Saturday, 21 November 2020

Amar a Deus é servir (Santa Joana)




DOMINGO XXXIV DO TEMPO COMUM

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO
SOLENIDADE

L 1 Ez 34, 11-12. 15-17; Sal 22 (23), 1-2a. 2b-3. 5-6
L 2 1 Cor 15, 20-26. 28
Ev Mt 25, 31-46 

Celebrar o reinado de Cristo é algo estranho nos nossos dias, tanto mais quanto uma certa percepção pública entende o poder como a capacidade de exercer opressão sobre os demais. Nada mais distante da compreensão bíblica do Rei na linguagem bíblica. O Rei em Israel era ungido por um profeta em nome de Deus, e por isso o seu poder era recebido para exercício do bem em favor dos seus concidadãos; a bíblia não esconde a infidelidade de muitos dos seus reis no cumprimento da vontade de Deus nem na opressão dos demais frágeis, o que tem em conta a fragilidade associada aos povos . 

A imagem do rei vem associada à do pastor desde de David; todavia, não raras vezes Deus se coloca como o pastor do Povo que procura as ovelhas para as sustentar, curar, alimentar e proteger, o que nos mostra que a soberania de Deus - e como tal a nossa - se traduz num serviço à humanidade de redenção e libertação de toda a opressão. Como tal, trata-se de diligência de caridade, de amor gratuito em favor dos demais. Daqui decorre que todo o poder que recebemos e detemos se orienta precisamente com o mesmo fim: diligente para o servir a humanidade amada por Deus. No Reino de Deus os mais frágeis têm sempre lugar, e todos somos a certa altura dos mais frágeis. 

A primeira carta aos Coríntios, no excerto que ouvimos hoje, coloca que o grande serviço de Cristo é a libertação da morte, é a vitória sobre o pecado, ou seja, daquilo que destrói a dignidade humana. Esta acção, que nos faz entrar na filiação divina, tem profundas implicações sociais, pois constitui os cristãos na missão de promover a construção de uma sociedade à imagem do plano de Deus. E claro, tem de começar pelo mais básico: pelo coração humano, curando a ferida de amor que nos habita para nos mostrar o caminho a percorrer. Só do coração que sabe que é o caminho do amor que se faz entregue é que pode emergir a gratuidade para construir um caminho novo.

São Paulo coloca mesmo que Cristo reinará sobre toda a «soberania (archēn=domínio, governo, princípio), autoridade (exousian=ek+ousia - "superioridade delegada sobre os outros") e poder (dynamin=poder, capacidade de agir) (1 Cor 15, 24). Assim, segundo São Paulo, a sociedade caminha para que Cristo seja o seu centro, e onde os cristãos têm a missão de anunciar a libertação realizada por Deus. Esta claramente não se faz pela força das armas nem da anarquia, mas concretiza-se em gestos de amor e de compromissos de vida. Tal como o amor é total na vida, também a decisão de entrega a vida. 

O evangelho coloca-nos diante de Jesus Cristo que governa e julga todas as nações. O sinal é evidente: trata-se de reconhecer que a boa nova de Cristo é para todos, e em todos a Palavra divina tem a capacidade de libertar o amor. A lógica de Deus é também conhecida, mas torna-se ainda mais acutilante: somos chamados a servir a todos, começando nos mais pequenos, nos mais pobres, nos excluídos. Como tal, o campo da nossa missão é imenso, pois não nos podemos ficar apenas pela pobreza da algibeira. 

A Igreja leu nestas sentenças de Jesus as obras de misericórdia corporais e daqui desenvolveu as espirituais*. Também hoje, o nosso testemunho assenta na caridade e na verdade: somos chamados a anunciar a soberania de Cristo, a qual é sempre amorosa e sempre marcada com o sinal da cruz. Não tenhamos medo de caminhar por este caminho de misericórdia. 

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*As 14 Obras da Misericórdia

Obras Corporais:
1ª Dar de comer a quem tem fome;
2ª Dar de beber a quem tem sede;
3ª Vestir os nús;
4ª Dar pousada aos peregrinos;
5ª Assistir aos enfermos;
6ª Visitar os presos;
7ª Enterrar os mortos.

Obras Espirituais:
1ª Dar bons conselhos;
2ª Ensinar os ignorantes
3ª Corrigir os que erram;
4ª Consolar os tristes;
5ª Perdoar as injúrias;
6ª Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo;
7ª Rogar a Deus por vivos e defuntos.

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