Wednesday, 22 February 2023

Caminho aberto até à Páscoa




QUARTA-FEIRA DE CINZAS


L 1 Joel 2, 12-18; Sal 50 (51), 3-4. 5-6a. 12-13. 14 e 17
L 2 2 Cor 5, 20 – 6, 2
Ev Mt 6, 1-6. 16-18 

Iniciamos hoje uma nova etapa de caminho. Entramos em tempo de quaresma, o tempo de quarenta dias em direção à Páscoa. Quaresma não significa tempo de tristeza ou de angústia, mas antes tempo de essencial. Assim nos exorta o profeta Joel que contesta a superficialidade da conversão pessoal, convidando a rasgar o coração e não os vestidos, conforme a prática piedosa dos judeus de então. 

A verdadeira conversão começa dentro e não fora e não apenas na renúncia a um determinado defeito ou vício - algo que já não é pouco -, mas é sobretudo passar a querer o bem que ainda não se quer. Só assim se pode falar em conversão. E deve ser muito triste achar que já não há nada a converter na própria vida…

A raiz da conversão encontra-se no fundo do coração humano, no segredo da consciência da cada um, onde acontece o encontro com Deus. O evangelho faz uma radiografia da alma mediante as três ações típicas de um judeu piedoso: a esmola, a oração e o jejum. E estes continuam a ser os meios comuns que a Igreja aponta para a vida da quaresma, reconhecendo neles expressão de amor para serviço dos mais pobres.

Todavia, Jesus vai ao interior do coração. E vemos como Ele identifica a oposição entre "fazer para os outros verem” ou "fazer em segredo". A ironia do texto é impressionante, expondo a nossa vida e apresentando como só o Pai "vê o que está oculto", sinal que indica que a vida moral (bem como a restante) se alicerça no coração. Sem o encontro com Deus, facilmente a fé fica em ritos exteriores, para evidenciar uma suposta perfeição, e o nosso coração fica com uma armadura onde nada pode entrar e nada pode sair. Era assim no tempo de Jesus; é assim também no nosso. A relação com Deus deixa-nos diferentes.

Uma das palavras mais ouvidas neste texto é a da “recompensa”. Uma, a marcada pela exterioridade, leva aos aplausos e admiração alheia; a outra introduz em relação e procura o amor, como chave que não desiste nunca de fazer crescer o bem, algo que depois se traduz em amor pelos demais. Na raiz está a humildade, simbolizada nas cinzas que impomos sobre a nossa cabeça, cinza que nos lembra a nossa fragilidade humana, chamando-nos de retorno ao essencial. Mas a humildade é também o meio onde toda a virtude se pode desenvolver e por onde as divisões podem ser sanadas.

Este tempo de quaresma apresenta-se como um tempo de purificação de toda a nossa vida pessoal e eclesial, em todos os aspectos, convocando-nos para a busca da justiça e do amor, dispondo o nosso coração para acolher o dom da Páscoa. Que não desistamos de caminhar. 



Saturday, 18 February 2023

Da medida de Deus




DOMINGO VII DO TEMPO COMUM


L 1 Lv 19, 1-2. 17-18; Sl 102 (103), 1-2. 3-4. 8 e 10. 12-13
L 2 1Cor 3, 16-23
Ev Mt 5, 38-48 

A liturgia deste Domingo coloca-nos no seguimento do Sermão da montana de Jesus, onde Ele nos continua a apontar o caminho para o Alto. Mais uma vez, Jesus volta a mostrar os caminhos de superação da antiga lei, sem nunca a rejeitar, mas fazendo brilhar o seu interior. 

A medida que temos é a de Deus, e a nossa vocação é a de sermos Filhos de Deus, que age com bondade para com todos. Assim, somos convocados a assumir como estilo a misericórdia, que orienta a nossa fidelidade para a procura do bem, assumindo o caminho do bem, mesmo no meio das dificuldades: é assim que é apresentado a superação de toda e qualquer vingança, do esforço para superar em bondade, o amor como capacidade de dar apoio a quem precisa. 

A raiz desta acção não é apenas uma conquista pessoal. É para podermos corresponder ao amor recebido, vivido em espírito e a corpo inteiro, como templo do Espírito Santo. 

Saturday, 11 February 2023

Caminho de libertação para percorrer

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DOMINGO VI DO TEMPO COMUM


L 1 Sir 15, 16-21 (15-20); Sl 118 (119), 1-2. 4-5. 17-18. 33-34
L 2 1Cor 2, 6-10
Ev Mt 5, 17-37 ou Mt 5, 20-22a. 27-28. 33-34a. 37

A liturgia da palavra deste Domingo coloca diante de nós um renovado caminho de fidelidade, mediante as palavras exigentes de Jesus. O livro da sabedoria apresenta em primeiro lugar a vontade como dinamismo fundamental para responder com largueza de horizontes ao dom da criação que Deus nos confia, para percorrer a vida com gratidão e entrega pelo bem. De facto, o pecado, de tudo o que atrofia a dignidade humana, é caminho estranho a Deus, ao passo que a sabedoria de Cristo, a do amor, permite-nos participar da vida íntima de Deus, como recorda S. Paulo. 

É em nome da libertação que Jesus, no Sermão da Montanha, e em tipologia de novo Moisés, apresenta a importância da Lei como memória de uma libertação, dando-lhe também um novo domínio, onde também se inclui o coração e não apenas um cumprimento exterior. 

A vida de Jesus é um testemunho que revela mais claramente o rosto do Pai, de forma a nos fazer viver como filhos de Deus. Por isso, o Deus de Jesus é o mesmo do Antigo Testamento, agora apresentado sem as contingências de uma história nacional israelita, mas sobretudo na chave da relação filial. Entre esta missão está a apresentação de um estilo de vida muito mais libertador e radical. 

É pertinente a associação que Jesus faz entre prática e ensino dos preceitos que Ele agora renova. Aqui Jesus faz a ligação entre as escolhas que fazemos e a forma como as transmitimos, claro que sem esquecer que as nossas obras também falam! Mas a palavra também é importante, num tempo que carece de uma nova evangelização, de voltar a falar das realidades mais simples da nossa fé, como nos recorda o Papa Francisco: Deus ama-te, Deus salva-te, Ele está vivo e dá-te o teu Espírito, (cf. Francisco, Cristo Vive, capítulo 4). 

Os três exemplos que Jesus apresenta no evangelho, de purificação do nosso olhar da Lei, dirigem-se a três tipos de relação na nossa vida: fraterna, conjugal e social, ensinando-nos que o princípio da moralidade está no nosso coração, seja no reconhecimento do bem que é o meu próximo e que é merecedor do meu respeito, compreensão e paciência; seja no domínio da vida afectiva, em que a pessoa humana nunca se pode tornar apenas objecto de desejo, mas merecedora de todo o amor e delicadeza; e que por fim, a nossa relação com todos deve ser assente numa linguagem clara, sem recorrer a subterfúgios de palavras, ou agressões mediante meias palavras ou silêncios estranhos.  

O caminho radical é, volto a dizer, de libertação. Todos somos chamados a percorre-lo, e embora possam existir quedas, nunca desistamos de empenhar o nosso coração para uma correspondência ao amor divino. 

Friday, 3 February 2023

Mais vale gastar-se que enferrujar-se



DOMINGO V DO TEMPO COMUM


L 1 Is 58, 7-10; Sl 111 (112), 4-5. 6-7. 8a e 9
L 2 1Cor 2, 1-5
Ev Mt 5, 13-16


Continuamos neste Domingo no quinto capítulo do Evangelho segundo São Mateus, com o discurso da montanha. O Evangelho, na sequência dos caminhos de felicidade, Jesus anuncia uma síntese mediante duas imagens do dia-a-dia, o sal e a luz. 

Sabemos que o sal no mundo antigo não era apenas usado para evidenciar o sabor dos alimentos, mas antes de mais, um meio pelo qual se conservavam os alimentos, num tempo desconhecedor dos meios que hoje temos. A singularidade da imagem de Jesus que hoje nos apresenta sobre o sal sublinha a necessidade deste manter a sua força, ou seja, a não ser contaminado por elementos estranhos, que façam baixar o seu grau de pureza.

Semelhante imagem é apresentada por Jesus relativamente à luz, que para se expandir e iluminar não podem haver obstáculos no seu caminho. 

Estas duas imagens que remetem para o espírito da vivência das bem-aventuranças que nos convocam, como discípulos de Jesus, para não nos deixarmos esvaziar da sua graça, não somente numa perspectiva de ausência de falhas morais, embora isto seja importante para a alma não ficar entorpecida, mas sobretudo em manter viva a abertura para agir e cuidar dos outros, numa lógica que supera claramente o conformismo e indiferença diante dos nossos semelhantes. Lembremos como as bem-aventuranças tinham no centro a misericórdia, precedidas pela abertura do coração e seguidas da capacidade de agir pelo outro. 

Reparemos como o profeta Isaías apresenta que a acção pelos outros, a pacificação e a misericórdia vividas têm em si uma força que cura a alma do que entorpece. 

Este é o grande poder que Deus nos dá: o de agirmos como Ele age pelos outros e que nos aproxima da fonte da vida e nos torna corresponsáveis uns pelos outros. Dizia Cumberland: «Mais vale gastar-se que enferrujar-se»! Que a nossa vida também viva nesta lógica.