DOMINGO V
DO TEMPO COMUM (Ano C)
L 1 Is 6, 1-2a. 3-8; Sl 137 (138), 1-2a. 2bc-3. 4-5. 7c-8
L 2 1Cor 15, 1-11 ou 1Cor 15, 3-8. 11
Ev Lc 5, 1-11
A liturgia deste domingo coloca-nos uma questão fundamental:
em quem ou em quê pomos a nossa confiança? Quais são os apoios da nossa vida?
A primeira leitura, do profeta Jeremias, apresenta-nos dois modelos
de confiança. Em primeiro lugar, a confiança apenas nas próprias forças, no
poder e na segurança humana, em oposição àqueles que confiam no Senhor, que
estendem as suas raízes para a fonte viva e dinâmica do amor de Deus. O
primeiro conduz à aridez, como o cardo no deserto, que não compreende quando
chega a felicidade, que não reconhece sequer a bondade da realidade em que
vive, que olha e apenas vê o que lhe falta. Esta imagem pode parecer distante,
mas não é: quantas vezes nos deixamos consumir pelas preocupações, pela
ansiedade de resolver tudo sozinhos, pela necessidade de controlar cada aspeto
da vida? E quantas vezes, ao fazermos isso, nos fechamos à presença de Deus e
ao bem que já existe à nossa volta?
Em oposição, estão os que confiam no Senhor, que, diante das
dificuldades, não se inquietam e, mesmo no meio dos desafios, não deixam de
produzir bons frutos, de realizar boas obras e de se orientar para o amor.
Estes são aqueles que, apesar das provações, sabem que Deus não os abandona.
Pensemos em pessoas que conhecemos e que, mesmo passando por dificuldades,
mantêm a paz, a generosidade e a esperança. De onde vem essa força? Vem da
confiança de que Deus está presente e age, mesmo quando não O vemos claramente.
O Evangelho segundo Lucas,
nesta versão das bem-aventuranças, apresenta-nos quatro oposições:
pobreza-riqueza, fome-saciedade, choro-riso, críticas-elogio. Notemos que Jesus
não condena a riqueza, mas aponta para o verdadeiro sentido de uma vida sábia e
bem vivida. Ele não nos diz que ter bens é errado, mas alerta-nos para o perigo
de nos fecharmos sobre nós mesmos, de colocarmos a nossa segurança apenas no
que acumulamos, esquecendo-nos de que a vida é um caminho de amor, vivo e
dinâmico.
Vemos isso na nossa sociedade: a busca incessante pelo
sucesso, pelo conforto e pelo reconhecimento pode levar-nos a esquecer o
essencial. O que realmente nos faz felizes? O que dá sentido à nossa vida?
Jesus convida-nos a olhar para além das aparências e a perceber que a
verdadeira alegria está no dom de si mesmo, no amor partilhado, na generosidade
que não calcula o retorno. Assim, as palavras de Jesus desinstalam-nos do nosso
mundo fechado e abrem-nos os olhos para sair e arriscar, para viver sem medo de
perder, porque quem confia em Deus descobre que dar é, afinal, o caminho para
receber.
No fundo, a nossa confiança assenta em Deus e, mais
concretamente, em Cristo morto e ressuscitado, como fundamento seguro que nos
dá a certeza de que a nossa vida, quando dada e entregue à maneira de Cristo —
que veio para servir e dar a vida —, é capaz de gerar alegria e louvor, fruto
de quem se envolve no amor.
Do ponto de vista comunitário, estas leituras ajudam-nos, em
primeiro lugar, a colocar no centro das nossas forças a confiança na graça de
Deus, no seu amor que nos acompanha, procurando ver as maravilhas que Ele
continuamente realiza na criação em que vivemos. Mas também nos ajudam a
compreender que o amor precisa de ser partilhado para não se perder, que o
outro nunca nos pode ser indiferente e que o serviço que prestamos e o dom que
fazemos de nós mesmos se multiplicam para o bem de todos. Isto toca todas as
dimensões da nossa vida comunitária, seja na evangelização, no serviço aos mais
pobres ou no cuidado da liturgia.
Que façamos como Santa
Joana, que nos ensinava que "amar a Deus é servir".

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