Saturday, 19 November 2022

O desejo da entrega de Cristo por nós



DOMINGO XXXIV DO TEMPO COMUM

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO

L1: 2 Sam 5, 1-3; Sal 121 (122), 1-2. 3-4a. 4b-5
L2: Col 1, 12-20
Ev: Lc 23, 35-43 


Este Domingo final do ano litúrgico volta o olhar para a Solenidade de Cristo-Rei, comemoração promulgada pelo Papa Pio XI, em 1925, para convidar a um renovado testemunho cristão num mundo em turbulência e desnorte, e que acabaria por levar a uma segunda Guerra Mundial. 

A soberania de Jesus é muito distinta da soberania dos totalitarismos de então vigentes, o que acaba por gerar uma nova forma de discipulado e de vida. 

Duas notas são fundamentais na vivência da soberania no mundo bíblico, e que podemos ler na primeira leitura. Esta apresenta-nos a coroação do rei David, onde podemos reconhecer em primeiro lugar o reconhecimento de David da proximidade ao seu Povo "nós somos dos teus ossos e da tua carne"; em segundo está o reconhecimento que o poder que este tem é recebido de Deus, o que o torna administrador e não dono. Assim, o soberano, o líder, recebe uma missão de Deus, a qual lhe pede fidelidade e comunhão para louvar a Deus e servir o Povo. 

Cristo é o Rei que se revela, mas apresenta a sua soberania intimamente ligada à cruz. Toda a sua vida converge para a entrega na cruz, onde o Senhor se apresenta como Rei que não se salva a si mesmo, mas os outros. No meio de todas as lutas, de toda a injustiça, Cristo assume toda essa realidade. Afastando-se da tentação "do salva-te a ti mesmo", Cristo salva-nos a todos, ao se entregar por nós. É esta a realidade que o "bom ladrão" reconhece e se deixa converter pela bondade e perdão de Deus que brota da cruz. É esta a bondade que tem a força de mudar os corações. 

Esta imagética da cruz como local de exponente do amor de Cristo foi revertido para alguma imagética como Cristo sorridente, que podemos encontrar no Antigo Convento de Cristo, em Aveiro (actual Museu Municipal), quer em Xavier, Espanha ou em Lérins, França, cuja imagem é aqui apresentada. 

Esta imagem, que traduz da parte do artista uma experiência radical do amor de Deus, convida-nos a uma acção de graças como nos recordava a leitura da carta aos Colossensses. É em Cristo que encontramos a vida, que somos perdoados. Por isso, somos chamados a viver por Ele e para Ele. Por Ele, ao deixarmo-nos transformar na força da misericórdia; para Ele, procurando conduzir e torna-lo presente com a nossa acção. É este o caminho em que a eucaristia dominical permanece viva em cada dia. É assim que Cristo pode reinar nas nossas vidas e sociedade. 

Friday, 11 November 2022

Deus que nos chama em cada dia




DOMINGO XXXIII DO TEMPO COMUM



L1: Mal 3, 19-20a; Sal 97 (98), 5-6. 7-8. 9
L2: 2 Tes 3, 7-12
Ev: Lc 21, 5-19

Na nossa tradição Cristã, o dia do Senhor é o Domingo, o qual, para nós cristãos, é o dia que assinala a ressurreição de Cristo. O Domingo é o dia  central de todo o ano litúrgico, onde semana após semana, somos chamados a nos alimentarmos de Cristo ressuscitado presente na Eucaristia. 

A liturgia deste Domingo inicia com a profecia de Malaquias, que nos apresenta o dia do Senhor com o acento de uma manifestação forte do nosso Deus. Para nós cristãos este Sol de Justiça é Cristo, que vem revelar o coração de todos. Todavia, não podemos, no contexto da revelação Cristã, de salientar a última vinda de Cristo, onde nos encontraremos face a face com Deus. No fim da vida vida terrena, seremos julgados no e pelo amor, pela forma como deixamos que a nossa existência fosse ou não cada vez mais transparência de Deus. Assim, a esperança futura norteia a nossa existência e acção desde já!

Esta consciência é especialmente sublinhada na segunda leitura, onde São Paulo encontra alguns entre a comunidade cristã de Tessalónica, que dada a suposta eminência da vinda de Cristo se alheiam de um trabalho comprometido, ocupando-se em futilidades. Importante lição de Paulo, que nos recorda que a atividade humana se dirige em função dos outros, o que reveste o trabalho humano de singular dignidade. 

O Evangelho retoma a consciência da vinda de Cristo, mas alerta para os cristãos não se deixarem encher de medo pelas contrariedades. Antes de tudo existe a vida de todos os dias, onde somos chamados a dar testemunho de Cristo para além de todos os terramotos, guerras e perseguições nos toquem. No meio das lutas o que permanece é o bem e o amor de Deus, que nos fazem caminhar. 

No nosso tempo - como em todos os tempos - coexistem duas atitudes diametralmente opostas: ou a procura pela revelação de eventos extremos ou a ideia de um relativismo, em que tudo vale. O nosso testemunho, sustentado pela graça de Deus, é o caminho onde antes de mais enfrentamos os males e nos é dada a oportunidade como dom de testemunharmos o amor de Deus. Saibamos responder com largueza de coração a Deus que nos chama em cada dia.