Friday, 15 May 2026

"Olhos no céu, pés na terra"




DOMINGO VII DA PÁSCOA

ASCENSÃO DO SENHOR – SOLENIDADE

L 1: At 1, 1-11; Sl 46 (47), 2-3. 6-7. 8-9
L 2: Ef 1, 17-23
Ev: Mt 28, 16-20 

"Olhos no céu, pés na terra" é a expressão que nos pode ajudar a viver a liturgia deste dia da Ascensão do Senhor. Celebramos o dia da Ascensão do Senhor não apenas como um movimento físico, mas com o significado profundo que carrega: Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, entra no seio de Deus, de onde tinha saído, regressando com a nossa humanidade. Por Ele, único mediador da humanidade, é dada a cada um de nós a possibilidade de vivermos com Deus.

Por isso, é grande a esperança a que fomos chamados, como anuncia São Paulo na Carta aos Efésios: a comunhão com o mistério de amor revelado em Deus. Acima de todas as tribulações e dificuldades está a vida eterna com Deus.

Mas esta realidade não nos tira os pés da terra. Vemos isso no mandato do Senhor ao enviar os discípulos a evangelizar, com a força do Espírito Santo, como testemunhas por toda a terra. É importante o uso do termo "testemunhas", palavra que envolve a vida do próprio e que, no grego (língua em que o NT foi escrito), se aproxima da palavra "martírio". Evangelizar nunca é cumprir uma tarefa, mas envolve transmitir vida. É com a graça do Espírito Santo, mas também com a nossa vida, que a Palavra de Deus é anunciada. E isto exige, por isso, também criatividade.

A Igreja celebra este domingo o Dia Mundial das Comunicações Sociais, como meio no qual a voz do Evangelho, da construção da paz e da harmonia deve estar presente. Podemos sempre perguntar que uso fazemos destes meios, quer os mais tradicionais, quer os mais recentes, como as redes sociais e agora até a inteligência artificial. No documento que o Papa Francisco nos dirige este ano, este reconhece o valor que a IA pode dar no auxílio da humanidade, mas também o risco de anular a criatividade humana e o pensamento crítico. E recorda-nos que a questão de fundo não é tanto o que a IA pode fazer, mas o que nós podemos fazer com esta tecnologia, sabendo que existe o risco de cedermos à preguiça do pensamento e à pressa dos resultados.

Que, com pés no chão e olhos no céu, não deixemos de sonhar como a criatividade e a capacidade humana podem ser preservadas e cuidadas para o anúncio da vida verdadeira que Deus nos dá.

Friday, 8 May 2026

Um Paráclito, capaz de construir pontes entre a humanidade e Deus




DOMINGO VI DA PÁSCOA



L 1: At 8, 5-8. 14-17;
Sl 65 (66), 1-3a. 4-5. 6-7a. 16 e 20
L 2: 1Pd 3, 15-18
Ev: Jo 14, 15-21 

Celebramos este domingo acolhendo o chamamento de Jesus para vivermos em comunhão com Ele. É do encontro e do amor de Jesus Cristo, que os discípulos acolhem, que o viver como cristãos gera, muitas vezes, uma separação com o mundo.

Mas o que Jesus lhes oferece é uma nova linguagem de amor. Ele é o Enviado do Pai para estar connosco, que nos consola e fortalece. E promete outro Paráclito, outro Defensor, para nos fazer viver em comunhão. É importante perceber que o Paráclito significa defensor ou intérprete; Aquele que opera em nós e nos é dado por Deus, que faz de nós filhos de Deus. E é assim, para que a linguagem do amor esteja sempre viva nos discípulos e estes possam viver animados pelo Espírito de Deus.

Uma coisa é viver os mandamentos como um fardo; outra é encontrar o apelo interior para os viver. E assim vemos acontecer na primeira leitura, onde os discípulos se dirigem para a Samaria — terra que era excluída pelos judeus, mas onde a luz do amor de Jesus Cristo encontra face. Na raiz da vida da Igreja está o Espírito Santo, que sustenta uma espiritualidade, uma interioridade. 

O nosso tempo procura a espiritualidade, a interioridade. São as nossas comunidades paroquiais lugares de espiritualidade? Levamos luz dentro de nós? Que tempo entregamos a Deus para que Ele atue em nós? Como pessoas humanas, precisamos uns dos outros. Precisamos de receber para depois dar. E, muitas vezes, ao dar também recebemos. Que o Espírito prometido por Jesus, e que nos é dado pelo Pai, nos sustente na nossa vida para vivermos por dentro os mandamentos de Jesus Cristo.

Saturday, 2 May 2026

O Senhor a todos prepara uma casa

 


DOMINGO V DA PÁSCOA



L 1: At 6, 1-7; Sl 33 (34), 1-2. 4-5. 18-19
L 2: 1Pd 2, 4-9
Ev: Jo 14, 1-12

O Evangelho que ouvimos este domingo coloca-nos diante de Jesus Cristo, que Se apresenta com uma mensagem de esperança. O convite de Jesus é o de confiança absoluta, de Quem Se apresenta como Aquele que cuida e prepara um lugar. Continuamos, por isso, no seguimento da imagem do Bom Pastor, mas agora com uma novidade.

Cristo é a imagem de Deus Pai, tal como Ele diz a Filipe. Queremos saber como é Deus? Olhemos para Jesus Cristo. Ele cuida de nós, interpela-nos, mas chama-nos à conversão; convida ao seguimento, tem palavras de vida eterna, mas repreende os discípulos para os iniciar no caminho do amor à maneira de Deus. É por isso que a fé é tão necessária: acreditar que o caminho de Cristo é o de vida eterna; que Ele nos aponta um caminho de vida.

Na vida da Igreja, é fundamental entrar na amizade com Jesus; não um amor imaginário ou relaxado, sem verdade; o amor implica a verdade, que é uma Pessoa. E isso implica-nos a todos na forma como vivemos os momentos de tensão.

Na primeira leitura, a comunidade nascente enfrenta uma crise: diante de uma dificuldade, a questão é analisada entre todos e surge uma resposta que resolve a dificuldade e guarda o essencial: aos Apóstolos compete pregar a Palavra; outros haverá que assumirão a função de servir às mesas: os diáconos, novo ministério. Na vida de uma comunidade também se passa o mesmo. As dificuldades, ao invés de serem negadas, devem ser partilhadas, dialogadas e até rezadas, de modo a que, guardando o essencial que é Cristo, se possa sempre construir a comunhão.