DOMINGO XXVII DO TEMPO COMUM
L 1 Gen 2, 18-24; Sal 127 (128), 1-2. 3. 4-6
L2 Hebr 2, 9-11
Ev Mc 10, 2-16 ou Mc 10, 2-12
A liturgia deste domingo abre o nosso coração para o iluminar com a sua luz.
A primeira leitura, do livro do Génesis, é o conhecidíssimo relato da criação. Nele vemos o homem, antes de sucumbir à tentação de querer ser Deus. O homem, criatura é colocado por Deus a contemplar e nomear todos os seres de acordo com a sua identidade. Dar o nome é dar a identidade e criar lugar para cada ser, lugar que é irrepetível. Não se vê portanto o homem a dominar a terra à força, mas a ser aquele que é responsável por cuidar da ordem, algo que tem evidentes implicações na nossa relação com a criação de Deus e por isso na ecologia.
Mas até aqui não ouvimos a voz do homem; de facto, o texto identifica uma verdade da nossa condição: a solidão não é boa para o homem, sendo que a relação com toda a restante criação não realiza a pessoa humana. A mulher é apresentada como auxílio, atributo que a Sagrada Escritura apenas atribui a Deus, sendo esta passagem a única excepção no Antigo Testamento. A mulher é criada do homem, sinal evidente da igual dignidade de ambos; todavia, isto não dilui a diferença. De facto, é na relação e comunhão com o diferente que a pessoa emerge. A ortografia hebraica atesta a igual dignidade entre ambos, pois a palavra mulher - isha - deriva da palavra homem - ish.
É no coração humano que se iniciam as relações. O drama ao longo de toda a sagrada escritura é sempre o coração duro, insensível a voz do outro e da voz de Deus, que deixa de responder às interpelações.
É neste contexto que acontece este debate com os fariseus sobre a legitimidade de repudiar a mulher - ou o marido. Jesus não entra em debates, mas apela ao Princípio, ao plano original de Deus para a humanidade. O princípio de Deus é o critério central para discernimento e o eco profundo do nosso coração: todos ansiamos a superação da solidão mais radical pela experiência do amor, do perdão e da comunhão verdadeiras. Para isso precisamos de um coração de criança, que saiba reconhecer a gratuidade de Deus, acolher o amor que se manifesta e partilhar o dom que existe em cada um.

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