Saturday, 23 October 2021

Deixa-te iluminar por Cristo




DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM

Verde – Ofício do domingo (Semana II do Saltério). Te Deum.
+ Missa própria, Glória Credo, pf. dominical.

L 1 Jer 31, 7-9; Sal 125 (126), 1-2ab. 2cd-3. 4-5. 6
L2 Hebr 5, 1-6
Ev Mc 10, 46-52

O evangelho deste Domingo faz-nos passar por Jericó, onde ouvimos o clamar de Bartimeu por Jesus. É particularmente significativo que a primeira leitura do livro do profeta Jeremias nos aponte para um regresso. Assim, Deus promete, por meio do profeta Jeremias, o regresso do Povo de exílio onde se encontravam, quando o exílio ainda está no seu início. O texto de Jeremias não refere que o regresso será conquistado pela força do Povo: antes enumera o regresso do coxo, do cego, da mulher já foi mãe e que vai ser mãe; ou seja, será um regresso que não virá por meio da mão do homem poderoso, mas do poder de Deus, ele o autor da liberdade e do regresso à pátria. 

Jesus encontra o cego Bartimeu às portas da cidade de Jericó, quando iniciaria o caminho de subida para Jerusalém. É no ponto baixo da terra, sinal da condição humana mais calcada, que vemos surgir estes clamor disruptivo.  É este homem que clama por Jesus para regressar do exílio da cegueira para poder ver o caminho a percorrer. No final do caminho que Jesus percorre no Evangelho segundo Marcos, onde vimos rostos a passar pelo caminho, a não perceber o caminho onde estavam e o homem rico até recusar o caminho, este cego mostra-nos que teve de ser curado para entrar no seguimento de Jesus, tendo-se libertado do manto que seria o seu bem mais importante com que se cobriria  (cf. Dt 24, 13). Diante de Deus só podemos estar em humildade. 

O cego Bartimeu é para nós sinal do reconhecimento profundo de que Jesus é a verdadeira luz do caminho. Neste caminho somos convidados todos a entrar, mediante a profundidade da vida em Cristo, da necessidade da graça de Deus para mudar e poder ver a presença de Deus nos acontecimentos do mundo.

Saturday, 9 October 2021

O saber que dá sabor à vida

 

DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM

L 1 Sab 7, 7-11; Sal 89 (90), 12-13. 14-15. 16-17
L2 Hebr 4, 12-13
Ev Mc 10, 17-30 ou Mc 10, 17-27

 

Entramos neste Domingo e somos convidados a olhar o lugar que damos à sabedoria na nossa vida. Assim o coloca o autor do livro da Sabedoria que pede a prudência e a sabedoria para a sua vida, concluindo que que o resto - as jóias, o ouro, a prata, a saúde e a beleza - de nada valem em comparação com estas. É a sabedoria que mais do que saberes, é o saber que dá sabor à vida. 

Esta sabedoria é nos dada a conhecer não pelos livros, mas pela Palavra de Deus feita carne em Jesus Cristo, que nos interpela a entrar no caminho do seu seguimento. Assim o vemos neste episódio que coloca o homem que entra correndo e interpela Jesus com os discípulos que seguem Jesus. 

A pergunta deste homem "Como alcançar a vida eterna" traduz o anseio que habita todo o coração humano: como ser feliz? Como encontrar o sentido, quando se cumpre tudo o que é devido? A resposta de Jesus, passando pela Lei é alargada à lógica da Nova Aliança, de libertação de tudo o que nos aprisiona e pede a confiança para reconhecer Jesus como a sabedoria que ilumina. Sabemos que o homem se afastou pesaroso e provavelmente triste ao não dar o passo a que foi desafiado. 

No caminho de Jesus a salvação não se compra: é recebida como dom, como o amor que é recebido e dado. Pede confiança e alarga os horizontes da vida em relação a tudo - relações e bens e até incompreensões. A relação com Jesus Cristo desafia hoje a nossa vida, expõe o nosso coração à força da Palavra e revela-nos o que vai cá dentro.

Friday, 1 October 2021

Para Deus, temos de ir com os outros.




DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM


L 1 Gen 2, 18-24; Sal 127 (128), 1-2. 3. 4-6
L2 Hebr 2, 9-11
Ev Mc 10, 2-16 ou Mc 10, 2-12


A liturgia deste domingo abre o nosso coração para o iluminar com a sua luz. 

A primeira leitura, do livro do Génesis, é o conhecidíssimo relato da criação. Nele vemos o homem, antes de sucumbir à tentação de querer ser Deus. O homem, criatura é colocado por Deus a contemplar e nomear todos os seres de acordo com a sua identidade. Dar o nome é  dar a identidade e criar lugar para cada ser, lugar que é irrepetível. Não se vê portanto o homem a dominar a terra à força, mas a ser aquele que é responsável por cuidar da ordem, algo que tem evidentes implicações na nossa relação com a criação de Deus e por isso na ecologia. 

Mas até aqui não ouvimos a voz do homem; de facto, o texto identifica uma verdade da nossa condição: a solidão não é boa para o homem, sendo que a relação com toda a restante criação não realiza a pessoa humana. A mulher é apresentada como auxílio, atributo que a Sagrada Escritura apenas atribui a Deus, sendo esta passagem a única excepção no Antigo Testamento. A mulher é criada do homem, sinal evidente da igual dignidade de ambos; todavia, isto não dilui a diferença. De facto, é na relação e comunhão com o diferente que a pessoa emerge. A ortografia hebraica atesta a igual dignidade entre ambos, pois a palavra mulher - isha - deriva da palavra homem - ish. 

É no coração humano que se iniciam as relações. O drama ao longo de toda a sagrada escritura é sempre o coração duro, insensível a voz do outro e da voz de Deus, que deixa de responder às interpelações. 

É neste contexto que acontece este debate com os fariseus sobre a legitimidade de repudiar a mulher - ou o marido. Jesus não entra em debates, mas apela ao Princípio, ao plano original de Deus para a humanidade. O princípio de Deus é o critério central para discernimento e o eco profundo do nosso coração: todos ansiamos a superação da solidão mais radical pela experiência do amor, do perdão e da comunhão verdadeiras. Para isso precisamos de um coração de criança, que saiba reconhecer a gratuidade de Deus, acolher o amor que se manifesta e partilhar o dom que existe em cada um.