Sunday, 24 December 2023

Um Deus feito homem como nós!

 


Homilia do dia de Natal 2023

 

Celebramos hoje o Mistério do Natal do Senhor, data central para nós, cristãos. Este dia é um dia de festa da revelação do amor de Deus, ao qual se nos acostumamos, corremos o risco de deixar de viver: Deus assume a nossa humanidade, entra na nossa existência, abaixa-se e faz-se frágil por nós, para nos convidar a viver em comunhão com Ele. Ele, o Deus do Princípio, o Deus do Poder e Força, torna-se para nós, Deus de proximidade e de confiança, envolvido em panos e cheio de fragilidade.

Na nossa humanidade, totalmente unida com a divindade em Jesus Cristo, Deus sente com o coração humano e quer ser para nós sinal de paz e de alegria, de que o verdadeiro poder da criação reside no amor. E assim vemos um Deus que se faz frágil e que se confia nas nossas mãos, apontando a sua vida como caminho de luz para nós. Deus sente com toda a inteireza do que somos, mas não se deixa cair no ressentimento que tantas vezes desfigura a nossa vida e levanta muros de relação, onde a paz e comunhão são arruinadas. Deus sente e chama-nos a termos em nós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus (cf. Fil 2, 5), como afirma São Paulo.

Hoje, é de cada um de nós que Ele se aproxima, na força da sua Palavra, capaz de nos curar e voltar a abrir um coração às vezes empedernido, ou por vezes mais frio, mas sempre capaz de amar, que cada um de nós pode encontrar força para tentar percorrer caminhos novos de paz, connosco e com os outros. O drama da humanidade é tantas vezes depositar mais a confiança nas trevas do que luz, mais em janelas fechadas do que em portas abertas, que nos impedem de voltar a redescobrir o valor da comunhão, da amizade e do perdão. E o sinal do Menino, nascido para nós e adorado pelos pastores, faz-nos intuir, como dizia o texto do evangelho de São João, que esta renovação acontece por “graça e verdade” e não pela imposição da Lei. Graça e verdade, isto é, fazer emergir em nós porventura o amor que possa estar mais escondido, deixando atuar em nós a força do Espírito Santo.

Por isso, o Natal é sempre ocasião de alegria, porque na base de tudo está a esperança de um Deus que se entregou totalmente por nós, aceitando ser um de nós. Ele que nos conhece totalmente, na nossa vida, chama-nos a viver em comunhão uns com os outros. Nele, que é a Verdade, somos todos os dias recriados no seu amor, a qual só pode operar em nós pelo nosso desejo e liberdade. Jesus mostra-nos que a misericórdia e a simplicidade de vida são caminhos que nos aproximam do essencial, da vida que todos queremos e desejamos viver.

Por isso, o Natal é uma sempre a celebração do poder de Deus que nos dá vida e nos convida a entrar numa atitude de adoração como os pastores, que são capazes de se alegrar com os anjos e cantar as maravilhas de Deus.

O presépio de Belém, neste ano que celebramos os 800 anos da recriação do nascimento de Jesus em Greccio por São Francisco de Assis, é o sinal de Deus simples e próximo que se entrega totalmente, onde o calor da ternura da Sagrada Família é mais forte do que o frio daqueles que não têm espaço acolher para o Senhor. Mesmo no meio das dificuldades, este sinal tão próprio desta altura, recorda-nos que Deus ao assumir totalmente a nossa vida, nos chama a ser inteiros em tudo o que fazemos, a nos entregar aquilo que amamos e que vem de Deus. E quanto mais inteiros formos, ainda que na simplicidade, mais a vida será vivida do essencial. E é sempre do essencial que toda a vida emerge e se constitui.

Termino partilhando convosco algumas palavras em jeito de oração:

 

Tu és o Deus que sente

mas que não se ressente

que frágil te aproximas de nós

e te confias nas nossas mãos.

 

Tu és o Deus da Palavra

em cujos silêncios ou partilhas 

há sempre revelação do teu amor

para nos erguer e abrir a nossa dor.

 

Tu és o Deus omnisciente

que nos conheces por inteiro

e que sabiamente nos formas

e sem nos manipular, és nosso oleiro.

 

Tu és o Deus omnipotente

que escancaras a porta à humanidade

e no calor sentido de vida que és

nos convidas a ser inteiros como tu

e nunca a viver apenas pela metade.

 

 

 

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