Friday, 15 September 2023

Pela esperança, perdoar!

 


DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM


L 1 Sir 27, 33 – 28, 9; Sal 102 (103), 1-2. 3-4. 9-10. 11-12
L 2 Rom 14, 7-8
Ev Mt 18, 21-35

A revelação de Deus que acontece na bíblia aceita as contingências da história e é influenciada pelo contexto cultural de vários povos. Todavia a progressividade existe, como quem, pouco a pouco vai retirando o pó de um quadro para ver a pintura que lá estava tapada. Assim o vemos de como o de um Deus que apela ao anátema total e destruição da cultura estranha, depois se apela à lei de Talião - "olho por olho, dente por dente" - e que traduz uma primeira medida de contenção da vingança, que consistia em não causar maior dano do que aquele que é recebido. 

A contínua revelação de Deus vai já no Antigo Testamento mais longe. Vemos isso nas leituras deste domingo, e que continua a treinar o nosso coração na arte do perdão, como já ouvíamos na semana passada. O livro de Ben-Sirá reflecte que todo aquele que quer ser perdoado tem de se exercitar na arte de perdoar. Todos nos sentimos a certa altura ofendidos, haja ou não intenção da outra parte. Mas a fé, entendida como aceitação do amor de Deus, gera o conhecimento de que o mal nunca será definitivo. O rancor - etimologicamente designa aquilo que está a apodrecer - é a negação disto e fecha todas as portas do coração. Mal vai a alma onde ninguém passa (cf. Das Homilias atribuídas a São Macário (Hom. 28:PG34,710-711) ), onde o peso da ofensa fica a fermentar e o amor pela vida como dom é incapaz de absolver o mal recebido: tudo fica amargo, tudo fica azedo e pesado. Dizia o padre Gaspar: «Uma pessoa velha amarga é, certamente, uma das supremas invenções do diabo» (Arlindo Magalhães, Padre Gaspar. A via do trabalho e da pobreza, Gráfica de Coimbra 1998, p. 255). 

Esta mesma lógica está presente no Evangelho, mas com acentos diferentes.

O texto do evangelho expõe a nossa tendência a ser calculista, contabilizando as ofensas e o limite do perdão. Nunca o texto descura o cuidado de a pessoa se proteger daqueles que lhe querem fazer mal – a lógica está na ofensa e na dádiva do perdão.

E o perdão, como fruto do amor, não rejeita a pessoa e é para aqui que Jesus nos aponta, lembrando a nossa dívida de amor para com Deus. A parábola coloca a imensidade da dívida do primeiro (10.000 talentos será algo como 150 a 300 toneladas de ouro!) e a grandiosidade do perdão recebido com a mesquinhez da incapacidade de perdoar algo muito menor (200 denários serão aproximadamente entre 60 a 300 euros). 

O texto expõe-nos diante da nossa fragilidade e por quanto fomos resgatados, isto é, o sangue de Cristo. Não se trata de não procurar a  justiça, mas sobretudo de perceber que a dignidade humana é sempre maior do que qualquer dívida. E de que a generosidade é sempre muito maior do que qualquer mesquinhez e cegueira.

Creio que a fé nos permite não ficar presos nas ofensas sofridas, mas nos deixa livres das ofensas que existam no passado para nos apontar a esperança de bens muitos maiores.  Assim, Cristo ensina-nos a perdoar pela esperança de bem do outro e também nossa, e nunca como forma onde a nossa dignidade seja esmagada. Ou seja, pela esperança, perdoar.

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