Homilia
do dia de Natal 2023
Celebramos hoje o Mistério do Natal do Senhor,
data central para nós, cristãos. Este dia é um dia de festa da revelação do
amor de Deus, ao qual se nos acostumamos, corremos o risco de deixar de viver:
Deus assume a nossa humanidade, entra na nossa existência, abaixa-se e faz-se
frágil por nós, para nos convidar a viver em comunhão com Ele. Ele, o Deus do Princípio,
o Deus do Poder e Força, torna-se para nós, Deus de proximidade e de confiança,
envolvido em panos e cheio de fragilidade.
Na nossa humanidade, totalmente unida com a
divindade em Jesus Cristo, Deus sente com o coração humano e quer ser para nós
sinal de paz e de alegria, de que o verdadeiro poder da criação reside no amor.
E assim vemos um Deus que se faz frágil e que se confia nas nossas mãos,
apontando a sua vida como caminho de luz para nós. Deus sente com toda a
inteireza do que somos, mas não se deixa cair no ressentimento que tantas vezes
desfigura a nossa vida e levanta muros de relação, onde a paz e comunhão são
arruinadas. Deus sente e chama-nos a termos em nós os mesmos sentimentos de
Cristo Jesus (cf. Fil 2, 5), como afirma São Paulo.
Hoje, é de cada um de nós que Ele se aproxima,
na força da sua Palavra, capaz de nos curar e voltar a abrir um coração às
vezes empedernido, ou por vezes mais frio, mas sempre capaz de amar, que cada
um de nós pode encontrar força para tentar percorrer caminhos novos de paz,
connosco e com os outros. O drama da humanidade é tantas vezes depositar mais a
confiança nas trevas do que luz, mais em janelas fechadas do que em portas
abertas, que nos impedem de voltar a redescobrir o valor da comunhão, da
amizade e do perdão. E o sinal do Menino, nascido para nós e adorado pelos
pastores, faz-nos intuir, como dizia o texto do evangelho de São João, que esta
renovação acontece por “graça e verdade” e não pela imposição da Lei. Graça e
verdade, isto é, fazer emergir em nós porventura o amor que possa estar mais
escondido, deixando atuar em nós a força do Espírito Santo.
Por isso, o Natal é sempre ocasião de alegria,
porque na base de tudo está a esperança de um Deus que se entregou totalmente
por nós, aceitando ser um de nós. Ele que nos conhece totalmente, na nossa
vida, chama-nos a viver em comunhão uns com os outros. Nele, que é a Verdade,
somos todos os dias recriados no seu amor, a qual só pode operar em nós pelo
nosso desejo e liberdade. Jesus mostra-nos que a misericórdia e a simplicidade
de vida são caminhos que nos aproximam do essencial, da vida que todos queremos
e desejamos viver.
Por isso, o Natal é uma sempre a celebração do
poder de Deus que nos dá vida e nos convida a entrar numa atitude de adoração
como os pastores, que são capazes de se alegrar com os anjos e cantar as
maravilhas de Deus.
O presépio de Belém, neste ano que celebramos
os 800 anos da recriação do nascimento de Jesus em Greccio por São Francisco de
Assis, é o sinal de Deus simples e próximo que se entrega totalmente, onde o
calor da ternura da Sagrada Família é mais forte do que o frio daqueles que não
têm espaço acolher para o Senhor. Mesmo no meio das dificuldades, este sinal
tão próprio desta altura, recorda-nos que Deus ao assumir totalmente a nossa
vida, nos chama a ser inteiros em tudo o que fazemos, a nos entregar aquilo que
amamos e que vem de Deus. E quanto mais inteiros formos, ainda que na
simplicidade, mais a vida será vivida do essencial. E é sempre do essencial que
toda a vida emerge e se constitui.
Termino partilhando convosco algumas palavras
em jeito de oração:
Tu és o Deus
que sente
mas que não
se ressente
que frágil
te aproximas de nós
e te confias
nas nossas mãos.
Tu és o Deus
da Palavra
em cujos
silêncios ou partilhas
há sempre
revelação do teu amor
para nos
erguer e abrir a nossa dor.
Tu és o Deus
omnisciente
que nos
conheces por inteiro
e que
sabiamente nos formas
e sem nos
manipular, és nosso oleiro.
Tu és o Deus
omnipotente
que
escancaras a porta à humanidade
e no calor
sentido de vida que és
nos convidas
a ser inteiros como tu
e nunca a
viver apenas pela metade.

No comments:
Post a Comment