Thursday, 31 December 2020

Abençoados por Deus

Photo by Polina Zimmerman from Pexels


SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – SOLENIDADE

L 1 Num 6, 22-27; Sal 66 (67), 2-3. 5-6 e 8
L 2 Gal 4, 4-7
Ev Lc 2, 16-21

Um ano ano se inicia, nesta data em que se celebra o oitavo dia da Solenidade do Natal e que dedicamos à festa de Santa Maria, Mãe de Deus, dogma proclamado no concílio de Éfeso. Também neste dia S. Paulo VI, dedicou, em 1967, o primeiro dia do ano como dia mundial da paz. 

A bênção araónica que ouvimos neste dia do livro dos números é, segundo os estudiosos, é o mais antigo manuscrito do século VII a. C. encontrado até hoje em placas de metal, o que retrata a sua importância. Este texto invoca o Senhor como Deus que ama o seu povo, para que o proteja, o abençoe, olhe para o seu povo, o acompanhe e lhe dê a paz. O sentido profundamente religioso deste texto está carregado da consciência da fé de que o Deus de Israel é um Deus próximo. Era apenas no uso deste texto que o sacerdote do templo antigo podia invocar o nome de Deus para abençoar o Povo. 

A maior bênção de Deus é-nos dado em Filho, feito homem para nós, do qual recebemos a maior graça: Deus faz-nos seus filhos adoptivos e revela-nos a grandeza do seu amor por nós. 

Olhamos para Maria neste dia e vemos nela a grande figura deste dia. Vemos nela aquela que acolhe a bênção e dá ao mundo o Filho de Deus. Ela é modelo de acolhimento e de cuidado para a humanidade. Ela escuta, ouve e guarda no seu coração (symballousa=dialogando dentro de si)   tudo o que vai acontecendo. Não se trata de mera beatice; um coração purificado por Deus procura guardar a acção de Deus que passa nas nossas vidas, por perceber que Deus só pode abençoar. Maria é aquela que estando tão descentrada de si se entrega totalmente. 

O Papa Francisco na mensagem que escreveu para o dia mundial da paz vem lembrar-nos da nossa necessidade de nos tornarmos numa sociedade de cuidado. A nossa sociedade tantas vezes indiferente e medrosa necessita da nossa conversão, da conversão de todos os cristãos à semelhança de Maria para se abrir e guardar tudo o Deus vai fazendo. Sem isso, os nossos dias hão-de passar a correr dos dias, no rebuliço imenso da vida, podendo ficar surdos à voz de Deus que nos abençoa. Não é pela força da moral apenas que o nosso coração se alarga, mas pelo reconhecimento do dom imenso de Deus que nos faz mais semelhantes a si no seu amor: é por isso que devemos cuidar da espiritualidade na nossa vida. 

Que a bênção de Deus nos alargue as fronteiras do nosso coração para darmos lugar à paz que só Ele pode trazer. Como nos diz S. Leão Magno: «É a paz que gera os filhos de Deus, alimenta o amor e cria a unidade. Ela é o repouso dos santos e a mansão da eternidade. E o fruto próprio desta paz é unir a Deus os que separa do mundo.»


Para partilha [https://www.youtube.com/watch?v=xW4YB6fVvJo]

Saturday, 26 December 2020

Ser família à imagem de Deus

    Image by Andreas Böhm from Pixabay 



DOMINGO dentro da Oitava do Natal

Sagrada Família de Jesus, Maria e José – FESTA

L 1 Sir 3, 3-7. 14-17a (gr. 2-6. 12-14); Sal 127 (128), 1-2. 3. 4-5
L 2 Col 3, 12-21
Ev Lc 2, 22-40 ou Lc 2, 22. 39-40 

Celebrar o mistério do Natal é celebrar o facto de que o nosso Deus assume toda a nossa humanidade em todos os seus aspectos para a elevar e redimir. Assim o vemos na vida da Sagrada Família. 

Jesus cresce numa família, a qual é sempre configuradora da pessoa humana pelo amor vivido e partilhado. Mas no centro da Sagrada Família está a acção de Deus. É neste contexto que vemos a consagração de Jesus a Deus, como era todo o primogénito varão em Israel. Mas logo se percebe nesta celebração ritual nada haveria de habitual. Ambos Simeão e Ana se alegram com este menino, pois Ele é o sinal de que Deus não desiste da humanidade e leva a sua misericórdia até ao fim. Um olhar de fé sempre vê em Jesus um sinal de esperança para a nossa humanidade. 

Tal como a Sagrada família, as nossas famílias vivem na sintonia da misericórdia divina quando o são à semelhança da Santíssima Trindade. As leituras deste domingo ajudam a identificar alguns destes pontos: 

1. O amor partilhado nos esposos que se entregam totalmente um ao outro para constituírem uma só carne, ou seja, uma forma de vida única, marcada pela comunhão e entrega de vida. Bem sabemos que no nosso mundo que o matrimónio está em crise, numa sociedade em correria constante, com lares desfeitos e tentativas de equiparar outras formas de vida à família tradicional. Todavia a a fé mostra-nos que é do amor fecundo entre homem e mulher que a sociedade cresce e participa do poder criador de Deus. Celebrar o Matrimónio não significa apenas estabelecer um pacto ou assinar um papel, mas criar uma relação abençoada por Deus que une os esposos para partilharem juntos a vida. E onde se acolhe a benção de Deus, a vida multiplica-se. 

2. O livro da Sabedoria falava em honrar pai e mãe. Fazê-lo é sinal de uma geração que transmite e acolhe os acontecimentos mais importantes da nossa identidade. É reconhecer que a missão da educação é tarefa que pertence em primeiro lugar à família, que é ela que tem a missão de fazer crescer em graça cada filho. Educar não é impor; educar e formar é ajudar a emergir e dar forma ao bem que Deus coloca em cada um, mediante uma relação de amor. Só no amor se pode educar, como só no amor se pode verdadeiramente obedecer. 

3. O cuidado é também sinal essencial em cada família. Esta é espaço onde o amor se concretiza em cuidado pelos demais, sobretudo nos momentos mais frágeis da vida, onde o cuidar, sendo tantas vezes difícil, é também fecundo de um amor que se leva até ao fim. 

4. A família é escola de amor, mediante os valores da «bondade, humildade, mansidão e paciência» como nos diz S. Paulo. O amor reveste-nos destes dinamismos, que são fundamentais para que todos possam ter o seu espaço, onde cada um se pode partilhar e revelar. Sem estes será extramente difícil que o suporte mútuo e o perdão sejam uma realidade. Quem assim vive tem sempre espaço para os demais, aceitando muitas vezes morrer para o mais imediato por amor do outro. Nestes valores, o amor floresce e encontra sempre um caminho. 

O amor faz emergir o melhor em nós e nos outros e cria-nos a consciência que de facto nos pertencemos uns aos outros. É por isso que nos identificamos num grande corpo, em primeiro lugar na família, mas depois em Igreja. A Igreja é de facto "família de famílias", pois pertencemos ao grande corpo de Cristo, como nos diz São Paulo. 

Numa Igreja viva devemos conseguir identificar os mesmos sinais que veríamos numa família e vice-versa, no comunhão, no serviço mútuo, na partilha de vida. Se por um lado somos chamados a distinguir o que se quer colocar como igual ao modelo de família no Matrimónio, a nossa missão em Igreja leva-nos a acolher e a dar a conhecer a todos a vida da Sagrada família, a qual responde à missão de ser rosto de Deus, mesmo no meio das dificuldades que atravessou. A fecundidade, a partilha, a complementaridade, o cuidado, o perdão e entrega de vida são sinais essenciais da presença de Deus, do Espírito Santo, "Senhor que dá a vida". 

Não tenhamos dúvida que a misericórdia de Deus pode converter os nossos corações, purificando-nos da nossa dureza e fazendo emergir a verdadeira alegria. Se as nossas famílias têm falhas e dificuldades, têm também quando procuram responder ao amor de Deus, a possibilidade de ser pequenas Igreja Domésticas.

Thursday, 24 December 2020

Seja Natal!




NATAL DO SENHOR

Assinalamos hoje o mistério do Natal, do nascimento de Jesus Cristo, nosso Salvador. [As leituras bíblicas que escutamos colocam diante de nós algumas das evidências históricas que colocam este nascimento num dado período histórico]. A alegria a que somos convidados é nuclear no mistério que celebramos. Deus assume a nossa humanidade, rompe a divisão entre criador e criatura para refazer connosco uma aliança eterna. Mas nesta aliança é o próprio Deus que se coloca como sinal visível para os nossos olhos, transbordante de um amor que desarma o nosso coração de tão simples que se apresenta. 

A vinda de Deus acontece sempre na simplicidade. Tão simples que se arriscou a ser discreto e quase sem lugar para onde nascer. Assim, foi num sítio tão pobre que ele nos nasceu. “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam”, diz-nos São João. Percebemos de facto que este é o drama de Deus: tão discreto e simples que corre o risco de não ser aceite ou acolhido. Todavia também que é sempre na simplicidade, na ternura e na humildade que Deus sempre nasce; onde há espaço e desejo de luz, Jesus irrompe 

O nosso mundo, que tantas vezes se afasta de Deus, é profundamente marcado pelo desejo da comunhão e da partilha que o natal nos traz. E assim o notamos de modo especial neste Natal, vivido num ano sofrido e despojamento para tantos, motivado pela pandemia que vivemos. Se para tantos o Natal é sinal da alegria e da esperança, muitos não sabem que esta vem de Jesus. E na tristeza de desconhecer o centro do Natal, a correria dos dias pode não dar espaço para acolher Jesus.

Celebrar o Natal é olhar de novo para o desejo do nosso Deus de vir ao nosso encontro e nos recriar, para podermos voltar a encontrar de novo a alegria de viver com Deus, num amor que excede uma mera recompensa de boas acções, para se tornar no grande dom que sustenta toda a criação.

Celebrar o Natal é querer fazer parte do grupo dos pastores, que ouve o anúncio dos anjos e se põe a caminho, partindo de onde se encontram para irem testemunhar um menino envolto em panos, nascido para ser portador da luz para todos os homens. E como o medo dos pastores se transforma em alegria que os põe em caminho, também o Natal nos coloca de forma renovada diante das dificuldades dos campos que habitamos em cada dia.

Celebrar o Natal é redescobrir uma nova capacidade de acolhimento. Se o nosso Deus não recusa entrar nos lugares mais pobres e simples para aí nascer, também não se escusará a voltar a iluminar os nossos corações e fazer-nos descobrir que somos chamados a viver como filhos de Deus. Também nós como suas imagens somos chamados a entrar na pobreza deste mundo e deixar a nossa fé ser luz para os demais. 

Celebrar o Natal é deixar que a simplicidade e ternura de Deus nos invadam e desarmem o nosso coração que tantas vezes fica enrugado no corroer do tempo para se tornar central de inteligência para a construção da paz, habituando-se a ver o mundo como Deus o vê.

Seja este Natal a ocasião de voltarmos a redescobrir na humanidade do nosso Deus a nossa própria vida, a qual quando tocada por ele pode sempre voltar a se curar. 

 

Friday, 18 December 2020

Entrega-te como Maria!

                                                   Image by Dorothée QUENNESSON from Pixabay 


DOMINGO IV DO ADVENTO


L 1 2 Sam 7, 1-5. 8b-12. 14a. 16; Sal 88 (89), 2-3. 4-5. 27 e 29
L 2 Rom 16, 25-27
Ev Lc 1, 26-38 

As leituras propostas fazem-nos olhar hoje de maneira mais especial para a figura da Virgem Maria no grande acontecimento da Anunciação. Vemos aqui toda a pedagogia divina para com Maria e como o Senhor leva ao cumprimento das promessas feitas a David, de que do Seu trono haveria de nascer um descendente que seria para Deus um Filho. 

Assim vemos o anjo, o mensageiro, que vem de Deus para anunciar a Palavra, de Deus que toma a iniciativa para estabelecer uma nova aliança. A mensagem porém não é generalista, mas bem particular e dirigida. Maria é a figura crente, que distante da antiga Eva, escuta o chamamento de Deus para bem de toda a humanidade. 

O Verbo de Deus faz-se carne por meio de Maria e naquele "sim" Deus assume a nossa humanidade. E isto acontece por graça do Espírito Santo, que é "o Senhor que dá a vida" e sempre que é acolhido produz maravilhas. Assim o é em Isabel. 

Se na antiga Eva se levantou a dúvida sobre Deus, em Maria a sua confiança abre para todos nós a porta da vida nova, da vida que supera a desconfiança e medo de Deus. Em Maria podemos aprender a responder sim a Deus, com a entrega da nossa vida, deixando-nos purificar do egoísmo e dos horizontes curtos. 

A vocação da humanidade está bem patente na atitude de Maria. Deus criou-nos para o conhecer e vivermos à sua imagem. Acolher a sua Palavra e viver a "obediência da fé" como refere São Paulo significa que nos dispomos a entrar em comunhão de vida de amor. Amor que é a origem da criação, amor que supera a nossa capacidade e que revela a nossa vida. É só pelo amor, que Maria acolhe, que Deus nos chama a todos e nos faz participantes desta relação. Amor que por ser verdadeiro não passa nem nos ultrapassa, mas que nos acompanha e nos espera. 

A vocação cristã tem sempre qualquer coisa do sim de Maria. Maria entrega-se e abandona-se a Deus por toda a humanidade; a nossa vocação, enquanto caminha na sua purificação, também é entrega pela mesma humanidade. E na entrega que faz, sintoniza a mesma frequência de Deus. 

Friday, 11 December 2020

«João é a voz, Cristo a Palavra» Santo Agostinho



DOMINGO III DO ADVENTO


L 1 Is 61, 1-2a. 10-11; Sal Lc 1, 46b-48. 49-50. 53-54
L 2 1 Tes 5, 16-24
Ev Jo 1, 6-8. 19-28 

A Igreja convida-nos a viver o tempo de advento na lógica da expectativa, preparando a nossa vida para reconhecer a Deus que vem. O profeta Isaías fala muitas vezes do Messias como o redentor, ou seja aquele que vem libertar. 

O Evangelho deste Domingo faz-nos olhar para a figura de João Baptista que se apresenta como uma voz que clama no Deserto, retomando as palavras do profeta Isaías. Ele é o Precursor, aquele que levanta a sua voz para clamar que cada um se prepare para a vinda do Senhor. O apelo de João é claro: mudar de vida para que se tornar mais atento a Deus que vem. 

A este propósito dizia Santo Agostinho que João era a voz, mas Cristo é a Palavra. E de facto, o grande caminho que podemos fazer neste tempo é descobrir em nós, pela voz de todos os anunciadores, que Cristo habita em cada um. Cristo é aquele que revela a nossa verdadeira identidade: somos criados à imagem e semelhança de Deus, ou seja, vocacionados para viver no amor, realidade que se concretiza na nossa condição de Filhos de Deus. 

Preparar o caminho do Senhor não apenas por isso mudar alguns comportamentos morais, embora isso seja importante. É reconhecer que a vida cristã abarca toda a nossa existência e que Deus deseja contruir connosco uma aliança de relação. É deste núcleo fundamental, que não vem de fora, mas que nasce de dentro, que ressoa o apelo de João, para descobrir a verdade. 

Esta verdade não nos oprime por uma crueldade, embora se vivam situações tão difíceis, mas é uma verdade que liberta e por isso traz alegria. Na tradição, este domingo é chamado da alegria, precisamente por que se alegra com a vinda, ou se quisermos, com a redescoberta de Deus que nos ama e vem ao nosso encontro. 

Oxalá os nossos caminhos se endireitem para um encontro mais autêntico com Deus e daí com os irmãos. Talvez possamos cantar com os irmãos de Taizé: "Dans nos obscurités, allume le feu qui ne s'éteint jamais" [https://youtu.be/pfin1W0v7Ts]

Monday, 7 December 2020

Maria: santidade sincera, confiante e proactiva.




IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA,

L 1 Gen 3, 9-15. 20; Sal 97, 1. 2-3ab. 3cd-4
L 2 Ef 1, 3-6.11-12
Ev Lc 1, 26-38

Maria é a figura da Igreja diz o Vaticano II. Nela podemos ver a nossa verdadeira imagem de humanidade que se entrega a Deus sem limites de coração. É o contraponto à figura da primeira Eva, a qual foi enganada pela serpente , juntamente com Adão, para ver no Deus criador um rival e mesquinho cioso de uma sabedoria. Entra a lógica da desconfiança que perverte o amor que unia criador e criatura, e que unia homem e mulher. 

Maria é a antítese disto. Ela é cheia de graça, escolhida por Deus desde o início para ser a mãe do nosso redentor; por isso é causa da nossa alegria. Em Maria vemos que santidade é possível para a nossa humanidade, e não só não nos tira nada, como nos abre. 

Em Maria vemos uma santidade sincera, confiante e proactiva, atitudes que nos podem ajudar hoje a caminhar na santidade. 

Santidade Sincera. Em Maria a santidade não é feita de esquemas que se repetem para assegurar uma salvação. Maria é sincera; ela perturba-se quando ouve a saudação do anjo, pergunta ao anjo o que não percebe sem todavia se deixar cair na dúvida. A sinceridade de Maria mostra a atitude de crente própria de uma criança que não tem medo de perguntar para tentar saber mais sem esquemas para tentar fugir. Veremos que será assim em toda a sua vida; tantas vezes a nossa arranja esquemas e subterfúgios diante de Deus. 

Santidade Confiante. Maria pergunta e tenta alcançar a acção de Deus; e quando compreende o que lhe é pedido confia. E confia porque sabe que a "sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem". Tão distante está dos primeiros pais que se escondem porque descobrem a sua fragilidade. Olhar para Maria é reconhecer que Ela é sinal de que o Todo-Poderoso faz maravilhas em quem nele confia. 

Santidade Proactiva. Ser santo não significa ser passívo, mas proactivo. A Lumen Gentium refere que «Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens.» Vemo-lo na sua vida, na solicitude pela sua prima Isabel, mas também no acompanhar do emergir da Igreja. Do mesmo modo, hoje Maria acompanha a Igreja no seu peregrinar e não nos abandona, respondendo fielmente ao chamamento do seu filho na cruz para ser nossa Mãe. 

Que a nossa vida se deixe acompanhar pelo testemunho e amor de Maria no serviço a Deus e ao próximo. 

Saturday, 5 December 2020

Preparemos a recepção do Senhor



DOMINGO II DO ADVENTO


L 1 Is 40, 1-5. 9-11; Sal 84 (85), 9ab-10. 11-12. 13-14
L 2 2 Pedro 3, 8-14
Ev Mc 1, 1-8

As leituras deste Domingo voltam o nosso olhar para a figura do Precursor, de João Baptista, que se apresenta como aquele que clama no deserto para se prepararem os caminhos do Senhor. Deserto, bem o sabemos na linguagem bíblica, é sempre sinal de purificação, de retornar ao essencial, de reconhecer a nossa fragilidade. É também o local de nos despojarmos do que é excessivo e não faz parte de nós. 

É com este fundo que entendemos a missão de João Baptista, que embora no seu exagerado ascetismo, se apresenta como sinal e meio para a purificação de vida e confissão dos pecados, a carga que mais torna pesada a vida e coração e bloqueia os sentidos para reconhecer o outro. Pecado é tudo aquilo que bloqueia o nosso coração para amar e o fecha no seu egoísmo. Os mandamentos são as indicações mais para evitar praticar o mal, mas o Senhor quer a entrega sincera da vida. 

A missão de João é apenas o pôrtico do grande tesouro que Deus nos promete: João baptiza com água; o que há-de vir baptizará com o Espírito Santo; de facto, reconhecer o pecado não significa passar logo a viver na lógica de Filho. Esta é a lógica do dom, do Filho que vem comunicar o amor do Pai pelo Espírito Santo em cada um. 

Assim também, o nosso olhar não se fica apenas no cumprimento de um penitência exterior, qual cumprimento de uma pena para livrar de um castigo. Não. O olhar do crente levanta-se para a comunhão relacional com Deus e com os irmãos, na expectativa do grande encontro com o Senhor Ressuscitado. É por isso, que a nossa vida só se realiza quando entra em comunhão; o nosso coração espera profundamente o amor absoluto e permanente, no qual só em Deus se realiza. 

O advento é tempo de expectativa, de reconhecer que temos um salvador, que se apresenta frágil, simples e dependente. Se é certo que esperamos a sua vinda gloriosa, a sua humanidade esconde e revela este desejo de Deus de se fazer próximo de nós. É assim o nosso Deus: Ele faz-se próximo. A maior tristeza que nos poderia suceder era não nos deixarmos curar das nossas cegueiras e corações insensíveis para o reconhecer como a fonte da nossa vida e a nossa meta. Procuremos endireitar os caminhos da nossa vida. Deixemos o nosso coração receber a luz de Deus, removendo as sombras que o escurecem. 

Friday, 27 November 2020

Vigiar, para não deixar passar o encontro




DOMINGO I DO ADVENTO



L 1 Is 63, 16b-17. 19b; 64, 2b-7: Sal 79 (80), 2ac e 3b. 15-16. 18-19
L 2 1 Cor 1, 3-9
Ev Mc 13, 33-37 

A Igreja inicia neste domingo um novo ano litúrgico, um novo ciclo, que nos acompanha em mais um ano. Começamos mais uma etapa onde somos convidados a voltar o nosso olhar para o essencial, para a fonte da vida, para reconhecer Deus como o centro de nós mesmos. 

O profeta Isaías reconhece esta centralidade em Deus que é nosso Pai e nosso libertador e como tantas vezes o nosso coração, os nossos critérios apressados o esquecem e ignoram. O profeta alerta como esquecer a Deus é deixar endurecer o coração, pelo qual nos relacionamos e compreendemos o mundo e as pessoas que nos rodeiam. Viver como Filhos de Deus significa que não somos nós o centro, mas que temos uma origem e que se nos separamos dela corremos o risco de secar. 

Reconhecer a paternidade de Deus, realidade revelada em Jesus Cristo, significa que existe um Mistério de Amor que está na nossa origem e que nos cria para viver nesse amor. Este amor é o suporte da vida quando nem tudo corre como desejamos e a meta que desejamos alcançar. É o cimento da fé que alicerça a nossa esperança de que nossa vida, muito para além das nossas compreensões e incompreensões, tem sempre sentido (cf. M. I. Rupnik, Decir el hombre, 148). 

Para viver assim precisamos de vigilância, como nos pedia Jesus. Não estamos a falar de vigilância ansiosa, mas de vigilância para não nos deixarmos engolir no ritmo dos dias (como retrata a imagem do deus grego do tempo cronos que tudo devora) para viver em encontro, como pessoas chamadas a viver a vocação do amor como primeiro e último chamamento. Neste mundo onde tudo passa, o amor permanece. E é por isso que temos de estar atentos. O apelo de Jesus a vigiar é uma atitude de esperança, própria de quem espera a vinda do amado. 

Quem espera o amado, o amigo, prepara tudo o que consegue para o receber da melhor maneira possível. E fa-lo com a maior alegria. Nós preparamos a vinda do Senhor por meio da oração, que abre o nosso coração a Deus e aos outros. Por isso, a oração torna-se caminhos para os caminhos de bondade. 

O tempo de advento é o tempo de preparação activo da Igreja que espera o seu Esposo para poder entrar nas núpcias do cordeiro. Para estas todos somos chamados. Saibamos dar o primeiro lugar ao amor de Deus; só assim, vivemos no amor, e tal como Cristo, a nossa vida será luz reflectida para os  outros. 

Saturday, 21 November 2020

Amar a Deus é servir (Santa Joana)




DOMINGO XXXIV DO TEMPO COMUM

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO
SOLENIDADE

L 1 Ez 34, 11-12. 15-17; Sal 22 (23), 1-2a. 2b-3. 5-6
L 2 1 Cor 15, 20-26. 28
Ev Mt 25, 31-46 

Celebrar o reinado de Cristo é algo estranho nos nossos dias, tanto mais quanto uma certa percepção pública entende o poder como a capacidade de exercer opressão sobre os demais. Nada mais distante da compreensão bíblica do Rei na linguagem bíblica. O Rei em Israel era ungido por um profeta em nome de Deus, e por isso o seu poder era recebido para exercício do bem em favor dos seus concidadãos; a bíblia não esconde a infidelidade de muitos dos seus reis no cumprimento da vontade de Deus nem na opressão dos demais frágeis, o que tem em conta a fragilidade associada aos povos . 

A imagem do rei vem associada à do pastor desde de David; todavia, não raras vezes Deus se coloca como o pastor do Povo que procura as ovelhas para as sustentar, curar, alimentar e proteger, o que nos mostra que a soberania de Deus - e como tal a nossa - se traduz num serviço à humanidade de redenção e libertação de toda a opressão. Como tal, trata-se de diligência de caridade, de amor gratuito em favor dos demais. Daqui decorre que todo o poder que recebemos e detemos se orienta precisamente com o mesmo fim: diligente para o servir a humanidade amada por Deus. No Reino de Deus os mais frágeis têm sempre lugar, e todos somos a certa altura dos mais frágeis. 

A primeira carta aos Coríntios, no excerto que ouvimos hoje, coloca que o grande serviço de Cristo é a libertação da morte, é a vitória sobre o pecado, ou seja, daquilo que destrói a dignidade humana. Esta acção, que nos faz entrar na filiação divina, tem profundas implicações sociais, pois constitui os cristãos na missão de promover a construção de uma sociedade à imagem do plano de Deus. E claro, tem de começar pelo mais básico: pelo coração humano, curando a ferida de amor que nos habita para nos mostrar o caminho a percorrer. Só do coração que sabe que é o caminho do amor que se faz entregue é que pode emergir a gratuidade para construir um caminho novo.

São Paulo coloca mesmo que Cristo reinará sobre toda a «soberania (archēn=domínio, governo, princípio), autoridade (exousian=ek+ousia - "superioridade delegada sobre os outros") e poder (dynamin=poder, capacidade de agir) (1 Cor 15, 24). Assim, segundo São Paulo, a sociedade caminha para que Cristo seja o seu centro, e onde os cristãos têm a missão de anunciar a libertação realizada por Deus. Esta claramente não se faz pela força das armas nem da anarquia, mas concretiza-se em gestos de amor e de compromissos de vida. Tal como o amor é total na vida, também a decisão de entrega a vida. 

O evangelho coloca-nos diante de Jesus Cristo que governa e julga todas as nações. O sinal é evidente: trata-se de reconhecer que a boa nova de Cristo é para todos, e em todos a Palavra divina tem a capacidade de libertar o amor. A lógica de Deus é também conhecida, mas torna-se ainda mais acutilante: somos chamados a servir a todos, começando nos mais pequenos, nos mais pobres, nos excluídos. Como tal, o campo da nossa missão é imenso, pois não nos podemos ficar apenas pela pobreza da algibeira. 

A Igreja leu nestas sentenças de Jesus as obras de misericórdia corporais e daqui desenvolveu as espirituais*. Também hoje, o nosso testemunho assenta na caridade e na verdade: somos chamados a anunciar a soberania de Cristo, a qual é sempre amorosa e sempre marcada com o sinal da cruz. Não tenhamos medo de caminhar por este caminho de misericórdia. 

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*As 14 Obras da Misericórdia

Obras Corporais:
1ª Dar de comer a quem tem fome;
2ª Dar de beber a quem tem sede;
3ª Vestir os nús;
4ª Dar pousada aos peregrinos;
5ª Assistir aos enfermos;
6ª Visitar os presos;
7ª Enterrar os mortos.

Obras Espirituais:
1ª Dar bons conselhos;
2ª Ensinar os ignorantes
3ª Corrigir os que erram;
4ª Consolar os tristes;
5ª Perdoar as injúrias;
6ª Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo;
7ª Rogar a Deus por vivos e defuntos.

Saturday, 14 November 2020

A fé torna-nos atentos


 

DOMINGO XXXIII DO TEMPO COMUM


L 1 Prov 31, 10-13. 19-20. 30-31; Sal 127 (128), 1-2. 3. 4-5
L 2 1 Tes 5, 1-6
Ev Mt 25, 14-30 ou Mt 25, 14-15. 19-21

À medida que nos aproximamos do final do ano litúrgico vai-se tornando mais patente a necessidade de viver atentos e despertos para o que nos rodeia. As leituras que ouvimos este domingo não pretendem assustar-nos ou amedrontar-nos. Muito pelo contrário, o evangelho parte da consciência do dom recebido, dos talentos que nos são confiados. Recordemos que talento na bíblia diz respeito a uma medida de massa de elevado valor. Um talento de ouro corresponde a cerca de 60kg de ouro ou então 6000 denários, uma vida inteira de trabalho. 

Como tal, o dom recebido, acolhido e agradecido, longe de dever ficar enterrado com medo de se perder, tem vocação para crescer e se fazer multiplicar. É a lógica do amor. Este dom que a vida que Deus nos dá e que nos sustenta no seu perdão só responde bem quando viva na lógica da doação. 

O medo de Deus bloqueia o homem do talento único, provocado pela imagem severa que ele tem do Senhor. Por isso enterrou, escondeu e não se empenhou nem revelou o bem que lhe fora confiado. O bem que não é partilhado fica perdido. 

Por isso a vigilância a que somos chamados pela fé não é motivada pelo medo de castigos, mas se temor houver é o de não partilhar a bondade, a verdade e beleza. É o de não viver como Filhos de Deus. O cristianismo não é a vida que procura fugir de um castigo, mas antes o amor de se saber alcançado por Jesus Cristo e por isso querer viver em comunhão com Ele, renunciado a tudo o que nos possa afastar e confiando na misericórdia que nos liberta para viver. É por isso que Santo Ireneu dizia que "a Glória de Deus é o Homem vivo e que a glória do homem é visão de Deus". 

A acção do cristão tem vocação de ser diligente e atenta ao que rodeia, e por isso não alheia ninguém da sua circunstância. O cristão é sempre chamado a ser sinal de vida onde se encontra, porque sabe que já recebeu de Deus. O cristão não pode por isso ficar isolado dos outros, mas a fé precisa do amor para se tornar concreta; por isso o cristianismo é sempre comunitário. 

Neste sentido já diz a Carta a Diogneto (século II): «Numa palavra, o que a alma é no corpo, isso são os cristãos no mundo. A alma está em todos os membros do corpo e os cristãos em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, não é, contudo, do corpo; também os cristãos, se habitam no mundo, não são do mundo.». Seja a fé a nossa luz que sinalize o amor de Deus para todos. 

Sunday, 8 November 2020

Sabiamente atentos




DOMINGO XXXII DO TEMPO COMUM


L 1 Sab 6, 12-16; Sal 62 (63), 2. 3-4. 5-6. 7-8
L 2 1 Tes 4, 13-18 ou 1 Tes 4, 13-14
Ev Mt 25, 1-13 

A esperança é a virtude que nos põe a olhar para uma meta. Já sabemos que quem quer os fins, tem de querer os meios necessários. Senão não alcança o que diz querer. No caso da esperança cristã, esta faz levantar o olhar para o final, para o grande encontro com Deus. Não se trata de nos tirar do sítio onde estamos; muito pelo contrário, faz-nos pelo amor já percebido deste encontro, despertar em nós todas as energias e capacidades que temos para orientar a vida para aí. 

É neste grande quadro que gostaria de olhar para as leituras que nos são dadas escutar neste domingo. As quais nos ajudam a sublinhar a lógica do dom. O dom recebido da sabedoria e da esperança para ajudar a vida a fazer-se dom. E só assim a vida se manifesta na sua beleza. 

Vejamos. A sabedoria «deixa-se ver facilmente àqueles que a amam e faz-se encontrar aos que a procuram» (Sab 6, 12). É sempre primeiro necessário receber e tomar consciência dos horizontes da vida. Saber que é necessário procurar e aprender é já sinal de sabedoria que nos abre ao Mistério que a vida é. E pela sabedoria orientar a vida rumo a um bem maior, actuando em cada dia de acordo com esse Bem. É o caso das virgens prudentes, que sabiam que nas limitações da vida e dos atrasos, mais vale ter azeite de reserva para poder manter a lâmpada da procissão nupcial acesa. Aí está: pelo encontro desejado, acautelar e procurar. 

A sabedoria e a esperança são duas realidades inseparáveis. A esperança orienta a nossa vida para um fim, para um bem maior; a sabedoria alimenta essa esperança no hoje de cada dia. Este dinamismo e mútua relação é a base da vocação. A vocação cristã é a resposta de cada um ao chamamento de Deus para viver a vida em comunhão com Ele pela entrega de vida. É querer experimentar a alegria de Deus em cada passo, mesmo no meio de dificuldades. A vocação vive da esperança da acção de Deus no nosso mundo pela sábia vida de cada um. 

O nosso tempo esta marcado por uma falta de esperança maior. A vida actual é extremamente sábia do ponto de vista técnico, mas carece tantas vezes da capacidade de raciocinar sobre os grandes existenciais da vida: vida-morte, amor-ódio. Tantas vezes fica esta capacidade limitada ao emotivo, ao momento presente, ao que é a nossa circunstância. A esperança faz levantar o olhar para ver a vida como um todo que se orienta para um fim, que se orienta para um amor. 

É importante para hoje na Igreja dar testemunho da esperança cristã, da esperança do grande encontro com o esposo, com Cristo, que se entrega por nós. O risco é de ele passar e depois já não nos conhecer. Alimentar esta esperança hoje é possível por Cristo na celebração da eucaristia. Aí, em cada celebração, é renovada e atualizada a entrega que Ele fez por nós. No fundo, a Eucaristia é o reconhecimento de que foi Ele que nos escolheu e que deseja que a nossa vida dê todo o fruto que pode dar (cf. Jo 15, 16). 

Saturday, 31 October 2020

Santos ao pé da porta (papa Francisco)




TODOS OS SANTOS – SOLENIDADE


L 1 Ap 7, 2-4. 9-14; Sal 23 (24), 1-2. 3-4ab. 5-6
L 2 1 Jo 3, 1-3
Ev Mt 5, 1-12a

 "Creio em (na) Igreja Santa" diz o credo Niceno-Constantinopolitano. A afirmação é estranha e até recusada por muitos nos nossos dias. Todavia é uma afirmação da identidade da Igreja. Porém, a santidade da Igreja não lhe advém da força dos fiéis, mas antes assenta na santidade de Deus. É importante olhar para tentar ver como Deus é santo para depois se compreender a que santidade somos chamados e motivo por isso desta grande solenidade. 

Deus é santo, o qual comunica da abundância de si e se revela, em Jesus Cristo, como Trindade numa Unidade em comunhão. Ou seja, Deus é relação transbordante de Amor e Acolhimento mútuo, que cria a vida e a deixa existir por si e a tudo o que existe. Mas é pela pessoa humana que Deus se desloca e dá inteiramente. Isto acontece no dom do Seu Filho entregue para extinguir o pecado, ou seja, para libertar daquilo que corrompe o coração e destrói a dignidade humana; mas também pelo dom do Espírito Santo, que nos quer ajudar a viver como Filhos à imagem do Filho.

A santidade não é o ensimesmamento, mas a liberdade para amar. Para nós e por nós, o nosso Deus quer-nos semelhantes a Ele e por isso não se cansa de ser misericordioso connosco. A santidade é assimétrica, pois vem de Deus e é Ele que, como absolutamente Transcendente, nos sustenta no amor para dar. A santidade é a vida humana a ser já divinizada aqui e agora e que responde ao mais profundo anseio do coração humano. 

A leitura das bem-aventuranças traduz esta mesma realidade. Jesus, no alto do monte, ensina as multidões já não no estrito cumprimento da Lei, já não na lógica do que "não se pode fazer" (ainda que os mandamentos coloquem o amor como o primeiro mandamento), mas anuncia como Bem-Aventurados (makarioi=abençoados, felizes [https://biblehub.com/greek/3107.htm]) aqueles que vivem acolhedores e entregues aos outros. Mas por onde começar nas bem-aventuranças?

Mateus é o evangelista que escreve para o povo judeu. Se repararmos, em Mateus existem nove bem-aventuranças, lembrando a Chanukiá, o candelabro de nove braços que assinala a libertação do templo de Jerusalém da invasão grega, e que constitui a base para a Hanukkah. No centro destas bem-aventuranças está a da misericórdia, lembrando a vela mais alta desse candelabro, a shamash (servo em hebraico), e que usada para acender todas as outras. Nesta imagem, percebemos que é a misericórdia o centro da santidade, a força de querer fazer e ser o bem para os demais que alimenta o desejo da entrega. 

Não é por isso de admirar que seja a santidade a força que realmente é capaz de renovar o mundo. Longe de uma imagem pietista, a santidade traduz uma força criadora e é a base para poder agir em cada contexto na construção aqui e agora do Reino de Deus, onde mora a paz, justiça e alegria (cf. Rom 14, 17). 

Por isso a solenidade que celebramos assinala tantos sinais de santidade que todos já tocamos e vimos. Gente como nós e para nós que caminharam ao nosso lado e que nos marcaram com a sua entrega e amor. A festa de todos os santos é a festa da santidade daqueles que vivem à nossa porta (cf. Francisco, Gaudete et exsultate, 7)


Friday, 23 October 2020

Sem Cristo, a fraternidade universal não é possível.




DOMINGO XXX DO TEMPO COMUM


L 1 Ex 22, 20-26; Sal 17 (18), 2-3. 7. 47 e 51ab
L 2 1 Tes 1, 5c-10
Ev Mt 22, 34-40 

As leituras deste Domingo colocam diante de nós um apelo fundamental, em que se percebe que não se pode separar o mundo de Deus do mundo dos homens, muito embora ambos também não se confundam ou misturem. Para nós, cristãos, esta é a essência do mistério da Encarnação, em que o Verbo de Deus se faz homem. São duas naturezas distintas unidas numa só pessoa pelo amor. Isto leva a que o amor de Deus criador e libertador ou redentor da humanidade se encontra com a humanidade criada para amar, mas frágil e que facilmente decai. 

É neste contexto que nos encaro a resposta de Jesus à pergunta que lhe foi feita sobre qual o maior dos mandamentos. E a resposta de Jesus é clara e nasce do Antigo Testamento: Amar a Deus sobre tudo e todos. A tentação dos nossos dias seria que Jesus dissesse imediatamente "temos é de ser boas pessoas e respeitarmo-nos e cada um seguir a sua vida". Mas não, Jesus vem para colocar a humanidade em comunhão com o Pai, pois dele provém a vida e só na medida em que se  vive para Deus é que a família humana pode de facto ser constituída como tal. Caso contrário, voltará a suceder o episódio da torre de Babel, em que a humanidade no esforço de querer chegar ao céu por si, acaba apenas confusa, em que cada um fala a sua língua sem que ninguém se entenda (cf. Gen 11, 1-9). Reconhecer o primeiro lugar a Deus não anula a pessoa, mas pelo contrário, dá-lhe o horizonte de um amor infinito que rompe as fronteiras estreitas da inteligência e do coração humano. O desejo de cada um em se querer fazer Deus está bem enraizado no coração humano, mas só Deus pode realizar a divinização, ou seja, só Ele pode saciar pelo amor puro e totalmente gratuito esse desejo, como nos recorda Santo Ireneu. 

Por isso, se o Mistério de Deus é amor e nos chama a nós a responder com amor, não se pode separar o amor a Deus do amor ao próximo. Separar estas duas dimensões seria como ter uma roda e depois não querer que ela rodasse...

Podemos afirmar sem receio que sem que o coração humano experimente profundamente o Amor de Deus, a fraternidade universal não verá a luz dos dias. Assim o coloca a primeira leitura. Nesta, Deus revela-se como o fundamento da justiça social, pelo qual toda a razão - económica, política, ou de relevância social - se submete à dignidade humana. Querer defender a justiça social sem esta consciência provocou e provoca grandes tragédias humanas na nossa história. 

Estas leituras ajudam-nos a purificar a imagem que cada um tem de Deus, o qual não é apenas o Senhor Soberano do Universo, sentado num trono de glória (cf. salmo 46(47)), mas como Aquele que manifesta o seu amor e se compadece pela humanidade, chamando-nos viver na mesma lógica, pelo dom do Seu Filho feito homem. Sem Cristo, a fraternidade universal não é possível. 

Saturday, 17 October 2020

entregar a Deus o que é Deus

 


DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM


L 1 Is 45, 1. 4-6; Sal 95 (96), 1 e 3. 4-5. 7-8. 9-10a.c
L 2 1 Tes 1, 1-5b
Ev Mt 22, 15-21

As leituras deste Domingo colocam diante de nós a conhecida cilada feita a Jesus. Cheia de falácia e falsidade, procuram apanhar uma palavra de Jesus que o possa retirar da sua cena. Assim, coloca-se diante dele a questão se deve pagar o imposto: se diz "sim", é um traidor; se diz "não", é um agitador político e conspirava contra os romanos. 

Todavia a missão de Jesus é outra, assim como a sua possível contribuição política é também distinta. Jesus confronta os seus interlocutores a reconhecer a origem da moeda que levam e obriga-os a distinguir do plano de Deus: Se em Deus toda a injustiça é rejeitada, a justiça de Deus não se encaixa na lógica de interesses políticos ou sociais. Por isso, a Deus deve-se devolver, antes de mais, não as moedas, mas a vida, dom que provém do Seu amor. 

Não estamos portanto apenas diante de uma separação entre Estado e Religião, mas num outro paradigma: a responsabilidade da fé passa mais depressa pela lógica do cuidado, da entrega da vida, da capacidade de construir pontes para poder chegar a quem está mais afastado, nas periferias e exclusões da sociedade. É aí que o anúncio é chamado a acontecer, sempre por graça de Deus e com o testemunho pessoal. 

Aqui Jesus procura centrar novamente a resposta humana com Deus, na qual Ele é o mediador. o drama porém é grande: os seus interlocutores não aceitam a verdade que Ele lhes coloca e por isso permanecem encerrados nos seus esquemas, que podemos afirmar, sem espaço para entrar Deus, sem espaço para poderem ser redimidos ou libertados dos seus esquemas. 

Dar a Deus o que é de Deus: é saber reconhecer verdadeiramente o infinito que nos habita por dentro, para aí encontrar o amado, que no mais fundo das nossas obscuridades, permanece sempre como Verdade Maior. 

Saturday, 10 October 2020

Condição para ser chamado: estar disponível




DOMINGO XXVIII DO TEMPO COMUM


L 1 Is 25, 6-10a; Sal 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6
L 2 Filip 4, 12-14. 19-20
Ev Mt 22, 1-14 ou Mt 22, 1-10

O texto deste domingo coloca diante de nós a cena de um banquete. A Sagrada Escritura é atravessada pelo tema do banquete e do acolhimento: Melquisedec acolheu Abraão com pão e vinho, Abraão recebeu os três visitantes com esmerado cuidado, a preparação da Páscoa no Egipto faz-se numa ceia, Jesus celebra a sua Páscoa na Ceia Final como meio memorial da sua Paixão, Morte e Ressurreição, e o Apocalipse coloca o destino da humanidade na comunhão com Deus mediante as Bodas do Cordeiro.  Neste grande cenário, Isaías profetiza a plenitude do encontro com Deus como um esplêndido banquete que o próprio Deus organiza. Assim o profeta focaliza a esperança da fé num encontro feliz e reconciliado com a humanidade. 

Esta esperança é fundamental para poder viver a fé; por um lado, mostra que o Amor de Deus supera as nossas limitações; por outro, faz-nos ser proactivos e diligentes na procura da caridade de modo a poder tornar presente já aqui a realidade prometida da paz. Como o nosso hoje precisa da esperança cristã no meio das dificuldades que atravessamos!

O Evangelho deste domingo deixa-nos estarrecidos. Para os judeus, a expectativa da vinda do Messias era realidade fundamental, pelo que colocar a escusa do convite recebido pelo Rei parece estranho. Um judeu piedoso deveria esperar o Messias. 

Mas este é o texto que nos lê hoje também. Por um lado, pode a nossa vida ao receber o convite do grande Rei mostrar-se demasiado ocupada, perfeitamente instalada e por isso indisponível para acolher o grande chamamento a participar da festa de Deus. Provavelmente por não saber sequer a alegria desta festa e ficar por valores menores e entretida em coisinhas que não saciam a humana sede e desejo fundamental de infinito. 

Mas a promessa do Reino alarga-se a toda a humanidade: a todos os que estão na encruzilhada dos caminhos, a todos os que se perguntam pelo verdadeiro sentido da vida, preparados para partir. E são estes que acolhem o convite na disponibilidade para poderem participar "de um processo que dura a vida inteira" de comunhão com a acção que Deus realiza na humanidade.

No final do Evangelho algo nos deixa perplexos. O Rei chama de "amigo", alguém que está sem o manto nupcial e na ausência da sua resposta coloca-o fora. O processo é estranho para nós. Todavia, na entrada dos banquetes no oriente era o promotor da festa quem convidada e oferecia os presentes a quem chegava, até se fosse o caso, do manto nupcial. Por isso, se alguém não o tem vestido, é porque o recusou (cf. António Couto, Quando Ele nos abre as escrituras, p. 266). Estamos aqui diante de uma continuação da do que vinha de trás: Este rei pede a nossa disponibilidade, humildade e totalidade de vida para acolher todas as suas maravilhas. Só assim as relações são autênticas. Por isso, a condição para ser chamado é estar disponível. E nesta disponibilidade Deus não tardará a manifestar-se.


Saturday, 3 October 2020

Só o amor purificado torna a nossa vida fecunda.




DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM


L 1 Is 5, 1-7; Sal 79 (80), 9 e 12. 13-14. 15-16. 19-20
L 2 Filip 4, 6-9
Ev Mt 21, 33-43 

As leituras deste domingo continuam a manter-nos na vinha, lugar de preparação para a festa, "pelo fruto da videira e do trabalho do homem". Mas as leituras fazem-nos voltar o olhar e re-conhecer o trabalho de Deus, na sua aliança com um Povo específico. Sinal de um amor maior, desproprocionado, mas desejoso da correspondência. Bento XVI salientava em 2006 que o amor de Deus incluía tanto uma dimensão de entrega - agape - como de desejo de reconhecimento - eros. De facto, «eros de Deus pelo homem é ao mesmo tempo totalmente agape» (Bento XVI, Deus caritas est, 10).

É com este cenário de Deus que dá tudo que nos deparamos com a essência do que é o pecado: não querer corresponder com a vida ao amor com que fomos criados, querendo apropriar-se daquilo a que é chamado a viver como dom. E sendo as ramificações disto tão complexas, o amor de Deus continua a ser o caminho para viver na lógica do dom. 

É daqui que se entende a lógica dos frutos: não se trata de fazer muitas coisas, mas querer viver com amor, com entrega, com desejo por um bem maior do que apenas o próprio; melhor, é viver para o bem do outro, caminho sempre necessário para quem quer ser verdadeiramente feliz. 

Recorrendo à imagética agrícola, uma árvore para dar fruto tem de ser podada, cuidada, resguardada. Assim age em nós o Senhor, cuidando-nos pela força do seu amor nos seus sacramentos: somos enxertados em Cristo pelo Baptismo, elevados à dignidade de verdadeiros filhos de Deus na unção crismal, alimentados pelo Pão da Vida, lavados pelo perdão purificador de toda a fragilidade. Mas precisamos de guardar como um tesouro mais precioso o dom do chamamento primeiro de Deus, como experiência mais profunda de um amor recebido; para isto, desejemos a fidelidade, a qual passa pela vontade de querer viver a vocação que Deus faz a cada um para toda a vida. 

Quando vivemos a vida assim, colocando tudo na comunhão com Deus, então «tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude» vai encontrando espaço na nossa vida. E tem espaço por estar centrada em Deus. Só o amor purificado torna a nossa vida fecunda. 

Friday, 25 September 2020

Ser fiel implica uma luta



DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM


L 1 Ez 18, 25-28; Sal 24 (25), 4-5. 6-7. 8-9
L 2 Filip 2, 1-11 ou Filip 2, 1-5
Ev Mt 21, 28-32 

À vida que recebemos como dom, somos chamados a responder com a vida. Nunca poderá ser menos do que isso, mesmo no meio das maiores dificuldades e contrariedades. Não deixa de ser admirável como é possível encontrar gente felicíssima onde tudo falta, menos a sua entrega. 

É aqui que, penso eu, nos encontra a liturgia da palavra deste domingo. 

O caminho que o profeta Ezequiel aponta põe a nu o que de facto é a via do pecado: tudo aquilo que leva à perda da dignidade e conduz à morte. Mas em Deus - e para quem vive em comunhão com Ele - ninguém é indiferente. E isso leva-nos à missão de cuidar uns dos outros, pois somos chamados a caminhar em conjunto. É por isso que a correção fraterna, quando feita com cuidado e caridade é tão importante na nossa vida. 

Mas as leituras deste Domingo colocam o acento na conversão pessoal, ou seja, na procura sempre maior de um bem, rejeitando o que é mal. E no entanto, como isto é difícil e só possível com o amor de Deus. Tão difícil é que tantas vezes achamos que os outros - e até nós também - já não é possível acontecer uma mudança de vida. O argumento de que sempre foi assim, ou melhor, de que sempre fui assim, contribui para o desânimo e tristeza de quem acaba por viver a sua vida longe de Deus. O Papa Francisco lembra que quando não há arrependimento do pecado começa a gerar-se a corrupção da pessoa(Jorge Bergolio, A arte da acusação de si mesmo). A força da mudança vem de dentro, do Deus que nos habita e nos capacita a acreditar sempre na possibilidade do bem, de viver em comunhão com Deus. 

Esta realidade é ilustrada na bela parábola que o Evangelho narra. Ambos os irmãos são chamados pelo Pai, como filhos a trabalhar na vinha, local onde se cuida das fontes da festa e da alegria pelo vinho que se produz . E Deus envia-nos a trabalhar pela alegria, e esta precisa da nossa entrega. 

Ao chamamento feito, os irmãos têm atitudes opostas. Um diz que não, arrepende-se e via; o outro diz que sim, mas não vai. Mas o Filho de Deus, Jesus Cristo, diz que sim e cumpre a vontade do Pai. O Evangelho ensina-nos que a vida não se pode ficar em palavras vazias, mas em acções que busquem responder ao chamamento de Deus. Todavia cumprir a vontade de Deus não significa fazer uns favores ao altíssimo... Cumprir a vontade de Deus é procurar manter abertos os canais da relação com o amor de Deus. É isto que acontece em Jesus, Ele vem para cumprir a vontade do Pai. De facto, é esta a vocação de Jesus. 

Só quando procuramos responder à voz de Deus que chama, mesmo no meio das nossas contradições, é  que a vida cristã pode de facto acontecer, sempre por graça da misericórdia divina. Quando a nossa acção é feita sem este chamamento, mas por rivalidades ou outras coisas afins, como refere São Paulo, gera-se divisão e discórdia. O modelo da resposta é para nós claro: é a vida do Senhor, entregue até ao fim, que nos salvou pelo seu amor. E como foi totalmente entregue, é totalmente fecunda na geração de vida nova. E é isto que celebramos na eucaristia.

Saturday, 19 September 2020

Sempre a dar!




DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM


L 1 Is 55, 6-9; Sal 144 (145), 2-3. 8-9. 17-18
L 2 Filip 1, 20c-24. 27a
Ev Mt 20, 1-16a 

O Deus revelado na Sagrada Escritura apresenta-se como aquele que dá: dá a vida, dá a terra, dá o perdão, dá o Seu filho. Dá. E em função desta sua maneira de ser, tão diferente de nós, que os seus pensamentos estão tão distintos dos nossos.  E aliás até a frase de Jesus citada por Paulo e que não surge nos relatos evangélicos nos repete: «Há mais alegria em dar do que em receber. » (Act. 20, 35). 

É este Deus generoso de querer chegar a todos, que surge prefigurado na parábola dos vinhateiros. Aqui vemos o dono da vinha que vem agora chamar a trabalhar no seu campo a várias horas do dia. E a todos querer pagar o dia inteiro de trabalho: o denário. Mas a gestão que o dono faz dos seus bens choca com as expectativas dos que mais tempo trabalharam, que comparando-se com os últimos, achariam ter direito a melhor tratamento. Esta parábola põe a nu o nosso coração, tantas vezes sedento de poder e de inseguranças, que procura ficar acima dos outros e de subir na hierarquia das relações. Este caso mostra-nos como a ganância se mistura com a inveja, pois se a primeira deseja ter mais que o outro, a segunda revela em nós o desejo de não querer que o outro tenha mais do que eu.

Todavia, a radiografia da Palavra, que agora nos lê e nos deixa ler em nós, não pretende deixar-nos aqui. Chama-nos para mais longe, para entrarmos na lógica da generosidade e gratidão. Generosidade para saber aproveitar as ocasiões de entrega de vida  para uma entrega mais intensa de si e desinteressada em si. E gratidão por se saber chamado a participar de um bem maior. 

Este é um longo caminho mas que nos levará a dizer como São Paulo: «Para mim viver é Cristo». (Fil 1, 21). E mesmo se em último, o Senhor da vinha não deixará de sair para continuar a nos procurar e a nos chamar. 

Saturday, 12 September 2020

Pela esperança, perdoar.

 


DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM


L 1 Sir 27, 33 – 28, 9; Sal 102 (103), 1-2. 3-4. 9-10. 11-12
L 2 Rom 14, 7-8
Ev Mt 18, 21-35

A revelação de Deus que acontece na bíblia aceita as contingências da história e é influenciada pelo contexto cultural de vários povos. Todavia a progressividade existe, como quem, pouco a pouco vai retirando o pó de um quadro para ver a pintura que lá estava tapada. Assim o vemos de como o de um Deus que apela ao anátema total e destruição da cultura estranha, depois se apela à lei de Talião - "olho por olho, dente por dente" - e que traduz uma primeira medida de contenção da vingança, que consistia em não causar maior dano do que aquele que é recebido. 

A contínua revelação de Deus vai já no Antigo Testamento mais longe. Vemos isso nas leituras deste domingo. O livro de Ben-Sirá reflecte que todo aquele que quer ser perdoado tem de se exercitar na arte de perdoar. Todos somos nos sentimos a certa altura ofendidos, haja ou não intenção da outra parte. Mas a fé, entendida como aceitação do amor de Deus, gera o conhecimento de que o mal nunca será definitivo. O rancor - etimologicamente designa aquilo que está a apodrecer - é a negação disto e fecha todas as portas do coração. Mal vai a alma onde ninguém passa (cf. Das Homilias atribuídas a São Macário (Hom. 28:PG34,710-711) ), onde o peso da ofensa fica a fermentar e o amor pela vida como dom é incapaz de absolver o mal recebido: tudo fica amargo. Dizia o padre Gaspar: «Uma pessoa velha amarga é, certamente, uma das supremas invenções do diabo» (Arlindo Magalhães, Padre Gaspar. A via do trabalho e da pobreza, Gráfica de Coimbra 1998, p. 255). 

Esta mesma lógica está presente no Evangelho, mas com acentos diferentes. O texto coloca a imensidade da dívida do primeiro (10.000 talentos será algo como 150 a 300 toneladas de ouro!) e a grandiosidade do perdão recebido com a mesquinhez da incapacidade de perdoar algo muito menor (200 denários serão aproximadamente entre 60 a 300 euros). 

O texto expõe-nos diante da nossa fragilidade e por quanto fomos resgatados, isto é, o sangue de Cristo. Não se trata de não procurar a  justiça, mas sobretudo perceber que a dignidade humana é sempre maior do que qualquer dívida. E a generosidade muito maior do que qualquer mesquinhez e cegueira. Creio que a fé nos permite não ficar presos nas ofensas sofridas, mas nos deixa livres das ofensas que existam no passado para nos apontar a esperança de bens muitos maiores.  Ou seja, pela esperança, perdoar. 

Saturday, 5 September 2020

Não me és indiferente!

 


DOMINGO XXIII DO TEMPO COMUM


L 1 Ez 33, 7-9; Sal 94 (95), 1-2. 6-7. 8-9
L 2 Rom 13, 8-10
Ev Mt 18, 15-20

À vida cristã não há nada mais estranho do que o "salve-se quem puder" ou "cada um por si". De facto, professar a fé em Jesus Cristo é acreditar que Ele viveu para dar a vida, que morreu e ressuscitou para nossa salvação e que o seu amor me alcança a mim hoje também. Por isso, para Deus ninguém é indiferente, sendo o seu amor permanente.  

É em resposta ao amor de Deus recebido que cada cristão é chamado a testemunhar a mesma forma de amar, consistindo nisto o centro da vida cristã. De facto, todos os restantes comportamentos a que a fé remete e pede são resposta a um dom recebido. Neste sentido sublinhava a Comissão Teológica Internacional que "a moral cristã, sem ser secundária, é segunda".

É neste contexto que me parece que podemos ouvir as leituras deste domingo que nos apresenta a Regra Fundamental da Comunidade Cristã. A correção cristã não parte por isso de um moralismo - muito embora, isto esteja presente nas nossas comunidades - mas da consciência de que todos somos responsáveis por todos. Por isso, a vida só ganha sentido quando é partilhada e vivida como relação real. 

Todos sabemos que no jogo das relações, que para existirem têm de ser cultivadas e vividas na totalidade, acontecem expectativas, desejos, planos, frustrações e até porventura ofensas. A consciência do amor de Deus recebido, porém, traduz-se numa abertura à relação e à misericórdia que há-de se procurar e esforçar para o meu próximo seja meu irmão. 

Por isso, a fé há-de se afirmar sempre ao outro: "não me és indiferente". Assim ouvíamos a Santo Agostinho: «Reconduzirei a desgarrada, procurarei a perdida. Quer queiras quer não, assim farei. E se, em minha busca, os espinhos dos bosques me rasgarem, eu me obrigarei a ir por todos os atalhos difíceis. Baterei todos os cercados; enquanto me der forças o Senhor que me ameaça, percorrerei tudo sem descanso. Reconduzirei a desgarrada, procurarei a perdida. Se não queres que eu sofra, não te desgarres, não te percas.» (Do Sermão sobre os pastores, de Santo Agostinho, bispo (Sermo 46,14-15)). 

A conclusão deste caminho é evidente. A fé, sem excluir o dom único de cada um, é realidade que implica comunidade. Sempre. Porque só pode ser vivida em relação. E da consciência de que recebemos o amor de Deus e assim nos reunimos que surge a Igreja, na qual pedimos ao Pai o pão de cada dia para alimentar a missão que temos na vida.