Saturday, 28 May 2022

Olhos no céus e pés na terra


ASCENSÃO DO SENHOR – SOLENIDADE


L1: At 1, 1-11; Sal 46 (47), 2-3. 6-7. 8-9
L2: Ef 1, 17-23 ou Hebr 9, 24-28; 10, 19-23
Ev: Lc 24, 46-53 

A liturgia deste Domingo coloca diante de nós uma dupla narração lucana, em que lemos o texto do evangelho e o texto dos Actos do mesmo autor. A escrita deste relato não é, nem pretende ser neutra, mas levar ao reconhecimento de Jesus como Messias Misericordioso de Deus. 

Vemos neste relato do Evangelho uma narrativa que volta a associar a paixão e a ressurreição de Cristo, mas que agora lhe acrescenta a necessidade do anúncio do arrependimento e o perdão dos pecados, como elemento novo. Traduz para nós um aspecto essencial da libertação que Jesus opera, a de libertar das correntes que impedem de amar. 

Esta missão coloca-se-nos com dois olhares nesta liturgia. No Evangelho vemos uma Igreja que acolhe a benção e louva o Senhor na expectativa da vinda do Espírito, enquanto retorna a Jerusalém. No livro dos Actos, são mesmo os homens vestidos de branco que enviam os apóstolos, de volta a Jerusalém, para acolherem o Espírito Santo. Mas quer um texto quer outro anunciam a missão como universal, de um Deus que não se restringe a um Povo, mas impele, com a força do Espírito Santo, a nossa vida a comunicar aos outros a mais importante notícia. 

A Ascensão, em que celebramos o modo como a nossa humanidade entra no Mistério de Deus, é sinal para nós da nossa meta: a plena comunhão com Deus. Esta Esperança de Amor norteia a nossa vida para um testemunho que chama a nos desinstalarmos para sair de encontro de todos os que precisam de conhecer o anúncio do perdão e da liberdade de Cristo. 


Saturday, 21 May 2022

A paz que só Deus dá




DOMINGO VI DA PÁSCOA


L1: At 15, 1-2. 22-29; Sal 66 (67), 2-3. 5. 6 e 8
L2: Ap 21, 10-14. 22-23 ou Ap 22, 12-14. 16-17. 20
Ev: Jo 14, 23-29 ou Jo 17, 20-26 

A liturgia deste Domingo, no VI Domingo da Páscoa, traz até nós alguns dinamismos da vida da Igreja e sobretudo da presença dos cristãos no mundo. 

A primeira leitura coloca diante de nós um dos primeiros problemas com a comunidade cristã se deparou: a necessidade de manter a prática da antiga aliança da circuncisão. Este problema resolvido sem pressas humanas, é levado à reflexão dos apóstolos, e mediante a comunhão entre todos e com a luz do Espírito Santo, se indica que na nova aliança de Cristo, a antiga prática já não se aplica tal como era; o próprio Paulo exortará mais tarde que a circuncisão agora é a do nosso coração. 

Mas é também significativo nesta leitura como existe a consciência entre todas as Igrejas da fraternidade. É assim que os apóstolos tratam os cristãos de Antioquia, como irmãos. Esta consciência nasce do dom de Cristo na força do Espírito Santo pelo mesmo baptismo. Os cristãos - e todos os que vivem de acordo com a recta consciência - pertencem por isso à mesma cidade, como nos lembra o livro do Apocalipse, onde Deus é a luz e o Cordeiro é a sua lâmpada, ou seja, o meio pelo qual a luz nos chega. 

Esta luz é o amor de Deus, que habita nos nossos corações, pelo Espírito Santo. É Ele que reza em nós e nos traz a paz e a alegria. A paz e a alegria do Espírito são diferentes das do mundo; estas não passam nem alienam de nós nem dos outros, porque estão cheias de amor de Deus. Estas também não têm apenas origem em nós; são-nos dadas e fazem-nos verdadeiros filhos de Deus, frágeis, mas muito amados. 

Friday, 13 May 2022

Como eu vos amei




DOMINGO V DA PÁSCOA


L1: At 14, 21b-27; Sal 144 (145), 8-9. 10-11. 12-13ab
L2: Ap 21, 1-5a
Ev: Jo 13, 31-33a. 34-35


"Só o amor é digno de fé" escrevia um teólogo. Penso que este consciência está intimamente ligada com as leituras que a liturgia coloca diante de nós neste Domingo. De facto, só o amor recebido de Deus e assumido na vida dos apóstolos Paulo e Barnabé permitem compreender a sua entrega de vida, no meio das dificuldades para anunciar a Palavra de Deus e gastarem a sua vida no ensino a todos aqueles que esperam ouvir falar de Deus. É este amor que convoca a comunidade com quem eles partilham a sua notícia, as suas acções e alegrias. 

Este amor orienta a vida dos crentes para uma meta nova a nova Jerusalém, onde não se trata de subir ao céu, qual torre de Babel, mas antes é Deus que faz a sua morada definitiva com os homens e os livra da opressão. Esta esperança de transformação de vida é a de que o amor e a vida são mais fortes que a morte. 

No núcleo do Evangelho bate um coração novo: o coração novo, que proclama um mandamento novo: "amai-vos como eu vos amei"; assim o nosso amor é medido não a partir de nós, mas da entrega de Cristo que se dá totalmente pelos outros. É este amor que desinstala e faz mover os corações empedernidos; este amor sem limites como o Cristo, que coloca o amor como o elemento central da identidade cristã. Assim, no centro da acção cristã não apenas uma busca de perfeccionismo, ou muito menos a busca pelo bem-estar; está o amor, onde se joga a salvação, não só a minha, mas a dos outros. 

Mas talvez a mais importante e relevante experiência está mesmo na fé de acreditar que o Senhor está vivo e o seu amor por nós é uma realidade que não podemos esconder; se assim for, a nossa boca poderá como o salmista proclamar para sempre o nome do Senhor. 

Saturday, 7 May 2022

Cristo Pastor: Palavra, Vida e Pertença




DOMINGO IV DA PÁSCOA


L1: At 13, 14. 43-52; Sal 99 (100), 2. 3. 5
L2: Ap 7, 9. 14b-17
Ev: Jo 10, 27-30 


Celebramos o IV Domingo da Páscoa fazendo memória de Cristo Bom Pastor, e em união com toda a Igreja na oração pelas vocações. 

As leituras deste Domingo podem fazer-nos remeter para três dinâmicas essenciais da ida da Igreja. A primeira é a Palavra. Ouvimos como os gentios se alegravam com o anúncio da salvação que era dirigido, o qual chega até nós e por isso nos faz a faz participantes. Os Apóstolos não se detêm no status quo, mas exortam a todos aqueles que encontram o grande anúncio de Cristo como salvador. E enquanto se deparam com a resistência dos judeus que encontraram, os gentios percebem-se chamados a abraçar a Palavra que os faz introduzir numa nova forma de Vida. 

E a Vida, segunda Palavra que sublinhamos hoje, é a vida de Filhos de Deus. É a vida de todos aqueles que se reconhecem chamados por Cristo e por isso purificam as suas túnicas brancas no Sangue do Cordeiro; é Ele que que nos purifica e sustenta em todas as tribulações. Vemos aqui como "todos os povos" encontram em Cristo o seu modelo de vida. 

É o Cordeiro que se entrega, Cristo, que se torna pastor e nos conduz no dom do Espírito Santo a uma vida maior. Ele conhece-nos, ou seja, sabe o que habita no nosso coração, as suas grandezas e enfermidades, amores e desamores. É Ele, como dizia Santo Agostinho, mais interior a cada um que o próprio, que nos enche da sua consolação e não nos abandona. E por isso, a terceira palavra é a pertença; pelo Seu amor por nós, pertencemos a Ele e aos nossos irmãos na fé. 

Palavra, Vida e Pertença são três realidades fundamentais na vida de cada vocação: Palavra que revela o amor, a Vida que nos é dada e a pertença como ocasião para entregar a vida. Rezemos pelas vocações, que são sinal da vida de Deus para e Igreja e para o mundo.