DOMINGO XXIX DO TEMPO COMUM
L 1 Is 45, 1. 4-6; Sl 95 (96), 1 e 3. 4-5. 7-8. 9-10a.c
L 2 1Ts 1, 1-5b
Ev Mt 22, 15-21
A liturgia deste Domingo coloca-nos diante de Deus, que é justo e espera a nossa justiça, a quem devemos prestar culto com os lábios e sobretudo com a nossa vida.
Esta consciência atravessa a primeira leitura, que relata o chamamento de Ciro, rei da Pérsia, justo e chamado por Deus para trazer de novo o povo hebreu à terra de Israel. Assim, Deus volta a cumprir a aliança que havia feito com este Povo.
Infelizmente o nosso coração é tantas vezes seduzido pelo mal e pelo poder, onde acaba por se instaurar a injustiça, a ganância e a inveja. É isto que este episódio do evangelho relata. Um maquinação de fariseus e herodianos, com vista a colocar Jesus perante um dilema sobre a questão da tributação romana. Dizer "sim" seria anuir com a invasão romana e desacredita-lo diante do povo; dizer "não" seria o pretexto para ser preso pelos romanos por sedição. Mas Jesus responde de maneira distinta e como sempre interpeladora para nós, ao confrontar com os interlocutores com a imagem presente no denário: "devolvei a César o que é de César e a Deus o que é de Deus".
Para além da evidente lição que podemos tirar de prudência e sabedoria para não nos deixarmos entrar em lógicas que nos aprisionam, Jesus abre-nos a porta a uma atitude fundamental: procurar devolver a nossa vida a Deus, na imagem que está impressa em nós desde a criação.
Neste contexto pode ser útil recordar o que Santo Agostinho (De Trinitate X) dizia ao se referir às potências da alma, a saber, memória, inteligência e vontade, como dimensões do nosso ser e reflexos da Trindade no ser humano. Assim, a memória faz-nos recordar a nossa origem da vida em Deus e como tal toda a nossa história lhe pertence, na qual a sua misericórdia está presente e que influi no hoje que somos; a inteligência diz respeito ao nosso presente, à forma como vemos o mundo e compreendemos o nosso lugar aqui e discernimos o nosso caminho; a vontade abre-nos para tornar concreta a nossa vida e o nosso mundo interior, onde podemos fazer emergir neste mundo o Reino de Deus, mediante a confiança da fé, a verdade ou fidelidade das nossas vidas, a justiça expressa nas atitudes do dia a dia e no culto prestado a Deus e por fim na adoração, expressão do nosso amor filial ao Pai.
É no amor, sempre sincero e reto, que a nossa vida é de facto, devolvida a Deus como tão bem rezava Santo Inácio de Loyola:
toda a minha liberdade,
a minha memória,
o meu entendimento
e toda a minha vontade,
tudo o que tenho e possuo;
Vós mo destes;
a Vós, Senhor, o restituo.
Tudo é vosso,
disponde de tudo,
à vossa inteira vontade.
Dai-me o vosso amor e graça,
que esta me basta.

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