Friday, 29 December 2023

Amor, justiça e paz, votos de ano novo!

 

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – SOLENIDADE

L 1 Num 6, 22-27; Sal 66 (67), 2-3. 5-6 e 8
L 2 Gal 4, 4-7
Ev Lc 2, 16-21

Um ano ano se inicia, nesta data em que se celebra o oitavo dia da Solenidade do Natal e que dedicamos à festa de Santa Maria, Mãe de Deus, dogma proclamado no concílio de Éfeso. Também neste dia S. Paulo VI, dedicou, em 1967, o primeiro dia do ano como dia mundial da paz. É também com o desejo de paz no coração que iniciamos este novo ano.

É difícil para nós pensar nesta época do ano e não nos lembrarmos do valor da paz, como singular dom de Deus.

A bênção araónica que ouvimos neste dia do livro dos números é, segundo os estudiosos, é o mais antigo manuscrito do século VII a. C. encontrado até hoje em placas de metal, o que retrata a sua importância. Este texto invoca o Senhor como Deus que ama o seu povo, para que o proteja, o abençoe, olhe para o seu povo, o acompanhe e lhe dê a paz. O sentido profundamente religioso deste texto está carregado da consciência da fé de que o Deus de Israel é um Deus próximo. Nesta bênção tão antiga estão também os nossos desejos mais profundos: o desejo de ver a vida crescer e se multiplicar de amor para com aqueles que nos rodeiam, o desejo de podermos sentir a presença e o olhar de Deus que cuida de nós, num tempo em que somos tocados por dificuldades e de nos ser dado a paz, não apenas como ausência de conflitos, mas sobretudo como aquela que nasce da justiça e do perdão. Acho que todos ansiamos por isto: amor, justiça e paz.

Todavia, a maior bênção de Deus é-nos dado em Filho, feito homem para nós, do qual recebemos a maior graça: Deus faz-nos seus filhos adoptivos e revela-nos a grandeza do seu amor por nós. É Ele sempre a tomar a iniciativa, a vir ao nosso encontro, neste tempo na fragilidade e simplicidade de uma criança.

O Evangelho que ouvimos mete-nos dentro do presépio, espaço para onde acorrem os pastores, os últimos da sociedade; são eles que na sua simplicidade contam o que ouviram e depois regressam louvando e glorificando por tudo o que tinham ouvido e visto. É sempre a simplicidade e a humildade que permitem fazer emergir a alegria, deixando transparecer a gratidão diante das maravilhas que tocamos. E com os pastores podemos aprender a atenção aos bens que recebemos e louvar a Deus na alegria.

Mas também olhamos para Maria neste dia e vemos nela a grande figura deste dia. Vemos nela aquela que acolhe a bênção e dá ao mundo o Filho de Deus. Ela é modelo de acolhimento e de cuidado para a humanidade. Ela escuta, ouve e guarda no seu coração tudo o que vai acontecendo, ou seja vai compondo e não cai na tentação das respostas rápidas e fechadas. Tantas vezes queremos entender Deus de maneira rápida e fugidia! Maria compreende que os acontecimentos de Deus demoram tempo para ser comtemplados e meditados. É daqui que nasce a capacidade de nos treinarmos a não nos deixarmos ficar fechados em quartos fechados sem soluções e a cair em desânimos; no meio da aparente contradição da simplicidade do presépio, Maria surge como sinal de esperança a ensinar-nos a discernir a ação de Deus. De facto, um coração purificado por Deus procura guardar a acção de Deus que passa nas nossas vidas, por perceber que Deus só pode abençoar. Maria é aquela que estando tão descentrada de si se entrega totalmente. 

O Papa Francisco na mensagem que escreveu para o dia mundial da paz vem lembrar-nos da nossa necessidade de nos cultivarmos o cuidado das relações humanas diante da emergência da Inteligência artificial. Recorda-nos o Papa que nunca podemos deixar de ter discernimento no uso dos bens da eletrónica, que nascem do engenho humano e que tanto bem permitem realizar. Todavia, estes mesmos bens correm o risco de nos alienar da comunhão e relação uns com os outros, e nos procurarmos juntos os caminhos para percorrermos. Mais do que apenas informação recebida, importa cultivar a sabedoria de vida, em que no centro está a vida de Deus e o cuidado da dignidade de cada um.

Que a bênção de Deus nos alargue as fronteiras do nosso coração para darmos lugar à paz que só Ele pode trazer. Como nos diz S. Leão Magno: «É a paz que gera os filhos de Deus, alimenta o amor e cria a unidade. Ela é o repouso dos santos e a mansão da eternidade. E o fruto próprio desta paz é unir a Deus os que separa do mundo.»

Ser família à imagem de Deus

 

DOMINGO dentro da Oitava do Natal

Sagrada Família de Jesus, Maria e José – FESTA

L 1 Sir 3, 3-7. 14-17a (gr. 2-6. 12-14); Sal 127 (128), 1-2. 3. 4-5
L 2 Col 3, 12-21
Ev Lc 2, 22-40 ou Lc 2, 22. 39-40 

Celebrar o mistério do Natal é celebrar o facto de que o nosso Deus assume toda a nossa humanidade em todos os seus aspectos para a elevar e redimir. E isto acontece também na vida da Sagrada família.

Jesus cresce numa família, que como todas as demais, marca a nossa forma de ser e de estar sobretudo pela forma como se vive e expressa o amor. Mas no centro da Sagrada Família está a acção de Deus. É neste contexto que vemos a consagração de Jesus a Deus, como estava previsto para todo o primogénito varão em Israel. Mas logo se percebe nesta celebração ritual nada haveria de habitual. Ambos Simeão e Ana se alegram com este menino, pois Ele é o sinal de que Deus não desiste da humanidade e leva a sua misericórdia até ao fim. Um olhar de fé sempre vê em Jesus um sinal de esperança para a nossa humanidade. Hoje somos nós os Simeões e as Anas, que devemos ser movidos pelo Espírito Santo, e dispostos a acolher o Deus menino que vem à nossa vida.

Tal como a Sagrada família, as nossas famílias vivem na sintonia da misericórdia divina quando o são à semelhança da Santíssima Trindade. As leituras deste domingo ajudam a identificar alguns destes pontos: 

1. O amor partilhado nos esposos que se entregam totalmente um ao outro para constituírem uma só carne, ou seja, uma forma de vida única, marcada pela comunhão e fidelidade. Bem sabemos que no nosso mundo que o matrimónio está em crise, numa sociedade em correria constante, com lares desfeitos e tentativas de equiparar outras formas de vida à família tradicional, e num tempo de grande instabilidade. Todavia a fé mostra-nos que é do amor fecundo entre homem e mulher que a sociedade cresce e participa do poder criador de Deus. Celebrar o Matrimónio não significa apenas estabelecer um pacto ou assinar um papel, mas criar uma relação abençoada por Deus que une os esposos para partilharem juntos a vida. E onde se acolhe a benção de Deus, a vida multiplica-se. 

2. O livro da Sabedoria falava em honrar pai e mãe, como condição para o perdão dos pecados, para a alegria e da necessidade de cuidar na fragilidade da vida. Honrar é expressão de reconhecer o lugar único daqueles que nos geraram, e com a vida e dedicação acolheram transmitiram os acontecimentos mais importantes de cada casa. Assim, a missão da educação é tarefa que pertence em primeiro lugar à família, que é ela que tem a missão de fazer crescer em graça cada filho, com a ajuda de Deus. Educar não é impor; educar e formar é ajudar a emergir e dar forma ao bem que Deus coloca em cada um, mediante uma relação de amor. Só no amor se pode educar, como só no amor se pode verdadeiramente obedecer. 

3. O cuidado é também sinal essencial em cada família. Esta é espaço onde o amor se concretiza em cuidado pelos demais, sobretudo nos momentos mais frágeis da vida, onde o cuidar, sendo tantas vezes difícil, é também fecundo de um amor que se leva até ao fim. 

4. A família é escola de amor e de serviço, mediante os valores da «bondade, humildade, mansidão e paciência» como nos diz S. Paulo. O amor reveste-nos destes dinamismos, que são fundamentais para que todos possam ter o seu espaço, onde cada um se pode partilhar e revelar, consciente de que a lógica de procura de primazias sobre os outros é sempre destrutiva. Sem humildade será extremamente difícil que o suporte mútuo e o perdão sejam uma realidade. Quem assim vive tem sempre espaço para os demais, aceitando muitas vezes morrer para o mais imediato por amor do outro. Nestes valores, o amor floresce e encontra sempre um caminho. 

O amor faz emergir o melhor em nós e nos outros e cria-nos a consciência que de facto pertencemos uns aos outros. É por isso que nos identificamos num grande corpo, em primeiro lugar na família, mas depois em Igreja. A Igreja é de facto "família de famílias", pois pertencemos ao grande corpo de Cristo, como nos diz São Paulo. 

Numa Igreja viva devemos conseguir identificar os mesmos sinais que veríamos numa família e vice-versa, na comunhão, no serviço mútuo, na partilha de vida. Se por um lado somos chamados a distinguir o que se quer colocar como igual ao modelo de família no Matrimónio, a nossa missão em Igreja leva-nos a acolher e a dar a conhecer a todos a vida da Sagrada família, a qual responde à missão de ser rosto de Deus, mesmo no meio das dificuldades que atravessou. A fecundidade, a partilha, a complementaridade, o cuidado, o perdão e entrega de vida são sinais essenciais da presença de Deus, do Espírito Santo, "Senhor que dá a vida". 

Não tenhamos dúvida que a misericórdia de Deus pode converter os nossos corações, purificando-nos da nossa dureza e fazendo emergir a verdadeira alegria. Se as nossas famílias têm falhas e dificuldades, têm também muito amor quando procuram responder ao amor de Deus, e assim poderem ser pequenas Igreja Domésticas.

Sunday, 24 December 2023

Um Deus feito homem como nós!

 


Homilia do dia de Natal 2023

 

Celebramos hoje o Mistério do Natal do Senhor, data central para nós, cristãos. Este dia é um dia de festa da revelação do amor de Deus, ao qual se nos acostumamos, corremos o risco de deixar de viver: Deus assume a nossa humanidade, entra na nossa existência, abaixa-se e faz-se frágil por nós, para nos convidar a viver em comunhão com Ele. Ele, o Deus do Princípio, o Deus do Poder e Força, torna-se para nós, Deus de proximidade e de confiança, envolvido em panos e cheio de fragilidade.

Na nossa humanidade, totalmente unida com a divindade em Jesus Cristo, Deus sente com o coração humano e quer ser para nós sinal de paz e de alegria, de que o verdadeiro poder da criação reside no amor. E assim vemos um Deus que se faz frágil e que se confia nas nossas mãos, apontando a sua vida como caminho de luz para nós. Deus sente com toda a inteireza do que somos, mas não se deixa cair no ressentimento que tantas vezes desfigura a nossa vida e levanta muros de relação, onde a paz e comunhão são arruinadas. Deus sente e chama-nos a termos em nós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus (cf. Fil 2, 5), como afirma São Paulo.

Hoje, é de cada um de nós que Ele se aproxima, na força da sua Palavra, capaz de nos curar e voltar a abrir um coração às vezes empedernido, ou por vezes mais frio, mas sempre capaz de amar, que cada um de nós pode encontrar força para tentar percorrer caminhos novos de paz, connosco e com os outros. O drama da humanidade é tantas vezes depositar mais a confiança nas trevas do que luz, mais em janelas fechadas do que em portas abertas, que nos impedem de voltar a redescobrir o valor da comunhão, da amizade e do perdão. E o sinal do Menino, nascido para nós e adorado pelos pastores, faz-nos intuir, como dizia o texto do evangelho de São João, que esta renovação acontece por “graça e verdade” e não pela imposição da Lei. Graça e verdade, isto é, fazer emergir em nós porventura o amor que possa estar mais escondido, deixando atuar em nós a força do Espírito Santo.

Por isso, o Natal é sempre ocasião de alegria, porque na base de tudo está a esperança de um Deus que se entregou totalmente por nós, aceitando ser um de nós. Ele que nos conhece totalmente, na nossa vida, chama-nos a viver em comunhão uns com os outros. Nele, que é a Verdade, somos todos os dias recriados no seu amor, a qual só pode operar em nós pelo nosso desejo e liberdade. Jesus mostra-nos que a misericórdia e a simplicidade de vida são caminhos que nos aproximam do essencial, da vida que todos queremos e desejamos viver.

Por isso, o Natal é uma sempre a celebração do poder de Deus que nos dá vida e nos convida a entrar numa atitude de adoração como os pastores, que são capazes de se alegrar com os anjos e cantar as maravilhas de Deus.

O presépio de Belém, neste ano que celebramos os 800 anos da recriação do nascimento de Jesus em Greccio por São Francisco de Assis, é o sinal de Deus simples e próximo que se entrega totalmente, onde o calor da ternura da Sagrada Família é mais forte do que o frio daqueles que não têm espaço acolher para o Senhor. Mesmo no meio das dificuldades, este sinal tão próprio desta altura, recorda-nos que Deus ao assumir totalmente a nossa vida, nos chama a ser inteiros em tudo o que fazemos, a nos entregar aquilo que amamos e que vem de Deus. E quanto mais inteiros formos, ainda que na simplicidade, mais a vida será vivida do essencial. E é sempre do essencial que toda a vida emerge e se constitui.

Termino partilhando convosco algumas palavras em jeito de oração:

 

Tu és o Deus que sente

mas que não se ressente

que frágil te aproximas de nós

e te confias nas nossas mãos.

 

Tu és o Deus da Palavra

em cujos silêncios ou partilhas 

há sempre revelação do teu amor

para nos erguer e abrir a nossa dor.

 

Tu és o Deus omnisciente

que nos conheces por inteiro

e que sabiamente nos formas

e sem nos manipular, és nosso oleiro.

 

Tu és o Deus omnipotente

que escancaras a porta à humanidade

e no calor sentido de vida que és

nos convidas a ser inteiros como tu

e nunca a viver apenas pela metade.

 

 

 

Saturday, 23 December 2023

Maria, modelo dos crentes.

 

                                                   Image by Dorothée QUENNESSON from Pixabay 


DOMINGO IV DO ADVENTO


L 1 2 Sam 7, 1-5. 8b-12. 14a. 16; Sal 88 (89), 2-3. 4-5. 27 e 29
L 2 Rom 16, 25-27
Ev Lc 1, 26-38 

As leituras propostas fazem-nos olhar hoje de maneira mais especial para a figura da Virgem Maria no grande acontecimento da Anunciação. Vemos aqui toda a pedagogia divina para com Maria e como o Senhor leva ao cumprimento das promessas feitas a David, da promessa feita por Deus como resposta ao seu desejo de habitar no meio de nós. Deus habita no meio de nós, não pelos grandes edifícios que fazemos, mas ao assumir a nossa humanidade. É d'Ele sempre toda a iniciativa que nos convoca a nós para lhe respondermos. 

O domingo que celebramos hoje é mais um passo certo no caminho do mistério do Natal, do mistério de Deus que nos vem revelar a nossa vocação para vivermos em verdade como seus filhos. No centro deste acontecimento, está a figura da Virgem Maria, modelo dos crentes. 

É dela que se aproxima o anjo, o mensageiro, que vem em nome de Deus para dirigir a Palavra, a ela escolhida e "cheia de graça", já santificada por Deus para iniciar uma nova aliança. Maria acolhe e  escuta o chamamento de Deus para bem de toda a humanidade. No seu sim, o Verbo de Deus faz-se carne por meio de Maria e assume a nossa humanidade. E isto acontece por graça do Espírito Santo, que é "o Senhor que dá a vida" e sempre que é acolhido produz maravilhas. Mas para isto foi preciso Maria ter-se feito dom, ter entregado a sua vida no seu acolhimento e ter confiado totalmente na bondade de Deus. Quanto mais confiamos e aproximamos de Deus, mais a nossa vida ganha sentido e proximidade para com aqueles que nos rodeiam. 

Se na antiga Eva se levantou a dúvida sobre Deus, em Maria a sua confiança abre para todos nós a porta da vida nova, da vida que supera a desconfiança e medo de Deus. Em Maria podemos aprender a responder sim a Deus, com a entrega da nossa vida, deixando-nos purificar do egoísmo e dos horizontes estreitos. Reparemos no amor com que Deus trata Maria, pela figura do anjo. Toda a relação é marcada pelo conhecimento profundo da identidade de Nossa Senhora. Foi assim com Maria, é assim connosco. Acreditamos num Deus que nos conhece e que quer se relacionar connosco, e que assim nos torna únicos. É também por isso que a nosso coração tanto anseia descansar e conhecer o Mistério de Deus; e aqui encontramos a raiz da nossa vocação humana. 

Se queremos compreender a nossa vocação, realidade que percorre toda a nossa vida, olhemos para a atitude de Maria. Deus criou-nos para o conhecer e vivermos à sua imagem. Acolher a sua Palavra e viver a "obediência da fé" como refere São Paulo, significa que nos dispomos a entrar em comunhão de vida de amor. Amor que é a origem da criação, amor que supera a nossa capacidade e que revela a nossa vida. É só pelo amor, que Maria acolhe, que Deus nos chama a todos e nos faz participantes desta relação. Amor que por ser verdadeiro não passa nem nos ultrapassa, mas que nos acompanha e nos espera. 

A vocação cristã tem sempre qualquer coisa do sim de Maria. Maria entrega-se e abandona-se a Deus por toda a humanidade; a nossa vocação, enquanto caminha na sua purificação, também é entrega pela mesma humanidade. E na entrega que faz, sintoniza a mesma frequência de Deus. Como Maria, deixemos o olhar amoroso de Deus entrar em nós e despertar-nos para vivermos o sonho e a vida a que somos chamados. 

Thursday, 7 December 2023

Maria, dom de vida de Deus para todos




IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA,


L 1 Gn 3, 9-15. 20; Sl 97, 1. 2-3ab. 3cd-4
L 2 Ef 1, 3-6.11-12
Ev Lc 1, 26-38 


A celebração da Imaculada Conceição permite colocar diante de nós duas atitudes de vida, a humanidade, da nossa maioria, que cede diante das insinuações da dúvida sobre Deus e a da nova humanidade, simbolizada na figura da Virgem Maria, que se volta para Cristo, chave da história. 

É assim que vemos no relato dos primeiros pais, que se escondem de Deus, diante da consciência da sua vulnerabilidade, motivados pelo medo e pela vergonha, e onde a agressividade emerge entre os dois e entre estes e a criação. Mas Deus, continua a chamar, e não abandona a humanidade à sua sorte; este mesmo Deus, continua a santificar, a quer elevar no amor a humanidade. 

É mesmo para a santidade que Deus chama, como descreve a carta aos Efésios, como a característica que define a nossa vida, como condição de abertura ao dom que somos. Quantos mais santos, mais autênticos, pois é para isso que a nossa existência está predestinada. Chamados a viver como filhos adotivos e para sermos um hino de glória de Deus. 

Se é em Cristo que somos santificados, a celebração da Imaculada Conceição lembra-nos que a Sua vinda é já preparada no dom de Maria, purificada de todo o pecado original, ou seja, purificada de tudo aquilo que faz em nós gerar desconfiança de Deus. Assim Maria é Mãe de Deus, mas neste dom, a sua vida é também admirável para nós. Diziam os antigos, Maria é a porta do céu, por cuja existência nos é dado a conhecer Jesus Cristo. Ela é por isso a primeira das redimidas da humanidade. 

Nela vemos a antítese do que víamos no livro do Genésis: ela não se esconde, mas aproxima-se sem disfarçar os seus sentimentos daquele que lhe anuncia a boa nova. E por isso, pergunta, confia e entrega-se. 

Do mesmo modo, Maria confia na misericórdia divina, amor sob o qual constrói e entrega a sua vida, e também parte em missão para esta missão. 

Celebrar a Imaculada Conceição é por isso celebrar a consciência de que a nossa humanidade tanto mais se realiza quanto mais se deixa santificar por Deus.