DOMINGO XXIV DO TEMPO COMUM
L 1 Sir 27, 33 – 28, 9; Sal 102 (103), 1-2. 3-4. 9-10. 11-12
L 2 Rom 14, 7-8
Ev Mt 18, 21-35
A revelação de Deus que acontece na bíblia aceita as contingências da história e é influenciada pelo contexto cultural de vários povos. Todavia a progressividade existe, como quem, pouco a pouco vai retirando o pó de um quadro para ver a pintura que lá estava tapada. Assim o vemos de como o de um Deus que apela ao anátema total e destruição da cultura estranha, depois se apela à lei de Talião - "olho por olho, dente por dente" - e que traduz uma primeira medida de contenção da vingança, que consistia em não causar maior dano do que aquele que é recebido.
A contínua revelação de Deus vai já no Antigo Testamento mais longe. Vemos isso nas leituras deste domingo. O livro de Ben-Sirá reflecte que todo aquele que quer ser perdoado tem de se exercitar na arte de perdoar. Todos somos nos sentimos a certa altura ofendidos, haja ou não intenção da outra parte. Mas a fé, entendida como aceitação do amor de Deus, gera o conhecimento de que o mal nunca será definitivo. O rancor - etimologicamente designa aquilo que está a apodrecer - é a negação disto e fecha todas as portas do coração. Mal vai a alma onde ninguém passa (cf. Das Homilias atribuídas a São Macário (Hom. 28:PG34,710-711) ), onde o peso da ofensa fica a fermentar e o amor pela vida como dom é incapaz de absolver o mal recebido: tudo fica amargo. Dizia o padre Gaspar: «Uma pessoa velha amarga é, certamente, uma das supremas invenções do diabo» (Arlindo Magalhães, Padre Gaspar. A via do trabalho e da pobreza, Gráfica de Coimbra 1998, p. 255).
Esta mesma lógica está presente no Evangelho, mas com acentos diferentes. O texto coloca a imensidade da dívida do primeiro (10.000 talentos será algo como 150 a 300 toneladas de ouro!) e a grandiosidade do perdão recebido com a mesquinhez da incapacidade de perdoar algo muito menor (200 denários serão aproximadamente entre 60 a 300 euros).
O texto expõe-nos diante da nossa fragilidade e por quanto fomos resgatados, isto é, o sangue de Cristo. Não se trata de não procurar a justiça, mas sobretudo perceber que a dignidade humana é sempre maior do que qualquer dívida. E a generosidade muito maior do que qualquer mesquinhez e cegueira. Creio que a fé nos permite não ficar presos nas ofensas sofridas, mas nos deixa livres das ofensas que existam no passado para nos apontar a esperança de bens muitos maiores. Ou seja, pela esperança, perdoar.

No comments:
Post a Comment