Thursday, 31 December 2020

Abençoados por Deus

Photo by Polina Zimmerman from Pexels


SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – SOLENIDADE

L 1 Num 6, 22-27; Sal 66 (67), 2-3. 5-6 e 8
L 2 Gal 4, 4-7
Ev Lc 2, 16-21

Um ano ano se inicia, nesta data em que se celebra o oitavo dia da Solenidade do Natal e que dedicamos à festa de Santa Maria, Mãe de Deus, dogma proclamado no concílio de Éfeso. Também neste dia S. Paulo VI, dedicou, em 1967, o primeiro dia do ano como dia mundial da paz. 

A bênção araónica que ouvimos neste dia do livro dos números é, segundo os estudiosos, é o mais antigo manuscrito do século VII a. C. encontrado até hoje em placas de metal, o que retrata a sua importância. Este texto invoca o Senhor como Deus que ama o seu povo, para que o proteja, o abençoe, olhe para o seu povo, o acompanhe e lhe dê a paz. O sentido profundamente religioso deste texto está carregado da consciência da fé de que o Deus de Israel é um Deus próximo. Era apenas no uso deste texto que o sacerdote do templo antigo podia invocar o nome de Deus para abençoar o Povo. 

A maior bênção de Deus é-nos dado em Filho, feito homem para nós, do qual recebemos a maior graça: Deus faz-nos seus filhos adoptivos e revela-nos a grandeza do seu amor por nós. 

Olhamos para Maria neste dia e vemos nela a grande figura deste dia. Vemos nela aquela que acolhe a bênção e dá ao mundo o Filho de Deus. Ela é modelo de acolhimento e de cuidado para a humanidade. Ela escuta, ouve e guarda no seu coração (symballousa=dialogando dentro de si)   tudo o que vai acontecendo. Não se trata de mera beatice; um coração purificado por Deus procura guardar a acção de Deus que passa nas nossas vidas, por perceber que Deus só pode abençoar. Maria é aquela que estando tão descentrada de si se entrega totalmente. 

O Papa Francisco na mensagem que escreveu para o dia mundial da paz vem lembrar-nos da nossa necessidade de nos tornarmos numa sociedade de cuidado. A nossa sociedade tantas vezes indiferente e medrosa necessita da nossa conversão, da conversão de todos os cristãos à semelhança de Maria para se abrir e guardar tudo o Deus vai fazendo. Sem isso, os nossos dias hão-de passar a correr dos dias, no rebuliço imenso da vida, podendo ficar surdos à voz de Deus que nos abençoa. Não é pela força da moral apenas que o nosso coração se alarga, mas pelo reconhecimento do dom imenso de Deus que nos faz mais semelhantes a si no seu amor: é por isso que devemos cuidar da espiritualidade na nossa vida. 

Que a bênção de Deus nos alargue as fronteiras do nosso coração para darmos lugar à paz que só Ele pode trazer. Como nos diz S. Leão Magno: «É a paz que gera os filhos de Deus, alimenta o amor e cria a unidade. Ela é o repouso dos santos e a mansão da eternidade. E o fruto próprio desta paz é unir a Deus os que separa do mundo.»


Para partilha [https://www.youtube.com/watch?v=xW4YB6fVvJo]

Saturday, 26 December 2020

Ser família à imagem de Deus

    Image by Andreas Böhm from Pixabay 



DOMINGO dentro da Oitava do Natal

Sagrada Família de Jesus, Maria e José – FESTA

L 1 Sir 3, 3-7. 14-17a (gr. 2-6. 12-14); Sal 127 (128), 1-2. 3. 4-5
L 2 Col 3, 12-21
Ev Lc 2, 22-40 ou Lc 2, 22. 39-40 

Celebrar o mistério do Natal é celebrar o facto de que o nosso Deus assume toda a nossa humanidade em todos os seus aspectos para a elevar e redimir. Assim o vemos na vida da Sagrada Família. 

Jesus cresce numa família, a qual é sempre configuradora da pessoa humana pelo amor vivido e partilhado. Mas no centro da Sagrada Família está a acção de Deus. É neste contexto que vemos a consagração de Jesus a Deus, como era todo o primogénito varão em Israel. Mas logo se percebe nesta celebração ritual nada haveria de habitual. Ambos Simeão e Ana se alegram com este menino, pois Ele é o sinal de que Deus não desiste da humanidade e leva a sua misericórdia até ao fim. Um olhar de fé sempre vê em Jesus um sinal de esperança para a nossa humanidade. 

Tal como a Sagrada família, as nossas famílias vivem na sintonia da misericórdia divina quando o são à semelhança da Santíssima Trindade. As leituras deste domingo ajudam a identificar alguns destes pontos: 

1. O amor partilhado nos esposos que se entregam totalmente um ao outro para constituírem uma só carne, ou seja, uma forma de vida única, marcada pela comunhão e entrega de vida. Bem sabemos que no nosso mundo que o matrimónio está em crise, numa sociedade em correria constante, com lares desfeitos e tentativas de equiparar outras formas de vida à família tradicional. Todavia a a fé mostra-nos que é do amor fecundo entre homem e mulher que a sociedade cresce e participa do poder criador de Deus. Celebrar o Matrimónio não significa apenas estabelecer um pacto ou assinar um papel, mas criar uma relação abençoada por Deus que une os esposos para partilharem juntos a vida. E onde se acolhe a benção de Deus, a vida multiplica-se. 

2. O livro da Sabedoria falava em honrar pai e mãe. Fazê-lo é sinal de uma geração que transmite e acolhe os acontecimentos mais importantes da nossa identidade. É reconhecer que a missão da educação é tarefa que pertence em primeiro lugar à família, que é ela que tem a missão de fazer crescer em graça cada filho. Educar não é impor; educar e formar é ajudar a emergir e dar forma ao bem que Deus coloca em cada um, mediante uma relação de amor. Só no amor se pode educar, como só no amor se pode verdadeiramente obedecer. 

3. O cuidado é também sinal essencial em cada família. Esta é espaço onde o amor se concretiza em cuidado pelos demais, sobretudo nos momentos mais frágeis da vida, onde o cuidar, sendo tantas vezes difícil, é também fecundo de um amor que se leva até ao fim. 

4. A família é escola de amor, mediante os valores da «bondade, humildade, mansidão e paciência» como nos diz S. Paulo. O amor reveste-nos destes dinamismos, que são fundamentais para que todos possam ter o seu espaço, onde cada um se pode partilhar e revelar. Sem estes será extramente difícil que o suporte mútuo e o perdão sejam uma realidade. Quem assim vive tem sempre espaço para os demais, aceitando muitas vezes morrer para o mais imediato por amor do outro. Nestes valores, o amor floresce e encontra sempre um caminho. 

O amor faz emergir o melhor em nós e nos outros e cria-nos a consciência que de facto nos pertencemos uns aos outros. É por isso que nos identificamos num grande corpo, em primeiro lugar na família, mas depois em Igreja. A Igreja é de facto "família de famílias", pois pertencemos ao grande corpo de Cristo, como nos diz São Paulo. 

Numa Igreja viva devemos conseguir identificar os mesmos sinais que veríamos numa família e vice-versa, no comunhão, no serviço mútuo, na partilha de vida. Se por um lado somos chamados a distinguir o que se quer colocar como igual ao modelo de família no Matrimónio, a nossa missão em Igreja leva-nos a acolher e a dar a conhecer a todos a vida da Sagrada família, a qual responde à missão de ser rosto de Deus, mesmo no meio das dificuldades que atravessou. A fecundidade, a partilha, a complementaridade, o cuidado, o perdão e entrega de vida são sinais essenciais da presença de Deus, do Espírito Santo, "Senhor que dá a vida". 

Não tenhamos dúvida que a misericórdia de Deus pode converter os nossos corações, purificando-nos da nossa dureza e fazendo emergir a verdadeira alegria. Se as nossas famílias têm falhas e dificuldades, têm também quando procuram responder ao amor de Deus, a possibilidade de ser pequenas Igreja Domésticas.

Thursday, 24 December 2020

Seja Natal!




NATAL DO SENHOR

Assinalamos hoje o mistério do Natal, do nascimento de Jesus Cristo, nosso Salvador. [As leituras bíblicas que escutamos colocam diante de nós algumas das evidências históricas que colocam este nascimento num dado período histórico]. A alegria a que somos convidados é nuclear no mistério que celebramos. Deus assume a nossa humanidade, rompe a divisão entre criador e criatura para refazer connosco uma aliança eterna. Mas nesta aliança é o próprio Deus que se coloca como sinal visível para os nossos olhos, transbordante de um amor que desarma o nosso coração de tão simples que se apresenta. 

A vinda de Deus acontece sempre na simplicidade. Tão simples que se arriscou a ser discreto e quase sem lugar para onde nascer. Assim, foi num sítio tão pobre que ele nos nasceu. “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam”, diz-nos São João. Percebemos de facto que este é o drama de Deus: tão discreto e simples que corre o risco de não ser aceite ou acolhido. Todavia também que é sempre na simplicidade, na ternura e na humildade que Deus sempre nasce; onde há espaço e desejo de luz, Jesus irrompe 

O nosso mundo, que tantas vezes se afasta de Deus, é profundamente marcado pelo desejo da comunhão e da partilha que o natal nos traz. E assim o notamos de modo especial neste Natal, vivido num ano sofrido e despojamento para tantos, motivado pela pandemia que vivemos. Se para tantos o Natal é sinal da alegria e da esperança, muitos não sabem que esta vem de Jesus. E na tristeza de desconhecer o centro do Natal, a correria dos dias pode não dar espaço para acolher Jesus.

Celebrar o Natal é olhar de novo para o desejo do nosso Deus de vir ao nosso encontro e nos recriar, para podermos voltar a encontrar de novo a alegria de viver com Deus, num amor que excede uma mera recompensa de boas acções, para se tornar no grande dom que sustenta toda a criação.

Celebrar o Natal é querer fazer parte do grupo dos pastores, que ouve o anúncio dos anjos e se põe a caminho, partindo de onde se encontram para irem testemunhar um menino envolto em panos, nascido para ser portador da luz para todos os homens. E como o medo dos pastores se transforma em alegria que os põe em caminho, também o Natal nos coloca de forma renovada diante das dificuldades dos campos que habitamos em cada dia.

Celebrar o Natal é redescobrir uma nova capacidade de acolhimento. Se o nosso Deus não recusa entrar nos lugares mais pobres e simples para aí nascer, também não se escusará a voltar a iluminar os nossos corações e fazer-nos descobrir que somos chamados a viver como filhos de Deus. Também nós como suas imagens somos chamados a entrar na pobreza deste mundo e deixar a nossa fé ser luz para os demais. 

Celebrar o Natal é deixar que a simplicidade e ternura de Deus nos invadam e desarmem o nosso coração que tantas vezes fica enrugado no corroer do tempo para se tornar central de inteligência para a construção da paz, habituando-se a ver o mundo como Deus o vê.

Seja este Natal a ocasião de voltarmos a redescobrir na humanidade do nosso Deus a nossa própria vida, a qual quando tocada por ele pode sempre voltar a se curar. 

 

Friday, 18 December 2020

Entrega-te como Maria!

                                                   Image by Dorothée QUENNESSON from Pixabay 


DOMINGO IV DO ADVENTO


L 1 2 Sam 7, 1-5. 8b-12. 14a. 16; Sal 88 (89), 2-3. 4-5. 27 e 29
L 2 Rom 16, 25-27
Ev Lc 1, 26-38 

As leituras propostas fazem-nos olhar hoje de maneira mais especial para a figura da Virgem Maria no grande acontecimento da Anunciação. Vemos aqui toda a pedagogia divina para com Maria e como o Senhor leva ao cumprimento das promessas feitas a David, de que do Seu trono haveria de nascer um descendente que seria para Deus um Filho. 

Assim vemos o anjo, o mensageiro, que vem de Deus para anunciar a Palavra, de Deus que toma a iniciativa para estabelecer uma nova aliança. A mensagem porém não é generalista, mas bem particular e dirigida. Maria é a figura crente, que distante da antiga Eva, escuta o chamamento de Deus para bem de toda a humanidade. 

O Verbo de Deus faz-se carne por meio de Maria e naquele "sim" Deus assume a nossa humanidade. E isto acontece por graça do Espírito Santo, que é "o Senhor que dá a vida" e sempre que é acolhido produz maravilhas. Assim o é em Isabel. 

Se na antiga Eva se levantou a dúvida sobre Deus, em Maria a sua confiança abre para todos nós a porta da vida nova, da vida que supera a desconfiança e medo de Deus. Em Maria podemos aprender a responder sim a Deus, com a entrega da nossa vida, deixando-nos purificar do egoísmo e dos horizontes curtos. 

A vocação da humanidade está bem patente na atitude de Maria. Deus criou-nos para o conhecer e vivermos à sua imagem. Acolher a sua Palavra e viver a "obediência da fé" como refere São Paulo significa que nos dispomos a entrar em comunhão de vida de amor. Amor que é a origem da criação, amor que supera a nossa capacidade e que revela a nossa vida. É só pelo amor, que Maria acolhe, que Deus nos chama a todos e nos faz participantes desta relação. Amor que por ser verdadeiro não passa nem nos ultrapassa, mas que nos acompanha e nos espera. 

A vocação cristã tem sempre qualquer coisa do sim de Maria. Maria entrega-se e abandona-se a Deus por toda a humanidade; a nossa vocação, enquanto caminha na sua purificação, também é entrega pela mesma humanidade. E na entrega que faz, sintoniza a mesma frequência de Deus. 

Friday, 11 December 2020

«João é a voz, Cristo a Palavra» Santo Agostinho



DOMINGO III DO ADVENTO


L 1 Is 61, 1-2a. 10-11; Sal Lc 1, 46b-48. 49-50. 53-54
L 2 1 Tes 5, 16-24
Ev Jo 1, 6-8. 19-28 

A Igreja convida-nos a viver o tempo de advento na lógica da expectativa, preparando a nossa vida para reconhecer a Deus que vem. O profeta Isaías fala muitas vezes do Messias como o redentor, ou seja aquele que vem libertar. 

O Evangelho deste Domingo faz-nos olhar para a figura de João Baptista que se apresenta como uma voz que clama no Deserto, retomando as palavras do profeta Isaías. Ele é o Precursor, aquele que levanta a sua voz para clamar que cada um se prepare para a vinda do Senhor. O apelo de João é claro: mudar de vida para que se tornar mais atento a Deus que vem. 

A este propósito dizia Santo Agostinho que João era a voz, mas Cristo é a Palavra. E de facto, o grande caminho que podemos fazer neste tempo é descobrir em nós, pela voz de todos os anunciadores, que Cristo habita em cada um. Cristo é aquele que revela a nossa verdadeira identidade: somos criados à imagem e semelhança de Deus, ou seja, vocacionados para viver no amor, realidade que se concretiza na nossa condição de Filhos de Deus. 

Preparar o caminho do Senhor não apenas por isso mudar alguns comportamentos morais, embora isso seja importante. É reconhecer que a vida cristã abarca toda a nossa existência e que Deus deseja contruir connosco uma aliança de relação. É deste núcleo fundamental, que não vem de fora, mas que nasce de dentro, que ressoa o apelo de João, para descobrir a verdade. 

Esta verdade não nos oprime por uma crueldade, embora se vivam situações tão difíceis, mas é uma verdade que liberta e por isso traz alegria. Na tradição, este domingo é chamado da alegria, precisamente por que se alegra com a vinda, ou se quisermos, com a redescoberta de Deus que nos ama e vem ao nosso encontro. 

Oxalá os nossos caminhos se endireitem para um encontro mais autêntico com Deus e daí com os irmãos. Talvez possamos cantar com os irmãos de Taizé: "Dans nos obscurités, allume le feu qui ne s'éteint jamais" [https://youtu.be/pfin1W0v7Ts]

Monday, 7 December 2020

Maria: santidade sincera, confiante e proactiva.




IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA,

L 1 Gen 3, 9-15. 20; Sal 97, 1. 2-3ab. 3cd-4
L 2 Ef 1, 3-6.11-12
Ev Lc 1, 26-38

Maria é a figura da Igreja diz o Vaticano II. Nela podemos ver a nossa verdadeira imagem de humanidade que se entrega a Deus sem limites de coração. É o contraponto à figura da primeira Eva, a qual foi enganada pela serpente , juntamente com Adão, para ver no Deus criador um rival e mesquinho cioso de uma sabedoria. Entra a lógica da desconfiança que perverte o amor que unia criador e criatura, e que unia homem e mulher. 

Maria é a antítese disto. Ela é cheia de graça, escolhida por Deus desde o início para ser a mãe do nosso redentor; por isso é causa da nossa alegria. Em Maria vemos que santidade é possível para a nossa humanidade, e não só não nos tira nada, como nos abre. 

Em Maria vemos uma santidade sincera, confiante e proactiva, atitudes que nos podem ajudar hoje a caminhar na santidade. 

Santidade Sincera. Em Maria a santidade não é feita de esquemas que se repetem para assegurar uma salvação. Maria é sincera; ela perturba-se quando ouve a saudação do anjo, pergunta ao anjo o que não percebe sem todavia se deixar cair na dúvida. A sinceridade de Maria mostra a atitude de crente própria de uma criança que não tem medo de perguntar para tentar saber mais sem esquemas para tentar fugir. Veremos que será assim em toda a sua vida; tantas vezes a nossa arranja esquemas e subterfúgios diante de Deus. 

Santidade Confiante. Maria pergunta e tenta alcançar a acção de Deus; e quando compreende o que lhe é pedido confia. E confia porque sabe que a "sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem". Tão distante está dos primeiros pais que se escondem porque descobrem a sua fragilidade. Olhar para Maria é reconhecer que Ela é sinal de que o Todo-Poderoso faz maravilhas em quem nele confia. 

Santidade Proactiva. Ser santo não significa ser passívo, mas proactivo. A Lumen Gentium refere que «Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens.» Vemo-lo na sua vida, na solicitude pela sua prima Isabel, mas também no acompanhar do emergir da Igreja. Do mesmo modo, hoje Maria acompanha a Igreja no seu peregrinar e não nos abandona, respondendo fielmente ao chamamento do seu filho na cruz para ser nossa Mãe. 

Que a nossa vida se deixe acompanhar pelo testemunho e amor de Maria no serviço a Deus e ao próximo. 

Saturday, 5 December 2020

Preparemos a recepção do Senhor



DOMINGO II DO ADVENTO


L 1 Is 40, 1-5. 9-11; Sal 84 (85), 9ab-10. 11-12. 13-14
L 2 2 Pedro 3, 8-14
Ev Mc 1, 1-8

As leituras deste Domingo voltam o nosso olhar para a figura do Precursor, de João Baptista, que se apresenta como aquele que clama no deserto para se prepararem os caminhos do Senhor. Deserto, bem o sabemos na linguagem bíblica, é sempre sinal de purificação, de retornar ao essencial, de reconhecer a nossa fragilidade. É também o local de nos despojarmos do que é excessivo e não faz parte de nós. 

É com este fundo que entendemos a missão de João Baptista, que embora no seu exagerado ascetismo, se apresenta como sinal e meio para a purificação de vida e confissão dos pecados, a carga que mais torna pesada a vida e coração e bloqueia os sentidos para reconhecer o outro. Pecado é tudo aquilo que bloqueia o nosso coração para amar e o fecha no seu egoísmo. Os mandamentos são as indicações mais para evitar praticar o mal, mas o Senhor quer a entrega sincera da vida. 

A missão de João é apenas o pôrtico do grande tesouro que Deus nos promete: João baptiza com água; o que há-de vir baptizará com o Espírito Santo; de facto, reconhecer o pecado não significa passar logo a viver na lógica de Filho. Esta é a lógica do dom, do Filho que vem comunicar o amor do Pai pelo Espírito Santo em cada um. 

Assim também, o nosso olhar não se fica apenas no cumprimento de um penitência exterior, qual cumprimento de uma pena para livrar de um castigo. Não. O olhar do crente levanta-se para a comunhão relacional com Deus e com os irmãos, na expectativa do grande encontro com o Senhor Ressuscitado. É por isso, que a nossa vida só se realiza quando entra em comunhão; o nosso coração espera profundamente o amor absoluto e permanente, no qual só em Deus se realiza. 

O advento é tempo de expectativa, de reconhecer que temos um salvador, que se apresenta frágil, simples e dependente. Se é certo que esperamos a sua vinda gloriosa, a sua humanidade esconde e revela este desejo de Deus de se fazer próximo de nós. É assim o nosso Deus: Ele faz-se próximo. A maior tristeza que nos poderia suceder era não nos deixarmos curar das nossas cegueiras e corações insensíveis para o reconhecer como a fonte da nossa vida e a nossa meta. Procuremos endireitar os caminhos da nossa vida. Deixemos o nosso coração receber a luz de Deus, removendo as sombras que o escurecem.