DOMINGO DE RAMOS NA
PAIXÃO DO SENHOR
L 1 Is 50, 4-7; Sl 21 (22), 8-9. 17-18a. 19-20. 23-24
L 2 Flp 2, 6-11
Ev Mt 26, 14 – 27, 66 ou Mt 27, 11-54
Estamos a celebrar o Domingo da Paixão do Senhor, início da Semana Santa e
Semana Maior da nossa fé. A palavra "Paixão" deriva do latim passio,
a qual significa tanto sofrimento como amor, numa união íntima entre estas duas
realidades.
A liturgia deste domingo coloca-nos precisamente neste relato, não apenas
como ouvintes ou observadores externos, mas convida-nos a ser verdadeiros
participantes de um acontecimento central. Trata-se sempre dos relatos mais
centrais dos evangelhos, aqueles que mais demoram a ser narrados. Numa lógica
de quem olha o cristianismo apenas como uma moral, pode estranhar-se esta
duração, mas quem acredita que o evangelho é escrito para levar à fé compreende
o Mistério que aqui se encerra. Aqui não estamos a ouvir uma lição de como
agir, mas a contemplar a vida de Jesus Cristo.
Toda a liturgia apresenta Jesus como o manso cordeiro levado ao matadouro,
ligando este acontecimento à ceia judaica da libertação do Egito. Agora a
libertação é outra, em que Jesus entra para nos fazer viver de uma maneira nova
por dentro das dificuldades da vida. Jesus assume o lugar do último, daquele
que é preterido por um malfeitor, Ele que tinha feito tanto bem. Ele assume
toda a violência do mundo.
A violência que Jesus assume é a nossa, a dos nossos dias, a minha e a tua.
Por isso, Jesus não podia salvar-Se a Si mesmo; isso seria contrariar quem Ele
era, a Sua própria vida. Ele veio para salvar-nos e entrega-Se nas mãos dos
homens, no Seu amor até ao fim, na Sua descida até ao mais baixo da condição
humana. Vemo-Lo a descer de Deus para homem; de homem para servo; a morrer na
maldita cruz; e, na tradição da Igreja, a descer à mansão dos mortos. É este
percurso que leva a que o centurião romano — logo, não judeu — pudesse
expressar com toda a certeza: "Este era verdadeiramente (alethos —
palavra usada no Evangelho de Mateus apenas três vezes, sendo que duas delas se
destinam a confirmar a filiação divina de Jesus) Filho de Deus".
Reconhecemos na cruz a presença de Cristo que se entrega por nós, ou apenas
repetimos o gesto habitual?
A cruz do Senhor, para nós cristãos, nunca pode ser vista apenas como um
instrumento de morte; na fé sabemos que Jesus ressuscitou, ou seja, superou a
morte. É por isso que a Tradição da Igreja olha para a cruz como o madeiro, a
árvore que possui o mais belo fruto, aquele que nos sustenta. É hoje também que
o nosso "sim" é chamado a ser dado nesta cruz.

