jesus surge com a sua glória aos discípulos antes de todo o caminho da cruz que irá atravessar, como testemunho de que a força divina e celeste supera a da brutalidade a que ele é sujeito, tal como havia profetizado Daniel, ao se referir à entrega do poder ao ancião celeste diante dos impérios que oprimiam o Reino de Israel. 

Penso que a transfiguração constitui um episódio que nos permite vislumbrar em primeiro lugar uma esperança apoiada na confiança da força maior do bem e do amor face ao mal, pois a brutalidade tudo destrói e gera morte, enquanto o bem feito tende a permanecer, aproxima-nos da natureza de Deus e capacita o mundo para ser um lugar mais hospitaleiro para todos. 

Em segundo lugar, vemos como a transfiguração de Jesus se apoia na Palavra anterior, sinal de que a palavra de Deus é nosso apoio no caminho da vida e que mesmo não compreendendo tudo como Pedro, nos permite aproximar mais do mistério divino, reconhecendo a sua beleza e força. 

Em terceiro lugar, este evento permite vislumbrar que no meio das crises da vida e do mal que nos toca, a realidade mais profunda é boa, e de que, no final é o bem e o amor que realmente são as realidades que dão sentido à nossa existência. Tal como a cruz não é o fim de Jesus, também a nossa vida está orientada para a ressurreição. 

A transfiguração é uma oportunidade de esperança, que nos permite vislumbrar no nosso quotidiano, uma esperança maior.