Saturday, 29 August 2020

Só quem dá a vida, a vive realmente!

 


DOMINGO XXII DO TEMPO COMUM


L 1 Jer 20, 7-9; Sal 62 (63), 2. 3-4. 5-6. 8-9
L 2 Rom 12, 1-2
Ev Mt 16, 21-27


As leituras deste Domingo colocam diante de nós que o seguimento de Deus não significa a ausência do sofrimento. Aliás, este parece acompanhar a nossa condição. Todavia, na fé, o sofrimento é realidade que acompanha o seguimento de Cristo. 

A leitura de Jeremias parece relatar este dinamismo, em que o profeta se vê em constantes perseguições causadas pelo anúncio da Palavra de Deus, que expõe os interesses mesquinhos dos homens. A tentação de Jeremias é bem real e actual: diante das dificuldades, este vê-se tentado a abandonar tudo, a renegar a missão em favor do seu bem-estar, deixando as multidões e o povo à sua sorte e à força do pecado. Mas o profeta não o consegue, pois o fogo que arde dentro dele, a força da Palavra e do Amor divino experimentado superam a dor da dificuldade. O resultado é claro: Jeremias é um homem dividido interiormente entre as perseguições vividas e sofridas e a atração de viver o grande amor de Deus por ele e pelo Seu Povo. Sinal claro de que o amor de Deus e a força do bem jamais poderão ser silenciadas na alma humana!

O evangelho, em continuação da semana passada, coloca diante de nós a revelação de Jesus sobre si e a sua missão e o choque que daí resulta com os discípulos. Vemos que enquanto Pedro dizia a resposta certa, não percebia o que dizia, ao pensar ele nas categorias de um Messias conquistador e guerreiro. 

Longe disto, Jesus aponta o caminho da sua missão como Servo Sofredor. Em Jesus, Deus revela que a sua Omnipotência se traduz em amar sem limites a humanidade, em que o Filho, assumindo a culpa do Povo, coloca a humanidade no seio de Deus. A cruz, de símbolo de morte torna-se em símbolo de irradiação da glória, revelação segura da identidade de Deus, e critério de revisão da forma como vivemos o seguimento de Cristo. Só quem dá a vida, a vive realmente!

Nesta fase, os discípulos de Jesus ainda não vêem a cruz como caminho de felicidade e não alcançam a entrega de Jesus. Por isso, Jesus diz a Pedro literalmente "coloca-te atrás de mim", ou seja, "sê meu discípulo", tal como havia dito no momento em que os tinha chamado junto do mar de Tiberíades, para o seguirem e serem pescadores de homens. 

É natural que a cruz nos assuste, mas só a vida vivida na consciência de uma entrega aceita morrer, pois sabe que há-de ressuscitar. É aqui que se joga a questão da imagem de Deus que cada um de nós tem. Para lá de uma aparente omnipotência divina, capaz de todos os poderes, Jesus Cristo permanece como a imagem do Pai, que ama sem limites; como aquele que segue à nossa frente e que nos guia e ensina o caminho da vida; como o bom Messias e bom Pastor, cuja tarefa principal é cuidar sempre do Povo e dar vida àqueles que o seguem. 

Oxalá saibamos renovar sempre a nossa inteligência para melhor conhecer o nosso Deus. Este é o único caminho capaz de renovar a humanidade e a nossa Igreja. 

Friday, 21 August 2020

Sempre ligados

 

DOMINGO XXI DO TEMPO COMUM


L 1 Is 22, 19-23; Sal 137 (138), 1-2a. 2bc-3. 6 e 8bc
L 2 Rom 11, 33-36
Ev Mt 16, 13-20


Um dos aspectos que mais caracteriza a nossa sociedade hoje é o nosso grau elevado de informação e ligação virtual. Conseguimos estar sempre ligados, mas ainda assim, não é esta a ligação que nos sacia. São vários os autores que já refletiram sobre esta permanente ligação, a qual não consegue satisfazer a necessidade humana de comunhão e intimidade. 

A liturgia deste domingo coloca-nos diante de uma ligação, a qual não tem iniciativa humana, mas divina. Assim o vemos no livro do profeta Isaías, em que Deus chama Eliacim, para lhe dar o poder de governo, ou seja de cuidar do povo como um pai cuida de um filho, possuindo as chaves para abrir e fechar. E claro, as chaves são símbolo do poder, que só se torna real quando faz emergir e criar condições para a vida florescer; quando tudo controla, tudo esteriliza. 

É no grande quadro do amor divino, grande fonte e meta da nossa vida, que se pode entender o evangelho que é proposto. 

Jesus chama os discípulos, no meio de uma cidade circundada por pagãos, ou seja, não-judeus, e lhes pergunta sobre o que dizem de quem é Ele. É claro, os discípulos indicam que as multidões recorrem-se à imagética do passado para descrever a novidade, sendo Jesus novo Elias ou novo Jeremias. Mas é Pedro, sempre ele o primeiro, que coloca Jesus como Messias. Resposta certa de Pedro, revelada por Deus e que traduz uma missão específica: cuidar da Igreja de Cristo. Jesus alegra-se ao ver que o Pai trabalha e revela em Pedro a intimidade da vida divina, ainda que o próprio Pedro, não saiba e julgue mal o alcance daquilo que professa: ao Messias da força, Jesus vai-se colocar como servo e sofredor, para levar até ao fim o sinal do amor divino. Também na nossa vida: a nossa incapacidade não é obstáculo para Deus. 

A Igreja recebe deste chamamento a Pedro daqui também a sua identidade. Em primeiro lugar, há alguém que tem a missão de confirmar na fé os irmãos, isto é, apontar e revelar o amor de Deus pela humanidade; a Igreja é realidade pessoal, só depois institucional e hierárquica. Em segundo lugar, é claro que a Igreja tem a missão de ser local de acolhimento como realidade testemunhal, em que todos podem ter o seu lugar; é a Igreja que tem a missão, de em nome de Deus, voltar a ligar a humanidade com o Pai, o qual acontece apenas na pessoa de Jesus.

Mas a pergunta de Jesus permanece como uma das mais marcantes, agora também no nosso tempo sempre ligado, e que nos tem a missão de alargar os horizontes: "E vós, quem dizeis que eu sou?"

Saturday, 15 August 2020

Deus sem classes

 

DOMINGO XX DO TEMPO COMUM


L 1 Is 56, 1. 6-7; Sal 66 (67), 2-3. 5. 6 e 8
L 2 Rom 11, 13-15. 29-32
Ev Mt 15, 21-28

O nosso Deus não faz classes entre a humanidade. Todos somos criados à Sua imagem e semelhança e por isso iguais em dignidade. Por isso, Nele também a retórica da classe cai por terra. 

As leituras deste domingo permitem-nos compreender isto melhor. O universalismo do profeta Isaías  pretende mostrar que Deus, no seu templo, tem lugar para todos e todos o podem conhecer e amar. Todos têm espaço nesta casa, pois todos caminhamos para o encontro definitivo com Deus. Esta consciência foi e é fundamental no reconhecimento dos direitos naturais de todos os homens e mulheres, indepedentemente da sua origem, crença ou estado. Esta consciência fundamental permite afirmar que todos temos dignidade, acima de todas as capacidades e acções. Mas isto, como é óbvio, não anula, como também se pode depreender da leitura do profeta Isaías, que o carácter e a responsabilidade dependem das escolhas e acções do indivíduo. 

A fé não é uma questão de classe, mas de graça. Nasce da consciência de que somos escolhidos e chamados por Deus. A fé é por isso abertura e confiança na força da Verdade e do Bem mesmo no meio das contrariedades que surgem diante de nós. Concretiza-se na força do amor que deseja o bem para com aqueles que se amam. Assim nos mostra o Evangelho deste domingo, em que Jesus, regra geral sempre misericordioso para com os mais pobres e sofredores, parece rejeitar a mulher cananeia. Esta torna-se ocasião de revelar a força da fé que nasce de um amor maior e confiança de que Deus não abandona aqueles que Dele se aproximam. De facto, o baptismo dos cristãos tem a missão de os capacitar para serem testemunhas e servidores da dignidade humana.

Deus não diferencia a humanidade que Ele criou. Nós é que precisamos de escolher o verdadeiro Deus na nossa vida.   

Friday, 14 August 2020

Mistério da lua


ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA


L 1 Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sal 44 (45), 10. 11. 12. 16
L 2 1 Cor 15, 20-27
Ev Lc 1, 39-56


A lua é o nosso satélite natural cuja luz não lhe é própria, mas reflecte a que recebe do sol. Esta imagem foi na tradição da Igreja muitas vezes escolhida para se olhar para a vida da Virgem Maria. Ela é apenas humana, mas a sua vida é reflexo da vida divina, ou seja, sinal para nós do que significa a comunhão com Deus. E que também daqui se percebeu o mistério da Igreja, como refere o Concílio Vaticano II. 

A celebração desta solenidade coloca-nos diante do cumprimento na nossa humanidade da salvação prometida. Maria, Mãe de Deus, acolhe a palavra e confia, melhor, confia-se totalmente. Ela entende a sua vida na profunda comunhão com a sua origem e coloca a sua esperança na história de salvação que Deus constrói com a humanidade. É por isso que ela tantas vezes designada como Arca da Aliança, Porta do Templo, e demais alusões a ser a entrada para a comunhão com o Seu Filho Jesus. Por isso, a Virgem Maria pôrtico para a vida da fé. 

Nela vemos a caridade jubilosa, que atravessa os montes, como o mensageiro da paz que caminha sobre os montes; nela vemos, a alegria realista de quem vive na comunhão com Deus e que reconhece que a sua soberania está em todos os avessos da história; nela percebemos que a verdade, o bem e a beleza serão sempre mais fortes. O seu anúncio, sempre discreto, é feito com a vida na caridade partilhada e activa. 

Neste dia celebramos também a esperança a que somos chamados. Marcados com a morte de Cristo pelo Baptismo, somos todos chamados à ressurreição em Cristo, realidade total da nossa existência. Se Cristo nos abre o caminho, Maria, assim acreditamos, pelo seu especial lugar como mãe de Deus, também já participa totalmente da vida divina. Mas isto não significa que se fugiu do mundo; muito antes pelo contrário; agora é a nossa humanidade que já participa também da plenitude de Deus, presença e comunhão a que todos somos chamados, lugar de amor sem limites e de entrega. 

É este o reflexo de Maria: Ela só nos pode mostrar o Seu Filho Jesus, na vida vivida até ao fim em comunhão.  



Saturday, 8 August 2020

A noite é mais escura antes do amanhecer

 

DOMINGO XIX DO TEMPO COMUM


L 1 1 Reis 19, 9a. 11-13a; Sal 84 (85), 9ab-10. 11-12. 13-14
L 2 Rom 9, 1-5
Ev Mt 14, 22-33


Dizem alguns que a noite é mais escura nos momentos imediatamente antes do amanhecer.  Creio que este um bom resumo das leituras deste Domingo.

Assim o vemos no profeta Elias que fugindo da perseguição procura o lugar fundamental da fé hebreia, lugar onde Deus fez a aliança com o seu Povo. Mas, como em cada encontro verdadeiro encontro humano, também com Deus cada momento é único. Assim o vemos nas manifestações que acontecem - o vento, o terramoto e o fogo - tudo sinais que antes anunciaram a presença de Deus e que agora não são habitados. É na novidade da brisa, sinal que Elias precisava, que agora o Senhor se revela como novidade e fortalece a fé e missão do profeta. 

É na noite mais escura - a quarta vigília da noite, ou seja entre as 3 e as 6 da manhã - que Jesus vai ter com a barca dos discípulos, caminhando sobre o mar - sinal do mal. No meio da escuridão estão os discípulos, fustigados pelo vento, cansados numa barca sem o Mestre. Assim fica a Igreja quando Cristo não está presente. Mas Cristo não escolhe os momentos ideais para aparecer. Surge sempre, mesmo nos momentos mais duros, para nos convidar a andar sobre as águas turbulentas, confiados na sua palavra e segurados na sua misericórdia. Mesmo com dúvidas e sem sequer dominar o que se vive.

Cristo é a luz que guia a barca da Igreja e os cristãos nos momentos mais sombrios, em que as suas palavras são farol para ajudar a discernir o bem do mal. 

São impressionantes as palavras de Paulo que vêm confirmar esta vontade divina: aceitar ficar como anátema se isso levasse a que o seu povo se convertesse a Cristo. Mas algo semelhante já se passou com cada um de nós.  O certo é que Cristo se assemelhou ao pecado para que nós voltássemos para Deus, para que nós pudéssemos entrar na barca e não ficássemos apenas na noite escura. Não tenhamos medo de entrar.