Saturday, 25 September 2021

Não é possível acorrentar a acção de Deus



DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM


L 1 Num 11, 25-29; Sal 18 (19), 8. 10. 12-13. 14
L2 Tg 5, 1-6
Ev Mc 9, 38-43. 45. 47-48 

A leitura do livro dos Números deste Domingo relata o episódio em que o Espírito de Deus que pousava sobre Moisés é comunicado a setenta anciãos, que começam a profetizar, testemunhando a acção de Deus no meio de todos. Mas o ponto a salientar é sobretudo de Eldad e Medad, que não se tendo reunido ao grupo proposto por Moisés, também recebem o mesmo Espírito e por isso profetizam, o que provoca a rejeição de Josué. A resposta de Moisés é um motivo de visão larga que Jesus retoma neste Evangelho: o desejo de Deus constituir profetas entre toda a humanidade. 

Jesus inaugura este acontecimento. No texto ouvimos que alguém, por invocar o Nome de Jesus, pode fazer os milagres que Ele fazia, sinal claro da autoridade de Jesus; mais ainda, mesmo não estando no grupo restrito de Jesus, trata-se de uma profissão de fé, que não conhece fronteiras de pertença exclusiva. Bloquear a acção em nome de Jesus é provocar um escândalo. Entendamos bem: escândalo, no sentido bíblico, é fazer cair e não deixar andar. 

Por isso o apelo de Jesus é tão pertinente, e a imagética tão forte para chamar à conversão de vida e de inteligência, de modo que a parte não bloqueie o todo da nossa vida. Se a nossa mão direita, ou seja a nossa acção, o nosso pé, ou seja o nosso caminho, ou o nosso olhar, ou seja os nossos desejos nos bloqueiam em testemunhar o nome de Jesus, são estes de têm de ser renunciados e transformados. 

Deixar-se bloquear pelas ocasiões de escândalo é renunciar a crescer no amor de Deus a que todos nós que pelo Baptismo somos chamados à vida; é deixar de testemunhar o amor de Deus, para se ficar nos interesses pequeninos da própria vida; quem não anuncia o amor de Deus, deixa a vida estagnada.


Saturday, 18 September 2021

Levados pela inveja ou pela sabedoria




DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM


L 1 Sab 2, 12. 17-20; Sal 53 (54), 3-4. 5. 6 e 8
L2 Tg 3, 16 – 4, 3
Ev Mc 9, 30-37 

As leituras deste Domingo colocam diante de nós um dos anúncios do mistério pascal de Jesus Cristo e na forma como nós somos nele inserido. Neste caso, Jesus atravessa a Galileia e anuncia aos discípulos com toda a clareza que vai morto e que ressuscitará; todavia, os discípulos não compreendem e por medo não tentar compreender. O motivo para não tentar fazer é explicitado posteriormente: discutiam entre si qual era o maior. 

É claro que a lógica dos discípulos e do mestre é diametralmente oposta; enquanto Jesus fala de dar a vida, os discípulos querem ganhar e dominar a vida. Um dos aspectos mais singulares neste diálogo traduz a própria consciência que estes têm de estar longe dos planos do mestre. Por isso se refugiam no silêncio, que longe ser espaço de escuta, é porta de ferro blindada à relação com Deus e de defesa para com os irmãos. O nosso coração, criado por Deus, conhece a verdade profunda a que é chamado, embora tantas vezes não consiga responder. Só o amor, e do modo singular o amor de Deus, pode limpar e desarmar o coração de cada um para acolher a criança indefesa e vulnerável que somos chamados a nos transformar. 

A carta de São Tiago é bastante oportuna neste contexto; Tiago lê a realidade do coração dos crentes, que transparece da relação da comunidade: estes são motivados pela inveja e não pela sabedoria. É bastante oportuna esta dicotomia: a inveja, partindo da comparação com o outro, leva a querer ser mais que os outros; a sabedoria, partindo da observação dos outros, leva a querer servir o outro. 

Estes textos são bastante singulares para a nossa vida como cristãos e como comunidades: a fé é sustentada antes de mais no amor de Deus, que se entrega nas nossas mãos; antes do compromisso e ética cristãs, está o amor gratuito e total; só este abre o nosso coração; é depois este que descobre a verdade profunda que nos habita e nos faz caminhar na entrega de vida. 


Saturday, 11 September 2021

O que não se partilha, perde-se




DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM


L 1 Is 50, 5-9a; Sal 114 (115), 1-2. 3-4. 5-6. 8-9
L2 Tg 2, 14-18
Ev Mc 8, 27-35 

Os textos que nos são dados a ouvir neste Domingo XXIV do Tempo Comum colocam diante de nós a pergunta de Cristo aos discípulos sobre o modo como o vêem. O texto evangélico é enquadrado pela leitura de Isaías, do terceiro texto do servo sofredor, em que o próprio testemunha que no meio da provação e do sofrimento causado, este professa a fidelidade de Deus como amparo e força da sua vida. 

Jesus Cristo, pondo-se a caminho de Cesareia de Filipe, cidade em que abundavam os cultos ao imperador, ao Deus Pã, símbolos do poder e força humana, interroga os seus discípulos sobre o que diziam "os homens" quem ele. Sem o privar com Jesus, as multidões vêem nele alguma analogia com figuras relevantes da história da salvação. Mas é na relação próxima que as pessoas se conhecem para além dos lugares comuns de trabalho e actos visíveis. E daí a necessidade da pergunta aos discípulos sobre a identidade de Jesus: "Quem dizeis que Eu sou?"

A pergunta pela identidade percebida pelos discípulos é respondida acertadamente apenas na letra: "É o Messias". Pedro acredita que Jesus haveria de reproduzir o comportamento do primeiro Messias, o Rei David, que conquistou Jerusalém. Mas a identidade de Jesus é outra: assumir a missão de servo sofredor, que expia a multidão dos pecados da humanidade para nos fazer viver como Filhos de Deus. Mais do que o Deus da força, Jesus revela Deus como amor, serviço, negação de si e entrega como caminho essencial de vida. 

É este chamamento que é feito a cada um de nós; é isto que celebramos em cada eucaristia no dom entregue de Cristo. Só a vida que se entrega gera vida, pois o que não se partilha, perde-se. É a diferença de ter um coração de carne ou de pedra. 



Saturday, 4 September 2021

Somos reflexos da Imagem de Deus




DOMINGO XXIII DO TEMPO COMUM


L 1 Is 35, 4-7a; Sal 145 (146), 7. 8-9a. 9bc-10
L2 Tg 2, 1-5
Ev Mc 7, 31-37

As leituras de hoje colocam diante de nós uma mensagem de esperança, em que Deus actua no meio de exilados e estrangeiros, daqueles que estão fora. A primeira leitura anuncia que Deus irá actuar nos que regressam do exílio da Babilónia – exílio que durou 70 anos. No evangelho, Jesus Cristo age com especial dedicação no homem surdo‑mudo – afasta-se com ele, toca-o nos ouvidos e na língua; este homem é um estrangeiro, que não faz parte do Povo hebreu, sinal de que o amor de Deus não se restringe em fronteiras humanas.

De forma bem diferente, Jesus Cristo revela que a humanidade tem desejo do Pai, da fonte do amor que Ele vem comunicar; de facto, não conhecer a Deus significa desconhecer a meta da nossa vida. Como conclui o Evangelho de hoje, aquele que reconhece em Jesus o caminho para o Pai, também descobre que tudo o que Ele faz é admirável, apontando-nos para uma nova criação, uma nova vida. Em Jesus Cristo, já não se criam os céus, a terra, o sol, a lua, mas uma nova forma de viver, com capacidade diferente de escutar e de falar, de pensar e de amar.  

Estes textos colocam diante de nós a oportunidade de nos perguntarmos que imagem temos de Deus, ao vermos a Sua a imagem em Jesus Cristo. Fazermos esta pergunta não é apenas uma questão mais ou menos "piedosa", mas perguntar que meta tem a nossa vida. Em Jesus Cristo, Deus revela-se como Mistério de amor, entrega de si, perdão, verdade que orienta a vida e acolhimento de todos. Nós somos chamados a ser reflexos deste amor: a viver como filhos no Filho de Deus, a deixar a nossa vida ser presença de tudo o que descobrimos em Deus. Isto traduz-se em capacidade de fraternidade e acolhimento de todos os que são diferentes, e sobretudo com os mais necessitados, como nos recordava São Tiago. 

Daqui brota a catolicidade da Igreja, ou seja uma Igreja Universal, a que todos são chamados. Isto traduz-se na missão da Igreja de testemunhar o amor de Deus a toda a criatura. Se olharmos para a multidão daqueles que procuram Jesus, vemos que são eles que trazem o surdo-mudo que o guiam até este encontro. Somos nós que somos chamados a ser entre nós e para os outros sinal de Deus.

Precisamos de redescobrir a alegria da fé, própria de quem encontrou Jesus Cristo e sabe que a vida não é sua, mas dom de Deus e por isso a ele pertence. Esse sabe qual é a sua identidade está no Reino dos Céus, a qual  a transmite e isso faz-nos ser “sal da terra e luz do mundo”. Quando assim acontece, o medo perante aqueles que são diferentes perde força, por reconhecer neles o irmão exilado. Descobrimos em nós uma capacidade de acolhimento maior e de superação da indiferença.

Confiar em Deus torna possível que volte a acontecer em nós o “Effetha”, o “abre-te” de Jesus, agora com uma disponibilidade para a acolher a voz de Deus que nos desinstala dos nossos ouvidos duros e nos coloca ao serviço do outro. Não tenhamos medo de ser cristãos num mundo que precisa da nossa voz e da nossa disponibilidade.