Friday, 30 June 2023

Escolher, decidir e comprometer-se por Deus




DOMINGO XIII DO TEMPO COMUM


L 1 2Rs 4, 8-11. 14-16a; Sl 88 (89), 2-3. 16-17. 18-19
L 2 Rm 6, 3-4. 8-11
Ev Mt 10, 37-42 

Um Deus que nos acolhe como seus filhos e que quer ser acolhido. O desejo humano profundo de se sentir acolhido, tal como se é, património comum de todos a humanidade. Esta parece ser a tónica de fundo da liturgia da Palavra. 

Assim o vemos na primeira leitura, que nos fala do profeta Eliseu que é acolhido num espaço para ele se sentir repousado. Notemos que Eliseu já era bem tratado nesta casa, mas a radicalidade desta mulher de Sunam é diferente. Ela acolhe-o com um cuidado extremo, por ele ser sinal de Deus. É neste cuidado que esta mulher vê emergir o dom de Deus, da sua maternidade, da vida que dada e cuidada, cresce. Trata-se de facto, de acolher na casa e no coração. 

O evangelho retoma o cuidado do acolhimento aos mensageiros de Jesus; aqui porém, os mensageiros têm por missão tornar Cristo presente, assim como Cristo, torna Deus presente para nós. É por causa da sua acção, que Deus não pode nunca deixar de recompensar aqueles que acolhem,seja com os seus dons, mas sobretudo com os seus corações, os seus mensageiros. 

Todavia, ao mensageiro não basta  falar de Jesus. É preciso que o coração dos que anunciam também vibre nesta mesma tónica. Eles, ou melhor, cada um nós, é chamado a reconhecer a centralidade do amor de Deus no coração - não se trata de desprezar os irmãos, pois ninguém ama a Deus que não vê, se não ama os irmãos que vê (cf. 1 Jo 4, 20) -, mas reconhecer que Deus é a própria fonte do amor, da verdade e da beleza; quem tem esta consciência não diviniza o que é próprio do humano, seja para o bem, que é sempre limitado, seja nas dificuldades, pois o nosso amor humano é isso mesmo: embora tesouro imenso, é sempre limitado. Só Deus ama sem limites, como recorda São Agostinho quando descreve como o nosso coração humano apenas repousa em Deus. De facto, quanto mais formos de Deus, mais seremos da humanidade, sendo que a alternativa é tantas vezes idolatrar aqueles que caminham ao nosso lado. 

Assim, todas as nossas escolhas são limitadas e precisamos de, para o fazer, ter de renunciar. Quem a nada renuncia, nada escolhe. Com efeito, escolher, decidir e comprometer-se por Deus são atitudes que abrem a nossa liberdade a horizontes novos de amar e de nos darmos no tempo e local da nossa vida. 


Friday, 23 June 2023

«A verdade padece, mas não perece» S. Teresa de Ávila




DOMINGO XII DO TEMPO COMUM


L 1 Jr 20, 10-13; Sl 68 (69), 8-10. 14-15. 33-35
L 2 Rm 5, 12-15
Ev Mt 10, 26-33 

A liturgia da Palavra deste Domingo apresenta-nos a necessidade de viver na radicalidade da fé. Esta radicalidade não se deve porém apenas a uma extrema fortaleza humana; de facto, o evangelho dialoga com o coração humano e seu desejo de se sentir amado. É aí que vemos o apelo de Jesus a não termos medo, chamando-nos a viver da confiança em Deus, de acreditar que a nossa vida é conhecida e cuidada por Deus. 

O apelo do Evangelho é, com efeito, muito radical. Assenta na escuta da Palavra de Jesus, na relação pessoal com Ele para depois ser proclamada em alta voz e à luz do dia dos nossos dias. O maior medo e receio não são, diz-nos Cristo, as tribulações corporais; o medo que devemos ter - assim o diz o evangelho -  é sempre o de deixarmos morrer a alma, o espírito, perder a verdade que nos é derramada no coração, esquecer e amarfanhar a nossa única identidade pessoal, impedindo que por nós, a verdade de Cristo brilhe para todos, os de dentro e os de fora das comunidades cristãs. 

Assim o podíamos ouvir dos ecos de Jeremias, quando diante das perseguições, ele um dos profetas mais sofridos, se voltava para Deus e partilhava as suas dificuldades e exortava Deus a perscrutar a sua vida e todo o seu ser, "os rins e o coração", como quem diz, os seus desejos e sua inteligência. Admirável testemunho, de um homem que guarda a sua radicalidade e não permite que a sua luz se extinga!

É esta mesma luz que Cristo inaugura, e que Paulo sublinha como graça dada. Já não podemos ficar apenas na Lei, que nos diz os limites da nossa condição. Precisamos da Graça, dom absoluto do amor, que nos descobre e revela como testemunhas do Senhor. Só assim, por meio de nós, a luz de Cristo chega aos outros. Neste sentido, fazem sempre sentido as palavras de Teresa de Ávila: "A verdade padece, mas não perece". 

Friday, 16 June 2023

Capazes de compaixão




DOMINGO XI DO TEMPO COMUM


L 1 Ex 19, 2-6a; Sl 99 (100), 2. 3. 5
L 2 Rm 5, 6-11
Ev Mt 9, 36 – 10, 8 

A liturgia deste Domingo apresenta-nos um Deus cheio de misericórdia, num estilo que se coloca em caminho e que nos chama e enviar a ser suas testemunhas. É desde núcleo de misericórdia que se entende a primeira leitura que ouvimos. Nela se apresenta um rosto de Deus que se apresenta como companheiro da humanidade, que convida o Povo a reconhecer os sinais da sua presença no seu caminho de libertação. O povo salvo é o povo chamado a guardar a fidelidade a Deus, a qual tantas vezes não é respeitada nem cuidada. Mas é feita uma nota importante: este povo de sacerdotes, como diz o texto, significa que cada este não é um povo massificado, mas uma comunhão de rostos e vidas distintos. 

A Carta aos Romanos permite continuar esta ideia, ao apresentar a entrega de Jesus como expressão de misericórdia por todos, a qual não se apresenta como dependente da bondade do Povo, mas precisamente como resgate para fazer a humanidade viver na participação da vida divina. 

É este amor que vemos na pessoa de Jesus Cristo, como sinal de um amor faz mexer as entranhas de Deus. É por causa deste amor que os apóstolos são enviados com os mesmos poderes e autoridade de Jesus. Autoridade que lhe vem da sua condição de Filho de Deus. É aqui que radica a missão da Igreja que envia os sucessores dos apóstolos e seus colaboradores diretos a continuarem os gestos de Jesus, seja sacramentalmente, seja com a vida. Mas também envia cada cristão, após receber a misericórdia divina, a cuidar e acolher aqueles que sofrem; e não raras vezes, também no nosso sofrimento, podemos acolher e ajudar os nossos irmãos, com a entrega consciente e decidida da nossa vida. 



Saturday, 10 June 2023

Chamados por misericórdia



DOMINGO X DO TEMPO COMUM


L 1 Os 6, 3b-6; Sl 49 (50), 1 e 8. 12-13. 14-15
L 2 Rm 4, 18-25
Ev Mt 9, 9-13 

A liturgia deste Domingo coloca-nos diante de Jesus como médico divino, que olha para os últimos da sociedade, para aqueles que todos desprezam, e que se apresenta como cheio de misericórdia. A misericórdia, tesouro já presente no Antigo Testamento, encontra no profeta Oseias um dos seus expoentes. O profeta Oseias vive num tempo de grandes assimetrias sociais e esforça-se por denunciar a infidelidade do Povo numa religião superficial e ritos vazios, para o encaminhar para viver na misericórdia, chave para um verdadeiro conhecimento de Deus. Por isso, estes valem sempre muito mais que sacrifícios e holocaustos que não envolvam o coração nem a vida. Para se cumprir isto, vemos como o profeta coloca o lugar da Palavra de Deus. 

Para viver assim é necessário colocar o "coração no prego", ou seja, viver da fé, a qual suporta a esperança. Só assim se pode partir sem mais nada esperando que os dons de dons se enraízem e frutifiquem. 

A vocação cristã, de povo de batizados e redimidos, enraíza-se neste chamamento primeiro, feito diretamente ao mais profundo da nossa dignidade humana. Ninguém é chamado por ser melhor, conforme nos mostra a história de Mateus, mas sobretudo chamado por amor, para viver na intimidade de Jesus Cristo: à volta da MESA na mesma CASA. 

Outra lógica importante deste episódio é a festa. Só aqueles que foram salvos, foram tocados e acolhidos foram mesmo capazes de fazer festa. Assim, os fariseus ficam de fora e os discípulos parecem ficar hesitantes, talvez como meio para nos interpelar: vamos participar da festa ou ficamos de fora?

Wednesday, 7 June 2023

O pão que faz a nossa unidade




SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO


L 1 Dt 8, 2-3. 14b-16a; Sl 147, 12-13. 14-15. 19-20
L 2 1Cor 10, 16-17
Ev Jo 6, 51-58 

A Igreja celebra neste Dia a Solenidade do Corpo e Sangue de Jesus. Nesta celebração, contemplamos como Deus se faz companheiro e salvador da humanidade, caminhando com o Seu povo pelo deserto e sustentando-o com o maná, o pão que desceu do céu. Nesta imagem, vemos como o amor de Deus cuida do Povo e como é fácil para o Povo esquecer-se deste, temática central do livro de Deuteronómio. 

No Evangelho Jesus apresenta-se como o novo Pão do Céu, que vem para dar vida. A Eucaristia apresenta-se por isso como o caminho pelo qual entramos na comunhão de vida com Jesus, a mesma comunhão que liga Jesus com o Pai, na unidade do Espírito Santo. Aqui a lógica que vemos para os alimentos que nos sustentam e integram é invertida. Esta comunhão faz-nos pertença de Cristo e somos meus membros, membros do Seu Corpo que é a Igreja. 

Reparemos que os elementos do pão e do vinho que se tornam Corpo e Sangue de Jesus nos apontam para a sua vida - o pão - e a sua morte violenta - o sangue derramado. Cada vez que celebramos Eucaristia atualizamos na nossa vida a vida e a morte de Jesus, a sua entrega até ao final, aquele que por isso nos faz viver da mesma seiva. 

Por isso a Eucaristia não nos une só a Deus, mas também a todos aqueles que celebramos a Eucaristia. Todos os que partilham o mesmo pão, formam um só corpo; por isso, a Igreja desde o seu início afirma que não é possível celebrar a Eucaristia e andar de costas voltadas com os nossos irmãos, por que se contradiz o próprio sacrifício de Cristo. 

Também a Eucaristia não é apenas mais uma oração como outra. A Eucaristia por ser a atualização da vida de Cristo, é grande dom que nos é dado para o nosso caminho; todas as outras formas de oração se orientam para a Eucaristia. Deixemos que agora fale Francisco de Assis sobre a Eucaristia: 


«Que o homem todo se espante,
que o mundo todo trema, que o céu exulte,
quando sobre o altar, nas mãos do sacerdote,
está presente Cristo, o Filho de Deus vivo!

Oh! grandeza admirável, oh! condescendência assombrosa!
Oh! humildade sublime, oh! sublimidade humilde,
que o Senhor de todo o universo, Deus e Filho de Deus,
se humilde a ponto de se esconder, para nossa salvação,
nas aparências de um bocado de pão.

Vede, irmãos, a humildade de Deus
e derramai diante dele os vossos corações;
humilhai-vos também vós, para que ele vos exalte.

Em conclusão: nada de vós mesmos retenhais para vós,
a fim de que totalmente vos possua
Aquele que totalmente a vós se dá
».


Friday, 2 June 2023

«Deus do amor e da paz» (2 Cor 13, 11)




DOMINGO IX DO TEMPO COMUM – SANTÍSSIMA TRINDADE

SOLENIDADE

L 1 Ex 34, 4b-6. 8-9; Sl Dn 3, 52.53-54.55acd-56
L 2 2Cor 13, 11-13
Ev Jo 3, 16-18 

A celebração do Domingo da Santíssima Trindade leva-nos a entrar no Mistério de Deus, o qual na Sagrada Escritura se apresenta sempre como Amor que salva, cria e sustenta. Trata-se de um absoluto dom, pelo qual somos feitos participantes pela fé. Assim nos aponta a primeira leitura, onde Deus toma a iniciativa de ficar junto de Moisés, e onde este proclama as grandes características do nosso Deus: clemente, compassivo, cheio de misericórdia e fidelidade, o que faz gerar a atitude de adoração como expressão de amor. De facto, o amor pede amor. 

O nosso Deus é mistério de amor incondicional; se não fosse incondicional, não seria amor; e se não fosse amor, não seria Deus. Esta consciência é por isso tão presente na Igreja nascente, como notamos na Segunda Carta aos Coríntios, em que Paulo expressa a identidade de Deus a partir de uma íntima unidade relacional, mas em que cada Pessoa da Santíssima Trindade tem uma identidade diferente: a graça de Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo; graça que expressa o movimento de entrega de Deus à humanidade, presente em Jesus; amor do Pai como autor de todo o dom que sustente e cria continuamente e a comunhão do Espírito Santo, como Aquele que substancia a comunhão no Mistério de Deus e que nos incorpora nesse mistério. 

Para entrar neste mistério é necessária a fé, a qual já é necessária na vida humana. Sem fé, sem acreditar no outro não é possível entrar em comunhão com ele. Algo de semelhante se passa em Deus; todavia, aqui é o próprio Deus que toma a iniciativa e derrama no nosso coração, desde a criação, o desejo de o conhecermos. 

Compreender Deus como Mistério de Amor não é apenas uma realidade íntima. É tomar consciência de que a criação tem precisamente a mesma marca e que apenas se realiza na comunhão, no amor e na paz. Procuremos pela fé, e pelo bem de todos e tudo, sintonizar neste amor.