DOMINGO XXIII DO TEMPO COMUM
L 1 Ez 33, 7-9; Sal 94 (95), 1-2. 6-7. 8-9
L 2 Rom 13, 8-10
Ev Mt 18, 15-20
À vida cristã não há nada mais estranho do que o "salve-se quem puder" ou "cada um por si". De facto, professar a fé em Jesus Cristo é acreditar que Ele viveu para dar a vida, que morreu e ressuscitou para nossa salvação e que o seu amor me alcança a mim hoje também. Por isso, para Deus ninguém é indiferente, sendo o seu amor permanente.
É em resposta ao amor de Deus recebido que cada cristão é chamado a testemunhar a mesma forma de amar, consistindo nisto o centro da vida cristã. De facto, todos os restantes comportamentos a que a fé remete e pede são resposta a um dom recebido. Neste sentido sublinhava a Comissão Teológica Internacional que "a moral cristã, sem ser secundária, é segunda".
É neste contexto que me parece que podemos ouvir as leituras deste domingo que nos apresenta a Regra Fundamental da Comunidade Cristã. A correção cristã não parte por isso de um moralismo - muito embora, isto esteja presente nas nossas comunidades - mas da consciência de que todos somos responsáveis por todos. Por isso, a vida só ganha sentido quando é partilhada e vivida como relação real.
Todos sabemos que no jogo das relações, que para existirem têm de ser cultivadas e vividas na totalidade, acontecem expectativas, desejos, planos, frustrações e até porventura ofensas. A consciência do amor de Deus recebido, porém, traduz-se numa abertura à relação e à misericórdia que há-de se procurar e esforçar para o meu próximo seja meu irmão.
Por isso, a fé há-de se afirmar sempre ao outro: "não me és indiferente". Assim ouvíamos a Santo Agostinho: «Reconduzirei a desgarrada, procurarei a perdida. Quer queiras quer não, assim farei. E se, em minha busca, os espinhos dos bosques me rasgarem, eu me obrigarei a ir por todos os atalhos difíceis. Baterei todos os cercados; enquanto me der forças o Senhor que me ameaça, percorrerei tudo sem descanso. Reconduzirei a desgarrada, procurarei a perdida. Se não queres que eu sofra, não te desgarres, não te percas.» (Do Sermão sobre os pastores, de Santo Agostinho, bispo (Sermo 46,14-15)).
A conclusão deste caminho é evidente. A fé, sem excluir o dom único de cada um, é realidade que implica comunidade. Sempre. Porque só pode ser vivida em relação. E da consciência de que recebemos o amor de Deus e assim nos reunimos que surge a Igreja, na qual pedimos ao Pai o pão de cada dia para alimentar a missão que temos na vida.

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