Saturday, 27 February 2021

Jesus está presente nas nossas provações

Image by Dimitris Vetsikas from Pixabay



DOMINGO II DA QUARESMA


L 1 Gen 22, 1-2. 9a. 10-13. 15-18; Sal 115 (116), 10 e 15. 16-17. 18-19
L 2 Rom 8, 31b-34
Ev Mc 9, 2-10 

Segundo domingo da Quaresma, nesta caminhada que fazemos até à Páscoa. Tempo de renovação de vida e transformação interior. É tempo de nos pormos a caminho para contemplar os lugares mais elevados da nossa existência, a qual terá necessariamente de passar por provas, para aí ser purificada. Aí vemos Abraão e Isaac, seu filho; aí vemos Jesus e os discípulos. 

O texto de Abraão ajuda-nos a perceber a centralidade da fé na nossa vida: antes de vermos uma obediência cega de Abraão de sacrificar o filho, está a confiança ilimitada na promessa que Deus havia feito a Abraão da descendência. Abraão é figura de que a nossa vida está sempre sob o olhar de amor de Deus. Abraão ensina-nos que diante da mesmo diante da prova, o Senhor permanece fiel à sua promessa e ao seu chamamento. O sinal dado à Abraão serve de sinal para nós de confiança, pois "quem confia no Senhor é como o monte Sião: está firme para sempre" (cf. Sal 125, 1); já, "quem desconfia é semelhante às árvores agitadas pelo vento forte" (cf. Is 7, 2). 

O Evangelho volta a sublinhar a dinâmica de subida. Deixando tudo para trás, os discípulos seguem Jesus, que segue connosco na subida. É nesta subida que Jesus é transfigurado, e colocado como centro entre os Elias e Moisés, entre os profetas e a Lei, sinal da missão de Jesus como presença de Deus entre nós. A nuvem e a voz, como sinal da presença de Deus no livro do êxodo (Ex 24, 16), apontam Jesus como aquele que devemos escutar. É significativo que Deus, que apelava à escuta de si, apresente Jesus como aquele que agora deve ser escutado, sinal da sua origem divina e habitação entre nós. 

É no meio do medo, que tantas vezes toca a nossa condição, que Jesus brilha com a sua luz para nos fazer entrar na comunhão do Pai. Mesmo a incapacidade de os discípulos formularem uma resposta capaz não é impedimento para a comunhão. A luz de Jesus, que não é de origem terrena, é capaz de descobrir o coração humano iluminar a nossa verdadeira imagem. 

A experiência dos discípulos só poderá ser entendida depois da ressurreição de Jesus. É a partir da experiência de partilhar a vida do Senhor ressuscitado, que se vive a transfiguração de Jesus. A transfiguração é sinal da ressurreição, como realidade a que somos chamados a entrar por dom com toda a nossa vida. A ressurreição não apenas realidade de final de vida; sendo a ressurreição realidade subsequente à morte, todas as nossas entregas e mortes com Cristo são sementes de ressurreição para a renovação permanente da nossa vida; aliás, só se o grão de trigo morrer é que pode ressuscitar. 

A nossa vocação cumpre-se no aceitar da transfiguração da nossa vida, da escuta da Palavra e da na sua entrega guiadas por Jesus na força do Espírito Santo, que nos acompanha para superar as tentações, provas e dificuldades. Encontrar, mesmo no meio da escuridão, a luz da fé, é encontrar a presença de Jesus connosco, mesmo no meio das provações. Assim dizia São Paulo: «Se Deus está por nós, quem estará contra nós?». Deixar-se guiar pela Palavra de Deus é caminhar no caminho da ressurreição. 


Saturday, 20 February 2021

Reflorescer no deserto

Flores que brotam no deserto do Neguev depois das torrentes. Foto de Dan Zelazo



DOMINGO I DA QUARESMA


L 1 Gen 9, 8-15; Sal 24 (25), 4bc-5ab. 6-7bc. 8-9
L 2 1 Pedro 3, 18-22
Ev Mc 1, 12-15

Estamos em quaresma, caminho de quarenta dias, em caminha para a Páscoa, para passarmos com Jesus para a vida eterna. Tempo de nos deixarmos impregnar da vida de Jesus, do seu amor, da mudança da nossa mentalidade para vermos o mundo como Deus o vê. 

O primeiro passo e a primeira marca que levamos está em nós pelo baptismo, pelo qual já fomos revestidos de Cristo, onde fomos mergulhados na água para passar da morte à vida. Todavia, o caminho da fé não se resolve de uma vez, mas como a própria vida, é vivida um dia de cada vez. 

Na fé, a iniciativa pertence sempre a Deus. É Ele, que por Jesus, nos ensina com a sua palavra o caminho pascal que percorremos. E assim o retrata o Evangelho que escutamos neste domingo. Jesus vai para o deserto, lugar onde esteve por quarenta anos o Povo Hebreu, em caminho do Egipto para a terra prometida. Para o Povo Hebreu, o deserto foi o lugar da aliança, de infidelidade, de misericórdia, de lutas, de amor, de alegrias e de tristezas. É imagem de um espaço onde o Povo experimenta a vida na sua dureza e por onde foi guiado por Deus. 

Pois é para este mesmo lugar que Jesus é conduzido pelo Espírito Santo. Dizia S. Gregório Nazianzeno que «O que não foi assumido pelo Verbo não foi redimido» (Ep. 101, 32). Aí vemos Jesus a percorrer o mesmo caminho da humanidade, a ser tentado pelas mesmas fragilidades. É Deus a assumir a nossa história, para nos chamar à conversão. Conversão que significa passar a ser mais como Jesus, a deixar que Deus nos guie e nos assemelhe mais a Jesus, na relação consigo mesmo, com os outros e com Deus. Mesmo a relação com a natureza é transfigurada ao vermos como Jesus, como Adão antes da queda, é capaz de viver em harmonia com os animais selvagens. 

Tal como o deserto, a nossa sociedade, e a nossa vida tem sede desta presença de Jesus capaz de renovar todas as nossas relações e anseios mais profundos. Que a vida nossa possa ser reflorescer como as torrentes do Neguev:


Friday, 12 February 2021

Ousadia confiante

Image by Christine Schmidt from Pixabay 


DOMINGO VI DO TEMPO COMUM


L 1 Lev 13, 1-2. 44-46; Sal 31 (32), 1-2. 5. 7 e 11
L 2 1 Cor 10, 31– 11, 1
Ev Mc 1, 40-45 

O Evangelho deste Domingo coloca diante de nós um cenário de como o povo semita lidaria com as doenças contagiosas. Pelo bem de todos, os infectados com lepra, e por isso com o risco de a poderem transmitir ao resto da comunidade, deveriam ser postos fora da comunidade e visivelmente identificados para não se aproximarem de ninguém, nem ninguém se aproximar deles. 

É a atitude de exclusão que nasce da primeira leitura, e que nos dias de hoje, continuamos com a mesma estratégia de para o bem de todos, separar os mais doentes. Mas a lógica do cristianismo é revolucionária neste sentido. 

O relato do Evangelho é admirável em vários aspectos. Primeiro somos convidados a olhar a ousadia, nascida da confiança do leproso que o leva a aproximar-se de Jesus. Ele, sabendo da sua total limitação, não teme vir ter com aquele que sabe até ao momento executou tantas curas, para se dispor a ser curado. Lição de fé para todos nós, ao não se deixar vencer pelo desânimo, mas a ousar tudo entregar. Por outro lado, Jesus, cheio de compaixão, é claro na sua vontade de querer curar aquele homem, que violava a Lei do livro do Levítivo. Sinal para nós de que Jesus leva a Lei mais longe para guardar o primado da pessoa humana: a partir daqui este homem pode voltar a viver em comunidade e em sociedade, em servir aqueles que também precisarão dele. 

O estilo de Jesus, de se deixar fazer próximo dos que sofrem, vai marcar a Igreja nascente. Rodney Stark, no livro The Triumph of Christianity, defende que o motivo pelo qual o cristianismo se afirmou como a religião de Roma, foi pela caridade dos cristãos. No tempo em que Roma foi assolada pela peste durante o reinado de Marco Aurélio, os cristãos permaneceram na cidade a cuidar dos doentes, animados pela fé, enquanto os pagãos fugiam para fora. A verdade é que muitos cristãos acabaram por morrer contagiados, mas a mortalidade total estima-se ter sido diminuída em dois terços. (cf. Rodney Stark, The Triumph of Christianity: How the Jesus Movement Became the World’s Largest Religion (New York: HarperOne, 2011), 114-119.). 

A interpelação à nossa vida leva-nos a perceber que o tesouro da fé não nos reduz a apenas praticantes religiosos. Dá-nos a certeza de que a nossa vida já está nas mãos de Deus. Por isso, é entregue em serviço. 

Friday, 5 February 2021

Diante da Porta

Image by jplenio from Pixabay 



DOMINGO V DO TEMPO COMUM


L 1 Job 7, 1-4. 6-7; Sal 146 (147), 1-2. 3-4. 5-6
L 2 1 Cor 9, 16-19. 22-23
Ev Mc 1, 29-39 

Somos frágeis. Quer fisicamente, quer moralmente. Assim nos mostra a nossa experiência, algo que também atravessa toda a história do povo bíblico. E talvez o testemunho desta fragilidade seja também a maior credibilidade da Palavra de Deus. O Povo escolhido por Deus não é engrandecido, mas muitas vezes revelado fraco, infiel, medroso e pecador. A sua herança e a sua identidade vem-lhe não dos seus grandes feitos, mas de Deus que os escolhe e os ama. 

Assim o testemunho do livro de Job, figura bíblica que alude ao homem justo que sofre, ou então ao homem que "estaria cansado de viver". Será o mesmo Job, incapaz de encontrar amparo nos amigos, a descobrir que é a acção de Deus que o cura. 

Assim vemos a acontecer a acção de Deus que anuncia a Palavra, palavra que depois cura aqueles que o ouvem. Aqui não basta apenas saber a resposta certa. A missão do anúncio de Jesus deseja levar aqueles que o ouvem a abraçar o seu estilo de vida. Diante da porta da casa de Pedro está toda uma cidade que acredita na acção de Jesus. A fazer parte desta cidade estou eu e tu. À Igreja cabe a missão de abrir a porta para que haja espaço de encontro com Jesus. Grande missão a da Igreja, porta que vai até ao nosso coração aberto às dificuldades deste mundo. 

O desejo de Jesus não se fica porém no sucesso das curas. A missão exige, ao ritmo do coração do Pai, sair e ir ao encontro das restantes aldeias, aos que vivem longe, sinal de que a missão de Jesus passará sempre por se fazer próximo e anunciar o amor do Pai. 

A urgência do amor do Pai ser conhecido é imparável. E daí a missão sem fim de Jesus.