Friday, 31 December 2021

Abençoados por Deus

 

Photo by Polina Zimmerman from Pexels


SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – SOLENIDADE

L 1 Num 6, 22-27; Sal 66 (67), 2-3. 5-6 e 8
L 2 Gal 4, 4-7
Ev Lc 2, 16-21

Um ano ano se inicia, nesta data em que se celebra o oitavo dia da Solenidade do Natal e que dedicamos à festa de Santa Maria, Mãe de Deus, dogma proclamado no concílio de Éfeso. Também neste dia S. Paulo VI, dedicou, em 1967, o primeiro dia do ano como dia mundial da paz. 

A bênção araónica que ouvimos neste dia do livro dos números é, segundo os estudiosos, o mais antigo manuscrito do século VII a. C. encontrado até hoje em placas de metal, o que retrata a sua importância. Este texto invoca o Senhor como Deus que ama o seu povo, para que o proteja, o abençoe, olhe para o seu povo, o acompanhe e lhe dê a paz. O sentido profundamente religioso deste texto está carregado da consciência da fé de que o Deus de Israel é um Deus próximo. Era apenas no uso deste texto que o sacerdote do templo antigo podia invocar o nome de Deus para abençoar o Povo. 

A maior bênção de Deus é-nos dado em Filho, feito homem para nós, do qual recebemos a maior graça: Deus faz-nos seus filhos adoptivos e revela-nos a grandeza do seu amor por nós. 

Olhamos para Maria e vemos nela a grande figura deste dia. Vemos nela aquela que acolhe a bênção e dá ao mundo o Filho de Deus. Ela é modelo de acolhimento e de cuidado para a humanidade. Ela escuta, ouve e guarda no seu coração (symballousa=dialogando dentro de si)   tudo o que vai acontecendo. Não se trata de mera beatice; um coração purificado por Deus procura guardar a acção de Deus que passa nas nossas vidas, por perceber que Deus só pode abençoar. Maria é aquela que estando tão descentrada de si se entrega totalmente. 

O Papa Francisco na mensagem que escreveu para o dia mundial da paz vem lembrar-nos da nossa necessidade do diálogo entre gerações, da edução e do trabalho para a paz. O diálogo que gera pontes dentro da sociedade na partilha dos sonhos dos jovens e da sabedoria dos mais velhos, da educação para um saber mais abrangente e de cuidado e o trabalho como lógico de cuidado entre todos.  

Que a bênção de Deus nos alargue as fronteiras do nosso coração para darmos lugar à paz que só Ele pode trazer. Como nos diz S. Leão Magno: «É a paz que gera os filhos de Deus, alimenta o amor e cria a unidade. Ela é o repouso dos santos e a mansão da eternidade. E o fruto próprio desta paz é unir a Deus os que separa do mundo.»


Para partilha [https://www.youtube.com/watch?v=xW4YB6fVvJo]

Friday, 17 December 2021

Três sim's



DOMINGO IV DO ADVENTO


L 1 Miq 5, 1-4a; Sal 79 (80), 2ac e 3b. 15-16. 18-19
L2 Hebr 10, 5-10
Ev Lc 1, 39-45 

Neste quarto Domingo de Advento olhamos o mistério da celebração do Natal, já com o rosto de Maria, que confia e entrega a sua vida à vontade de Deus. Creio que as três leituras nos permitem vislumbrar três "sim's" presentes nesta liturgia. 

O primeiro sim é o da humildade da pequena localidade de Belém, cuja pequenez surge como berço para o salvador de Israel. Já assim tinha sido para o Rei David, assim o é também para Jesus, que na maior simplicidade assiste ao nascimento do salvador. A humildade, longe de ser pobreza material, é espaço para deixar a vida crescer e se alargar para acolher todos. Neste Rei vemos a promessa do cuidado por todos e da paz oferecida. 

O segundo sim é o de Cristo, segundo a visão da carta aos Hebreus. Neste relato alegórico do Mistério da Encarnação, o Verbo de Deus assume a humanidade, como resposta total no dom de si mesmo ao Pai para ser o nosso sacerdote. Cristo nasce e entrega a sua vida ao Pai para nossa salvação, pelo elevar da  nossa humanidade até Deus. No coração deste dinamismo está o sim à vontade de Deus, em quem somos convidados a dar o nosso sim. 

É neste sim de Cristo que vemos o último sim: o sim de Maria, dado desde o início da sua existência. Maria confia e entrega a sua vida; mas nesta leitura Maria torna-se símbolo do anúncio do Evangelho, cujos pés ultrapassam os montes da distância para levar a alegria e a presença de seu Filho aos demais. Ontem, hoje e sempre, Maria aparece como cooperadora na salvação da humanidade pelo anúncio do seu Filho. Nela podemos caminhar igualmente sobre as dificuldades para continuar a testemunhar o nascimento de Jesus. Com Ela podemos aprender a acreditar que Deus cumpre tudo aquilo que promete à humanidade e a cada um. 


Saturday, 11 December 2021

Para uma maior alegria...



DOMINGO III DO ADVENTO


L 1 Sof 3, 14-18a; Sal Is 12, 2-3. 4bcd. 5-6
L2 Filip 4, 4-7
Ev Lc 3, 10-18

O terceiro domingo do Advento é dedicado à alegria. Neste sentido, encontramos uma rica referência à alegria que importa conhecer as suas causas. A primeira leitura fala-nos da exortação à alegria da Filha de Sião, isto é da cidade de Jerusalém, porque o Senhor estará no meio dela. Esta alegria nasce da presença de Deus que salva e renova a vida. Reparemos que não é uma alegria que nasça da posse de fortunas ou apenas de um bem estar pessoal; é relacional e agradecida.

A carta aos Filipenses de São Paulo, também conhecida pela carta da alegria, nos convida a alegria. Mais uma vez a causa da alegria está no Senhor Jesus, em quem a alegria permanece não de forma estridente, mas permanente. Esta alegria alimenta-se da bondade partilhada, que se faz dom para o outro, na confiança e na oração filial a Deus. A sua meta é a paz de coração.

João Baptista surge como figura central no Evangelho que escutámos este Domingo. Ele prepara o caminho do Senhor apelando à conversão, não apenas a renunciar ao mal, mas a chamando cada um a abrir-se ao bem que ainda não exista na sua vida. 

Neste caminho de advento, de preparação para a vinda do Senhor, como vamos cultivando em nós a abertura para estarmos dispostos a receber a Verdade? Que temos ainda no caminho que possam impedir que a nossa vida se disponha a acolher? 

Wednesday, 8 December 2021

Maria: santidade sincera, confiante e proactiva.

 




IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA,

L 1 Gen 3, 9-15. 20; Sal 97, 1. 2-3ab. 3cd-4
L 2 Ef 1, 3-6.11-12
Ev Lc 1, 26-38

Maria é a figura da Igreja diz o Vaticano II. Nela podemos ver a nossa verdadeira imagem de humanidade que se entrega a Deus sem limites de coração. É o contraponto à figura da primeira Eva, a qual foi enganada pela serpente , juntamente com Adão, para ver no Deus criador um rival e mesquinho cioso de uma sabedoria. Entra a lógica da desconfiança que perverte o amor que unia criador e criatura, e que unia homem e mulher. 

Maria é a antítese disto. Ela é cheia de graça, escolhida por Deus desde o início para ser a mãe do nosso redentor; por isso é causa da nossa alegria. Em Maria vemos que santidade é possível para a nossa humanidade, e não só não nos tira nada, como nos abre. 

Em Maria vemos uma santidade sincera, confiante e proactiva, atitudes que nos podem ajudar hoje a caminhar na santidade. 

Santidade Sincera. Em Maria a santidade não é feita de esquemas que se repetem para assegurar uma salvação. Maria é sincera; ela perturba-se quando ouve a saudação do anjo, pergunta ao anjo o que não percebe sem todavia se deixar cair na dúvida. A sinceridade de Maria mostra a atitude de crente própria de uma criança que não tem medo de perguntar para tentar saber mais sem esquemas para tentar fugir. Veremos que será assim em toda a sua vida; tantas vezes a nossa arranja esquemas e subterfúgios diante de Deus. 

Santidade Confiante. Maria pergunta e tenta alcançar a acção de Deus; e quando compreende o que lhe é pedido confia. E confia porque sabe que a "sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem". Tão distante está dos primeiros pais que se escondem porque descobrem a sua fragilidade. Olhar para Maria é reconhecer que Ela é sinal de que o Todo-Poderoso faz maravilhas em quem nele confia. 

Santidade Proactiva. Ser santo não significa ser passívo, mas proactivo. A Lumen Gentium refere que «Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens.» Vemo-lo na sua vida, na solicitude pela sua prima Isabel, mas também no acompanhar do emergir da Igreja. Do mesmo modo, hoje Maria acompanha a Igreja no seu peregrinar e não nos abandona, respondendo fielmente ao chamamento do seu filho na cruz para ser nossa Mãe. 

Que a nossa vida se deixe acompanhar pelo testemunho e amor de Maria no serviço a Deus e ao próximo. 

Saturday, 4 December 2021

Elevar os vales das ausências



DOMINGO II DO ADVENTO


L 1 Bar 5, 1-9; Sal 125 (126), 1-2ab. 2cd-3. 4-5. 6
L2 Filip 1, 4-6. 8-11
Ev Lc 3, 1-6

Neste tempo de Advento vão passando pelo nosso olhar as figuras que preparam a vinda de Jesus, convidando-nos a esperar em esperança o salvador. É assim que vemos o profeta Baruc convocar a cidade de Jerusalém a revestir de glória, a embelezar-se para observar e receber os seus filhos que regressam pela justiça e glória de Deus; é para isso que os montes devem ser abatidos e os vales elevados, de modo a que ninguém fique privado de participar nesta marcha de regresso. Isto escrito na influência do regresso do Povo do exílio da Babilónia, de modo a exortar à esperança de que a justiça de Deus se traduz sempre em misericórdia e salvação. 

É neste contexto que ouvimos João Baptista apelar a preparar o caminho do Senhor. Este é um caminho que devemos aplanar na nossa vida, nas circunstâncias que vivemos, de modo que a nossa vida se vá enchendo mais de salvação, beleza, justiça, alegria. Todos atravessamos caminhos sinuosos que se transformados pela justiça do perdão, enchidos da alegria e esvaziados da inveja e do orgulho se traduzem em salvação a acontecer já aqui pela força de Deus. Crescer no discernimento deste caminho e abundar em caridade no coração é caminhar em ritmo certo para o Natal do Senhor. 

Saturday, 27 November 2021

Cuidado com o coração pesado

DOMINGO I DO ADVENTO


L 1 Jer 33, 14, 16; Sal 24 (25), 4bc-5ab. 8-9. 10 e 14
L2 1 Tes 3, 12 – 4, 2
Ev Lc 21, 25-28. 34-36 




Iniciamos o tempo de Advento, o qual nos convida a viver na expectativa da vinda do Senhor. A primeira leitura refere-nos claramente «dias virão». Não sabemos quando, mas acreditamos na promessa do Senhor que há-de vir para instaurar a justiça. É importante perceber que o descendente de David trará o direito, a justiça, a segurança, mas isto só se concretizará pois o Senhor é que será a justiça. Assim a justiça para todos não é imposta por opressão, mas por dom e misericórdia. 

Advento é tempo por isso que nos convida a levantar o olhar, a não nos fixarmos no que é passageiro, mas descobrir desde já o que aqui na terra é marca do eterno, do que não passa. Ou melhor, fazer passar na nossa vida o que ainda não é de Deus para melhor o podermos aguardar. É assim que São Paulo exortava os Tessalonicenses, a crescer e abundar na santidade, a deixar o coração, a nossa inteligência a viver numa transparência de Deus irrepreensível. 

O centro parece estar em descobrir já aqui os motivos para a esperança. No meio das pressas e dos tumultos de sempre do nosso mundo, é a esperança que nos é dada o que nos permite arriscar sinais de beleza e bondade no nosso mundo. A vinda de Deus na nossa vida traz a nossa libertação, daquilo que nos escraviza e oprime de viver na lógica da bondade. 

O perigo é deixar-se ficar com um coração pesado, que literalmente significa puxar para baixo, para retirar à nossa vida o olhar da fé das alturas. É o que acontece quando nos tendemos a esquecer da bem-aventurança a que somos chamados. Por isso, deixemos o nosso coração caminhar na liberdade e na esperança maior de Deus. Quem não espera a acção de Deus, fica sem horizonte. 

Friday, 19 November 2021

Jesus: Um Rei diferente




DOMINGO XXXIV DO TEMPO COMUM

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO

L 1 Dan 7, 13-14; Sal 92 (93), 1ab. 1c-2. 5
L2 Ap 1, 5-8
Ev Jo 18, 33b-37

 Celebramos neste Domingo o final do tempo comum, com a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Esta última semana articula-se à volta da última vinda de Cristo, algo que já nos faz dialogar com o Advento e a preparação para o Natal. A solenidade que celebramos foi instituída por Pio XI, no contexto da militância católica, como forma de presença de cuidar da presença cristã na vida pública, segunda o método do «ver, julgar e agir». 

A primeira leitura do livro do profeta Daniel dá-nos um horizonte à última vinda de Cristo, que recebe o «poder, honra e realeza», a quem todas as nações servirão. É sempre de notar que a vinda de Cristo é sinal de paz, concórdia e ordem para todos, acontecendo sem recurso a qualquer violência. 

Nem doutra maneira poderia ser, como nos coloca o livro do apocalipse, que apresenta Jesus Cristo como aquele que nos ama, nos liberta do pecado e nos faz sacerdotes, ou seja nos torna capazes de oferecer a Deus a nossa vida. É só em Jesus Cristo que tal pode acontecer, ele que é o Sacerdote por excelência, ao entregar a sua vida para nos justificar e tornar justos para Deus. 

Ele é a verdade que se afirma sem violências e cheio de fraqueza de um mundo que não é este, mas que já existe no Pai. Ele é o Rei que faz gerar paz e justiça a todos aqueles que o servem, porque Ele nos serve primeiro. É ele que nos dá o dom do Espírito Santo, que hoje nos continua a constituir como membros do Seu Corpo, pela adopção que em nós exerce.  

 

Saturday, 23 October 2021

Deixa-te iluminar por Cristo




DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM

Verde – Ofício do domingo (Semana II do Saltério). Te Deum.
+ Missa própria, Glória Credo, pf. dominical.

L 1 Jer 31, 7-9; Sal 125 (126), 1-2ab. 2cd-3. 4-5. 6
L2 Hebr 5, 1-6
Ev Mc 10, 46-52

O evangelho deste Domingo faz-nos passar por Jericó, onde ouvimos o clamar de Bartimeu por Jesus. É particularmente significativo que a primeira leitura do livro do profeta Jeremias nos aponte para um regresso. Assim, Deus promete, por meio do profeta Jeremias, o regresso do Povo de exílio onde se encontravam, quando o exílio ainda está no seu início. O texto de Jeremias não refere que o regresso será conquistado pela força do Povo: antes enumera o regresso do coxo, do cego, da mulher já foi mãe e que vai ser mãe; ou seja, será um regresso que não virá por meio da mão do homem poderoso, mas do poder de Deus, ele o autor da liberdade e do regresso à pátria. 

Jesus encontra o cego Bartimeu às portas da cidade de Jericó, quando iniciaria o caminho de subida para Jerusalém. É no ponto baixo da terra, sinal da condição humana mais calcada, que vemos surgir estes clamor disruptivo.  É este homem que clama por Jesus para regressar do exílio da cegueira para poder ver o caminho a percorrer. No final do caminho que Jesus percorre no Evangelho segundo Marcos, onde vimos rostos a passar pelo caminho, a não perceber o caminho onde estavam e o homem rico até recusar o caminho, este cego mostra-nos que teve de ser curado para entrar no seguimento de Jesus, tendo-se libertado do manto que seria o seu bem mais importante com que se cobriria  (cf. Dt 24, 13). Diante de Deus só podemos estar em humildade. 

O cego Bartimeu é para nós sinal do reconhecimento profundo de que Jesus é a verdadeira luz do caminho. Neste caminho somos convidados todos a entrar, mediante a profundidade da vida em Cristo, da necessidade da graça de Deus para mudar e poder ver a presença de Deus nos acontecimentos do mundo.

Saturday, 9 October 2021

O saber que dá sabor à vida

 

DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM

L 1 Sab 7, 7-11; Sal 89 (90), 12-13. 14-15. 16-17
L2 Hebr 4, 12-13
Ev Mc 10, 17-30 ou Mc 10, 17-27

 

Entramos neste Domingo e somos convidados a olhar o lugar que damos à sabedoria na nossa vida. Assim o coloca o autor do livro da Sabedoria que pede a prudência e a sabedoria para a sua vida, concluindo que que o resto - as jóias, o ouro, a prata, a saúde e a beleza - de nada valem em comparação com estas. É a sabedoria que mais do que saberes, é o saber que dá sabor à vida. 

Esta sabedoria é nos dada a conhecer não pelos livros, mas pela Palavra de Deus feita carne em Jesus Cristo, que nos interpela a entrar no caminho do seu seguimento. Assim o vemos neste episódio que coloca o homem que entra correndo e interpela Jesus com os discípulos que seguem Jesus. 

A pergunta deste homem "Como alcançar a vida eterna" traduz o anseio que habita todo o coração humano: como ser feliz? Como encontrar o sentido, quando se cumpre tudo o que é devido? A resposta de Jesus, passando pela Lei é alargada à lógica da Nova Aliança, de libertação de tudo o que nos aprisiona e pede a confiança para reconhecer Jesus como a sabedoria que ilumina. Sabemos que o homem se afastou pesaroso e provavelmente triste ao não dar o passo a que foi desafiado. 

No caminho de Jesus a salvação não se compra: é recebida como dom, como o amor que é recebido e dado. Pede confiança e alarga os horizontes da vida em relação a tudo - relações e bens e até incompreensões. A relação com Jesus Cristo desafia hoje a nossa vida, expõe o nosso coração à força da Palavra e revela-nos o que vai cá dentro.

Friday, 1 October 2021

Para Deus, temos de ir com os outros.




DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM


L 1 Gen 2, 18-24; Sal 127 (128), 1-2. 3. 4-6
L2 Hebr 2, 9-11
Ev Mc 10, 2-16 ou Mc 10, 2-12


A liturgia deste domingo abre o nosso coração para o iluminar com a sua luz. 

A primeira leitura, do livro do Génesis, é o conhecidíssimo relato da criação. Nele vemos o homem, antes de sucumbir à tentação de querer ser Deus. O homem, criatura é colocado por Deus a contemplar e nomear todos os seres de acordo com a sua identidade. Dar o nome é  dar a identidade e criar lugar para cada ser, lugar que é irrepetível. Não se vê portanto o homem a dominar a terra à força, mas a ser aquele que é responsável por cuidar da ordem, algo que tem evidentes implicações na nossa relação com a criação de Deus e por isso na ecologia. 

Mas até aqui não ouvimos a voz do homem; de facto, o texto identifica uma verdade da nossa condição: a solidão não é boa para o homem, sendo que a relação com toda a restante criação não realiza a pessoa humana. A mulher é apresentada como auxílio, atributo que a Sagrada Escritura apenas atribui a Deus, sendo esta passagem a única excepção no Antigo Testamento. A mulher é criada do homem, sinal evidente da igual dignidade de ambos; todavia, isto não dilui a diferença. De facto, é na relação e comunhão com o diferente que a pessoa emerge. A ortografia hebraica atesta a igual dignidade entre ambos, pois a palavra mulher - isha - deriva da palavra homem - ish. 

É no coração humano que se iniciam as relações. O drama ao longo de toda a sagrada escritura é sempre o coração duro, insensível a voz do outro e da voz de Deus, que deixa de responder às interpelações. 

É neste contexto que acontece este debate com os fariseus sobre a legitimidade de repudiar a mulher - ou o marido. Jesus não entra em debates, mas apela ao Princípio, ao plano original de Deus para a humanidade. O princípio de Deus é o critério central para discernimento e o eco profundo do nosso coração: todos ansiamos a superação da solidão mais radical pela experiência do amor, do perdão e da comunhão verdadeiras. Para isso precisamos de um coração de criança, que saiba reconhecer a gratuidade de Deus, acolher o amor que se manifesta e partilhar o dom que existe em cada um. 


Saturday, 25 September 2021

Não é possível acorrentar a acção de Deus



DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM


L 1 Num 11, 25-29; Sal 18 (19), 8. 10. 12-13. 14
L2 Tg 5, 1-6
Ev Mc 9, 38-43. 45. 47-48 

A leitura do livro dos Números deste Domingo relata o episódio em que o Espírito de Deus que pousava sobre Moisés é comunicado a setenta anciãos, que começam a profetizar, testemunhando a acção de Deus no meio de todos. Mas o ponto a salientar é sobretudo de Eldad e Medad, que não se tendo reunido ao grupo proposto por Moisés, também recebem o mesmo Espírito e por isso profetizam, o que provoca a rejeição de Josué. A resposta de Moisés é um motivo de visão larga que Jesus retoma neste Evangelho: o desejo de Deus constituir profetas entre toda a humanidade. 

Jesus inaugura este acontecimento. No texto ouvimos que alguém, por invocar o Nome de Jesus, pode fazer os milagres que Ele fazia, sinal claro da autoridade de Jesus; mais ainda, mesmo não estando no grupo restrito de Jesus, trata-se de uma profissão de fé, que não conhece fronteiras de pertença exclusiva. Bloquear a acção em nome de Jesus é provocar um escândalo. Entendamos bem: escândalo, no sentido bíblico, é fazer cair e não deixar andar. 

Por isso o apelo de Jesus é tão pertinente, e a imagética tão forte para chamar à conversão de vida e de inteligência, de modo que a parte não bloqueie o todo da nossa vida. Se a nossa mão direita, ou seja a nossa acção, o nosso pé, ou seja o nosso caminho, ou o nosso olhar, ou seja os nossos desejos nos bloqueiam em testemunhar o nome de Jesus, são estes de têm de ser renunciados e transformados. 

Deixar-se bloquear pelas ocasiões de escândalo é renunciar a crescer no amor de Deus a que todos nós que pelo Baptismo somos chamados à vida; é deixar de testemunhar o amor de Deus, para se ficar nos interesses pequeninos da própria vida; quem não anuncia o amor de Deus, deixa a vida estagnada.


Saturday, 18 September 2021

Levados pela inveja ou pela sabedoria




DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM


L 1 Sab 2, 12. 17-20; Sal 53 (54), 3-4. 5. 6 e 8
L2 Tg 3, 16 – 4, 3
Ev Mc 9, 30-37 

As leituras deste Domingo colocam diante de nós um dos anúncios do mistério pascal de Jesus Cristo e na forma como nós somos nele inserido. Neste caso, Jesus atravessa a Galileia e anuncia aos discípulos com toda a clareza que vai morto e que ressuscitará; todavia, os discípulos não compreendem e por medo não tentar compreender. O motivo para não tentar fazer é explicitado posteriormente: discutiam entre si qual era o maior. 

É claro que a lógica dos discípulos e do mestre é diametralmente oposta; enquanto Jesus fala de dar a vida, os discípulos querem ganhar e dominar a vida. Um dos aspectos mais singulares neste diálogo traduz a própria consciência que estes têm de estar longe dos planos do mestre. Por isso se refugiam no silêncio, que longe ser espaço de escuta, é porta de ferro blindada à relação com Deus e de defesa para com os irmãos. O nosso coração, criado por Deus, conhece a verdade profunda a que é chamado, embora tantas vezes não consiga responder. Só o amor, e do modo singular o amor de Deus, pode limpar e desarmar o coração de cada um para acolher a criança indefesa e vulnerável que somos chamados a nos transformar. 

A carta de São Tiago é bastante oportuna neste contexto; Tiago lê a realidade do coração dos crentes, que transparece da relação da comunidade: estes são motivados pela inveja e não pela sabedoria. É bastante oportuna esta dicotomia: a inveja, partindo da comparação com o outro, leva a querer ser mais que os outros; a sabedoria, partindo da observação dos outros, leva a querer servir o outro. 

Estes textos são bastante singulares para a nossa vida como cristãos e como comunidades: a fé é sustentada antes de mais no amor de Deus, que se entrega nas nossas mãos; antes do compromisso e ética cristãs, está o amor gratuito e total; só este abre o nosso coração; é depois este que descobre a verdade profunda que nos habita e nos faz caminhar na entrega de vida. 


Saturday, 11 September 2021

O que não se partilha, perde-se




DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM


L 1 Is 50, 5-9a; Sal 114 (115), 1-2. 3-4. 5-6. 8-9
L2 Tg 2, 14-18
Ev Mc 8, 27-35 

Os textos que nos são dados a ouvir neste Domingo XXIV do Tempo Comum colocam diante de nós a pergunta de Cristo aos discípulos sobre o modo como o vêem. O texto evangélico é enquadrado pela leitura de Isaías, do terceiro texto do servo sofredor, em que o próprio testemunha que no meio da provação e do sofrimento causado, este professa a fidelidade de Deus como amparo e força da sua vida. 

Jesus Cristo, pondo-se a caminho de Cesareia de Filipe, cidade em que abundavam os cultos ao imperador, ao Deus Pã, símbolos do poder e força humana, interroga os seus discípulos sobre o que diziam "os homens" quem ele. Sem o privar com Jesus, as multidões vêem nele alguma analogia com figuras relevantes da história da salvação. Mas é na relação próxima que as pessoas se conhecem para além dos lugares comuns de trabalho e actos visíveis. E daí a necessidade da pergunta aos discípulos sobre a identidade de Jesus: "Quem dizeis que Eu sou?"

A pergunta pela identidade percebida pelos discípulos é respondida acertadamente apenas na letra: "É o Messias". Pedro acredita que Jesus haveria de reproduzir o comportamento do primeiro Messias, o Rei David, que conquistou Jerusalém. Mas a identidade de Jesus é outra: assumir a missão de servo sofredor, que expia a multidão dos pecados da humanidade para nos fazer viver como Filhos de Deus. Mais do que o Deus da força, Jesus revela Deus como amor, serviço, negação de si e entrega como caminho essencial de vida. 

É este chamamento que é feito a cada um de nós; é isto que celebramos em cada eucaristia no dom entregue de Cristo. Só a vida que se entrega gera vida, pois o que não se partilha, perde-se. É a diferença de ter um coração de carne ou de pedra. 



Saturday, 4 September 2021

Somos reflexos da Imagem de Deus




DOMINGO XXIII DO TEMPO COMUM


L 1 Is 35, 4-7a; Sal 145 (146), 7. 8-9a. 9bc-10
L2 Tg 2, 1-5
Ev Mc 7, 31-37

As leituras de hoje colocam diante de nós uma mensagem de esperança, em que Deus actua no meio de exilados e estrangeiros, daqueles que estão fora. A primeira leitura anuncia que Deus irá actuar nos que regressam do exílio da Babilónia – exílio que durou 70 anos. No evangelho, Jesus Cristo age com especial dedicação no homem surdo‑mudo – afasta-se com ele, toca-o nos ouvidos e na língua; este homem é um estrangeiro, que não faz parte do Povo hebreu, sinal de que o amor de Deus não se restringe em fronteiras humanas.

De forma bem diferente, Jesus Cristo revela que a humanidade tem desejo do Pai, da fonte do amor que Ele vem comunicar; de facto, não conhecer a Deus significa desconhecer a meta da nossa vida. Como conclui o Evangelho de hoje, aquele que reconhece em Jesus o caminho para o Pai, também descobre que tudo o que Ele faz é admirável, apontando-nos para uma nova criação, uma nova vida. Em Jesus Cristo, já não se criam os céus, a terra, o sol, a lua, mas uma nova forma de viver, com capacidade diferente de escutar e de falar, de pensar e de amar.  

Estes textos colocam diante de nós a oportunidade de nos perguntarmos que imagem temos de Deus, ao vermos a Sua a imagem em Jesus Cristo. Fazermos esta pergunta não é apenas uma questão mais ou menos "piedosa", mas perguntar que meta tem a nossa vida. Em Jesus Cristo, Deus revela-se como Mistério de amor, entrega de si, perdão, verdade que orienta a vida e acolhimento de todos. Nós somos chamados a ser reflexos deste amor: a viver como filhos no Filho de Deus, a deixar a nossa vida ser presença de tudo o que descobrimos em Deus. Isto traduz-se em capacidade de fraternidade e acolhimento de todos os que são diferentes, e sobretudo com os mais necessitados, como nos recordava São Tiago. 

Daqui brota a catolicidade da Igreja, ou seja uma Igreja Universal, a que todos são chamados. Isto traduz-se na missão da Igreja de testemunhar o amor de Deus a toda a criatura. Se olharmos para a multidão daqueles que procuram Jesus, vemos que são eles que trazem o surdo-mudo que o guiam até este encontro. Somos nós que somos chamados a ser entre nós e para os outros sinal de Deus.

Precisamos de redescobrir a alegria da fé, própria de quem encontrou Jesus Cristo e sabe que a vida não é sua, mas dom de Deus e por isso a ele pertence. Esse sabe qual é a sua identidade está no Reino dos Céus, a qual  a transmite e isso faz-nos ser “sal da terra e luz do mundo”. Quando assim acontece, o medo perante aqueles que são diferentes perde força, por reconhecer neles o irmão exilado. Descobrimos em nós uma capacidade de acolhimento maior e de superação da indiferença.

Confiar em Deus torna possível que volte a acontecer em nós o “Effetha”, o “abre-te” de Jesus, agora com uma disponibilidade para a acolher a voz de Deus que nos desinstala dos nossos ouvidos duros e nos coloca ao serviço do outro. Não tenhamos medo de ser cristãos num mundo que precisa da nossa voz e da nossa disponibilidade. 

Saturday, 28 August 2021

É o coração que se tem de purificar



DOMINGO XXII DO TEMPO COMUM


L 1 Deut 4, 1-2. 6-8; Sal 14 (15), 2-3a. 3cd-4ab. 4c-5
L2 Tg 1, 17-18. 21b-22. 27
Ev Mc 7, 1-8. 14-15. 21-23


Somos neste Domingo convidados a olhar com Jesus para o nosso coração. Hoje ouvimos  os fariseus a contrapor Jesus o facto de alguns dos seus discípulos comerem com as mãos impuras, isto é sem as lavarem e por isso sem cumprirem a tradição dos demais. 

Jesus remete os seus intervenientes para outra lógica: mais do que as mãos, é preciso olhar para o coração; mais do que os preceitos humanos de educação, é preciso para o que se de facto marca a orientação da nossa vida. Com efeito, na sagrada escritura, coração é local de inteligência, onde se decide o sentido da vida, que apenas Deus conhece e santuário da consciência onde Deus fala em intimidade com cada um (Vaticano II, Gaudium et spes, 16). 

O magistério da Igreja ensina que a moralidade dos nossos comportamentos depende primeiramente sempre do que objectivamente é realizado; todavia, a forma como o fazemos e a intenção com que o fazemos determinam inseparavelmente a moralidade e dizem do que queremos atingir; é sobretudo esta última que marca a verdade das relações que contruímos. 

É esta luz que Jesus vem trazer sobre a moralidade das nossas acções, e que nos chama a toda a radicalidade. Não podemos ficar como funcionários que cumprem apenas umas coisas bonitas, exteriores, mais ou menos piedosas da fé; é o que coração que tem de ser transformado por Deus, pois é nele que reside a nossa verdade; assim ouvíamos o Senhor a elencar a lista de coisas que o tornam impuro. Por isso os mandamentos de Deus não podem apenas ser lidos do lado de fora da nossa vida; esta palavra tem de entrar em nós, em todos os aspectos da nossa vida e nos iluminar. Somos chamados a viver como filhos, onde a lógica é a da comunhão, não a do cumprimento de regras.     

Assim, é do que sai de nosso coração para os outros que se compreende o que nos pode ou não deixar impuros. E sabemos que só do coração do Deus podemos ser purificados. Assim o testemunhamos em cada Eucaristia, em que comungamos o Pão de Deus, em que o Senhor nos pode purificar. E é do coração transformado que transborda a justiça, a paz, a castidade, o perdão, a generosidade, a alegria, a humildade e a sabedoria. 

Friday, 20 August 2021

Viver com a vida de Jesus




DOMINGO XXI DO TEMPO COMUM


L 1 Jos 24,1-2a.15-17.18b; Sal 33 (34),2-3.16-17.18-19.20-21.22-23
L2 Ef 5, 21-32
Ev Jo 6, 60-69

A liturgia deste Domingo faz-nos concluir a leitura do discurso do Pão da vida, orientando-se para a profissão de fé de Pedro em Jesus. Como é sabido, todo o IV Evangelho é escrito com o objetivo de levar a humanidade a acreditar em Jesus como Filho de Deus.

Este texto é enquadrado pela pregação de Josué ao Povo, em que desafia o Povo a escolher a que Deus quer servir: se o dos pagãos do deserto, se o dos amorreus, da terra que agora ocupam, se o Deus de Israel. Não sendo demasiado apressado, professar a fé no Deus de Israel significa que se é capaz de ler a história que se viveu e encontrar aí os sinais de que foi Deus quem os guiou, renunciando às imagens esteticamente belas que veriam dos ídolos dos outros povos.

A mesma dinâmica se descobre no Evangelho deste Domingo. Jesus dirige-se agora aos discípulos, àqueles que andavam com Ele e que o seguiam. São estes que agora ficam escandalizados com o anúncio de Jesus dar a comer a sua carne e a beber o seu sangue, e que o abandonam; só ficam os Doze, sendo que pela voz de Pedro, Jesus é apresentado como sentido de Vida e possuídor de Palavras de Vida Eterna.

Acreditar que Jesus se faz alimento para aqueles que nele acreditam é um dos grandes mistérios da nossa fé, sendo sinal do amor do nosso Deus, que tudo faz para que o possamos conhecer e nos guiar nos difíceis caminhos da vida. Jesus leva ao extremo este amor de Deus, que se abaixa, assumindo-se como servo da nossa humanidade, e daqui fazendo-se Pão para nós.

É desta forma de agir de Deus, que nunca deixando de proclamar a verdade, se faz servo para que a humanidade cresça; é para esta lógica de relação que os cristãos são chamados a viver, no serviço mútuo. Esta porém só pode acontecer se no coração dos crentes estiver o fogo do amor de Deus. 

Friday, 13 August 2021

A nova arca da Aliança é Maria!




DOMINGO XX DO TEMPO COMUM

ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA – SOLENIDADE

L 1 Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sal 44 (45), 10. 11. 12. 16
L2 1 Cor 15, 20-27
Ev Lc 1, 39-56


Celebramos neste Domingo a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora ao Céu. Nesta proclamação dogmática acreditamos que a Virgem Maria, no final da sua vida terrestre, participa já plenamente, em corpo e alma, da vida divina. Ela, que foi concebida sem pecado original, é a primeira criatura a participar da vida divina. Assim é imagem da Igreja, ou seja, sinal a que a nossa vida é chamada a participar. 

Maria é a na Igreja vista como a nova "Arca da Aliança". Como a Antiga Arca levava os dez mandamentos que Deus havia dado ao Seu Povo em sinal da libertação do Egipto, Maria é a nova Arca da Aliança, que nos traz Jesus Cristo. O sinal que o livro do Apocalipse descreve, aponta-nos para a Mulher, precedida pelo aparecimento da Arca da Aliança. Sabemos que esta mulher é sinal da Igreja; mas também sabemos, como ensinava Santo Ambrósio e o repete o Concílio Vaticano II, que a Mãe de Deus é a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo (cf. LG 63). Olhar para Maria é descobrir a vida que nos está prometida por Deus. Assim o vemos nesta leitura do livro do Apocalipse, que depois da chegada da mulher, vem o Filho que traz a salvação. 

É importante olharmos para a vida da Virgem Maria e aprofundar o que significa participar da Vida da Igreja. Em Maria descobrimos a experiência da Salvação, Ela que ouvia e acolhia a Palavra de Deus na sua vida. A salvação acontece pela Graça de Deus, quando nos deixamos orientar e vivificar por Deus. 

Em Maria, vemos que este acolhimento não se traduz numa passividade "pietista"; Maria é a mulher que atravessa a montanha, como sinal de Deus, e que por viver em Deus, onde chega se pode fazer a experiência da salvação; esta dimensão missionária, que pode levar auxílio material, leva e gera alegria. 

Maria é ainda a mulher que lê a história de maneira distinta do dos ganhos ou perdas humanos. Maria lê a história a partir do olhar de Deus: nesta leitura, humildade e mansidão, misericórdia de Deus e alegria são realidades indissociáveis e que se implicam mutuamente. 

Olhar a Virgem Maria é contempla-la como mulher da Graça, descentrada de si por amor de Deus; transfigurada por Deus, hoje Ela olha por nós como Mãe, que nos assiste e auxilia como é próprio de quem é sinal de Deus. 

  


Thursday, 5 August 2021

Eucaristia: Entrega-te com Jesus




DOMINGO XIX DO TEMPO COMUM


L 1 1 Reis 19, 4-8; Sal 33 (34), 2-3. 4-5. 6-7. 8-9
L2 Ef 4, 30 – 5, 2
Ev Jo 6, 41-51 

Voltamos a olhar para o texto do pão da vida no IV na sequência dos domingos passados. Iniciando na multiplicação dos pães, Jesus vai chamando a multidão para reconhecer que o alimento recebido por Jesus é sinal do Pai. 

Este texto evangélico é enquadrado pelo relato da caminhada de desalento de Elias até ao Horeb para renovar a aliança com Deus, ao constatar a infidelidade geral do Povo. Nesta caminhada Elias experimenta todo o peso da frustração e experimenta como é sustentado por Deus que o alimenta e o fortalece na caminhada. 

Jesus apresenta-se como o Novo Messias diante dos seus interlocutores, a quem chama a acreditar nele, os quais passam agora a ser identificados como judeus. Na tradição do Antigo Testamento o Novo Messias deveria renovar os milagres de Moisés e por isso trazer um permanente maná. Mas estes permanecem presos em concepções passadas, mesmoq quando Jesus se coloca como o cumpridor das promessas do Antigo Testamento, trazendo um novo Pão do Céu: é Ele mesmo que agora se dá em alimento, qual dá a vida eterna, isto é, a vida junto do Pai, de quem Ele é o único mediador. 

Cumpre-se em Jesus, pela Eucaristia, o levar ao extremo do amor de Deus, que se abaixa por nós para nos elevar ao Pai. Com Ele somos convidados a entregar cada momento do nosso dia, em cada ocupação. Pela Eucaristia, a nossa vida encontra sempre a unidade que Cristo traz à nossa vida, onde se podem incluir os nossos sucessos e alegrias, mas também cansaços e até injustiças sofridas. 

Pela Eucaristia podemos viver como São Paulo apelava aos Efésios: a recusar toda a maldade, a ser bondosos, compassivos, a perdoar e a nos entregarmos pelos outros. É este desejo de unidade na nossa vida e nossas comunidades humanas e eclesiais que os nossos corações - e que as pessoas do nosso tempo - tanto anseiam; o caminho para esta é a vida de Deus presente de forma tão sublime e condensada no pão consagrado. 

 

Friday, 30 July 2021

A Eucaristia é insubstituível



DOMINGO XVIII DO TEMPO COMUM


L 1 Ex 16, 2-4. 12-15; Sal 77 (78), 3 e 4bc. 23-24, 25 e 54
L2 Ef 4, 17. 20-24
Ev Jo 6, 24-35 

As leituras deste domingo continuam a narrativa do Evangelho segundo São João do discurso do pão da vida. No centro deste Mistério está Jesus Cristo, o verdadeiro pão do céu que se faz nosso alimento. 

A primeira leitura relata uma das provações e dificuldades do Povo Hebreu após ter sido libertado do cativeiro do Egipto. Nesta caminhada o Povo sente a fome e Deus providencia o pão do Céu, que o sustenta na caminhada até à terra prometida. Como é bela a alegoria que daqui brota ao ver a Eucaristia como o Pão que nos alimenta até à terra prometida. 

O Evangelho coloca a multidão à procura de Jesus, depois de ter comido dos pães multiplicados. Mas Cristo é duro com eles, por estes o procurarem apenas pelo alimento "que açambarcaram" sem consciência da origem deste. Assim os exorta a entrar no horizonte da fé, a ver mais além que as aparências mostram e a entrar na linguagem dos sinais que falam da partilha, da oração, da vida entregue e fecunda. Mas a multidão resiste a reconhecer Cristo como o enviado do Pai, querendo ficar presa na memória do maná e sem ver o novo pão do céu. 

Estas leituras são para nós hoje um chamamento a vivermos a Eucaristia como o alimento que o Pai nos dá. No nosso mundo apressado, das contas rápidas, facilmente podemos ficar cegos a este grande sinal que Deus nos dá para o ver apenas como mais um acto religioso. A Eucaristia é o nosso alimento, embora tão aparentemente simples. O ateu Celso, romano no século II, afirmava que os cristãos estavam doidos por pensarem que Deus se poderia fazer presente numa espécie de pão. 

A fé na eucaristia é central para nós cristãos. Cada celebração é o voltar a tornar presente a morte e ressurreição de Jesus Cristo; por isso não se trata de umas leituras da Palavra mais uma consagração, como por vezes se entende. Entendamos bem: o Corpo diz respeito à Vida de Cristo que se torna presente no Pão; o Vinho é símbolo do sangue de Cristo, derramado de forma violenta. Quando comungamos deste pão, alimentamos a nossa vida, porque por este pão somos transformados pela graça em imagens mais próximas do filho de Deus. É o próprio Senhor Jesus que nos alimenta na nossa fome de amor, de verdade e de justiça, porque nos faz entrar na sua intimidade. 

A Eucaristia é insubstituível. Em cada celebração somos chamados a uma participação activa, que não significa fazer muitas coisas, mas muito mais querer entregar a sua vida com Cristo. Se nas várias formas de piedade, alimentamos a nossa vida espiritual, na Eucaristia é Deus quem tem absoluta primazia de acção, pois é actualização do mistério da Cruz. Aqui somos convidados à adoração, que mais do que admiração, e é por excelência acto de amor e aceitação confiante.

Saturday, 24 July 2021

Um só pão!




DOMINGO XVII DO TEMPO COMUM


L 1 2 Re 4, 42-44; Sal 144 (145), 10-11. 15-16. 17-18
L2 Ef 4, 1-6
Ev Jo 6, 1-15

O Evangelho deste Domingo faz-nos entrar no episódio da multiplicação dos pães, enquadrado pela indicação do profeta Elias: «Comerão e ainda há-de sobrar». O alimento na nossa vida é o modo pelo qual nos sustentamos, que nos torna mais claro que cada um por si não pode subsistir; necessitamos de receber e essa é um dos sinais mais evidentes da nossa condição. Esta é também oportunidade para descobrir que a nossa vida depende da fonte e que na raiz está Deus. Por isso, o alimento, mais do que apenas uma questão corporal, é ocasião de nos aproximarmos de Deus e é meio para podermos crescer na comunhão com os demais com quem partilhamos (ou escolhemos partilhar) a mesa. 

No Evangelho vemos Jesus na Transjordânia, terra de gentios, onde vemos acontecer o milagre da multiplicação dos pães. Jesus testa os discípulos, perguntando-lhes "onde" se poderia comprar o pão para dar de comer aquela gente toda. No meio das contas que fazem, André, apresenta um menino com "cinco pães de cevada e dois peixes", pouco para tanta gente. Mas é deste pequeno dom, que se partilha que Jesus pode alimentar a multidão imensa. Aqui está a intimidade da vida com Deus: a partilha de si e dom de si pelos outros, que Deus faz crescer. 

É pertinente que Jesus faça esta milagre na Transjordânia, reunindo à volta de si povos que comem o pão que se multiplica e se come até ficar saciado. Neste episódio Jesus reúne para se alimentar Povos diferentes, quando os judeus mais ortodoxos evitam partilhar a mesa. Assim, Jesus faz de gentios e judeus um só Povo chamado à comunhão (cf. Ef 2, 14). Assim a Eucaristia nos leva a fazer a experiência de ser alimentado por Cristo, que nos sacia, mas também nos torna irmãos dos que celebram a mesma eucaristia. Assim o expressava a Didaqué, no século I, quando colocava que: « Assim como este pão partido estava disperso pelos montes, e, depois de colhido, se tornou um só, assim se reúna a vossa Igreja dos confins da terra no teu reino. Pois tua é a glória e o poder por Jesus Cristo, pelos séculos» (Didaquê, 9)


Friday, 16 July 2021

Acorrendo a Jesus

 

 

DOMINGO XVI DO TEMPO COMUM

L 1 Jer 23, 1-6; Sal 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6
L2 Ef 2, 13-18
Ev Mc 6, 30-34

 

Este domingo foca o seu olhar na imagem do bom pastor. Este é um tema que atravessa a Sagrada Escritura, sendo constante a nota de que Deus é Pastor do Seu Povo, o qual escolhe para colocar à frente do rebanho homens com a missão de cuidar do Povo. O drama, conta Jeremias, é que tantas vezes aqueles que tinham a missão de "apascentar o rebanho", ou seja ensinar e levar o Povo a encontrar a felicidade não o fazem e deixam que o Povo se perca. 

A comparação do Povo de Deus a um rebanho é extremamente sugestiva. A ovelha é um animal que facilmente permanece unida a um rebanho; todavia quando se separa desse rebanho facilmente se perde, mesmo na melhor das condições, e facilmente fica alvo de predadores. A sua segurança está no permanecer unida ao rebanho, guiado pelo pastor. Esta situação é uma metáfora da condição humana; quando perde o sentido de Deus, da sua fonte e se deixa guiar por caminhos ilusórios, facilmente se perde e necessita de ser resgatada; por outro lado, é na permanência num grupo que procura a verdade que cada um pode criar o espaço interior para construir firmemente a sua vida. Cada um por si não pode encontrar a salvação.

A semelhança dos responsáveis a pastores não é menos significativa. O pastor é aquele que tem a missão de guiar um rebanho, mas sobretudo criar as condições para este possa florescer. Como tal, o pastor conhece as ovelhas, guia para os melhores locais de alimentação, protege e luta pelo rebanho e ao limite, conta a sagrada Escritura dá a vida pelo rebanho. Atrás dos bons e belos pastores, as ovelhas seguem sempre sem hesitar 

É nesta moldura que vemos a acção de Jesus, que entrega a sua vida pelas multidões, sempre incontáveis e que sempre pedem tanto d'Ele. E o que vale para Jesus, vale para os discípulos, ao ponto de "nem terem tempo para comer". E vemos aqui uma bela profecia da Igreja, que vendo o Mestre a afastar-se, percebe para onde vai e acorre ao local onde Ele agora está. É neste local que Jesus, se compadecendo das multidões, por serem como "ovelhas sem pastor" se demora a ensinar, a distinguir "a direita da esquerda". 

No centro da liturgia está Jesus Cristo: é a Ele que acorrem os discípulos, tudo partilhando e entregando da sua experiência missionária; é a Ele que acorrem as multidões para serem ensinadas. É a Ele que também eu e tu somos chamados a procurar, indiferentemente do Povo a que pertençamos. 


Friday, 9 July 2021

Enviados como Jesus




DOMINGO XV DO TEMPO COMUM


L 1 Amós 7, 12-15; Sal 84 (85), 9ab-10. 11-12. 13-14
L2 Ef 1, 3-14 ou Ef 1, 3-10
Ev Mc 6, 7-13 

Ao longo da Sagrada Escritura sempre se dá a entender que a Palavra de Deus não pode ser acorrentada, a qual é fonte de vida e tudo é criado por esta. É ao serviço da Palavra que são enviados os profetas ao Povo, não apenas para denunciar, mas pela Palavra serem sinais da fidelidade de Deus que ama o Povo, ainda que estes sejam tantas vezes rejeitados pelo Povo. 

Amós é um profeta enviado por Deus ao Povo de Israel numa sociedade desigual, marcada pela exploração e fraude dos mais frágeis, confiante da sua pujança material. Amós é chamado por Deus, "arrancado" da sua vida de agricultor, para ser sinal de contradição entre o Povo. O seu anúncio pertinente vem lembrar que uma sociedade que se esquece de Deus, facilmente esquece a solidariedade e fica a viver para si, para o seu bem-estar e luxos. Contudo a sua mensagem, que prevê a queda desta sociedade, está também revestida de uma profunda esperança na comunhão com Deus. 

O Evangelho retoma a dinâmica do anúncio com notas fundamentais para a vida da Igreja de hoje. Jesus envia os apóstolos dois a dois, que servem de testemunhas da salvação e da condenação em caso de rejeição. É-lhes o poder de expulsar demónios, algo que só Jesus o fazia, para além da missão de pregar e  curar. Devem ir com leveza de meios, próprios para poder caminhar sem que estes pesem no caminho, na simplicidade, mas também como sinais de que a sua missão, não depende da sua eloquência, mas do Espírito Santo que o guia. Mais despojados, a sua vida é sinal mais claro de Jesus Cristo. 

A Igreja tem a missão de continuar este envio de Jesus sem se escusar a nenhum destes caminhos: o combate e denúncia do mal, a pregação e a cura mediante os sacramentos. No coração desta vida está a caridade de Cristo que impele todos aqueles que o Senhor chama. A tentação de querer ver o sucesso da missão pelas próprias forças é uma constante e aprisiona os seus anunciadores. Hoje, como no tempo de Jesus, o grande sucesso do anúncio é a conversão dos corações ao anúncio do amor de Deus e a adesão a Jesus Cristo, morto e ressuscitado e a vitória sobre o mal. E esta só pode acontecer mediante a misericórdia de Deus testemunhada nas nossas vidas e em especial no seus ministros. 

Estes textos têm também um forte carácter vocacional. Lembram-nos que embora todos sejamos chamados a ser curados e acreditar em Jesus Cristo, desde sempre existiram homens chamados por Deus para serem sinais de anúncio e testemunho para todos que Deus quer continuar a realizar maravilhas no coração da humanidade de hoje. O cuidado das vocações, e neste caso as sacerdotais, cujas vidas são chamadas a reproduzir os gestos de cura de Jesus é central na vida da Igreja e necessita da ajuda de todos para que nunca faltem na Igreja homens que dêem, como Cristo, a sua vida pelo Povo de Deus. 

Friday, 2 July 2021

cabeça dura e coração obstinado

 


DOMINGO XIV DO TEMPO COMUM



L 1 Ez 2, 2-5; Sal 122 (123), 1-2a. 2bcd. 3-4
L2 2 Cor 12, 7-10
Ev Mc 6, 1-6

As leituras deste Domingo implicam-nos a compreender a abertura que damos a Deus. 

Deus toma sempre a iniciativa. Ele é a fonte, Ele é salvador e vem ao nosso encontro, mediante a Sua Palavra. Assim ouvimos no livro do profeta Isaías que é enviado ao Povo com a missão de anunciar e ser sinal para este da presença de Deus. O drama está na "cabeça dura e coração obstinado", ou seja uma indiferença à presença de Deus, que julga poder viver bem a vida sem acolher a palavra de Deus ou mudar de vida. É diante desta dificuldade que o profeta é enviado. 

Jesus sente no Evangelho esta mesma dificuldade. Ao se deslocar pela primeira vez à sua terra, encontra um Povo fechado por aquilo que este já acha saber. É esta a verdadeira falta de fé; não acolhem a Palavra, não podem acreditar e a sua vida fica por transformar, fechada no mesmo horizonte de sempre. Neste caso concreto, a indiferença vem do facto de se conhecer já a família antes do início da missão pública de Jesus. 

Uma nota explicativa dos "irmãos de Jesus". O texto grego emprega o "adelfos", que significa "irmãos" e não "anepsios", ou seja "primos"; todavia, nunca o texto se refere aos familiares de Jesus como "filhos de Maria", sendo que no ambiente semita, o termo familiares era de utilização mais ampla que actualmente. Como tal, nada nos permite concluir que Jesus não fosse o filho único de Maria. 

A fé permite reconhecer Jesus como o enviado de Deus, que liberta cada um do peso do pecado que fecha a vida para a abrir à força do amor de Deus e nos enviar como testemunhas da verdade. Ainda que nos envie com toda a nossa fragilidade, como se denota nos textos de São Paulo, que escreve a sua fragilidade, que tanto gostaria de mudar; mas, ontem, tal como hoje, o anúncio do Evangelho é feito com a força de Deus e não apenas com os nossos jeitos ou dons. 

Este texto é particularmente importante nos nossos dias. Mostra-nos que Deus vem sempre ao nosso encontro e nos que nos deseja receptivos à Sua Palavra. A tentação de nos fecharmos nos nossos critérios habituais - mesmo para aqueles que não são de facto cristãos - faz-nos alhear do dom da vida que Deus nos traz, e envelhece a nossa mente, coração, olhos e mãos. Quem confia no Senhor, diz o Salmo 125, 1, «são como o Monte Sião; permanecem para sempre». 

Friday, 25 June 2021

A fé abre a porta a Deus



DOMINGO XIII DO TEMPO COMUM


L 1 Sab 1, 13-15: 2, 23-24; Sal 29 (30), 2 e 4. 5-6. 11-12a e 13b
L2 2 Cor 8, 7. 9. 13-15
Ev Mc 5, 21-43 ou Mc 5, 21-24. 35b-43 

As leituras que ouvimos este domingo fazem-nos olhar para o mistério da vida e da salvação de Deus. A bíblia coloca Deus como o criador, pelo qual todas as coisas surgem. Ele é a fonte da vida e nunca o autor do mal; este vem do demónio, do espírito do adversário. Logo aqui se compreende uma distinção: Deus cria e orienta para o bem; o inimigo apenas pode distorcer ou perverter do seu fim bom. 

O Evangelho coloca Jesus a partir para a outra margem, dispondo-se a ensinar as multidões. Aqui atende aos pedidos de Jairo, que vê a sua filha a desfalecer. Jesus coloca-se no caminho; e é neste caminho, que Jesus percorre com a multidão, os discípulos e Jairo, que também nós somos colocados para passar de sermos multidão para reconhecidos individualmente por Deus. 

Jesus, no caminho rumo à cura da filha e Jairo, deixa que uma força de si cure a mulher com o fluxo de sangue. É sempre bom recordar que no tempo de Jesus, uma mulher com fluxo de sangue era considerada impura; como tal, esta mulher nunca podia entrar no templo, mas via-se obrigada a ficar à margem da sociedade. É a fé desta mulher que a leva, mesmo no anonimato, a querer tocar o Senhor. É pela fé que ela é curada. É pela fé, que é reconhecida como "minha filha".  É esta mesma fé que o Senhor chama Jairo a guardar, quando lhe vêm dar a notícia que a sua filha morreu. 

A fé não é uma crença muito forte. A fé, é sempre dom de Deus[1], alimenta-se da Palavra de Deus, e  tem o poder de dar vida. À filha de Jairo e a nós também. E é a nós que o Senhor Jesus nos fala quando ouvimos a Palavra e que nos chama a nos levantarmos. 

A fé torna-nos semelhantes a Cristo. Assim o opera o Amor de Deus em nós, que nos quer purificar e enviar em missão. São Paulo concretiza esse chamamento na missão com que vive e apela os cristãos das Igrejas novas a partilharem os seus bens com a Igreja de Jerusalém, sendo eles cultivadores da igualdade. Todavia, a igualdade nunca pode ser imposta sob pena de se tornar um fardo; é por isso que São Paulo apela à generosidade de cada um para se interessarem com o bem do próximo. Possamos também experimentar que a fé nos leva à partilha e cuidado dos outros.  

Saturday, 19 June 2021

A paz de Cristo




DOMINGO XII DO TEMPO COMUM


L 1 Job 38, 1. 8-11; Sal 106 (107), 23-24. 25-26. 28-29. 30-31
L2 2 Cor 5, 14-17
Ev Mc 4, 35-41

As leituras deste domingo fazem-nos entrar, pela mão do livro de Job, num ambiente de adoração. Diante das dificuldades que Job atravessa, o Senhor Deus convida-o a reconhecer o que o rodeia como obra da criação - no caso da liturgia deste domingo, a olhar o mar, na sua imensidão e limites. Como precisamos de nos meio das dificuldades que alguém nos convide a espraiar o olhar e o coração!

O Evangelho pode ser um belo percurso para entrar na confiança e adoração, tal é a corrente de elementos gráficos que saltam à nossa vista:

  • Mar - Na Sagrada Escritura o mar é o lugar do sustento do Povo, donde se tira muito que é necessário à nossa subsistência; todavia é também o lugar do mistério, onde a fragilidade humana salta à vista, onde o homem, diante das dificuldades, mais se sente limitado. É também o caminho que os discípulos percorrem com Cristo para passar à outra margem, quase como sinal de que nas mudanças na vida, encontramos dificuldades. 

  • Barca - É na Tradição da Igreja, sinal da Igreja. É um lugar da intimidade de Jesus com os discípulos; é também sinal da Igreja, que no meio das tormentas do mundo, encaminha a humanidade no caminho da salvação, pela palavra e pelos sacramentos. Apesar de frágil de aparência, quando guarda a presença de Cristo, pode percorrer as tempestades sem se afundar. 

  • Almofada - É o sinal da paz que o Senhor quer trazer à aflição dos discípulos. Mostra o sono tranquilo do mestre, que mesmo no meio das tribulações, Cristo permanece connosco. Ainda que ondas e a tempestade façam tremer a nossa barca, seja pela nossa fragilidade, seja pelas dificuldades, Cristo pode ser sempre o nosso timoneiro.

  • Palavra - A palavra de Deus é sempre criadora. Cristo fala às nossas tempestades, com a sua palavra para nos guiar. Não se trata apenas de discernir o que é bem ou mal, mas quer sobretudo que esta Palavra nos leve à Fé, a confiar e aderir à sua vida. Esta palavra precisa de entrar na nossa vida, de nos renovar interiormente, de nos ajudar a encontrar que a nossa vida nunca está isoladamente entregue às tempestades, mas ao Senhor Jesus.  
No final - e início - de tudo está sempre a misericórdia de Deus, como nos canta o salmo 106 (107). Nela descobrimos que para além de todas as nossas capacidades, conhecimentos, o amor de Deus nos ultrapassa, suporta e impele a ir sem medo. Caminharmos para aqui precisamos de um coração que de facto adore o Senhor, que reconheça com a vida o dom que a cada um é confiado. 

Saturday, 12 June 2021

Crescer com Cristo para o bem dos outros



DOMINGO XI DO TEMPO COMUM


L 1 Ez 17, 22-24; Sal 91 (92), 2-3. 13-14. 15-16
L2 2 Cor 5, 6-10
Ev Mc 4, 26-34 

As leituras deste Domingo fazem-nos entrar na lógica do Reino de Deus, olhando para isso para o crescimento da pequena semente lançada no nosso caminho. Esta semente é sempre a Palavra de Deus, que é cheia de vida e capaz de gerar vida. Esta semente, pequena e humilde, mostra-se capaz que quando acolhida e cudada, lançar raízes no profundo do coração do homem e de tornar fecundo e dócil o seu coração para os outros. A semente traduz assim a lógica do dom gratuito que cresce "por si", como refere o texto e transforma os nossos critérios para nos tornar capazes de ser troncos de vida, como espaço que dá casa aos outros. 

O grande dom dado à humanidade é, pela fé, o conhecimento do amor de Cristo e por Ele entrar na lógica do Reino de Deus. Cristo é a Palavra, é a semente, que morre, é sepultado e ressuscita. Com Ele também nós ressuscitamos, fazendo de nós os ramos capazes de acolher todos aqueles que são diferentes, ligados a Cristo, alimentados na seiva da Graça divina pelos sacramentos, vivificados no Espírito Santo. 

Viver neste tronco significa guardar a humildade, de quem reconhece que a presença de Cristo é fonte de bondade que transforma o nosso coração; não se trata portanto de desistir de ser, mas pelo contrário, é humilde quem reconhece que é chamado a ser mais pois alimentado e fortalecido por Deus. 

A mesma humildade reconhece que a vida é um processo sem fim, cheio de dinamismo e só com dinamismo subsiste. Este processo leva ao fruto amadurecido que existe para o bem do outro. São João da Cruz dizia que no entardecer da vida seríamos julgados no amor; é este o grande critério que Deus nos coloca à frente: como vivemos no amor, que se faz dom para o outro? Como nos deixamos afetar pela salvação do outro? Por isso, aqui o Reino de Deus estranha-se quando somos tentados a ficar estáticos, a querer manter tudo como está. Faz parte da vida, da natureza e das relações o crescimento e a transformação; faz parte da vida cristã, a conversão diária a Jesus, o acolher e escolher a misericórdia de Deus para a nossa vida, que se traduzem posteriormente em capacidade de acolhimento, perdão, cuidado, comunhão e festa com aqueles são o meu próximo.

A vida da Igreja acontece em cada um que, ao se deparar com o amor recebido de Deus, sente a necessidade de exprimir o amor que o habita para o bem do outro. Por isso a humildade é o melhor terreno para a vida germinar e se tornar fecunda; não se trata de fazer favores a ninguém; é trabalhar para que a nossa vida alcance a dimensão a que foi chamada. E isto só acontece quando morremos com Cristo e com Ele ressuscitamos.